Todo escrito é o resultado de uma experiência, seja real ou imaginária. Por definição, no jornalismo, a realidade é imprescindível. Os textos jornalísticos são pretensos relatos do que realmente aconteceu, observados por um indivíduo que, em teoria, viveu a situação ou tomou conhecimento daquilo através de relatos. Já o escrito literário baseia-se simplesmente em narrativas, não obrigatoriamente verdadeiras. Podem ser narrativas surgidas a partir da criatividade do autor, simplesmente – e isso não é um demérito. Escritas diferentes, jornalismo e literatura se aproximam nos jornais com as mãos e a sensibilidade de repórteres com alma de escritor e escritores com jeito de repórter. A união das duas linguagens é uma possibilidade para atrair leitores e oferecer um novo ponto de vista sobre a realidade. Possibilidade executada no projeto estudado nesta pesquisa, que reúne grandes reportagens, sobre temáticas que poderiam ser consideradas banais, em escritos que fogem dos padrões textuais normalmente encontrados nos jornais. Contexualização. Encontro de linguagens. “Um avanço”, segundo Vicchiatti (2005). Para o autor, “o que ocorre na construção dessa narrativa híbrida é a busca da arquitetura textual complexa da literatura para retratar a informação factual característica do jornalismo” (p.87).
As metáforas apresentadas no começo deste tópico foram livremente tomadas de Rildo Cosson (2002) para se referir ao jornalismo e à literatura. No texto Romance-reportagem: o
império contaminado, o autor explica a interseção entre as linguagens que acontece nos textos
classificados como romances-reportagens (“reportagem disfarçada de romance”). Para isso, passeia pelos conceitos do fazer jornalístico e do literário, classificando-os, metaforicamente, como “império dos fatos” e “jardim da imaginação”, respectivamente9. No encontro da força do império com a sutileza do jardim, está uma linguagem diferenciada, “contaminada”, segundo o autor, pelas duas formas de expressão, um “modo legítimo de atribuir sentido e
9 “Na metáfora do império estão contidas as idéias de força, domínio e amplidão de territórios que contrastam
organizar a experiência em narrativas que interpretam e traduzem o que somos e o mundo em que vivemos” (p.70).
Jornalismo literário, narrativo, de conhecimento, literatura de não-ficção, da realidade, criativa de não-ficção... As denominações para a prática de um jornalismo diferente do habitual são diversas. Porém, todas se referem ao mesmo encontro de formas de escrita, que podemos definir como uma potencialização dos recursos do jornalismo diário com a utilização de metodologias e práticas da literatura, primando-se sempre por uma representação da realidade. Usam-se elementos literários na escrita, mas permanece-se atado ao real. Observando a confusão muitas vezes criada pelo conceito comumente utilizado na referência ao hibridismo (jornalismo literário), já que, “quando falamos em jornalismo literário, imediatamente vem à mente a palavra literatura e, com ela, a palavra ficção” (CASATTI, 2004, online), para esta pesquisa, preferimos usar a denominação jornalismo narrativo. Tal ideia, a princípio, não provoca ambiguidades – afinal, narrativas não são, necessariamente ficcionais – e contempla a prática de “contar histórias verídicas de um modo mais atraente que o habitual” (idem). Acreditamos, assim, que ela consegue abarcar a construção dos textos de
Fortaleza – Sentidos da cidade, que são escritos que fogem à fórmula, descrevem situações,
apresentam personagens e, principalmente, dão vida a uma cidade.
Edvaldo Pereira Junior, no site da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL)10, instituição que realiza pesquisas e oferece cursos sobre o tema, define jornalismo narrativo (ou literário) como “modalidade de prática da reportagem de profundidade e do ensaio jornalístico utilizando recursos de observação e redação originários da (ou inspirados pela) literatura” (online). O professor Vitor Necchi (2007), ao questionar, em artigo, a pertinência da denominação “jornalismo literário”, destaca que
mais do que uma escrita que flerta com técnicas típicas do labor literário e se propõe a instigar, seduzir, provocar sensações e despertar o interesse do leitor, o chamado jornalismo literário foge de olhares pré-formatados e rende textos – sejam reportagens ou perfis – que surpreendem a partir de uma pauta que rompe com visões óbvias ou hegemônicas sobre a realidade (p.5).
Para Felipe Pena (2006), o gênero
significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lead, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos (p.13).
Já Alceu Amoroso Lima (1990) vai além e assevera: o jornalismo é um gênero literário. Frisando que gênero é “uma livre disciplina, de dentro para fora, como princípios ordenadores determinados pela própria arte em sua função criadora” (p.29), o autor determina que jornalismo é “literatura em prosa de apreciação de acontecimentos” (p.41). Amoroso Lima defende que escrever literatura nas páginas dos jornais depende do talento do profissional: “Fazer da informação um gênero literário, é o sinal do bom jornalista. Fazer de um gênero literário, como o jornalismo, uma simples informação, é o sinal de um mau jornalista” (p.60).
