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Na Guiné e em Moçambique, segundo a investigadora Cabrita Mateus, não seria elevado o moral das tropas portuguesas para o combate. Tal situação estaria ligada à difícil situação militar. “Com efeito, na Guiné, a luta de guerrilha entrara na sua quinta e última fase, a da insurreição geral, com métodos de guerra próprios das forças convencionais e com a vitória próxima” (Mateus 2004: 341). Em Moçambique o combate estava numa fase a caminho de uma situação próxima da que se vivia no teatro da Guiné, caso não houvesse alterações estratégicas. Em Angola o enfraquecimento dos movimentos, fruto de divisões internas e de luta entre si próprios, conjugado com alguma habilidade político-militar, como no Leste, por parte das forças portuguesas, mantinha a luta em estado contido, excepto em Cabinda. Tudo poderia mudar, por força das condições internacionais facilitadoras e do estado de consciência de algumas classes de angolanos (cf. Mateus 2004: 418).

6.6.2. Das vulnerabilidades da organização

i. É facto que a indisciplina, nas unidades militares, foi detectada anos antes de mil novecentos e setenta. Quem o afirma é o Marechal Costa Gomes, em entrevista dada a Amaro Bernardo, e ela ficava a dever-se, segundo o entrevistado,

…à repulsa pela guerra colonial, que começou a acentuar-se a partir de 1967; à falta de

enquadramento de Oficiais e Sargentos do QP das Unidades que se constituíam; à propaganda política feita, nas universidades, escolas e locais de trabalho, contra a guerra colonial, afectando principalmente os Oficiais e Sargentos do QC (Bernardo 2004: 676).

A constatação da fraca preparação das tropas, e o seu baixo rendimento operacional, começa a ser verificada e escrita antes do início da formação dos Capitães do Fim: “Preparação militar deficiente e não adaptada ao ambiente em que se faz a guerra”54

.

Na nota de 1 de Maio de 1969, de António de Spínola, transcrita por Luís Marinho no livro Operação mar verde um documento para a história, refere-se a necessidade da realização da IAO na Província, para elevar o muito precário rendimento operacional das forças combatentes, encarando, com realismo e objectividade, as graves deficiências da instrução dos Comandos e das unidades. A referida nota acentua também a urgência da revisão dos esquemas de instrução, em vigor para as Forças Terrestres, na certeza de que se assim não se proceder nenhuma utilidade terão as dotações de novos tipos de armamento e equipamento e a reorganização das unidades- base de combate (cf. Marinho 2005: 221-226).

ii. O que foi descrito pelo Cap. 100, em Memória Futura (PXII) do QC, são situações que bem se enquadram nas preocupações acima enunciadas. A primeira diz respeito ao IAO – apresenta uma perspectiva bem negativa de como se formava uma Companhia para enfrentar a guerra:

Oficialmente, a minha Companhia não recebeu qualquer IAO. Pronta para embarcar, no final de 73, viu a sua partida adiada (não sei porquê) e seguiu para Portalegre, por quase 3 meses. Em Portalegre, o quartel encontrava-se praticamente desactivado, há vários anos. Encontrámos um ambiente social inesperado e excepcional, de acolhimento generoso e agradável. A partida final das camionetas, para o aeroporto de Lisboa, às 6 da manhã, com as «meninas» a dizerem adeus, foi um episódio memorável. Calhou que, por sorte, acabara de chegar a esse quartel um Tenente, que fizera a comissão em Moçambique (miliciano que «metera o chico»). A sua ajuda desinteressada foi para nós decisiva. Só por ele viemos a conhecer e a treinar as técnicas de desminagem e toda a prática de abertura de itinerários, que nos foi extremamente útil.

A segunda diz respeito ao local de combate. Sujeitos a uma displicente formação, são enviados para o coração da guerra – Mueda, em Moçambique:

54 Relatório de Acção Psicológica n.º 14, do EME, período de 1 de Julho a 31 de Dezembro de 1969 (p

Chegados a Mueda, verificámos que nos cabia substituir uma Companhia que fizera uns 27 meses de comissão, sem sair daquele local. Dos 27, três meses ficaram a dever-se ao atraso de embarque da nossa Companhia. Tinham vivido a ocorrência de muitas baixas e várias substituições de Comandantes de Companhia (chegaram a estar comandados por um Furriel). O estado anímico e disciplinar em que estavam, não permitiu qualquer período de substituição. Valeu a disponibilidade de um Alferes (antes gravemente ferido em combate), que promoveu alguma instrução operacional.

