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CHAPTER 1. INTRODUCTION

1.1. Sandwich Structures

O imperador do Brasil, D. Pedro I, naquela época, sente a necessidade de uma história nacional e de historiadores que garantam a construção de um passado colonial que pudesse orientar a Nação para um futuro; cria, então, o Instituto Histórico e Geográfico em 1838/39, todavia, o imperador garante, apenas a elaboração de uma história centralizada em sua própria figura. Já naquela época, havia a consciência de que, devido à grande extensão territorial, havia diversidade, na questão de costumes e de usos, climas e atividades econômicas, mas a história a ser escrita deveria enfatizar a unidade.

O botânico alemão, Karl Philipp von Martius, em seus escritos deixa claro que para se obter uma noção única sobre o Brasil, o historiador deveria viajar pelo país. Essa idéia orienta o trabalho de Francisco Adolfo de Varnhagem (1816- 78)34, que segue pelas províncias e regiões brasileiras e torna-se o inventor do Brasil, sendo o precursor e fundador da História e do discurso da História do Brasil. Ao produzi-la, sua pretensão foi a de identificar o brasileiro, orientando-se para dar respostas às questões que lhe são suscitadas naquele momento. Dessa maneira, ao escrever a História do Brasil, ele o faz, sob o domínio do ponto de vista do colonizador português. Ele reproduz o pensamento dominante no século XIX e afirma que, devido à sua superioridade, o português se impôs étnica, cultural e religiosamente, vencendo militarmente os adversários que, por meio de lutas, conquista e escraviza. Para o historiador,

os negros fizeram mal ao Brasil, com seus costumes pervertidos, seus hábitos menos decorosos, despudorados. Escravos viviam alheios à ternura da família, tinham o coração endurecido. A escravidão trouxe à jovem nação brasileira grandes inconvenientes: abusos, crueldades também em relação ao vestuário, comida e bebida. (HGB:223, apud Reis 1999:43)

Baseado em princípios dialógicos, o panorama histórico sustenta o cenário paradisíaco brasileiro em detrimento do povo não só do século XIX, como também o do século XX. Na formação cultural e identitária do brasileiro tanto o índio como o negro são tidos como aqueles que nada fazem e, também, não contribuem culturalmente com o país que os abriga, constituindo-se em um mal, principalmente, porque não se relacionam afetivamente com os princípios familiares e por serem pessoas embrutecidas, rijas e sem coração. Devido a esse pensar, o natural da Terra deixa de ter voz, sendo assim silenciado, durante séculos.

O cenário histórico-cultural conjugou diferenças como: submissão e poder. Este poder permaneceu centrado, nas mãos de uma minoria, mas foi altamente capaz de fazer emudecer, durante mais de quatro séculos natural da terra. Desse modo, Damatta (1987) afirma que há em toda a diferença, um traço que marca a

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igualdade do povo e que isso torna o Brasil dos excluídos em Brasil. No entanto, o que ao lado de tantas discrepâncias, é possível conferir uma unidade ao Brasil.

Ressalta-se, nesta investigação, que o procurado pode ser encontrado nos registros da literatura, pois a intelectualidade brasileira, no momento, em que teve a preocupação de desvincular o Brasil da Metrópole, fê-lo por apontamentos que revelaram tanto a Identidade Cultural como a formação da Identidade Nacional do brasileiro, e, ao dar-lhe voz, registrou a fala nacional, numa demonstração da Identidade Lingüística do Brasileiro.

Nessa acepção, é preciso observar que esses fatos marcaram a existência de uma consciência da qual emergiu o sentimento de pertença dos habitantes das terras do novo mundo como habitantes de um território, que se individualizara, em relação àqueles das terras d’além mar. Assim, expressões como língua brasileira ou português do Brasil indicam o grau de sistematização do processo de idiomatização do sistema lingüístico do português, no novo território, em função de um processo histórico de deculturação e aculturação inevitável de que já resultara:

... um país unilíngüe, pois uma só língua... em todo o ... território. As línguas africanas foram sendo esquecidas pelas gerações sucessivas de afro-descendentes... se incorporaram à nacionalidade brasileira a que de fato pertence. Quanto às línguas indígenas, há várias delas remanescentes em nosso país, mas sem capacidade de competirem culturalmente com a língua portuguesa (...) necessária à aquisição da cidadania brasileira. (Cf. Elias 1994:115)