Porém, indo além das definições, é importante pensar sobre os encontros e os limites entre as profissões – ou seriam vocações? – de jornalista e escritor. Até que ponto é possível unir as práticas? Para Amoroso Lima, a observação dos fatos é o que aproxima ou distancia escritor e repórter. Uma metáfora ilustra a ideia do autor: “É nadando que [o jornalista] melhor poderá informar sobre as ondas. Ao passo que um romancista dirá melhor sobre elas, sobrenadando-as ou mesmo sobrevoando-as” (p.60). O repórter estabelece um contato com o acontecimento. Encontra um fato e vivencia-o. Por isso, ele “precisa estar aberto ao ambiente para senti-lo” (VICCHIATTI, 2005, p.45), precisa “recuperar seu potencial e sua vocação nobre de instrumento leitor da realidade, em bases amplificadas, sintonizadas com a busca da ampliação da consciência, no ser humano” (VICCHIATTI, 2005, p.29).
Denise Casatti (2004) lembra que é preciso ousadia para colocar elementos da literatura no jornalismo.
E não é preciso começar a inovar com uma matéria de muitas páginas ou de muitos minutos, com um tema em que você precise ficar dias apurando e dias escrevendo ou editando. Sim, é possível fazer jornalismo narrativo nas pequenas matérias do dia-a-dia. Basta encarar os assuntos de um jeito diferente. Basta encará-los com um “olhar narrativo” (online).
Assim, mais do que representar uma prática puramente ligada à escrita, o jornalismo misto de literatura nasce na pauta – ponto de partida da apuração jornalística – e se consagra no texto. Tudo isso a partir da sensibilidade do repórter, que enxerga naquele acontecimento mais do que um lead ou a frieza de uma nota e ousa na escrita de boas histórias. Histórias que rompem com a efemeridade do jornal e com a ideia do que é fazer jornalismo. “Interessa-se pelo acontecimento, vive-o, respira-o, mas, ao narrá-lo, não se deixa dominar por ele. Eis a marca do bom repórter e da verdadeira reportagem. O romance, o conto, a própria poesia moderna trazem freqüentemente esse cunho” (JOBIM, 1992, p.48).
Antonio Olinto (1960) diz que o que diferencia literatura e jornalismo é a forma como os textos são consumidos: “O que acontece é que o plano do jornalismo é o de uma literatura para imediato consumo – donde, muitas vêzes [sic], o seu caráter efêmero –, uma literatura dotada de uma certa funcionalidade, onde a esquematização é, sob muitos aspectos, necessária.” (p.79) Muniz Sodré (2009) frisa que jornalismo e literatura possuem peculiaridades que não podem ser subvertidas, mas podem influenciar a prática tanto do escritor quanto do repórter, contribuindo para o surgimento de textos interessantes.
Quando um jornalista se comporta como um narrador literário – por exemplo, usando linguagem pessoal ou coloquial, colocando a si mesmo na cena do acontecimento, dando cores de aventura romanesca a seu relato, litigando com as fontes de informação, etc. – não está “fazendo literatura”, e sim lançando mão de recursos de retórica literária para captar ainda mais a atenção do leitor (p.143-144).
Danton Jobim (1992) também destaca as diferenças entre as práticas. Para ele,
o estilo do jornalista, bem como sua linguagem, não se apuram tão bem como o do escritor. Falta em regra a densidade dos verdadeiros estilos literários, que se obtém pela paciência e pela obstinação em perseguir a forma perfeita, artisticamente trabalhada: para o escritor a língua não é um simples meio de comunicação com o público contemporâneo, mas um meio de expressão artística, válido para a posteridade (p.42).
Jobim defende que o jornalismo é um texto muito mais efêmero e passageiro do que a literatura, porém, reconhece que, em alguns momentos, os gêneros jornalísticos podem absorver elementos da linguagem literária. “O fato é que uma e outra [as experiências do
jornalista e do escritor] não são mundos fechados; intercomunicam-se esses dois domínios, entre os quais, separados que estão por uma linha fluida, haverá sempre uma passagem discreta” (p.45).
Gustavo de Castro (2002) lembra que o cotidiano é influência na escrita do repórter ou do escritor, mas as práticas se alimentam do real de formas diferentes. Enquanto o jornalista
extrai do mundo a matéria-prima necessária para retransformá-la em narração. Para o escritor, o movimento é inverso. O mundo exterior também é fundamental, mas não determinante como o é para o jornalista, já que o escritor pode buscar na sua própria subjetividade toda a sua literatura, fazer da memória a fonte da sua escritura, tornar eventos “pouco jornalísticos” significativos do ponto de vista humano, e até mesmo fazer o jornalismo virar literatura (p.73).