O Capitão termina pondo a nu a crueza de uma formação militar deficiente e desactualizada:

O que mais relembro e comento, não conseguindo encontrar uma explicação para ele, é a perplexidade por, em 72, ao fim de tantos anos de guerra, ser tão deficiente a instrução e o aproveitamento da experiência de quantos já por lá tinham passado. E, mesmo na frente, fui encontrar situações inexplicáveis, de falta de sentido táctico e organizativo. Como são questões, que me parece deveriam competir aos militares do Q P, tenho a convicção de que a não adaptação à guerra que se combatia, da Academia Militar e de outras instituições de formação, terá sido muito grave. E só a excepcional capacidade do português de então, de viver com pouco e aprender depressa, permitiu manter, tantos anos, a integridade do território.

Ainda as palavras do Cap. 10 escritas em Memória Futura:

A minha Companhia era formada com rapazes vindos de todo o país, uns ainda muito brutos, nunca tendo visto o mar. Era por vezes difícil pô-los a marchar com coordenação entre braços e pernas, fazer com que adquirissem hábitos higiénicos, dar-lhes uma postura garbosa, etc.. Brutos e parolos! Éramos todos inexperientes nas lides militares, com excepção dos dois Sargentos que tinham feito mais do que uma comissão no ultramar Eu era «Capitão-proveta» e os meus Alferes também pois eram do curso de furriéis nas Caldas da Rainha. Fomos para a Guiné e desta forma não se podia ganhar a guerra.

iii. Apesar da importância de tudo anteriormente apresentado, David Martelo está convicto que a tipologia de luta constituiu-se, porventura, como o aspecto mais desgastante e deprimente de toda a guerra. A repetição era o vulgo do dia-a-dia. E por isso, a guerrilha tinha de possuir, quase em exclusividade, a “iniciativa e a surpresa”. A “grande parte dos mortos em combate das forças portuguesas, o que era fortemente debilitante, verificava-se nos primeiros instantes do início de fogo ou pelo desmoralizante rebentamento de minas e armadilhas” (Martelo 2001: 37).

No respeitante aos meios de combate, “as Forças Armadas portuguesas jamais conseguiram atingir níveis de qualidade e quantidade próprios para a época em que o conflito decorreu” (Martelo 2001: 37).

Mas o mais preponderante aconteceu. O Exército combatente começou a perder estrutura e organização. O Capitão, Comandante da Companhia, na fase final da guerra, ainda era considerado pelos soldados como um par, na medida em que vivia com eles e participava nos riscos, no isolamento que corrói o corpo e a mente, e nas incomodidades muitas vezes humilhantes. De Major para cima, na Generalidade dos casos, não se

estabelecia qualquer tipo de envolvimento emocional. Tudo o resto veio por acréscimo (cf. Martelo 2001: 39-40).

O Cap. 60, em Memória Futura, corrobora essa análise de David Martelo e endurece-a:

A minha relação com o Comandante e segundo Comandante foi sempre muito má, dado que ambos estavam mais interessados na sua promoção pessoal. O Comandante do Batalhão, apesar de ser a sua terceira comissão, nunca tinha sido operacional. A primeira fê-la como oficial de manutenção/fornecimentos. A segunda como segundo Comandante e a terceira como Comandante. A sua preocupação era obter louvores que lhe permitissem progredir na sua carreira militar. Para ele, as Companhias operacionais eram um bando armado, sem disciplina e onde as regras militares eram desobedecidas.

O Exército combatente partiu por aqui. 6.6.3. Da guerra: ideias resumo

A guerra, no período em análise, teve complexidade crescente na Guiné e em Moçambique. Em Angola foi-se criando a estabilidade, solucionando a guerra no Leste da Província, onde a instabilidade alimentava receios fundados. Na parte Norte do enclave de Cabinda, o MPLA permanecia activo e fustigava as tropas portuguesas. Os

Capitães do Fim estiveram presentes nos cenários de guerra mais complexos, em número muito significativo e participaram em acções de resolução difícil.

A guerra, “expressão radical das violências” (Pureza e Moura 2005: 49), foi sentida e vivida pelos Capitães do Fim. Estava-se na sua parte terminal, onde se patenteava o revés do forte perante o fraco e da força em relação à paciência. O material mais mortífero era pertença do inimigo. O Exército de combate, a que pertenciam, começou a perder estrutura e organização.

Habitaram em locais paradigmáticos da guerra: perigosos, isolados e longínquos55.

Benzer Belgeler