O modelo europeu de políticas lingüísticas é, num dado momento, privilegiado pela intelectualidade brasileira para sustentar, no período de luta pela independência, o desvencilhamento do novo país de suas amarras com o sistema colonial português, no início do século XIX. Na primeira metade daquele século, José de Alencar lidera o movimento em favor da institucionalização de um padrão lingüístico nacional capaz de configurar e qualificar uma língua brasileira, todavia, ele reivindica muito mais, ele pretende a liberdade do artista em matéria de

língua, do que a independência da variante brasileira (Nunes, 2002). Machado de

Inicia-se, assim, debates acirrados sobre a identidade do português brasileiro e os escritores reivindicam uma autonomia não só lingüística, mas também cultural e literária, movidos por um profundo sentimento nacionalista.

A consciência da identidade brasileira cresce rapidamente e é revelada na produção literária autóctone, e também, cresce o debate sobre a identidade do português brasileiro. Segundo Nunes, 2002, os neologismos constituem o ponto central das controvérsias da segunda metade do século. Esses neologismos brasileiros são lexias que se situam no nível do signo, quer dizer, palavras designativas de referentes e conceitos brasileiros. Os intelectuais da época afirmam que o português do Brasil é isento de estrangeirismos, é puro e não aceitam a pecha de incorreção lançada pelos portugueses aos escritores

brasileiros. (Nunes, 2002, p. 208)

Pode-se afirmar que, entre os escritores intelectuais, há uma variação quanto à designação da língua do Brasil, oscilando entre dialeto brasileiro, luso-

brasileiro, neoportuguês, brasileiro, nosso idioma... e não raro, esses escritores

designam o português do Brasil como dialeto outras vezes dizem língua brasileira, ou seja, embora debatam sobre a importância de se ter uma língua inteiramente nacional não raro, fazem confusões ao denominá-la. É, na segunda metade do século XIX, que há uma consciência da particularidade no léxico brasileiro que leva alguns estudiosos a organizarem e a publicarem coletâneas vocabulares de caráter regional, além de alguns pequenos dicionários, alguns até com definições claras e precisas inclusive com informações sobre fonética e etimologia que é o caso do dicionário de Antonio Joaquim Macedo Soares, publicado, em 1888, que se constitui apenas até a letra C. Sob profunda preocupação, o autor revela que já é tempo de os brasileiros escreverem da mesma maneira que falam. Assim, dá-se ao dicionário o papel de registrar a linguagem aceita e valorizada na comunidade, justamente por ser o responsável por guardar um acervo lexical da cultura, constituindo-se, assim, referência básica da comunidade. (Cf. Nunes, 2002, p. 75)

Cumpre afirmar que para o pesquisador nesta investigação, o texto literário exerce um papel de relevo nesse mister, pois deve ser lido como fonte de um léxico nacional, em uso no século XIX. Ele ainda afirma que se deve focalizar o

texto literário, fundamentando-o na compreensão da sua própria especificidade, deixando-se de lhe atribuir importância unicamente como obra de arte a ser contemplada; de sorte que, a leitura do romance e do conto perde o valor de mera distração e assume a concepção de documento historiográfico, neles se encontrando as representações de acontecimentos inerentes às práticas sociais ordinárias e extraordinárias, vividas pelo povo, registradas em língua nacional. Essa outra maneira de se entender o texto literário demonstra o início de um novo tempo, marcado pela ruptura com os estilos de épocas literárias anteriores. Manifestam-se, dessa forma, nos registros literários, sentidos que favorecem o conhecimento e reconhecimento mais profundo da cultura do povo brasileiro, como uma comunidade que tem sua própria identidade, inscrita em um modelo de idiomaticidade do sistema lingüístico da língua portuguesa, apontando-se assim as marcas brasilidade do novo homem de quem se tem registro no discurso da História-Oficial. Nele se encontra um recurso de grande importância na comunicação humana é a seleção lexical, que permite, a partir de dadas escolhas lexicais, representar algo.

Benzer Belgeler