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4.10 – SaveIlgılıUrun

Patriarcalismo em uma definição ampla, “significa não só a manifestação, mas também a institucionalização do domínio do homem sobre a mulher na vida social” (MORAES, 2002, p. 21). Nesse sentido, o homem domina todo o campo social e as mulheres são anuladas desse poder. O que não significa, ressalta a autora, afirmar que a mulher é totalmente frágil ou sem nenhuma influência na sociedade. Entretanto, é necessário reconhecer que os atuais avanços femininos em várias esferas sociais se devem, em grande parte, às lutas feministas8, apesar dos entraves gerados pelo grupo masculino.

Segundo Moraes (2002), a sociedade patriarcal foi criada, praticamente, desde os primórdios da existência humana. A família é a unidade básica de organização do patriarcado, portanto, gera suas normas e valores. Nesse contexto, a sexualidade da mulher se restringe à sua capacidade e serviços de reprodutora. A autora esclarece, ainda, que na era Neolítica havia troca de mulheres, como se fossem mercadorias, aliada à idéia de que em uma sociedade, quanto maior o número de mulheres mais crianças se poderia produzir.

Nas sociedades tribais mais remotas, as mulheres e as crianças produzidas e criadas por elas serviam como força de trabalho para a exploração, produção e lucro. Nas sociedades da mesopotâmia, as filhas de famílias pobres eram vendidas para o casamento ou para prostituição, a fim de garantir a situação econômica da família. Assim, “historicamente a mulher é vista como objeto, vendida como noiva, como escrava ou produtora de crianças e também propriedade exclusiva do homem” (Op. cit, 22).

8 O termo “feminista” foi utilizado, pela primeira vez, na Inglaterra, no século XIX, para descrever as mulheres que lutavam pelo direito de votar (MORAES, 2002, p. 21).

Vale salientar que, nas classes mais abastadas, até fins do século XIX, uma mulher ao se casar, suas propriedades eram transferidas para o nome do marido; não podia ter nada em seu nome e, se trabalhava, era obrigada a dar o salário ao marido - fato semelhante ainda ocorre nos dias atuais. Homens e mulheres foram vítimas de exploração pela classe dominante, porém, com uma diferença: os homens eram basicamente explorados pela força de trabalho, enquanto as mulheres além da força de trabalho eram também exploradas pelos serviços sexuais prestadas aos seus donos e pela reprodução. “De fato, a exploração das mulheres de classes sociais baixas pelos homens de classe alta pode ser observada em toda história humana, incluindo o feudalismo; a ascensão da burguesia nos séculos XIX e XX; na relação entre as mulheres dos países colonizados e os homens colonizadores” (Op. cit, 23).

Nesse sentido, para a mulher a marca da opressão de classe tem relação direta com a opressão/exploração sexual. Por outro lado, para os homens, a classe social estava e ainda está baseada nas relações dos meios de produção. Isso proporciona aos donos da riqueza a se tornarem proprietários dos serviços sexuais femininos, tanto de sua própria classe quanto das classes subordinadas. Dessa forma, o conceito de classe “é expresso também em termos de gênero - o masculino com força total e o feminino totalmente fraco”. (idem, ibidem)

O Patriarcalismo também produz o acentuado sexismo9 presente na nossa vida cotidiana (MORAES, 2002). A autora aponta três formas básicas de sexismo: individual, cultural e institucional. O sexismo individual é aquele no qual as pessoas agem em termos de gênero de acordo com o que aprenderam em suas comunidades/famílias. São as discriminações defendidas por uma pessoa em relação à outra (a violência entre marido e mulher, por exemplo).

O sexismo cultural se refere às crenças que influenciam homens e mulheres de forma socialmente mais abrangente, ou seja, é defendido tanto por homens quanto por grande número de mulheres. Por exemplo, a crença de que homem nasceu para a administração e liderança, enquanto a mulher, para o lar e para a maternidade. O sexismo institucional é aquele que demonstra a

profunda diferença nos sistemas econômicos e sociais relacionados ao gênero, perpetuando uma discriminação social e econômica em relação à mulher.

