O Expressionismo Abstrato contém uma pulsão sentimentalista que promove a valorização do não-intelectivo, da profunda originalidade. Foi uma reação à guerra, à objetividade insana que a havia produzido. Teve relação com a subcultura beat. No entanto, é sabido que foi um movimento estratégico para a afirmação dos Estados Unidos como centro do mundo artístico. O método do automatismo psíquico, derivado dos Surrealistas, permitia o fluxo da mente driblando as interferencias ou intermediações do ego, um estado similar ao da despersonalização. A não intermediação permite ao artista presentificar sua originalidade pura. Porém, tal ausência de intermediação não significa ausência de intelecto na produção artística e sim a imersão completa no fluxo criativo.
Esse estado de imersão, onde o artista se depara com o infinito oceânico e o cristaliza através dos gestos rápidos que capturam o instante feito de acasos, (que são típicos desse estado oceânico de ocorrências não lineares), pode ser comparado ao estado de vazio, de não-mente, que prega o Zen (MIKLOS, 2010),
58[...] while Stella may have wanted viewers to perceive Double Scramble as depicting a perfectly flat space, the
intensity of the palette tends to encourage multiple readings of the concentric squares as alternately concave or convex, an effect that is also facilitated by the sequencing of colors, which move in diametrical opposition, with the outer band of one sequencing of colors corresponding to the inner square of the other. (RUBIN, 2010, p. 19).
O Zen, a exemplo do impulso de originalidade do Expressionista Abstrato, também pode ser cristalizado através da pintura gestual, como é demonstrado pela pintura da escola japonesa Sumiye:
Essas pinturas foram executadas num tipo particular de papel áspero e quebradiço com um pincel macio. O meio usado, a tinta preta chinesa, não havia colorido nem elaboração, e o efeito do papel quebradiço era de que, uma vez feito o traço, nunca poderia ser eliminado; para que não houvesse borrões, o traço teria de ser rápido e firme. Com esses materiais era absolutamente necessário que o artista pintasse “como se um turbilhão tivesse se apoderado de sua mão”. Não havia possibilidade de “retocar”. O menor erro se tornaria óbvio, e, caso o artista parasse para pensar no meio de uma pincelada, o resultado seria um feio borrão. Essa técnica era a que se adequava exatamente ao espírito Zen, pois significava que o artista tinha de passar sua inspiração para o papel enquanto estivesse viva. (WATTS, 2011, p. 111).
O existencialismo de Sartre é outra influência para o Expressionismo Abstrato, assim como a fenomenologia também pode estar relacionada. Marcam o retorno à espiritualidade contra a objetividade tecnocrata. Outra força que influenciava essa guinada introspectiva era a difusão da psicanálise. O método freudiano de associação livre foi uma das inspirações para o fluxo da consciência como meio artístico.
Com isso, ficou claro que a pintura é mais do que um objeto, é um processo, que além de resultar na construção de uma imagem envolve uma complexidade fenomênica que engloba o ambiente, as experiências do artista, o jogo do intelecto e da ação e do gesto na hora da composição, etc.
Além da influência de Freud, havia a de Jung, principalmente sobre Jackson Pollock, que foi submetido à psicanálise junguiana:
O joven Jackson Pollock se interessou por Jung em meados da década de 1930 e recorreu a um analista junguiano para começar um tratamento psiquiátrico contra o alcoolismo em 1937. Comparou o melhor que viu na arte contemporânea com a pintura indígena americana, elogiando os índios por sua “capacidade de obter imagens apropriadas e sua compreesão do que constitue a temática pictórica.” As imagens que empregaram Pollock e seus seguidores se basearam nas formas “biomórficas” relacionadas com estruturas de plantas e animais, com símbolos primitivos, com formas que saem de um tratamento livre da pintura e com os modelos (patterns) semiconscientes do automatismo. (EVERITT, 1984, p.12-13, tradução nossa).59
59El joven Jackson Pollock se interesó en Jung a mediados de la década de los treinta y recurrió a un analista
junguiano al empezar un tratamiento psiquiátrio contra el alcoholismo en 1937. Comparó lo mejor que vio en el arte contempoáneo con la pintura índia americana, elogiando a los índios por su “capacidad de obtener imágenes apropriadas y su comprensión de lo que constituye la temática pictórica”. Las imágenes que emplearon Pollock y sus seguidores se basaron en formas “biomórficas” relacionadas con estructuras de plantas
A crise de 1929 é mais um fato que compôs o panorama ao qual o Expressionismo Abstrato reagia, assim como também foi a origem do que lhe deu projeção internacional. Através do Federal Art Project, de Roosevelt, um programa de auxílio aos artistas como parte da estratégia de elevação dos EUA por meio da popularização da arte, muitos puderam desenvolver seu trabalho sem as decorrentes preocupações financeiras. Isto deu força à popularização da vanguarda européia e também à tradicional escola realista norte-americana, que então se mostrava muito preocupada com a realidade social e se aproximou dos Muralistas mexicanos. William De Kooning foi um dos que fez parte do plano.
Havia, no entanto, uma rixa entre os realistas e os abstratos, cujo grande respaldo do ultimo grupo estava em Josef Albers e sua fundação, a American Abstract Artists. Porém, Albers também se mostrava dogmático em seu rigor geométrico, e os Expressionistas Abstratos foram artistas dissidentes de seu grupo. (EVERITT, 1984, p.10).
Um desdobramento do Expressionismo Abstrato foi o all-over field (campo total), um tipo de pintura também com influencia oriental. Mark Tobey foi um dos primeiros a prestar atenção na atitude quietítsica do Zen. Começou a experimentar com a pintura monocromática, que exige um nível aguçado de atenção.
