• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

2.4. Hububat Pazarlama Kanalları ........................................................................ 53 53

2.4.4. Borsalar

Entre a consciência narradora que sustém a história e a matéria narrável sertaneja, opera um pensamento desencantado que figura o cotidiano do pobre em um ritmo pendular da chuva à seca, da folga à carência, do bem estar á dispersão, voltando sempre do último estado primeiro. 148

147 Graciliano RAMOS, Vidas Secas, p. 102. 148 Alfredo BOSI, Céu, Inferno, p. 20.

Graciliano expõe seus personagens em Vidas Secas nesse espaço desconfortante. A dúvida, o mais cruel dos sentimentos, torna-se crucial quando envolve a própria vida do seu sujeito. Ter o destino ligado à inconstância da chuva é senti-lo breve pela característica de imprevisibilidade e de enigmático, como tudo o que é futuro.

A partir dessas constatações, estamos conscientizados das sensações pelas quais passam os personagens, principalmente Sinhá Vitória, que tem como papel constelar na vida da família e como coadjuvante de Fabiano nas operações da lida. Ela é o vigia dos sinais da natureza, dos filhos, da tapera e do vaqueiro bruto.

Nela, vemos as finalizações dos embates, seja nas contas, que é definição para os viveres do grupo, seja na estada, determinado a hora certa de partir, ou ainda na condução do futuro dos filhos, deixar viver, morrer ou estudar, aumentar o manancial de expressão.

Pela gama de decisões impostas pela situação, notamos a radicalidade do quadro. Quando existe um inverno regular, sobrepõe-se ao desconforto das goteiras o conforto intelectual de que a terra está bebendo e, portanto, viverá. Vivendo o chão, todos viverão. Existe espontaneidade no convívio da situação, mas não o bastante para que se efetue uma comunicação eficiente.149

Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata.150

O frio que agora corta a pele, impede o sono. Traz um serão, que embora sofrido, apresenta uma certeza, alívio para a dúvida: terão teto e trabalho na próxima estação. Com tanto estímulo e com a oportunidade de estarem juntos, por ser atributo humano inconteste, dá-se a expressão. Tentam conversar. O produto expressivo surge vago e desconexo:

149 Cf. Rui MOURÃO, Ensaio sobre o romance de Graciliano Ramos, p.124.

Mesmo em capítulos como Inverno e Festa, em que todos aparecem juntos, a nota predominante é o desencontro dos seres. A unidade efetiva não se realiza, mostrando-se, no caso de Inverno, como absoluta impossibilidade.

Reproduziam as imagens que lhes vinha ao espírito e as imagens sucediam se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. 151

Graciliano coloca Fabiano, narrador no escuro, de modo que só seja ouvida a expressão verbal, não os efeitos produzidos pelas emoções na face. É, talvez, por essas circunstâncias, que Otto Maria Carpeaux152 tenha considerado o capítulo

Inverno como o clímax da obra, em manifestação lírica. Esse capítulo nos chama a atenção porque é quando a família tem uma trégua no combate com a seca, logo surge o espaço para que eles sonhem. O sonho deles fica, entretanto, engasgado no que se refere à discussão de seus aspectos, uma vez que o diálogo entre eles não acontece. O que percebemos são tentativas de verbalização sem conjuntura entre os pares, incentivados pela alteração no ambiente, que, então, mais ameno, não consegue intimidar nem pela ameaça de enchente. Água, para eles, é signo de vida, mesmo seu fluxo sendo em proporção ameaçadora.

Nessa oportunidade surge a interlocução do menino mais velho, ávido por informações, mas a intenção do pequeno é cortada bruscamente. Como observa o autor, Fabiano:

Tinha o coração perto da goela. 153

151 Graciliano RAMOS, Vidas Secas, p. 63.

152 Para Otto Maria CARPEAUX, Graciliano e seu intérprete, Teresa, p.150: “... o lirismo positivo de Vidas Secas é de outra espécie , culminando no capitulo Inverno”.

153As relações em grupo são estereotipadas por seus núcleos, nos quais as marcas culturais ressaltam-se dando as características. As simbolizações repercutem, desdobram-se em outras, é a malha responsável pelo envolvimento e pela caracterização. São dessa ordem a escola, os aglomerados em torno de atividades específicas. Com respeito às convenções sociais, encontramos fundamentação em Pierre BOURDIIEU, A economia das Trocas Simbólicas, p. 206-208: “A cultura escolar propicia aos indivíduos um corpo comum de categorias de pensamento que tornam possível a comunicação (...) Os indivíduos programados, dotados de um programa homogêneo por aspectos de pensamento e ação, constituem o produto mais específico de um sistema de ensino” .

