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Entre o cessar-fogo no conflito civil em Espanha e a eclosão da segunda Guerra Mundial, passaram-se apenas alguns meses. A 1 de Abril de 1939 as tropas nacionalistas declararam vitória sobre os republicanos, dando lugar à edificação do “Nuevo Estado”, liderado pelo general Francisco Franco. Ao longo de três anos de conflito, a participação activa das forças militares da Alemanha nazi e da Itália fascista, assim como a opção política de “não-intervenção” seguida pela França e Inglaterra, foram determinantes para o desenlace a favor da causa franquista. O teatro espanhol, onde se desenrolou a “última das guerras político-ideológicas, religiosas e românticas”, foi também o laboratório de ensaio das tácticas militares alemãs que em breve seriam experimentadas em toda a Europa. No início de 1937, a Itália associou-se ao Pacto Anti-Komintern, abrindo caminho para a constituição do Eixo Roma-Berlim.

Em Portugal, a ascensão do franquismo ditou a consolidação interna (...) num quadro onde o

poder político controlava, com a segurança e a dureza suficientes, todos os sectores políticos e sociais (...),331 visível em todas as dimensões. O esforço de apaziguamento das direitas radicais,

canalizadas para as novas formações milicianas mas sob apertada vigilância de Salazar, o reforço da segurança do aparelho estatal pela subordinação do exército, a concretização da política de “reeducação” nacional, profundamente ideologizada, fundadora da escola nacionalista e do novo homem português, enquadraram-se neste processo de consolidação.

Quando, a 1 de Setembro de 1939 as tropas de Hitler invadiram a Polónia, rebentou o segundo conflito mundial, ao longo do qual o Estado Novo se conservaria entre uma primeira fase de “neutralidade geométrica”, equidistante das forças aliadas e do Eixo, deslizando depois para um cenário de “neutralidade colaborante”, de intensificação da aliança luso-britânica, à medida que a Espanha ensaiava uma aproximação ao governo do Reich e a ameaça anexionista pairava sobre o

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Proposta de Soares de Oliveira à 3.ª Secção do Congresso – “A juventude na vida nacional”, I Congresso (...), p.197.

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regime português.332 Ainda antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Salazar procurara afastar o Estado Novo de eventuais associações aos nacionalismos agressivos que a Guerra Civil fizera exaltar. A queda da França, em Junho de 1940, anunciou a viragem interna, onde à sensação de distância da guerra se sobrepôs o perigo real do expansionismo hitleriano. Fundamental era assegurar agora, a todo o custo, a neutralidade peninsular, e conter os ímpetos colaboracionistas de Franco.

A crise de segurança internacional evidenciada ao longo do ano de 1939, contribuiria em larga escala para que o regime encetasse um progressivo esvaziamento dos aspectos mais fascizantes do aparelho institucional montado. Esta “normalização” das instituições que mantinham maior similaridade com organismos fascistas e nazis, teve início logo a partir de 1937, culminando, às portas da guerra mundial, numa maior contenção das suas dinâmicas totalizantes. Também o painel ministerial obedeceu a uma nova imagem, afastando algumas das figuras mais conotadas com a ala germanófila do regime, cujos lugares foram ocupados por elementos de um sector mais “neutral” ou anglófilo. Em Agosto de 1940, Salazar entregou a pasta das Finanças a João Pinto da Costa Leite, substituiu Manuel Rodrigues Júnior por Adriano Pais da Silva Vaz Serra no ministério da Justiça e atribuiu a recém-criada pasta da Economia a Rafael Duque, conservando para si os gabinetes da Guerra e dos Negócios estrangeiros. Carneiro Pacheco, de conhecidas tendências germanófilas, deixou a Educação Nacional, sendo destacado como embaixador extraordinário e plenipotenciário de Portugal junto da Santa Sé. Para ocupar este ministério foi nomeado o católico e monárquico conservador, Mário de Figueiredo.333

No quadro de reformulações do executivo, também Nobre Guedes foi enviado a novo destino, abandonando a direcção do Comissariado Nacional da M.P. para assumir funções na Legação de Berlim. A tão criticada germanofilia do comissário nacional cessante e a cultura de relações próximas que mantinha com elementos do aparelho nacional-socialista, terão estado na origem da opção de Salazar em conservá-lo naquela missão diplomática, para que oferecesse um conhecimento mais profundo da realidade interna alemã.

Em consonância com esta operação remodeladora, a nova direcção da Mocidade Portuguesa veio reconhecer a urgência de atenuar as linhas filo-germânicas que a tinham desenhado na origem. Neste sentido, a chefia da instituição foi assumida por Marcelo Caetano, professor de Direito na Faculdade de Lisboa, cujas simpatias anglófilas e “pró-escutistas” poderiam contribuir para uma

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Cf. Fernando Rosas, O Estado Novo (...), p. 306 e sgs.

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Mário de Figueiredo (1890-1969). Professor catedrático da Faculdade de Direito de Coimbra. Católico e monárquico, foi amigo próximo de Salazar, com quem militou no Centro Académico de Democracia Cristã. Ministro da Justiça e dos Cultos em 1928, demitiu-se na sequência da polémica gerada pela “Portaria dos Sinos”, que levou à saída de Salazar da pasta das Finanças e consequente queda do governo. Ministro da Educação Nacional entre 1940 e 1944. Vide Anexo I.

menor conotação da MP com as organizações juvenis alemã e italiana, embora conservasse muita da sua imagética. Em 17 de Agosto de 1940, Caetano deu resposta positiva a Salazar face ao convite insistente, formalizado pelo Ministro da Educação Nacional, para ocupar a chefia do Comissariado Nacional.334

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Benzer Belgeler