3. VERİ VE BULGULAR
3.2. Ege Denizi’ndeki Ada, Adacık ve Kayalıklar
3.2.2. Saruhan Adaları Grubu
Os dire it os da cidadania, embora inter lig ados com os direit os hum an os, nã o se po dem confundir. Dalm o Dallari d eixa clar o es ta dif erenciação a o analisar com profundida de a pr ob lem át ica dos dire itos hum an os no mun do at ua l, afirma ndo que os direitos da cidada nia dizem respeit o aos direit os públicos subjet ivos consagrados por um deter min ado orde nam ento jurí d ico, concreto e es pecífico.
P or s ua vez, os dire itos hum anos s intet iz am uma e xpres s ão muit o mais abrangent e, a partir d o mome nto em que se referem à pró pria pessoa hum ana, que, n a expr essão de Mig uel R ea le a ent en de como v alor-fonte de todos os dir eit os s oc ia is , sign ific and o qu e os dir eitos hum an os em si ( dir eito à vida, d ireit o a não ser escraviz ado, dir eito a u ma n acionalidade, dire it o a não ser submet id o à tort u ra) se colocam no p lan o universal , g lobal, num a persp ectiva jusna turalis ta e nã o soment e num a persp ectiv a d o dire ito positivo e t ópico (Dalmo Da lla ri).
Com efe ito, podemos dize r que a cida da nia é a fr uição de tod os os dir eit os fundam entais e sociais do in divíd uo, neces s ários par a a e xpansão d a p ersonalidade h umana.
Roussea u, a po nt ando p ara a dimens ã o educativa da p olis gre ga, lugar on de se des envo lv eu o s er p olít ico por exc elênc ia, recon hece que o h omem não nasce cidadão, mas apre nd e a sê-lo.
Nilda Teves Ferr eira sintet iza
a e d u c a ç ã o p a r a a c i d a d a n i a p a s s a p o r a j u d a r o a l u n o a n ã o t e r m e d o d o p o d e r d o E s t a d o , a a p r e n d e r a e x i g i r d e l e a s c o n d i ç õ e s d e t r o c a s l i v r e s e p r o p r i e d a d e , e f i n a l m e n t e a n ã o a m b i c i o n a r o p o d e r c o m o a fo r m a d e s u b o r d i n a r s e u s s e m e l h a n t e s . E s t a p o d e s e r a c i d a d a n i a c r í t i c a q u e t a n t o a l m e j a m o s . A q u e l e q u e e s q u e c e u s u a s u to p i a s , s u fo c o u s u a s p a i x õ e s e p e r d e u a c a p a c i d a d e d e s e i n d i g n a r d i a n t e d e t o d a e q u a l q u e r i n j u s ti ç a s o c i a l n ã o é u m c i d a d ã o , m a s t a m b é m n ã o é u m m a r g i n a l . É a p e n a s u m N A D A q u e a tu d o n u l i fi c a ” . 58
Em obra da qu al va liosas lições retir amos, Octavi o Iann i es c reve: o s E s ta d o s e s t ã o s e n d o i n te r n a c i o n a l i z a d o s e m s u a s e s tr u t u r a s i n t e r n a s e f u n ç õ e s . P o r t o d a a m a i o r p a r t e d e s t e s é c u l o , o p a p e l d o s E s t a d o s e r a c o n c e b i d o c o m o o d e u m a p a r a to p r o te t o r d a s e c o n o m i a s n a c i o n a i s , e m f a c e d a s f o r ç a s e x t e r n a s p e r t u r b a d o r a s , d e m o d o a g a r a n t i r a d e q u a d o s n ív e i s d e e m p r e g o e b e m - e s ta r n a c i o n a i s . A p r i o r i d a d e d o E s t a d o e r a o b e m - e s ta r . N a s ú l ti m a s d é c a d a s , a p r i o r i d a d e m o d i f i c o u - s e , n o s e n ti d o d e a d a p t a r a s e c o n o m i a s n a c i o n a i s à s e x i g ê n c i a s d a e c o n o m i a m u n d i a l . O E s t a d o e s tá s e to r n a n d o u m a c o r r e i a d e t r a n s m i s s ã o d a e c o n o m i a m u n d i a l à e c o n o m i a n a c i o n a l . 59
Nesse sentido, adverte M ário Lúcio Quintão Soares q ue, dada a des vir tua liz aç ão q ue rapid ame nte tra ns forma os Es tados e m membros de blocos econô mic os , a noção d e sobera nia, enq ua nt o
58 Nilda Teves FERREIRA. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993,
p.229.
po der indivisível, inaliená vel e incontr astáv el, d eterminant e par a a consolid ação da noção de Estado, constitui agora “ um obstác ul o a s er trans pos to”, c uja tr ansp os iç ão “e xige c omo pres s upos to a consolid ação d o Estado Democrát ico d e Dire ito e implic ando a part ic ipa ção da sociedade civil nas decisõ es pertin entes à de le gação de competê ncias p ara instituição de órg ãos supra nacionais”.60
Esse fenôm eno de tot al inter nacionalização do s Estados ac arreta, entre outros ef eitos, “a lt eraç ões prof unda s nas id éi as de s ober an ia e c id ad an ia v ig ent es no mun do oc ide ntal, desde a Revolução Francesa”, na observaç ão d e José Aug usto Li ndgr en Alves.
