Miller e Shanks (1996), ao perceber para onde apontava o desenvolvimento das pesquisas no campo – o formalismo norte-americano - asseveraram, como já apontamos anteriormente, que não existiria um corpo integrado do conhecimento, uma teoria única, no campo do comportamento eleitoral, mas um corpo de referências teóricas e de descobertas em diferentes modelos que permitem indicar que se está diante de um campo em construção. Não obstante, ou talvez por isso, seja um dos assuntos mais explorados na ciência política. Essa visão favorece o uso de seus referenciais pela comunicação política.
Outra análise possível é a da caracterização dos estudos do comportamento eleitoral, como uma ou várias teorias de médio alcance, diferentes de modelos teóricos como o de Karl Marx e Max Weber que se constituem em teorias de longo alcance.
Nesse cenário de campo em construção, há um grande conjunto de estudos que se desenvolve internacionalmente acerca do comportamento eleitoral. No caso brasileiro, isso não teria acontecido ainda, e as razões possíveis para isso são:
a) a recente experiência democrática no Brasil;
b) o alto custo necessário para a realização da coleta de dados..
A década de 1940 é um importante marco da pesquisa do comportamento eleitoral nos Estados Unidos, vez que daí se inicia o desenvolvimento de técnicas de surveys, isto é, das pesquisas de consulta do eleitor, de natureza tanto quantitativa, quanto qualitativa (FIGUEIREDO, 1991).
Da Universidade de Colúmbia, esse desenvolvimento teve início com o trabalho de Paul Lasarsfeld, Berelson e Gaunet intitulado The People´s Choice, que foi publicado em 1944 (PIMENTEL JR., 2007).
Mais tarde, percebendo-se a importância desses estudos, com apoio estatal, começam a ser realizados os Nation Election Studies (NES), que permitem um acompanhamento constante e contínuo dos mais importantes certames eleitorais norte- americanos.
No caso brasileiro, o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), dando continuidade aos estudos do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo - IDESP29, talvez venha a se constituir, em longo prazo, em parâmetro equivalente; isso dependendo da continuidade de fomento financeiro.
O ESEB, Estudo Eleitoral Brasileiro, foi realizado em 2002 e 2006 (data das eleições presidenciais) com amostra nacional em momentos pós-eleitorais. Além de buscar dados relativos ao certame, visou mapear outros fatores de longo, médio e curto prazo que pudessem constituir um perfil do comportamento político do brasileiro. Tal trabalho de pesquisa foi resultado de um consórcio entre universidades brasileiras.
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A continuidade nas pesquisas do gênero é um fator importante para este campo de estudos, São Paulo tem a melhor série histórica, constituída por um conjunto de pesquisas do IDESP, 1982, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, e por dados dos institutos Datafolha e IBOPE. A obra de Figueiredo (1991) faz parte da grande pesquisa realizada pelo IDESP em 1982 (KERBAUY, 2004).
O ESEB 2006 foi uma pesquisa pós-eleitoral de natureza acadêmica associada ao Projeto Comparative Study of Electoral Systems, da University of Michigan. Foi coordenado por Rachel Meneguello (CESOP/Unicamp) e realizado por Clifford Young e Alberto Almeida (IPSOS-Opinion/Brasil).
O ESEB 2006 é a segunda onda da pesquisa. A primeira onda (ESEB 2002) foi realizada em dezembro de 2002 pelo CESOP/DataUFF30.
No plano nacional, os trabalhos realizados na investigação do comportamento político-eleitoral são constituídos basicamente de três ondas.
Os pioneiros, em meados da década de 1950, foram Azis Simão, que focou em seus estudos os reflexos de migração populacional nas opiniões e comportamentos políticos. Também podemos citar dessa fase Oliveira Silveira e Francisco Weffort que produziu trabalho sobre o embate entre Jânio Quadros, Marechal Lott e Ademar de Barros. (PIMENTEL JR, 2007).
Uma segunda onda que ocorreu, posteriormente, e na década seguinte, tem como representante Gláudio Soares que produziu trabalho de pesquisa, com realização de
surveys, na campanha eleitoral para a Presidência da República, ocorrida em 1960, tanto
quanto investigando o fenômeno do lacerdismo, examinando, portanto, o contexto do Rio de Janeiro. (PIMENTEL JR., 2007).
Otávio Cintra, em 1968, realizou estudo em que percebeu um alto índice de preferência partidária em um momento histórico em que rivalizavam a UDN e o PTB. (PIMENTEL JR., 2007).
