Hoje, sabe-se que quase 80% da população latino-americana vive nas cidades, uma proporção inclusive maior que em países considerados desenvolvidos (ONU-HABITAT, 2012). No Brasil, segundo dados mais atuais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 84% da população brasileira vivem em áreas urbanas (IBGE, 2010). Já para o estado de São Paulo, onde está inserida a UC analisada nesta pesquisa, os dados do IBGE indicam que aproximadamente 95% da população habitam tais regiões. Isso implica em alterações no nosso modo de vida, principalmente na nossa relação com a natureza, com os outros seres e coisas, que tem se demonstrado em um distanciamento entre nós e eles. Para algumas/alguns autoras/es, a preocupação com questões ambientais está diretamente relacionada com o contato que uma pessoa tem com a natureza em seu dia-a-dia (ROHDE; KENDLE, 1994), o que implica no impacto que ambientes urbanos possuem para despertar determinada percepção quanto à natureza, representando a necessidade da inserção de elementos naturais nas áreas urbanas (SAVARD; CLERGEAU; MENNECHEZ, 2000). Além disso, estar nas cidades tem se pautado por modos de vida pouco sustentáveis, principalmente quando levamos em consideração os problemas decorrentes das altas taxas de poluição, o grande estresse, entre outros, que muitas cidades no Brasil e no mundo apresentam. A inserção de áreas verdes nas cidades é uma estratégia conhecida por ter um papel importante para amenizar tais situações.
O conceito de áreas verdes, no entanto, é ainda bastante discutido. Uma possível classificação, baseada na ideia de que áreas verdes estão inseridas dentro da categoria de espaços livres, ou seja, aqueles que apresentam em sua grande parte bens naturais ou são o local onde estes se inserem (SPITZER, 19915 apud LIMA et al., 1994), é que estas são áreas onde há maior presença de vegetação do tipo arbórea, podendo ser categorizadas em parques urbanos, praças, jardins públicos (LIMA et al., 1994). Os parques urbanos tem principalmente função ecológica, mas também estética e lazer, em geral, são mais extensos que as outras categorias; as praças quando são áreas verdes, ou seja, não são impermeabilizadas e possuem vegetação, tem função de lazer; os jardins públicos são áreas impermeabilizadas, mas com vegetação (LIMA et al, 1994).
Em geral podemos considerar que as áreas verdes cumprem três principais funções: ecológica, estética e de lazer (CAVALHEIRO et al., 1999). Costa (2011) traz um compilado das principais razões para a relevância de parques em meio urbano, são elas: o aumento do contato do ser humano com a natureza, permitindo resgate de valores e EA; trazer saúde à população, pois permite espaço para realização de exercícios e para relaxamento ou lazer; melhora na estética das cidades, proporcionando valorização das propriedades urbanas; e a influência na dinâmica bioclimática, pois auxilia na preservação dos recursos vegetais, proteção do solo, e garante um microclima adequado. Dessa forma, Loboda e De Angelis (2005) indicam que as áreas verdes públicas têm grande importância nas cidades de forma a trazer bem-estar à população, principalmente, pois afetam positivamente na saúde física e mental dessas pessoas. Ainda, é importante ressaltar outra função histórica relevante das áreas verdes em ambientes urbanos, a de contenção do crescimento urbano, que por sua vez, pode ser responsável por afetar negativamente a preservação das áreas verdes (GARCÍA; GUERRERO, 2006).
Apesar dessas importantes funções das áreas verdes, levando em consideração a conservação da biodiversidade urbana em geral, Dearborn e Kark (2010) indicam que ainda há certa dificuldade em se definir e atrelar valor para a biodiversidade neste contexto. Por conta disso, os autores indicam sete razões para a conservação da biodiversidade em ambientes urbanos, desde a mais voltada ao ser humano até aquelas com maiores benefícios para a natureza, são elas: a melhoria do bem-estar do ser humano, beneficiando principalmente nossa saúde; o cumprimento de responsabilidades éticas para com o meio ambiente; o fornecimento de serviços ambientais; a conexão das pessoas com a natureza e a realização da EA; a compreensão e a busca de maneiras para facilitar as respostas das espécies quanto às mudanças climáticas; a criação de corredores para as espécies; e por fim, a preservação da biodiversidade local em um ambiente urbano e a proteção de populações importantes e espécies raras.
Dessa forma, temos os benefícios e importantes funções que as áreas verdes podem cumprir nas áreas urbanas. Considerando que as UCs também são um tipo de área verde, podemos deduzir, igualmente, sua grande importância.
