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2.4. FARABİ’DE ERDEMLİ OLMAYAN YÖNETİM BİÇİMLERİ

2.4.4. Sapkın Şehir

Como já demos a entender, a escolha deve-se ao interesse crescente que o escritor madeirense tem despertado, bem como à variedade e à riqueza do material

existente em torno do seu romance Ilhéus/Canga (cartas da editora, prefácio de Aquilino Ribeiro, original de imprensa com emendas autografas, as três versões, a publicação em folhetim e as adaptações) que estava por explorar.

Para o contexto da actividade literária madeirense, o estudo de Ilhéus/Canga afigura-se-nos relevante porque se trata, ao que tudo indica, de um dos romances maiores que a ilha jamais inspirou a um dos seus filhos (nesse lote, incluímos Um Buraco na Boca, 1971, de António Aragão, O Último Cais, 1992, de Helena Marques, e Uma Família Madeirense, 2005 (edição póstuma), de João França).

Além da crítica favorável da época, vinda tanto da imprensa regional como da nacional, são vários os testemunhos de intelectuais madeirenses que apontam nesse sentido: João França, José António Gonçalves, João David Pinto Correia, Rui Nepomuceno e Nelson Veríssimo.

Para o enquadramento da obra de Horácio Bento, o estudo de Ilhéus/Canga importa porque é, cronologicamente, o seu primeiro romance. Traz várias chaves interpretativas, enceta as linhas de força do seu imaginário ficcional, nele se encontram, esquematicamente, as técnicas que inspiram toda a sua obra romanesca.

Com efeito, Ilhéus é a génese do ciclo inicial de um projecto literário que se declina em três vertentes: a memória, a evocação e a observação, sendo a primeira responsável pela carga afectiva capaz de dinamizar a segunda e a terceira, e dar-lhes aquela crispação que trai o fundo autobiográfico. Quer isto dizer que os percursos de ficção têm buscado o seu material referencial genético nos relatos autênticos ou em factos testemunhados pelo próprio autor.

Horácio Bento de Gouveia parece pretender, através da recuperação de episódios e discursos relativos a dezenas de figuras da freguesia que conheceu, reconstituir uma parte importante da memória local e, nessa linha de estrita coerência com o seu trabalho

de levantamento da paisagem madeirense, vai registando na sua obra as transformações resultantes de obras e trabalhos levados a cabo no arquipélago da Madeira. Cremos, assim, que o fundamental, desenvolvido ou em embrião, estava já no primeiro romance.

Ilhéus/Canga permite ilustrar a persistência e a adaptabilidade da anti-pastoral naturalista. Este romance madeirense evoca constantemente os ritmos e os ritos que determinam a regular continuidade da vida rural. Dá uma visão tão naturista como naturalista e apresenta a vida humana, a passagem do tempo, o nascimento, a maturidade, a velhice e a morte na perspectiva do tempo circular, com os seus eternos regressos, seguindo a ordem estabelecida desde os primórdios.

Demarcando-se da tradição do idílio rural, que associamos a um Júlio Dinis ou a um Trindade Coelho, o texto bentiano é uma resposta à idealização do romance rural português, com a sua sentimentalidade intempestiva, a sua pieguice pastoral e o seu falso lirismo.

Opõe-se também à tradição da narrativa “melodramática” de Camilo – à febrilidade e à prolixidade da ficção paraliterária, ao sobrepor ao interesse narrativo do romance de grande aceitação “popular” uma moralidade final.

Vem, antes, reforçar a posição do romance de aprendizagem, uma quase novidade do romance português do século XX13, seguindo o trilho iniciado por escritores como Aquilino Ribeiro, com A Via Sinuosa (1918), Soeiro Pereira Gomes, com Os Esteiros (1941), ou José Régio, com o seu Uma Gota de Sangue (1945), sendo que todo o enredo gira à volta de jovens que procuram aprender a ser homens por