Fábio Reis Wanderley fecha esse ciclo em 1978 retomando pesquisas após um período de interrupção, dada a conjuntura política do país, produzindo importante trabalho de organização de pesquisas dos certames eleitorais realizados em diferentes locais do Brasil, em pleno regime ditatorial e obtendo por conclusão, um perfil de eleitor brasileiro caracterizado (em geral) como alheio, desinformado e indiferente para com os processos políticos nacionais. (PIMENTEL JR., 2007).
30 Seus resultados do ano de 2002 foram apresentados na Revista OPINIÃO PÚBLICA, vol. X, nº 2 de
outubro de 2004. Quanto aos dados de 2006, estes foram publicados na mesma revista, vol. XIII, n° 2 de novembro de 2007.
Fruto desses apontamentos é que mais tarde será cunhada a expressão da “síndrome do flamengo”, expressão criada por Fábio Wanderley, que informa o fenômeno que ocorria entre os que votavam na oposição, o que não constituía o perfil da maioria da população brasileira, e que tendo convicções rígidas de postura (fora da influência das elites), votariam como que a torcer por um time. (PIMENTEL JR., 2007).
Lamounier, em análise realizada em 1980, com dados de 1978, também percebeu um perfil de eleitorado em que era dominante o desinteresse pelo plano político e havia reduzida apreensão de referências do contexto. Percebeu, também, a influência de fatores de longo prazo na decisão do eleitorado, sobretudo, a identificação partidária.
A partir dos anos de 1990, uma terceira onda de trabalhos pode ser identificada. O pontapé inicial é a realização de trabalhos no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, realizados por André Singer, Mônica Mato Machado (continuadora da tenência dos anos de 1970, sobretudo, dos métodos e pressupostos de Fábio Wanderley) (PIMENTEL JR., 2007).
Flávio Eduardo Silveira, nesse contexto, produz uma ousada tentativa de teoria geral do comportamento eleitoral brasileiro, através de uma pesquisa de fôlego realizada entre os anos de 1991 a 1995, e elabora uma tipificação dos diferentes eleitores do Brasil, que se constitui até hoje em obra de referência e sem similaridade no Brasil (SILVEIRA, 1998).
Finalmente, podemos apontar o trabalho de Yan de Souza Carreirão, em que observa a avaliação do governo como elemento importante do voto, tese que tem por título: A Decisão de Voto nas Eleições Presidenciais no Brasil (1989/98): a Importância do Voto por Avaliação de Desempenho, defendida no ano de 2000. Carreirão, no decorrer dos anos, veio a se constituir num importante defensor no Brasil da Escola econômica do voto.
A partir daí, outros trabalhos serão percebidos em distintas regiões do Brasil. O importante dado, contudo, é que mais recentemente tem sido realizado os Estudos do Eleitorado Brasileiro, 2002 e 2006, o que também tem permitido fazer um mapeamento geral do eleitorado acerca de questões e opiniões relacionadas a variáveis de longo prazo, médio e curto.
Assim, denota-se que nas duas primeiras fases de estudos, os trabalhos se vinculavam a uma tradição sociológica de investigação. Os referenciais de outras escolas
do comportamento eleitoral, desenvolvidas inicialmente nos Estados Unidos só seriam difundidas a partir da terceira fase, mais recente e em desenvolvimento.
2.4. CONCLUSÃO DO CAPÍTULO
Destacam-se, nesse momento, alguns tópicos abordados nesse capítulo, de forma sintética, para apontar a condução dos capítulos posteriores.
Há uma tendência nos estudos de comunicação política e de marketing eleitoral em fixar os mídias como elementos centrais do comportamento eleitoral, o que compromete em alguns casos a observação de determinados fenômenos cuja complexidade de fatores tem sido enfrentada pela ciência política.
Não há uma consideração, por parte da ciência política, da mídia como categoria de influência no comportamento político e eleitoral, tanto quanto uma elaboração de seu envolvimento com as demais categorias tradicionais desse campo.
A grande contribuição, para a investigação, da ciência política, pouco desenvolvida nos estudos de comunicação, é a noção de que diferentes categorias da ordem social ou de referencias constituídas em longo, médio e curto prazo atuam isoladamente ou combinadas e que estas são elaboradas mentalmente e emocionalmente como uma totalidade pelos indivíduos
Também, a percepção de que tanto a racionalidade quanto o estímulo de fatores psíquicos não atuam em separado, mas de forma combinada, deve ser considerada nas análises de comunicação política. Para então, não tomar-se como puramente instintivo ou irracional determinada conduta, considerando-a como resultante do contato com conteúdos superficiais ou como mera expressão inconsciente dos indivíduos. Portanto, importa não considerar a razão como antítese da emoção nas análises de comunicação política. Esse entendimento será importante para a análise do capítulo seguinte.
CAPÍTULO 3 – LINGUAGEM, COMPORTAMENTO E POLÍTICA. EM BUSCA