Partindo desse pressuposto, adverte MORAES (2002) que a diferença salarial entre homens e mulheres, no mesmo tipo de trabalho, é alarmante na maioria dos países do mundo. Contudo, é importante ressaltar que “homens e mulheres internalizam as construções sexistas. Por isso, costumamos dizer que a ideologia dominante10 é puramente machista” (op. cit, 28). Nessa perspectiva, o patriarcalismo é a base das desigualdades nas relações de gênero. Na esfera econômica constrói uma falsa dicotomia entre o emocionalismo feminino e a racionalidade masculina, que produz um status menos valorizado do trabalho feminino tido como „emocional, intuitivo e cuidadoso‟ e um status maior para trabalho masculino de „habilidades mais precisas‟.

2.1.1 A maternidade

A maternidade é uma realidade multiforme, da qual buscamos destacar alguns traços históricos. O conceito se mostra relevante por ser recorrente tanto nos estudos sobre o feminino como no discurso das personagens que compõe o objeto de nossa pesquisa.

Segundo Perrot (2007, p.69) “a maternidade é um momento e um estado muito além do nascimento, pois dura toda a vida da mulher”. As mulheres, em geral, atribuem à maternidade um grande valor. É um grande desejo perseguido, pela maioria das mulheres e, mesmo, aquelas que ainda não se tornaram mães, acabam demonstrando grande apreço pelo “espírito” maternal. A maternidade, que se reveste de “bons” sentimentos, talvez seja um reflexo do pensamento setecentista. “A sociedade ocidental promove a assunção da maternidade. Ela é aureolada de amor, o amor a mais, segundo a expressão de Elisabeth Badinter, que descreve o crescimento do sentimento maternal a partir do século XVII e o da figura da mãe, tanto nas práticas (saúde, puericultura, educação na infância) quanto na simbólica (idem, ibidem).

10 Segundo Moraes (2002, p.28), Ideologia é aquilo que produz sentido e significado social, enquanto Ideologia dominante refere-se a crenças e valores compartilhados pela maioria das pessoas.

A politização da maternidade, contudo, tornou-se um dos traços mais marcantes da época moderna, ressalta a autora, tanto nos estados totalitários quanto na república. A América cria o Dia das Mães nos anos 1920, mais é o governo de Vichy que promulga uma lei para instituí-lo. Sendo a função materna um pilar da sociedade e da força dos Estados, torna-se um fato social. Com isso, a política investe no corpo da mãe e coloca em evidência o controle da natalidade.

Nesse contexto, a concepção é o cerne da questão. Ter ou não ter uma criança. Aquilo que era antes uma fatalidade (a mulher tinha como função principal procriar) tornou-se uma escolha, uma escolha das mulheres, também: o que podemos considerar uma revolução (Idem, Ibidem). Junto a essa revolução, emerge a questão relacionada ao controle da natalidade. A limitação voluntária da natalidade surge nas sociedades ocidentais a partir do Renascimento. Na França, isso ocorre no final do século XVII.

Perrot (2007) aponta várias maneiras pelas quais se dá essa limitação: pelo casamento tardio que reduz o período fecundo do casal; pela abstinência; pelo coito interrompido. Entretanto, os nascimentos indesejados eram freqüentes. Infanticídios e abortos eram bastante praticados, a ponto de constituírem métodos de regulação da natalidade. A partir do século XIX a prática do infanticídio é cada vez mais reprovada e reprimida, o aborto, porém é um recurso mais tolerado, pois o feto não representava nada. Era praticado não somente por mulheres que não eram casadas, mas também por mães de famílias numerosas que viam no aborto o único meio de limitar o tamanho da família.

Essa banalização do aborto é denunciada por médicos demógrafos e por republicanos, o que leva a intervenção constante do Estado, alarmado pela baixa da natalidade francesa. Vale destacar, que em meio aos obstáculos a um controle da natalidade impostos pelo Estado e pela igreja, nasce a conquista da liberdade de contracepção. “Uma revolução de conseqüências determinantes para as relações entre os sexos. Talvez o maior acontecimento da história contemporânea francesa, suscetível de „dissolver a hierarquia‟ do masculino e do feminino que parecia uma estrutura simbólica imóvel e universal” (Idem, Ibidem, p. 73). Assim, os progressos do século XVIII foram

decisivos. Graças aos médicos desse período e às parteiras, foi possível salvar muitas vidas.