13 O romance da adolescência tinha sido introduzido no romance português muito provavelmente pelo grupo de escritores da Presença, como é lógico supor, dado ter enveredado para o campo literário da introspecção. O psicologismo tem de investigar, obviamente, as raízes para explicar as causas e os efeitos dos actos humanos. Descoberto o filão, não é de estranhar que outras correntes literárias com pretensões de índole muito diferente das psicológicas tenham explorado este campo, como aconteceu, por exemplo, com o neo-realismo. Bons exemplos dessa categoria narrativa são Sedução, 1938, de José MARMELO E SILVA e Sinais de Fogo, 1979, de Jorge de SENA.

caminhos incertos. Nestes romances, cada etapa/episódio constitui uma lição de identidade, em que o protagonista descobre quem é à medida que vai avançando; a experiência – quase obrigatória – da vida longe da casa paterna possibilita a emanação de tensões profundas no espírito do adolescente.

Ilhéus/Canga anuncia, ainda, o fascínio que o romancista tem pelas mulheres, visível na forma como elas povoam os seus textos literários e no princípio gerador da sua escrita narrativa – sendo o livro Luísa Marta um caso à parte relativamente ao que se segue, mas não ao que acabamos de afirmar –, que coloca o habitual protagonista masculino quase sempre como um arquétipo de si mesmo, em situação de descoberta de vários tipos femininos.

Outra chave que ressalta da leitura das obras de Horácio Bento é que o autor elegeu a freguesia da Ponta Delgada como o centro geográfico-sentimental da sua insularidade. Ponta Delgada parece ser, para o escritor, o primeiro critério de escolha quanto aos assuntos tratados e uma fonte inesgotável de inspiração. Ela representa, por assim dizer, a dupla aldeia bentiana: a cosmogonia onde permanecem os homens e a vida ancestral do povo madeirense, assim como os vultos fantasmagóricos das lendas locais que Bento de Gouveia convoca para fazer companhia aos vivos. Até nos romances de localização citadina ou da deslocação para terras distantes (a segunda parte de Águas Mansas e de Torna-viagem, bem como Margareta) –, incessantemente, esse mesmo centro funciona ora como lugar de origem ou lugar que não esquece, ora como ponto de retorno ou lugar de peregrinação.

De facto, Ilhéus/Canga dá início a uma grande súmula romanesca de atmosfera madeirense, vivida e sentida, sem folclore para leitor ver, mas para leitor entender, que constitui a essência da obra de Horácio Bento.

Tal expressão madeirense no campo literário pode delimitar-se pelos quatro critérios14 que se enunciam: i) a origem insular do autor, assumida em profundidade; ii) o desenrolar da acção em grande parte na Madeira, envolvendo sempre protagonistas madeirenses, com os seus costumes e modos de vida; iii) a transposição para a escrita de modos de falar típicos; iv) a abordagem de uma problemática socio-económica e moral inerente à sociedade madeirense.

É claro que este processo novelístico tem as suas vantagens e interesse. Revela um universo romanesco próprio, pela fusão de experiências literárias anteriores com o espírito do lugar. Além disso, enriquece a paleta da variação linguística portuguesa para fins literários – recurso esse que confere maior realismo às situações retratadas, pois não existe enunciação que não seja biográfica15, alarga a galeria de tipos humanos portugueses com caracteres madeirenses e indicia um novo conceito de autonomia literária, desde então em debate, como se verá na segunda parte deste estudo.

Por último, pensamos que é possível apresentar, com base na análise das reescritas do romance Ilhéus/Canga, algumas linhas coerentes de visão do mundo do autor, através do confronto das várias versões e do estudo da sua transversalidade para outras linguagens artísticas, que tanto remetem para o campo da estilística como, em última análise, até pelo aspecto do regionalismo que tocam, para o campo ideológico.

14 Estes critérios foram enumerados por João David Pinto Correia, numa comunicação oral, improvisada, proferida em Junho de 2001, em São Vicente, Madeira, numa mesa redonda organizada pela Associação dos Escritores da Madeira em colaboração com a Câmara Municipal de São Vicente, para comemorar o centenário do nascimento do escritor da Ponta Delgada.

15 Veja-se, por exemplo, o contraste entre a linguagem do senhorio e a linguagem do colono, como no diálogo da página 181, em Canga (1975).

Benzer Belgeler