Enten de o a utor qu e a aç ão dos agentes e conôm ic os trans- es tadu ais e as n ovas tecnologias da com unicação invia bilizam o exercício da sobe rania pelos Estados e, nesse contexto, t orna-s e ho je ma is necessário do q ue n unca resgat ar a cidada ni a, “ainda q ue mod ifica da, par a que a convivê ncia h umana n ão ret orne aos mod elos hobbesia nos, ou seja, o “d a lei da selva”, do h omem como lo bo do h omem.
Refere D alm o Dallari;
A c i d a d a n i a e x p r e s s a u m c o n j u n t o d e d i r e i to s q u e d á à p e s s o a a p o s s i b i l i d a d e d e p a r ti c i p a r a ti v a m e n t e d a v i d a e d o g o v e r n o d e s e u p o v o . Q u e m n ã o te m c i d a d a n i a e s t á m a r g i n a l i z a d o o u e x c l u í d o d a v i d a s o c i a l e d a t o m a d a d e d e c i s õ e s , fi c a n d o n u m a p o s i ç ã o d e i n f e r i o r i d a d e d e n t r o d o g r u p o s o c i a l .61
60 Mário Lúcio Quintão SOARES. A metamorfose da soberania em face da mundialização, In: Flávia
PIOVESAN.(coord.) Direitos Humanos, globalização econômica e integração regional: desafios do direito constitucional internacional. São Paulo:Max Limonad, 2002,p.564.
Segu ndo o d icionár io Au rélio, “cidadan ia é a q ualidade ou es tado d o cida dã o”. Entende-se po r cidadã o “o ind ivídu o no goz o dos dire itos civis e p olítico s de um Estado, ou no d esempenho de seus deveres par a com este”.62
Etimolo gicamente a p ala vra cidadão ou cidadã, tem or ig em na pa la vra c iv it as , que em lat im sig nifica cidade, e q ue t em s eu c orrelato gr eg o na palavr a po litikos – como sen do a qu ele que hab it a na cid ad e. A pa lavra cidadania era us ada na R oma a nt ig a par a in dicar a situaç ão polít ica de uma pessoa e os d ireitos que essa pessoa tinha ou podia exer cer.
No sent ido at en iense d o termo, cida dan ia pode ser definida como o dir eito d a pessoa de part icipar d as decisões nos d estinos da C idade através da Ekklesia (reu niã o dos cham ados de dentr o par a for a) na Á gor a (praça pública, ond e se a gonizava par a de lib erar s obre dec is ões d e c o mum ac ord o). Dentr o d es ta concepção surge a d emocrac ia grega, em que soment e 1 0% da po pu lação determinava os destinos de tod a a Cid ad e (era m excluídos os escravos, mulheres e ar tesãos )63.
O conceito d os dir eitos hum an os é antigo, mas tem sido desenvo lvido ao longo d a his tória. Os dir eit os natura is ou int rí n s ec os dos ser es hu m an o s j á hav i a m s id o a n t er ior m e nt e mencion ados de f orma e xplícit a e m te xt os re lig ios os (como por exem plo os dez m an dam entos, que recon hec em o d ireit o a vida, a ho nra, et c), literários (como a peç a de teatro Antigone de Sófo cles ), ou pura ment e filosóficos (como os da escola de pensadores de es toic is tas).
62 - HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário da Língua Portuguesa. Ed. Positivo. 3 ed. São Paulo 63 DALLARI, Dalmo. Direitos Humanos e Cidadania. São Paulo. Moderna, 1998 p. 14
Um eve nto m arc ante n es s a ev oluç ão foi a C a rta Mag na in glesa, prom ulga da em 1 21 5, consider ada no mundo anglo-saxão c omo a base do conc eit o atu al d os diret os do Home m. A primeir a declaraç ão dos direit os dos home ns da ép oca moderna é aq uela do E s tado d a V irgí nia (EU A ), es c rita por Geor ge Mas on e ad otad a pe la C onv enç ão de V irgín ia em 12 de junh o d e 17 76. E la foi exte ns am ent e cop iad a por Thomas Jefferson para a Declaração dos Direitos do H ome m, contida na Declar aç ã o de Ind ep en dên cia dos Estados Unidos d a Amér ic a (4 de ju lho de 1 77 6), pelas outras c olônias par a red aç ão dos dire it os do Homem, e pe la A s semblé ia Francesa par a a D eclaração Dos Direit os do Homem e do Cidad ão.