Esse tipo de pintura, também chamada de color field (campo de cor) segue o mesmo princípio que a action painting de Pollock, com a diferença de que ao invés de aplicar uma repetição de motivos através do gestual, aplica-se somente a cor. Cria-se a repetição do único ou quase único, pois nuances podem ser percebidas quando a pintura é monocromática, e também se pode obter efeitos ópticos e evocadores da linguagem do irracional, ou pré-linguagem, por meio da justaposição de campos de cor.
A escala é uma característica importante na pintura de campo, espacial: a preferência é por tamanhos grandes, de dimensões murais, imersivos; ou então, opta-se pela escala humana, dando a sensação de estar-se diante de uma presença, de um corpo subliminarmente semelhante. Tamanhos grandes também evocam a experiência do sublime, de enfrentar uma presença desconfortável, descomunal e ainda assim se sentir desafiado a contemplar a sua imensidão.
Entre os artistas da pintura color field estavam Barnett Newman, Mark Rothko, Clifford Still, Robert Motherwell e Ad Reinhardt. Newman concebia campos de cor rigorosamente monocromáticos que se punham em relação, sem um ponto central de atenção, para preservar y animales, con símbolos primitivos, con formas que salen de un tratamiento libre de la pintura y con los modelos (patterns) semiconscientes del automatismo. (EVERITT, 1984, p.12-13).
a integridade do campo. O mesmo era explorado por Rothko, diferindo quanto à pincelada, mais esfumada, evocando o inefável, além da relação de cores se manterem sem um ponto focal, preservando a totalidade engolfante do campo.
A arte de Barnett Newman e Mark Rothko era pensada como um momento de espiritualidade, um convite ao silêncio e à meditação. As útimas pinturas de Rothko, de cores monocromáticas escuras ou inteiramente negras, compõem o ambiente da Rothko Chapel, construída em 1971.
A capela foi concebida como um espaço expositivo e ao mesmo tempo meditativo. As obras ali expostas parecem ter refletido o estado de animo dos últimos anos de vida do artista, que se suicidou em 1970, em seu ateliê. Rothko era crítico da sociedade e do sistema da arte, tendo simpatizado com o anarquismo. Sua morte, no entanto, engendrou uma briga judicial entre marchands e sua família.
A pintura monocromática e de tons escuros ou completamente negros seria ainda levada ao extremo por Ad Reinhardt, abandonando assim o expectro do Expressionismo Abstrato e adentrando o Minimalismo. Porém, buscava um efeito visual único, impossível de reproduzir.
Ad Reinhard é classificado como membro temporário da escola de Nova Iorque. No fundo ele se opunha ao expressionismo abstrato: a imediatez e a indeterminação também lhe eram alheias. A claridade religiosa das formas orientais de expressão estava mais de acordo com sua mentalidade e buscou a pintura “definitiva” que, como a imagem de Buda, seria “sem folego, nem tempo, nem estilo, sem vida, imortal, infinita”. Admirava a Mondrian, desprezava o Surrealismo e ignorou a caligrafia. (EVERITT, 1984, p. 35, tradução nossa).60
Na Europa, o Expressionismo Abstrato é o equivalente da Abstração Informal e do Tachismo, uma pintura da cor liberta. Seus expoentes são Jean Dubuffet, Georges Mathieu, Henry Michaux e sua exploração expressiva da caligrafia e escrita automática. O expressionismo de Francis Bacon era também influente, e destacam-se a obra de Patrick Heron e Alan Davie, que teve relação com o grupo Cobra, surrealistas outsiders.
Também surrealista, Brion Gysin, pintor e artista multimídia, que seria expulso do grupo de André Breton, marcou sua influência no momento expressionista underground (a cultura beat), ao se juntar a William Burroughs no desenvolvimento da cut-up technique, uma técnica de poesia aleatória.
60
A Ad Reinhardt se le califica como miembro temporário de la escuela de Nueva York. En el fondo se oponía al expressionismo abstracto: la inmediatez y la indeterminación también le eran ajenas. La claridad hierática de las formas orientales de expresión estaba más de acuerdo con su mentalidad y busco la pintura “definitiva” que, como la imagen de Buda, seria “sin aliento, ni tiempo ni estilo, examine inmortal, infinita”. Admiraba a Mondrian, rechazaba el surrealismo e ignoró la caligrafia. (EVERITT,1984, p. 35).
Gysin e Burroughs moraram no Marrocos durante o final dos anos 1950 e década de 1960, onde estabeleceram uma comunidade boemia, publicando revistas literárias underground e desenvolvendo pesquisas artísticas locais. Brion Gysin cria, no fim dos anos 50, uma obra cinética chamada Dream Machine, que mescla o meio escultura-cinética com o meio projeção, cuja tela são os próprios olhos do espectador.
A Dream Machine consiste em um cilindro cuja superfície seja vazada por uma padronagem repetitiva. O cilindro fica sobre uma superfície rotativa que comporta uma lâmpada no centro. A máquina deve girar numa freqüência que atinja as ondas alfas cerebrais, criando assim um efeito estroboscópico por todo o ambiente. O fruidor deve se sentar na frente da Dream Machine e fechar os olhos. Com o tempo a luz estroboscópica fará surgir imagens eidéticas ou imagens entópicas em sua retina.
Desse modo, além do aspecto estético exterior da escultura cinética, que também cria um ambiente, pois sua luz se espalha por todo o espaço ao seu redor, temos o aspecto realmente cinematográfico das visões produzidas através da incidência estroboscópica sobre os olhos, transformando as pálpebras numa tela de projeção. Assim, o filme assistido pelo fruidor é construído por sua própria mente, é particular, único e original. A Dream Machine foi oficialmente apresentada ao público em 1962, no Museu de Artes Decorativas do Louvre.