Entretanto, na medicinização do parto desencadeavam-se conflitos de saber e de poder que opunham médicos e parteiras. Estas passaram a se sentir excluídas pelo desenvolvimento de saberes mais formalizados que resultaram em novos ramos da medicina, a obstetrícia e a ginecologia, precedendo a pediatria e puericultura. Daí, as mulheres tiveram de buscar seu lugar nesse campo pelo estudo e pelo diploma (PERROT, 2007). O parto que antes era praticado exclusivamente por uma parteira, em casa, mantendo os homens quase sempre fora do ato e do ambiente, modernizou-se, passou a ser realizado por homens em ambiente hospitalar.

A realização do parto no hospital era para as mulheres pobres, ou sozinhas que não podiam recorrer a um parteiro. Depois, o hospital tornou-se o lugar privilegiado da medicinização e da segurança, caracterizando uma inversão na relação com as mulheres. As mulheres de posse seguiram o caminho das clínicas, depois o do hospital-maternidade já a partir do período entre guerras. Após a segunda guerra mundial, essa prática se generaliza e o parto em casa torna-se uma exceção.

Perrot (2007) nos informa que no século XIX, contudo, a mulher de sociedade entra em disputa com a mãe. Os maridos acham excessivo o tempo dedicado ao bebê, principalmente porque o ato conjugal é desaconselhado às lactantes. Daí, na França, burguesas e comerciantes recorrem a amas-de-leite, que vêm em domicilio. O recurso das amas-de-leite, porém, não tem o resultado desejado, pois frequentemente as crianças eram entregues a elas que as levavam consigo, ocasionando a morte de muitas crianças. Isto levou a Terceira República francesa a declarar guerra à mortalidade infantil, instituindo uma vigilância mais estrita da saúde dos bebês e das mães. “A medicinização da maternidade e da pequena infância passa então a ser um interesse nacional que recai obsessivamente sobre o corpo da mãe” (op., cit, 75).

O bebê passa a ser acariciado, mimado pela mãe, e, em menor grau, pelo pai. As mães são estimuladas a registrar por escrito o crescimento de seu bebê, peso, estatura, mamadas. Nesse sentido, paralelamente ao controle sanitário e suas conseqüências, desenvolvem-se uma individualização da maternidade e o desejo de ter um filho.

2.1.1 O sujeito-mulher na atualidade

Estamos mudando de paradigma em nossa representação da vida coletiva e pessoal; de uma linguagem social sobre a vida coletiva a uma linguagem cultural. “Esta mudança, provocada pelo rápido desenvolvimento de uma relação direta do sujeito consigo mesmo, tem um significado ainda mais amplo: coletividades voltadas para o exterior e para a conquista do mundo são substituídas por outras voltadas para o interior de si mesmas e de cada um daqueles que ali vive” (TOURAINE, 2006, p.12).

Nesse sentido, podemos dizer que se deu a passagem de uma sociedade que se percebia e agia em termos socioeconômicos a um tipo chamado de pós-social por Alain Touraine (2006), porque todas as categorias que organizam nossa representação e nossa ação já não são propriamente sociais, mas culturais. O motivo disto é que nossa experiência já não mais é transtornada pela sociedade de massa apenas na ordem da produção, mas também na do consumo e da comunicação.

Vale ressaltar que a idéia geral da passagem de uma cultura voltada para o exterior à outra, voltada para o interior e para a consciência de si mesmo, leva diretamente à idéia de uma cultura definida e vivida mais intensamente pelas mulheres do que pelos homens. Assim, a preocupação pelos laços entre sexualidade e personalidade é maior entre as mulheres porque os homens permanecem caracterizados mais nitidamente por suas funções públicas e particularmente profissionais, pois:

É na ordem da sexualidade que se colocam a afirmação e a vontade de criação das mulheres. Em outras palavras, é reivindicando uma sexualidade independente das funções de reprodução e de maternidade que as mulheres se constituem verdadeiramente em movimento social e avançam o mais longe possível – mais longe do que através da luta pela igualdade e contra a discriminação (idem, ibidem, p.215-218).

A sexualidade aqui entendida como “a construção” de uma relação consigo mesmo como ser de desejo, ser de relações e consciência de si mesmo como agente da integração de si mesmo e do mundo. Desta forma, a sexualidade ocupa um lugar central na formação do sujeito, pois ela remete a uma experiência individual, ao engajamento da personalidade ao redor desta

experiência, que é ao mesmo tempo uma vivência pessoal, uma relação com o outro e, mais profundamente, uma consciência de si mesmo voltada para a relação com a vida e com a morte.

