Segundo LUÍS ROBERTO BARROSO59,os princípios constitucionais do Estado brasileiro
devem ser vistos sob três ordens: a) os princípios fundamentais – representam as decisões políticas basilares do legislador constituinte, dentre os quais destacam-se: o republicano, o federativo e o Estado Democrático de Direito (artigo 1°, caput, da Constituição) e o da separação de poderes (artigo 2°); b) os princípios gerais – não estruturam o Estado, mas impõem regras que limitam os Poderes em face dos indivíduos, tais como: legalidade, isonomia, liberdade, acesso ao Poder Judiciário, juiz natural e devido processo legal, todos constantes do artigo 5° da Carta de 1988; e c) os princípios setoriais ou especiais – informam determinados setores do Estado, como os que regem toda a Administração Pública: princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (artigo 37, caput).
54 GUERRA FILHO. Processo Constitucional (...), 2003, p. 52-53. 55 Idem, p. 54.
56 Idem, p. 56. 57 Idem, p. 57. 58 Idem, p. 58.
A interpretação da constituição não segue as mesmas regras hermenêuticas dos demais ramos do direito, pois na “hierarquia das normas jurídicas, a norma constitucional situa-se no ponto mais alto da pirâmide, não sendo encimada por nenhuma outra”. A norma constitucional, neste diapasão, é “autolegitimante”, coloca-se no vértice superior da pirâmide normativa, donde irradia legitimação para todo o sistema jurídico. Noutras palavras: a “Constituição indica, ao menos genericamente, qual o conteúdo da norma infraconstitucional”.60
A interpretação do texto constitucional, portanto, é sui generis, porque se trata de um “corpo inicial de regras”, que serve de “vetor para todo o sistema infraconstitucional”, tanto de sua elaboração, quanto de sua interpretação. Por todo o até agora exposto, já se pode sentir a necessidade de uma hermenêutica constitucional diferenciada em relação à tradicional, o que requer o uso dos seguintes princípios de interpretação da Constituição:61
a) Princípio da supremacia da Constituição – a legislação infraconstitucional deve conformar-se à Lei Maior, no aspecto formal (forma de criação) e no material (compatibilidade com o texto constitucional).62
b) Princípio da unidade da Constituição – determina que seja observada a interdependência das normas constitucionais num sistema integrado, onde cada uma “encontra sua justificativa nos valores mais gerais, expressos em outras normas, e assim sucessivamente, até chegarmos ao mais alto desses valores, expresso na decisão fundamental do constituinte”, qual seja: a fórmula política do Estado Democrático de Direito. Deste modo, qualquer exegese constitucional deve ser feita à luz dessa ideologia que alicerça a Constituição da República de 1988 e pré-orienta toda hermenêutica do texto constitucional.63 Assim, o hermeneuta deve analisar a norma constitucional como parte de um todo sistematizado, a fim de interpretá-la e delimitar seu alcance.64
c) Princípio da máxima efetividade ou da eficiência – determina que se atribua à norma constitucional a interpretação que lhe possibilite a maior eficácia de seu mandamento.65 Assim, por exemplo, na interpretação constitucional que envolver um direito fundamental e um direito constitucional não fundamental, deve-se atribuir a maior efetividade possível ao primeiro, sem, contudo, suprimir o segundo, ou seja, harmonizando-os.66
60 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 62.
61 GUERRA FILHO. Processo Constitucional (...), p.58-59. 62 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 63.
63 GUERRA FILHO. Processo Constitucional (...), p. 59. 64 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 63.
65 GUERRA FILHO. Processo Constitucional (...), p. 60. 66 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 63-64.
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d) Princípio da cedência recíproca – também chamado de “Princípio da concordância prática ou da harmonização”, determina que seja buscado, ao máximo, a harmonização entre bens e valores jurídicos conflitantes no caso concreto sob exame em face da Constituição, fazendo-se uso do princípio da proporcionalidade, inerente e essencial ao Estado Democrático de Direito, o qual conclama o “respeito simultâneo dos interesses individuais, coletivos e públicos”.67 Outrossim, tem-se que entre direitos de igual índole constitucional, tal qual no item anterior, deve-se procurar harmonizá-los, sem que a aplicação de um implique na supressão do outro.68
e) Princípio da autenticidade de significado – deve-se buscar o real sentido do texto constitucional, devendo-se interpretar a Constituição no sentido mais “coloquial” possível, por que se trata de instrumento dirigido ao povo.69
f) Princípio da presunção de constitucionalidade – deve-se presumir que toda norma é constitucional, salvo inconstitucionalidade gritante, até que o órgão competente reconheça-a como tal, ou seja, não conforme a Lei Magna.70
g) Princípio da razoabilidade – a exegese não pode levar o intérprete do texto a uma posição absurda destoante da realidade.71 Segundo BARROSO, o princípio em tela “é um
parâmetro de valoração dos atos do Poder Público para aferir se eles estão informados pelo valor superior inerente a todo ordenamento jurídico: a justiça”. E, mais adiante, aduz: “É
razoável o que seja conforme à razão, supondo equilíbrio, moderação e harmonia; o que não seja arbitrário ou caprichoso; o que corresponda ao senso comum, aos valores vigentes em dado momento ou lugar”.72
h) Princípio da proporcionalidade – decorrente do princípio da razoabilidade, pode-se afirmar que, segundo o mesmo, o “intérprete deve colocar-se a favor do menor sacrifício do cidadão na hora de escolher os diversos significados da norma”. No dizer de ARAÚJO e NUNES
JÚNIOR:“Constitui medida de adequação dos meios aos fins perseguidos pela norma, sendo
que esta deve ser aplicada em sua ‘justa medida’”.73
i) Princípio da força normativa da Constituição – as normas constitucionais devem ser atualizadas em face da constante evolução social, a fim de garantir-se sua eficácia e
67 GUERRA FILHO. Processo Constitucional (...), 2003, p. 61-62. 68 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 64.
69 Idem, ibidem. 70 Idem, p. 64-65. 71 Idem, p. 65.
72 BARROSO, Interpretação (...), 1996, p. 204-205. 73 ARAÚJO; NUNES JÚNIOR, 2001, p. 65.
perpetuidade.74
j) Princípio da conformidade funcional – é aquele “que estabelece a estrita observância, do intérprete constitucional, da repartição de funções entre os poderes estatais, prevista constitucionalmente”.75
l) Princípio da interpretação conforme a Constituição – como já exposto supra, afasta interpretações contrárias ao real sentido das normas constitucionais, “ainda que favoreça o cumprimento de outras delas”. Estabelece, portanto, limites à interpretação constitucional para que não resulte “numa interpretação contra legem”.76