Ao rude vaqueiro de Vidas Secas falta esta espécie de adaptação. A cultura letrada promove o elo de ligação entre a comunicação e o pensamento. A falta desta, portanto, ratifica o comportamento rude, quase inumano de Fabiano. Está ali uma deformidade da espécie; uma Criatura retorcida em seu caminho iluminado, no qual salientam-se seus atributos perceptivos tão autênticos, sem passar pela possível distorção social da escola, que heterogeniza ao invés de homogeneizar, em muitos casos. No entanto, paradoxalmente, encontra-se emudecido pela falta socializante da linguagem.

Esses fatos levam-nos a pensar que a expressão é inata ao âmbito humano, mas de seu exercício emanam as relações perceptivas da mente, convalidando todas as teorias sociais nessa área, como as vigotiskianas, que, entretanto, ao socializar trazem a carga da elitização. Por esse motivo, a situação de Fabiano e de sua família é original para análise.

As relações frontais na obra representam-se também concretamente pela estética. No cenário da seca o que restava era ruína, representada por uma severidade estética. As cores representativas da tragédia alternavam-se em um vermelho com matizes acres, lembrando o desespero das calamidades: um branco sepulcral nos esqueletos dos animais. O campo inerte mostrava essa face. Quando a cena ganhava movimento era ainda mais lúgubre, já que o vulto negro dos urubus em vôos rasantes compunha o triste foco.

As potencialidades aparecem na reminiscência do vigor que é minado pela sede e principalmente pela fome. A inteligência, entretanto, atributo distintivo da espécie, resiste e desponta inadvertidamente e, muitas vezes, incentivada pela chama interior que representa uma espécie de sentinela da intuição intelectual, ou seja, o princípio perceptivo humano, mantendo viva a atuação do homem como espécie.

São estas as evidências que se apresentam na queda do menino mais velho, nas primeiras páginas de Vidas Secas. Fabiano, aturdido pelo cansaço, atordoado pela fome e pelas responsabilidades familiares, cogitou matar o menino, para evitar que este fosse sacrificado pelos urubus. A relação despontou no âmago do drama, em um átimo. Os olhares dos pais se cruzaram e daí o urro da mãe, bestialmente, aguçou o instinto e evitou a queda do facão, com lenitivo para a revigoração das forças do pai, que carregou o menino até o abrigo. De onde veio essa força é a nossa questão.

As lágrimas de desespero acolhendo o casal no mesmo momento também proporcionaram essa relação, tão individual quanto verdadeira e, mais uma vez, o acaso proporcionou união. Seria o sofrimento o preço da harmonia?

Em período de cheia também remanesce o sentido parental. Constatamos essa ocorrência quando da prisão de Fabiano. Involuntariamente, compungido a pensar e estando isolado da família, Fabiano sensibilizou-se e recusa a mesma sorte para os filhos. É quando começa a reagir à situação. Anima-nos a reconhecer uma reação pelo sentido mimético da imitação da montaria do chucro que o menino mais novo intentou, a partir do aprendizado oferecido pelo pai. Outras relações dessa natureza apresentam-se em sinhá Vitória, por exemplo, que substitui o terror pela rotina. Para ela, a materialidade expressa pelo conforto representado pela cama de lastro de couro apresenta-se como atitude digna, ou seja, dormir decentemente.

Surge também a indignação pela fraude e pelos juros. As reações se sucedem e vão favorecer a resolução equilibrada. Outro exemplo de equilíbrio é a superação da atitude bestial do Soldado Amarelo na cidade. A compreensão de que aquele indivíduo era o símbolo da lei fez com que ele pudesse evadir-se sem nenhum arranhão.

Por dignidade entende-se também a capacidade da expressão. Fica-nos, de Vidas Secas, a impressão de que as relações são a base para a evolução individual e coletiva, portanto, constituem a estrutura das sociedades .