Vale ressaltar, compartilhando com as idéias de Alain Touraine, que as mudanças em razão da situação prolongada de dependência e de inferioridade em que foram submetidas, procuram, sobretudo, a integração de seu universo afetivo. Sentimentos amorosos, prazeres eróticos, vida de casal, papel maternal, assimilação da família são outros tantos papéis que, subtende- se, deve integrar-se uns aos outros.

Contudo, sabemos que este objetivo é praticamente inatingível. Esta representação opõe-se à dos homens, caracterizada pela separação dos papéis (pai, marido, amante, etc.) dentre outros, cuja separação é admitida mais vezes no caso dos homens que nos casos das mulheres. Esta diferença na representação não é de modo algum tradicional, ao contrário, “a mulher era outrora submetida ao papel específico que a organização social lhe confiava, e era, sobretudo, do homem que se esperava que integrasse todas as suas condutas sob o nome de pai” (idem, ibidem, p.222).

A inversão das imagens e das expectativas é tão manifesta que quase todas as reflexões sobre a sexualidade das mulheres incidem sobre sua capacidade de combinar diversos papéis, por mais diferentes que sejam. E isso realça a vocação central das mulheres na sociedade nova: tornar compatíveis condutas ou atitudes que na modernidade são separadas e mesmo opostas umas às outras. Dos homens espera-se muito menos, e imagina-se com certo ceticismo os esforços que eles envidam para integrar vida pública e vida privada, cálculos e emoções etc.

Existe uma convergência evidente entre esta evocação do novo papel criativo das mulheres e o desejo das feministas de acabar com toda imagem “ideal da mulher”. (idem, ibidem, p. 223). Desejo que leva em consideração a afirmação do feminino de que tudo aquilo que define a mulher diz respeito a uma dominação.

Entretanto, só é possível pensar esta nova figura da mulher se renunciarmos a toda representação real da “mulher ideal”, do contrário continuaremos vendo as mulheres afastando-se das definições que delas são dadas e procurando construir um sujeito-mulher ao qual elas nunca

correspondem, como tampouco os homens reais não correspondem ao ideal masculino de uma sociedade.

Nesse sentido, há que se considerar duas tendências do feminismo atual. Para o primeiro, a mulher deve ser definida em relação a si mesma, e não por referência aos seus papéis sociais e às suas relações com o homem. Considerando os discursos que buscamos analisar nesta pesquisa, nos inscrevemos nesta perspectiva. A segunda tendência do feminismo é mais radical e coloca novamente em discussão a própria categoria “mulher”. Considera que é preciso acabar com a oposição entre homem e mulher e, para isso, destruir a categoria “mulheres”, que foi construída a partir da dominação masculina numa relação heterossexual normativamente imposta.

Observamos que o fator gênero possui dois valores: homens e mulheres, e que existem outros fatores, outras variáveis que intervém na construção do sujeito. Com efeito, esse sujeito se constrói a partir de uma sexualidade fragmentada das relações com outros e, eventualmente, pela dualidade homem-mulher. Nesta perspectiva, as mulheres para afirmar sua existência enquanto sujeitos precisam antes recusar em definirem-se unicamente por sua relação heterossexual com o homem e pelas relações sociais que esta relação as leva a desempenhar.

Para Touraine (2006), já entramos numa sociedade de mulheres. Embora os homens tenham o poder e o dinheiro, as mulheres já têm o sentido das situações vividas e a capacidade de formulá-las. Já é mais fácil fazer as mulheres falarem das mulheres que os homens falarem dos homens; estes estão embaraçados pelas imagens veiculadas pelos temas da masculinidade, da virilidade.

Entretanto, transformações tão profundas não podem realizar-se sem enfrentar oposições e suscitar até reações de rejeições. O primeiro contexto no qual as mulheres encontram reações negativas, conforme Touraine (2006) é o das populações de emigrados (casos estudados pelo autor na França), quando o irmão exerce um fortíssimo controle social sobre a irmã, quer esta use ou não o véu. Nesses grupos, ressalta o autor, o objetivo de muitos homens é chegar a proibir a vida social das moças, enquanto a maioria dos casamentos se dava a parir de uniões arranjadas, fundamentadas num certificado de virgindade.

