A educação no Brasil, a princípio, estava a cargo dos Jesuítas e de outras congregações, encarregadas, acima de tudo, pelo ensino dos princípios religiosos, no intuito de catequizar os índios convertendo-os ao catolicismo, conforme vimos acima. Ressalta Meneses (1966, p. 350-351) que “ainda quando não se iniciara a fixação dos núcleos colonizadores, verificara-se a tentativa dos jesuítas para aldear os índios e educá-los, segundo o propósito e a pedagogia dos filhos de Santo Inácio”. Embora, no Ceará, tenham fracassado, com a morte do padre Francisco Pinto e a fuga do padre Luis Figueira da região da Ibiapaba, pela hostilidade dos nativos, os inacianos fundaram dois hospícios aqui. Um em Viçosa e outro em Aquiraz.
As primeiras instruções aqui ministradas foram por estes religiosos, como em todo Brasil. Conforme vimos, foram eles que fizeram a segunda tentativa de colonização da capitania, tendo acesso a ela pela Ibiapaba. Na serra, precisamente, na vila de Viçosa Real, hoje a cidade de Viçosa do Ceará, através da Carta Régia de 9 de novembro de 1720, do Conselho Ultramarinho, foi criado o colégio daquela vila. Em seguida, o de Aquiraz que data de 1727, afirma Castelo (1970).
Estes dois núcleos de educação no Ceará, acentua Senador Pompeu apud Castelo (1970, p.17) “eram os únicos encarregados pelo ensino público, e davam gratuitamente tanto a instrução primária como a secundária, mas esta sòmente àqueles jovens que se destinavam ao sacerdócio”.
A expulsão dos Jesuítas de todo os reinos de Portugal, através do Decreto do Primeiro Ministro de Dom José, O Marquês de Pombal, marcou profundamente a vida da colônia. A atitude de Pombal fez com que muitos estabelecimentos instrucionais fechassem. Os jesuítas que residiam no hospício do Ceará foram escoltados a Recife e embarcandos para Europa em 5 de maio de 1760.
Ressalta Castelo que os núcleos de Viçosa e Aquiraz tornaram-se as bases de nossa formação intelectual, educacional e religiosa. Foram estes núcleos jesuíticos fundados no Ceará, que deram o ensino profissionalizante a rapazes e moças e educação às crianças.
Evidentes o pregresso e a iniciativa desses primeiros educadores e mestres em nossas terras. Nas cinco aldeias cearenses vamos encontrar: no setor profissional 23 rapazes; aprendendo a fiar e a coser, o elevado número de cento e cinqüenta raparigas, e freqüentando as escolas primárias trezentos e oitenta e sete alunos. Cuidavam-se, assim, do ensino profissional, do doméstico e do de primeiras letras, base para o aperfeiçoamento cultural e prova do alto sentido que emprestavam à educação e à instrução esses mestres da verdade e dos conhecimentos. (CASTELO, 1970, p. 23).
A expulsão dos jesuítas prejudicou a educação na capitania, ficando as atividades educacionais à espera da atitude da corte. Destaca o autor que apesar do estado embrionário em que ficou a situação educacional no Ceará, após a expulsão dos jesuítas, a criação das primeiras escolas públicas coincidem com a atitude da Corte.
É exato que coincide a criação das primeiras escolas públicas, no Ceará, com a atitude da Côrte. As crônicas rezam que em ofício de 18 de maio daquele ano, dirigido ao Capitão-mor do Ceará, ordenava o governo de Pernambuco que todo auxílio militar fôsse prestado ao Desembargador e Ouvidor Geral da comarca, Bernardo Coelho da Gama e Casco, “que vai estabelecer as antigas aldeias, que foram administradas pelos padres jesuítas, em novas vilas com vigários, coadjuntores e mestres que os acompanham” (CASTELO, 1970, p. 33)
De 1759, data da expulsão dos jesuítas, a 1772, perdurou o ensino sem sistema e sem método, sob o interesse local, sem recursos e sem iniciativas louváveis. Em novembro de 1772 o Ministro Marquês de Pombal ou Conde de Oeiras, estabelece o Subsídio Literário reunindo em um só os impostos incidentes em diversos produtos para custear os docentes.
O novo tributo tinha, o que é interessante, aplicação especial: custearia as despesas com a manutenção de escolas primárias e secundárias nas colônias portuguesas, sob a inspeção da Real Mesa Censória, reguladas pela Carta de 6 de setembro de 1772, precedente ao Alvará de novembro, que o instituiu. Começaria vigorar, no Brasil, em outubro do ano seguinte, incidindo sobre a libra de carne consumida, na base de um real, o que não impediu fossem, desde logo, em face de uma ordem régia, estabelecidas aulas no Rio de Janeiro e em outras capitais. (CASTELO, 1970, p. 34).