Acredita-se, a partir dessa revisão bibliográfica sobre os conceitos aqui observados, que um texto pode ser chamado de narrativo quando consegue envolver o leitor. Não é preciso criar, afinal, o objetivo do jornalismo é estar sempre em busca da verdade dos fatos, mas é possível humanizar, detalhar, aproximar. Escrever de outra maneira. Para isso, utilizam-se ferramentas da literatura, como a subjetividade e a humanização da história, mas continua-se com os pés firmados no jornalismo. Assim, será possível criar textos que permanecem, deixando-se de lado a ideia de efemeridade do escrito jornalístico. Não é uma proposta de fuga da realidade. Apesar de a literatura permitir criações e passeios subjetivos por histórias irreais, o jornalismo, como lembra Ciro Marcondes Filho (1989), “é essencialmente mundano” (p.38) e assim deve permanecer. Para despertar o interesse no leitor, mais do que uma manchete bem formulada ou de elementos gráficos atraentes, é preciso informação de qualidade e boa escrita, e “cabe ao profissional descobrir a medida da deformação necessária para dar forma expressiva a um conteúdo bruto” (SILVA, 2002, p.50).
É necessário que o profissional de comunicação ultrapasse as barreiras do simples relato do lead. O desenvolvimento de uma informação completa e capaz de gerar repercussão satisfatória entre o público telespectador deve ser feito de forma que deixe liberdade de raciocínio e conclusão analítica por parte da massa, que por sua vez não deve apenas deglutir passivamente a notícia (VICCHIATTI, 2005, p.45).
É importante destacar, entretanto, que o jornalismo não é um reflexo fidedigno do que acontece, como muitas vezes se diz ingenuamente. A escrita já pressupõe uma construção. Por exemplo, “ao causar a impressão de que o acontecimento está se desenvolvendo no momento da leitura, valoriza-se o instante em que se vive, criando a aparência do acontecer em curso, isto é, uma ficção” (SATO, 2002, p.32). Não se pode esquecer ainda que “o autor já carrega em si certos implícitos de representação; o resultado, a representação, constitui, portanto, uma criação destinada a um ou mais receptores” (SATO, 2002, p.31). Assim, não existe um texto puramente informacional. Todo escrito é híbrido.
Muniz Sodré (2009) classifica essa busca por uma escrita que seja “espelho do real” como “uma presunção”. Isso porque “o texto de jornal representa basicamente um tipo de intervenção na língua – com os recursos retóricos da clareza e da concisão – afinado com a estrutura ideológica do sistema informativo” (p.16). Portanto, diferenciar jornalismo e literatura a partir dessa ideia é questionável, pois destacar que um é realidade e o outro é invenção não é uma proposição completamente segura. Basta observar, por exemplo, livros que contam histórias “verdadeiras”, como as biografias. O suporte não é delimitador de linguagem ou gênero, e os conceitos – jornalismo e literatura – não possuem apenas uma definição.
Ambos os estilos se confundem; seria impossível traçar com nitidez a linha de demarcação entre o mundo jornalístico e o literário. Esta linha tênue e hesitante marcará, sem dúvida, a diferença de ângulo em que se colocam o repórter e o romancista, o editorialista e o ensaísta – um voltado para as exigências imediatas e transitórias do grande público, outro debruçado sobre os temas universais e permanentes que nascem da natureza do homem do mistério da vida (JOBIM, 1992, p.53).
A escrita é união de técnica e talento, seja ela jornalística ou literária. Por isso, vale a máxima segundo a qual “o bom repórter pode ser, por exemplo, aquele que é capaz de contar bem um fato ocorrido na esquina de sua casa. Ou, em outro extremo, aquele que vai até o fim do mundo no encalço de uma boa história” (DANTAS, 1998, p.10). Como lembra a jornalista Eliane Brum (2008), premiada por reportagens que ultrapassam a fôrma, as quais podemos, em alguns momentos, classificar como crônicas-reporteiras (cf. SALGADO, 2006), o jornalismo conta histórias e informa, pois “é a realidade que impõe o andamento da reportagem – e não o contrário” (p.37). E a realidade – por mais complexo que seja o conceito
– está acontecendo na rua, em um tempo determinado, o qual precisa ser vivido pelo repórter. Somente dessa forma será possível recortar o real e transformá-lo em palavras. Como frisa o jornalista Ricardo Kotscho (1995), “lugar de repórter é na rua” (p.12), pois é lá que as boas histórias estão acontecendo.
Na intersecção entre as linguagens, indo além da simplicidade jornalística e mergulhando na subjetividade literária, surgem os textos estudados nesta pesquisa. E aqui observa-se que a pauta não determina as possibilidades de a reportagem se transformar em narrativa. Não há fórmula para a boa história. Prova disso é a temática das reportagens aqui analisadas: Fortaleza. Uma cidade, simplesmente. Cenário recorrente nos jornais diários, sempre montado e desmontado; lugar de passagem e vivências. E talvez por isso tão rico em possibilidades de narração.