Tal situação atesta a rejeição da sexualidade feminina, sobretudo a sexualidade das mulheres não casadas. O que prova mais uma vez que é justamente a sexualidade que está no cerne da desigualdade das mulheres, mais que seu acesso aos estudos e ao emprego. Outro contexto onde as mulheres esbarram com muitas resistências: em muitas escolas e ambientes sociais, assiste-se a um laxismo sexual crescente. O consumo de vídeos pornô generalizou-se, as moças vestem roupas que deixam o corpo à mostra. Vale salientar que esta cultura, construída, sobretudo, de imagens reproduz o modelo cultural tradicional no qual a moça deveria seduzir o rapaz e se preparar para um “bom casamento”. Os rapazes, por sua vez, aproximam-se dos comportamentos femininos, freqüentam os salões de beleza e até as clínicas de cirurgia estética.

Dentro desse contexto de uma moral laxista, essas representações tanto das moças como dos rapazes são consideradas “um obstáculo” à formação da personalidade, (particularmente a das moças), através da sexualidade. Assim, as mulheres podem construir-se pela sedução como também pelo trabalho, mais a redução do sexo a uma mercadoria torna impossível a „libertação‟ criativa das mulheres (op. cit., 231).

Esta sociedade de mulheres visa reconstruir a unidade de um mundo que ficou dilacerado entre um universo masculino, definido como superior, e um universo feminino, construído como uma figura da inferioridade. Os seres humanos, nesta sociedade onde os atores principais são as mulheres, tornam-se misturas de masculinidade e de feminilidade e é esta combinação do masculino e do feminino que atesta a construção de um novo tipo de sociedade. “O homem se torna mais frágil, menos integrado, contrapartida do sucesso das mulheres na recomposição do mundo” (op. cit., 236). Essas transformações aceleradas não se operam pelo prisma da vida política; elas penetram a subjetividade de cada um (a), porque tendem a fazer de cada indivíduo um sujeito.

O sujeito em geral, e o sujeito-mulher em particular, luta contra uma dominação que quer destruí-lo. E a mulher-sujeito é um ser humano que cria as relações entre seus papéis sociais, dos quais ela não pode se desfazer, que gera sua experiência biológica inseparável da relação com as crianças, que gera suas relações com um ser amado, do mesmo sexo ou não e, enfim, que

gera a relação para consigo mesma – reconhecimento de si que está no centro da construção de si - (TOURAINE, 2007). Para o autor, com as mulheres e pelas mulheres a ação coletiva centra-se no sujeito e em sua exigência de subjetivação. É o movimento das mulheres que faz emergir o novo modelo geral de ação coletiva e de experiência individual, que poderá intervir na vida política e social.

Assim, em conformidade com o autor, entendemos que não é mais por uma função social ou por modelos culturais que as mulheres se definem, mas por uma inversão de atitudes e de expectativas cuja exigência principal é a criação delas mesmas como mulheres-sujeitos, para além das diferenças da condição e da aptidão de manejar a linguagem.

Vale salientar que nesta “sociedade de mulheres”, elas não são apenas o ator social central, mas, sobretudo, a figura principal do sujeito, isto é, da capacidade e da vontade do indivíduo e dos grupos de construir-se em seus direitos de agir livremente. O movimento feminista tornou possível a construção da mulher como sujeito, porém esta construção surge após o período dito feminista, e, “é no seio da geração atual que a vontade de construção das mulheres por elas mesmas adquirem uma importância central” (idem, ibidem, p. 158).

Importa lembrar, em conformidade com o autor, que não acreditamos no desaparecimento da oposição ou da diferença entre homens e mulheres e que entramos numa sociedade onde a dupla oposição destas duas categorias vai desaparecer ou perder a sua importância. Ao contrário, o que buscamos defender é um reforço da identidade feminina, pois as mulheres são os agentes reais da reconstrução atual aceitando, porém a idéia do enfraquecimento de uma masculinidade. Nesse sentido, (idem, ibidem, p. 162) ao tomar a célebre frase de Simone de Beauvouir “não se nasce mulher, nos

Benzer Belgeler