A palavra em Vidas Secas é o parâmetro para o desvelamento dos aspectos primordiais do conjunto, que expõe a natureza do homem. O desempenho da linguagem, elemento que material e transcendentalmente constitui limite, é intermediação entre o Cosmos e o Criador, é ainda explicação ou questão para as Criaturas.

Para Rui Mourão, que publicou, em 1969, um trabalho teórico, fazendo a análise do conjunto de obras de Graciliano da década de 30, no ápice do penoso regime repressor que perdurou entre nós por vinte anos (1964-1984), as palavras são transformadas “em entidades autônomas, em verdadeiros obstáculos” 154. Percebe-se aqui, na angústia desse patriota, a resistência àquele negro período, reconhece-se a força da imaginação driblando a censura, fazendo escoar a mensagem por uma trinca que cavou na barreira da informação, por meio da sensibilidade. A face do espírito superior é uma realidade.

É dessa natureza a resistência da família de Fabiano. Eles vivem em um fio de navalha; a tenacidade, entretanto, é habitual: uma postura. A enchente não os amedronta, pois julgam aquele perigo fecundo, pois ele traz promessa concreta de vida. O prejuízo maior, enfocado por Graciliano, é a existência dos caboclos que ele coloca na escuridão física, durante a cheia, dentro da tapera, e na escuridão expressiva, pois tentam conversar e tudo que conseguem são emanações de pensamentos esparsos, ou relatos de brigas, que os aproxima dos animais. Bosi realça a importância da expressão, do se expressar, afirmando:

Suprir a ausência de pessoas, coisas e ações, chamando-as, exprimindo o sentimento que elas provocam, articulando um ponto de vista sobre elas - esta, a dimensão fundamental de nossa linguagem. 155

A transposição do pensamento em palavras exige a presença efetiva dos sentidos e do senso de oportunidade, que faltam aos personagens mais versados em atividades físicas. A atitude no campo, junto aos animais, os embrutece, ocultando, pois, as percepções que os contaminam na alma.

Restam, pois, posições pendulares que se estruturam no texto. Não só as mais evidentes como o binômio vida-morte, ou aquelas ligadas à seca-cheia. Simbolizada pela escuridão física encontram-se os pólos do mutismo, contrapostos à exasperação, veículo do mau-trato. Qualquer diálogo resulta esbravejamento ou repressão física:

Sinhá Vitória aprovou este ato com um rugido, mas Fabiano condenou a interrupção (...) estirou o braço para castigá-lo. 156

A escuridão que esconde a expressão facial corresponde ao silêncio que permeia a família. O que percebemos com relação à obra é uma infinita ausência de referências. O fato de uma não haver diálogos nos quadros do romance esconde a atividade intensa, latente, que, se tratando de expressividade, é similar ao que explica Bosi:

O que desnorteia os que buscam uma relação constante e congruente entre tal som e tal sentido é a maleabilidade infinita com que o homem trabalha a matéria fonética. E até do silêncio, que parece puro e vazio, ausência de som, o espírito arranca um mar de significados. 157

155 Alfredo BOSI, O Ser e o Tempo da Poesia, p. 75. 156 Graciliano RAMOS, Vidas Secas, p. 64.

157 Alfredo BOSI, O Ser e o Tempo da Poesia, p. 75.

Com respeito à fonética, temos a afirmação de SANTO AGOSTINHO, Confissões, p. 286: “Não falamos nos no tempo, e não há nas nossas palavras silabas breves, assim chamadas, porque umas ressoam durante mais tempo e outras durante menos tempo?(...) Fazei, meu Deus com que os homens conheçam, por meio desse simples exemplo, as noções comuns das coisas grandes e pequenas”.

O tempo e a expressão são poços interligados para AGOSTINHO. Aqui, ligados à afirmação de Alfredo BOSI, O Ser e o Tempo da Poesia, p. 37, está presente a atividade vertida em palavras, por meio da representação lingüística. Por um lado, isto ganha correspondente concreto por meio do

A existência que subjaz ao silêncio, seja fonético, no caso das enunciações, seja físico, no caso da escuridão, traz em seu âmago a negação aparente contra a qual a vida teimosa resiste aos esquemas, pela circunstância do sentido humano prever e conservar sua abertura para a transcendência.

São todas essas aproximações que nos fazem acreditar em uma relação primordial familiar capaz de esboçar o núcleo central das sociedades. O balanço das dificuldades nos permite reconhecer os males causados por uma centralização de valores e pela má distribuição de oportunidades próprias da oligarquia e do domínio.