A relação entre as cidades, sua população e as UCs localizadas nessas áreas, pode tomar diversas facetas. As populações urbanas, segundo Porfírio et al. (2006), são um grupo bastante heterogêneo com visões e necessidades bastante diferenciadas para com as UCs, utilizando-as de diferentes formas, principalmente para recreação, EA, desenvolvimento sociocultural e ecoturismo, e não para o uso direto dos recursos desses locais, como é mais
comum em localidades mais rurais. Mazzei, Colesanti e Santos (2007) indicam a importância que UCs urbanas têm para o lazer, uma vez que são poucos os locais para recreação e também com finalidades ecológicas nas cidades, mas destacam que essa deve ser uma atividade devidamente planejada para que não comprometa o objetivo de conservação que estas UCs também apresentam.
Em função dos objetivos e funções que caracterizam as áreas urbanizadas e as áreas destinadas à conservação, a relação entre as populações e as UCs urbanas pode ser bastante conflituosa. Estes locais são impactados por atividades humanas tanto em seu interior quanto em seu entorno (MAZZEI; COLESANTI; SANTOS, 2007). Alguns exemplos de impactos antrópicos observados em muitos casos são incêndios, tráfico de animais silvestres, furtos, vandalismo, destruição de bens públicos, presença de animais domésticos e depósito inadequado de resíduos (SOUZA, 2011).
No Parque Estadual do Utinga, em Belém (PA), por exemplo, há entrada irregular de visitantes na UC, principalmente com o intuito de caçar, consumir drogas ou instalar pequenos empreendimentos (MENEZES et al., 2013). Outro exemplo, desta vez no município de São Paulo e arredores, é o Parque Estadual da Cantareira que sofre com o avanço das cidades, com parte de suas áreas sendo ocupadas ilegalmente para habitação de população com baixa renda, como também, recebendo incentivos para a instalação de condomínios residenciais para população de maior renda (MELLO-THÉRY; LANDY; ZERÁH, 2010). Segundo Souza (2011), no Brasil os maiores problemas enfrentados por UCs em áreas urbanas estão nos seus objetivos, determinados pela legislação, que desconsideram as populações urbanas e o valor da área como patrimônio para estas pessoas, priorizando apenas a preservação da natureza. Problemas desta natureza poderiam ser minimizados com a participação da população em momentos de tomadas de decisão, desde a criação à gestão das UCs.
Em contrapartida, outros autores têm uma visão mais positiva quanto a essa relação. Para McNeely (2001), a presença de UCs em ambientes urbanos é encarada como algo interessante, principalmente pelo fato de serem bastante acessíveis pela população, o que pode ser essencial para conseguir apoio público a esses locais. O potencial para atingir as populações de forma a ampliar o reconhecimento da importância da conservação também é ressaltado por Menezes e Mendes (2001). Os autores fazem uma comparação entre UCs urbanas em países desenvolvidos e em países em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, UCs urbanas têm menor prioridade no recebimento de recursos financeiros, pois são consideradas de menor importância sob um ponto de vista conservacionista, uma vez que são
áreas fragmentadas e que constantemente sofrem pressões antrópicas. Por outro lado, em países em desenvolvimento, de acordo com os autores, as UCs urbanas têm a missão mais importante dentre todas as outras áreas protegidas, uma vez que as visitações, mesmo exarcebadas, devem ser encaradas como oportunidade única para alcançar um grande número de pessoas em prol da conservação. É necessário salientar que embora consideremos bastante importante a visitação às UCs para, a partir de processos educativos, sejam passadas mensagens em prol da conservação, discordamos dos autores acima citados quando tratam da visitação exarcebada. As UCs além de serem locais para visitação têm como principal objetivo a conservação da biodiversidade, desta maneira, a visitação não deve ser priorizada em detrimento da conservação, ela deve acontecer de modo a estar conjugada à conservação.
As UCs em ambientes urbanos podem desempenhar papéis de suma importância na conservação da biodiversidade. Tendo isto em vista, em 2012 foi criada no Brasil a Rede Nacional de Unidades de Conservação Urbanas (Renurb). O seu objetivo é integrar os principais grupos com envolvimento com essas áreas como gestoras/es de diferentes esferas das UCs (federal, estadual, municipal), educadoras/es ambientais, especialistas em planejamento urbano, planos de manejo, comunicadoras/es, entre outros, de forma a intensificar a troca de experiências e melhorar o contato com a população (ICMBIO, 2012). Esta é uma ação que pode fortalecer cada vez mais as UCs urbanas, garantindo que estas atinjam seus objetivos e atendam às populações que estão em contato com estes locais, possibilitando assim a conservação da biodiversidade.