Mas segundo Meneses (1966) após o alvará de Pombal, abrem-se as primeiras escolas públicas no Ceará, no dia 9 de junho de 1759. Uma em Caucaia, com 142 discípulos de ambos os sexos, alguns já casados. A segunda na aldeia de Paiacus, com 29 meninos e 34 meninas.
No início do século XVIII, o Ceará tinha onze escolas de leituras nas vilas existentes na capitania, afirma Castelo (1970). A função do professor era exercida pelos secretários das câmaras das vilas. Estes eram polivalentes e ensinavam as noções básicas de boas formas do caráter e regras básicas de civilidade, ensinavam o catecismo cristão, as operações básicas de aritmética e a língua portuguesa que consistia nas regras de ortografia e sintaxe.
Já a instrução secundária, ou seja, o estudo de humanística era centrado no ensino de língua latina. Estas aulas de latinidade só existiam em algumas vilas como Fortaleza, Aquiraz, Aracati, Icó, Vila Viçosa e Sobral. Nos documentos do século XIX, é muito comum encontrar-se nomeações de professores de gramática latina para estas vilas, como também nomeações de professores de primeiras letras.
Mas o estado de deficiência escolar era periclitante, que no ano de 1724, só um vereador da capitania sabia escrever, era o sargento-mor Manuel Pereira Lago, que tomou posse do cargo de juiz ordinário. O vereador mais velho e os demais não tomaram posse por não saberem ler.
Sousa Pinto, apud Castelo (1970) afirma que no Ceará do ano de 1759 a 1822, data da independência foram criadas 27 escolas, para uma população de 200.000 habitantes, com uma média de 7.407 pessoas para uma unidade escolar.
Afirma Castelo que em 1799 foi criada primeira cadeira de ler, escrever e contar do sexo feminino, na vila de Soure, atualmente, a cidade de Caucaia, provida pela mestra Ana Clara da Encarnação.
Nos documentos do APEC encontramos uma provisão da Junta do Governo do Ceará de 1822, passada a uma mestra de primeiras letras para ensinar a ler, escrever e outras atividades domésticas às meninas da Capital, visto ao estado de miséria em que estas se encontravam.
Transcrevemos na íntegra esta provisão.
Registro da Provizão de Mestra | d’Meninas nesta Capital | passada a Florinda Chavier | de Almeida
A Junta Provizoria do Gover- | no da Provincia do Ceara &. Faz saber | o que esta Provizaõ virem que tendo | consideração ao mizerio estado, em que | se acha a educaçaõ, e ensino das meni- | nas pobres desta Capital, e concorrendo na | pessoa de Florinda Chavier de Almeida | as qualidades e requizitos necessarios para bem | lhes ensinar a ler e escrever bordar cozer | e mais prendas proprias do sexo e | bem assim os ellimentos dereligiaõ e | Civilidade: Ha por bem provir a | dona Florinda Xavier de Almeida na serventia | do Emprego deMestra de meninas | nesta Capital com o qual vencerá o- | Ordenado de cento e cincoenta mil reis | annuaes, pagos aos quartéis e sera o- | brigada a prestar juramento peran- | te a Camara de bem cumprir, como | deve as obrigações de seu Emprego de que || de que se fara assento nas costas desta | eo referido ordenado se lhe assentará | nos Livros
Aque competir para lhe ser pago | a seus tempos devidos na forma refe- | rida. Pelo que Ordena a Camara desta | Capital, e mais Auctoridades aquém o- | conhecimento desta pertencer a cumpraõ e guar- | dem como nella se contem. Em fir- | meza do que lhe mandou passar a- | prezente por nos abaixo assignada e sella- | da com o Sello das Armas reais que | se registará nos livros da secretaria deste | Governo na Contadoria da fazenda Nacional- | desta Província e onde mais tocar. Dada no Pala | cio do Governo do Ceará aos 23 dias do mez | de outubro de 1822٪ = subecrevi e assignei Joze Raimundo | de Paços de Porbem Barboza, Prezidente- | Francisco Xaves Torres = Francisco Gonçalvez Ferreira Magalhães | = Mariano Gomes da Silva = Jozé | de Agrella Jardim = Estava o Sello | das Armas Reis = Provizaõ por que | Vossas Senhorias vão por bem prover a Florinda | Chavier de Almeida na Serventia do Em- | prego de Mestra de Meninas nesta | Capital como nella se declara = Para | Vossas Senhorias verem = por Despacho da Illustrissima | Junta do Governo de 19 de Outubro de 1822 | Francisco Esteves de Almeida = afez = | Nº 1570 = Pagou mil reis de Sello Fortaleza | 23 de Outubro de 1822٪ = Garcia = Faria ٪(APEC- LIVRO 120)