Fica ainda evidente o sentido dominador entre os humanos: o melhor falante, o maior conhecedor das gestões é o mandatário e a ele ou a esses grupos cabem as deliberações, nem sempre humanas. Aquilo que sobressai, entretanto, desta etapa do estudo é a tendência ao domínio mesmo do mais prejudicado humano. A montaria por Fabiano atesta o ideal dominador, senão aos semelhantes a outras espécies e, para equilibrar tal pendor, o sentido preservativo da vida, que ativa a imaginação, funciona como defesa. A vida aparece proporcional ao domínio em sentido oposto à fé. São marcas incluídas nas sociedades, resultado de contratação elaborada no rigor da competitividade, capazes de legar ao homem contemporâneo amarga maturidade. Essa nossa constatação recebe o apoio confortante de Bastide:

É que a visão é epidérmica, faz-se à superfície do corpo, no limite do olhar; para entrar no mundo de Graciliano Ramos, cumpre que ela se torne organismo; que entre, como elemento constituinte, na decomposição celular; que seja “sentida” e não “percebida”; que seja como a carne dolorosa; a natureza está no músculo que não se pode tocar, no arranhão da mão, no

signo, na concepção saussuriana, e por outro, o correspondente sonoro que vibra no tempo , acentuando o atributo da cronologia.

AGOSTINHO, em Confissões, p. 293, liga esta cronologia à significação por meio da duração do som. Ata, pois, nosso filósofo, a expressão à sucessão do tempo e ainda a reflexão pelo oposto, ou seja, a ausência do som, a expressividade do silêncio: o som por ausência. Desta dicotomia vêm as noções de passado e futuro: “Essa voz ressoará, pois, parte que esmoreceu , sem dúvida já ressoou e o que resta ainda ressoará. (...) De enquanto a presente atenção do espírito vai lançando o futuro para o passado. Com a diminuição do futuro, o passado cresce até o momento em que tudo seja pretérito, pela consumação do futuro”.

Correlacionando as relações agostinianas, temos, pois, que o silêncio por falta de representação da percepção nega o presente, que seria a ação se dando um silêncio que ocupa os espaços de tempo, no qual se desenvolveria algo quase em forma gerundiva, para nosso entendimento atual. É da falta deste presente verbalizado que sofrem Fabiano e família, e nele é o instigante da busca pela vida que permanece invencível na realidade dos caboclos, pelo projeto inscrito neles, para desenvolvimento e, deste, à superação.

ventre que dói; é um estigma sob a epiderme, não é uma imagem objetiva, flutuando entre o ser e o mundo, como um simples reflexo desse último. 158 Eis o alcance da intelecção do homem. O âmbito humano é o do entendimento e uma de suas maiores conquistas humanas é a pesquisa. Conhecer, construir certezas por evidências, é emancipador e fomentador de consensos. Reconhecemos essas evidências e utilizamo-nos delas, a partir dessa fundamentação para teorizar a respeito do conhecimento e de sua canalização ao transcendente. Pensamos que nos dirigimos a alguns aspectos esclarecedores da condição humana e da resistência como sinal dessa especificidade, pois da clareza surgem certezas. A segurança desponta como artifício de justiça e de progresso, alento à vida material e espiritual, semente da compreensão, alternativa humana e divina, elemento codificador de harmonia.

Estaremos, pois, verificando, pelos pressupostos teóricos encontrados na Antropologia Filosófica no terceiro capítulo, as formas, os sistemas e os níveis de compreensão do homem até atingir o Espírito Absoluto. Procuraremos entender a trajetória do espírito, contingenciado pelo corpo e mediado ao espírito pela estrutura psíquica.

Mediar a personalidade de Fabiano, monossilábico e onomatopaico, por seus atributos antropológicos, é reconhecer a situação de cruel penúria por que passaram os nordestinos, seus contemporâneos. É ainda reconhecer a tenacidade de que se imbuem, aplicando aspectos de sua natureza - imagem e semelhança de Cristo - afirmação do mistério da vida, emergente da fé. Entre a teoria e o empirismo que nos propõe esse impulso, deveremos conseguir um pouco de compreensão, suscitada pela aporia, consistência do próprio homem.

Capítulo III: Da natureza: uma leitura de resistência (O que

Benzer Belgeler