A consolid aç ão da cidada nia f oi u m proces so lon go, comp lexo e tam bém replet o de tensões sociais. Instaura-se a partir do s proces sos de l ut as qu e c ulminar am n a f amosa D ec laraçã o dos Direitos Humanos, dos Estad os Unidos da Améric a do Nort e, e também na Revolução Francesa.
Esses event os romp eram o Princípio de Legit im idad e64 que vigia até ent ão, baseado nos deve res dos súdit os, e passaram a es truturá -lo a partir dos direit os fundament ais do cida dã o. A partir des se momento ent ão to dos os tipos de luta for am travad os par a qu e se ampliasse o conc eito e a p rátic a d e cidada nia e o mun do oc ident al o estend esse para mu lher es , crian ç as , minorias nac io na is, étn ic as , sexuais, etárias . P ode-s e afirm ar, então, qu e ci da dania é a expressão concret a do exer cício da dem ocrac ia.
64 Princípio da Legitimidade: consistia na crença (ou imposição) de que o poder político total só poderia ser
exercido por membros da nobreza. A Revolução Francesa quebrou este princípio, baseada nos ideais iluministas, sendo que anos depois, no Congresso de Viena, retornaram provisoriamente ao poder os antigos monarcas absolutistas depostos pelos revolucionários franceses.
A Declaraç ão d os Dire itos do Hom em e do Cidad ão foi redigida no dia 2 6 de ag os to de 1789, sintetizand o em ap enas dezessete artigos e um preâmb ulo t od os os ide ais libertár ios e lib erais d a prim e ir a f as e d a Revol u ção Fr ances a. P el a p r i m eir a v ez s ão proclamados as li ber dades e os dire itos fundamentais do Homem (ou do h ome m moder no, o h omem s eg un do a b urguesia) de forma ec umênica, visand o a barcar toda a humanida de.
Reformulada em 17 93, serviu de inspiração par a as Cons titu ições francesas de 1848 (Segun da República Franc esa) e par a a atu al. Também fo i a b as e da D eclar aç ão Univ ersa l do s Direitos Humanos pro mulgada pela ONU. Seg ue a ba ixo o docum en to, na í nt egr a, cujos princípi os básicos eram a lib er dade e ig ua lda de p erante a L ei, def esa inalienável à propriedade privada e o d ireito de res is tênc ia à o pres s ão.
A Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão possuía a iconografia familiar à dos Dez Mandamentos.
J ai me P i ns k y et al ref erem que N o B r a s i l , a i n d a p r e d o m i n a u m a a n ti g a v i s ã o r e d u c i o n i s t a d a c i d a d a n i a . D i r e i t o s e d e v e r e s c o m o v o ta r e p a g a r o s i m p o s to s s ã o o b r i g a tó r i o s , n ã o v i s to s c o m o u m a to c ív i c o . E x i s t e m , a s s i m , m u i t a s b a r r e i r a s c u l t u r a i s e h i s t ó r i c a s p a r a a v i v ê n c i a d a c i d a d a n i a . O s d i r e i t o s q u e p o s s u í m o s f o r a m c o n q u i s t a d o s – e n ã o c o n c e d i d o s , c o m o u m f a v o r d e q u e m e s tá “ e m c i m a ” p a r a q u e m e s t á “ e m b a i x o ” . D e s t a fo r m a , a c i d a d a n i a n ã o n o s é d a d a , e l a é c o n s t r u í d a e c o n q u i s ta d a a p a r ti r d a c a p a c i d a d e d e o r g a n i z a ç ã o , p a r ti c i p a ç ã o e i n te r v e n ç ã o s o c i a l .
Cidad an ia consiste, a nos so ver, em respeit ar a d iversidade rac ia l, c ultur al, etária, es tética, rel igios a e s oc ial. S er cida dão é ter dire ito à vida, à liber da de, à propr ie dade, à igualdade per ante a lei: é, em r esumo, ter direitos civis. É também participar no des tin o da sociedade, vot ar, ser votado, ter direit os po lí ticos. Os dir eitos civis e po lític os nã o as s egur am a dem oc racia sem os dire itos s oc iais , aq ue les que gar ant em a particip ação do ind iví du o na riqu ez a colet iva: o dir eit o à e ducação, ao trab alh o, ao salário justo, à saú de , a uma v el hic e tran qüi la. E xercer a c ida da nia p len a é ter dir eitos civis, po líticos e sociais. Contudo, sonhar com cida da nia plena e m uma sociedad e p obre, em q ue o acesso aos bens e ser viços é restrito, seria utópico.