O quadro geral do sistema educacional na capitania do Ceará naquele período colonial era muito precário. Não é difícil encontrar cartas de reclamação de professores insatisfeitos das péssimas condições de trabalho e dos baixos salários pagos, tais condições e tais salários, eram inferiores aos das outras capitanias. Como é o caso de um Ofício do professor de primeiras letras da vila do Aracati Herculano Julio d’ Albuquerque Mello, de 1834, enviado ao Presidente do Conselho reclamando do abandono com que a câmara daquela vila tratava a escola, da falta de espaço para ensinar e o salário inferior em relação à Bahia e ao Maranhão. Enquanto aqui o professor recebia 400$, e ainda teria que ter pagar aluguel de prédio para poder lecionar, nas supras citadas capitanias, o salário era de 500$ e o professor tinha espaço físico dado pelo governo. Abaixo, transcrevemos uma passagem do texto do professor.
Neste estado, quê gosto, ouquê disvelo pode ter um | empregado, quê fazendo todos os exforços para bem de | zempenhar Suas obrigações, naõ encontra da- || parte do governo aqueles socorros quê lhe são mister | Forçado a pagar do misquinho ordenado, cazas para aula | e para mim,
não bastando a pezada família quê me seria, a- | qual é impossível poder sustentar com o ordenado de 400$ quanto mais gastando uma parte em cazas para a Aula; (APEC- DOCUMENTOS AVULSO).
Ao longo do texto ele faz severas críticas a câmara de Aracati e reclama do descaso desta para com a administração pública, e com os baixos salários que o professor recebe.
(...) em vaõ fiz vêr, quê nas Províncias || da Bahia, Pernambuco, e Maranhão, o ordenado dos professores do | ensino mutuo quer das Cidades quer das Villas era de 500$ e quê na província da Bahia a onde o governo criou d’insino mutuo as | aulas das Villas deCaxoeira, eValença, tinha o Governo dado u | tencilios, e cazas, ou lançando mão de Edifícios Religiozos, ou | alugados por conta da Nação, quê naVilla da Caxoeira a Aula | se tinha estabelecido em um dos Salões do Convento do Car- | mo, e em Valença, na Comarca de Ilheus, em um Salão | da Matriz damesma, equê as da cidade da Bahia ado professor | Lazaro Muniz setinha estabelecido no Hospicio de Jeruzalem | e a do Alferes professor Manoel Joaquim era em cazas alugadas pela | Nação. (...). (APEC-
DOCUMENTO AVULSO) 7
Assim é o ofício do professor denunciando as injustiças e o atraso em que se encontrava o ensino público no Ceará, principalmente, nas vilas distantes da capital. Acreditamos que esta realidade fosse também de todas as demais vilas. E, é neste contexto, que os documentos que analisamos são escritos, ou seja, em uma sociedade altamente dividida e com um sistema educacional ineficiente que não atendia a todos os necessitados de saber ler e escrever.
Surge uma interrogação em relação aos textos escritos que analisamos: quem os escreveu? Portugueses, brasileiros, descendentes próximos de portugueses? Sem dúvida alguém que freqüentou à escola e detinha um conhecimento lingüístico capaz de adquirir o status de escrivão, apesar de este não ser um dos funcionários do mais alto escalão da administração pública.
Que variedade de língua era usada por este escrivão. Um português tipicamente europeu pautado na norma clássica da gramática ou em uma variedade brasileira
mesclada com a forma rude de falar do povo da terra? Percebemos uma grande contradição ao nos depararmos com os textos. Ora é uma língua extremamente
rebuscada, principalmente na sintaxe, ora é uma forma rudimentar, sobretudo na ortografia.
Responder estas perguntas parece ser uma tarefa um pouco difícil. Talvez não seja possível agora. Interessa-nos aqui apresentar a questão no contexto do sistema administrativo do Ceará Colonial, para que possamos compreender a situação histórica que envolve os textos escritos. Responder estas questões talvez não seja possível, pelo menos neste momento.