A poesia épica nasce seguramente tendo como pano de fundo os relatos míticos tradicionais acerca das divindades e dos poderes sobrenaturais que habitam o mundo e o dominam. Anónimos, difusos, repetidos e aprendidos de geração em geração, esses relatos – uma espécie de vasto catálogo do imaginário religioso – constituem todo o saber social acerca dos deuses, imediatamente credível e persuasor, não questionável, precisamente devido ao seu anonimato, à sua difusão no tempo e no espaço, à antiguidade imemorável das suas origens. Todavia, e devido a essas mesmas características, o politeísmo que emerge da massa emaranhada dos relatos míticos é caótico, confuso, desprovido de uma forma imediatamente compreensível e controlável. A intervenção da poesia épica – principalmente, a Ilíada, embora não faltem provavelmente antecedentes micénicos – é acima de tudo uma operação de selecção e de ordenamento, imprimindo uma forma orgânica e visível à esfera do divino, que passa a ficar indelevelmente marcada. Portanto, o politeísmo, antropomórfico e ordenado segundo relações funcionais e de poder muito precisas, da Ilíada é o sinal de uma extraordinária revolução intelectual, que dá à religião grega a sua forma histórica. Contudo, a poesia épica conserva, e até reforça com eficácia da grande literatura, o carácter fundamental dos relatos míticos, quer dizer, continua a ser a narração dos factos e das proezas dos deuses, indicando os locais onde ocorreram, definindo os seus protagonistas como indivíduos dotados de nome, personalidade e caracteres específicos: personagens narrativas, portanto, e não abstracções conceptuais ou metafísicas nem figuras totêmicas. [...] O gesto fundador da poesia épica, o seu olhar configurador do universo da divindade como narração antropomórfica, está associado à cultura da aristocracia grega empenhada na colonização da Ásia Menor. Na poesia épica, essa aristocracia exalta-se a si mesma, as suas origens e os seus heróis, e ao mesmo tempo dá forma, projectivamente, às suas divindades: os seus deuses não derivam propriamente, como escreve Snell, do culto ou dos ensinamentos dos sacerdotes; <<são criados pelo canto, juntamente com os heróis>>. A dimensão projectiva da formação de um universo divino na poesia épica, no mesmo contexto do dos heróis aristocráticos, define as suas características de tipos. Os deuses são representados como heróis cuja excelência (aretè) máxima é devida à beleza, à inteligência, à força, à perpetuidade desses dotes, à imortalidade: como é natural, esta implica também, e desde logo, uma transcendência da condição humana, um limiar intransponível que separa os deuses dos heróis mais do que estes o estão, pela sua excelência, do resto dos homens. Esse limiar é imposto pelo carácter projectivo que rege o imaginário poético criador das divindades homéricas: tende, porém, a ser constantemente transposto devido ao próprio acto intelectual que o gerou. O acto que configura o universo divino permanece <<artístico>>, portanto, em certa medida, <<artificial>>; a sua origem estetizante e tranquilizadora estabelece uma relação especular entre a natureza mortal do herói aristocrático e a natureza imortal dos seus deuses. O limiar é transposto em primeiro lugar na genealogia, que garante aos heróis uma descendência e um parentesco divinos graças à frequente união dos deuses e das deusas como os mortais, de que provêm as famílias da aristocracia grega. Há pois vínculos constantes entre os deuses e os homens, com quem aqueles convivem assiduamente, ligados como estão por laços de parentesco, de afecto ou de aversão, e, quanto mais não seja, pela própria necessidade de exigir constantemente as honras que lhe são devidas enquanto senhores de um poder desmedido. Daí derivam os cruzamentos e as sobreposições constantes entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens que são uma característica saliente da Ilíada e, depois dela, do imaginário religioso dos Gregos. E é também daí que deriva o hábito do contacto com os deuses, uma familiaridade com a sua presença, atribuindo-lhes relações propriamente humanas: os deuses podem ferir os heróis e ser feridos por eles no campo de batalha, sentem amor, ciúme, inveja e são dominados por qualquer outra paixão própria dos homens. Tudo isto faz com que os deuses, embora sejam temidos pelo seu enorme poder, possam ser também vistos com a ironia e por vezes com o sarcasmo que recaem sobre as fraquezas dos homens; por isso, a Ilíada, que é o poema fundador de um universo religioso, também pode ser definido, paradoxalmente mas com alguma razão, como <<o mais irreligioso de todos os poemas>> (P. Mazon) (VEGETTI in VERNANT, 1993, p. 237-238, passim).
Nos tempos homéricos, podemos assinalar também uma evolução religiosa: as divindades da religião antiga, distantes e misteriosas, humanizam-se, tornam-se conhecidas. Os heróis das epopéias possuem noções claras sobre a natureza, o parentesco e o temperamento dos deuses que aparecem revestidos de formas humanas com virtudes e defeitos numa mitologia límpida que é a <<parte mais original, a mais verdadeiramente grega da religião nacional>> (GIORDANI, s/d, v. I, p. 110).