Toda a atividade imaginativa possui atrás de si uma história, com perceções internas e externas, como resultado da experiência do indivíduo. O que a criança ouve e vê constitui material para as suas futuras fantasias. Este material vai ser transformado, de forma complexa, fragmentando-se o todo em diversas partes, sendo algumas delas guardadas na memória e outras esquecidas, “Este processo (denominado dissociação) é muito importante em todo o desenvolvimento mental do homem, serve de base do pensamento abstrato e é o fundamento
da formação de conceitos” (Vygotsky, 2012, p. 48). Os elementos resultantes deste processo de dissociação são posteriormente sujeitos a deformação ou modificação, apoiadas na dinâmica das estimulações nervosas e das imagens correspondentes. Vygotsky (2012) diz-nos que os traços resultantes das impressões exteriores são armazenados no cérebro, não como uma pilha de impressões aí armazenadas, mas como traços dinâmicos, que se movem, alteram, vivem e morrem, sendo nesta dinâmica que reside a certeza das modificações, deformações e reelaborações, ocasionadas pelos fatores externos. Estas modificações internas são, por exemplo, os processos de sobrestimação das impressões agarradas da realidade. Os exemplos criativos que a criança e o adolescente viu ou ouviu, a socialização primária e secundária, o meio envolvente, todos eles são fatores que contribuem para a atividade imaginativa. Há muito que se sabe que o desejo para criar é diretamente proporcional à sofisticação e complexidade do meio. Waismann, citado por Vygotsky (2012) propõe o seguinte exercício:
“Suponhamos que nas ilhas Samoa nasce uma criança dotada com o talento e o génio de Mozart. O que pode ela fazer? Quando muito, o que ela pode fazer é ampliar a gama de três ou quatro até sete tons e criar uma série de melodias um pouco mais complexas, mas seria incapaz de compor uma sinfonia ou, como Arquimedes, de criar uma máquina electrodinâmica” (p. 55).
É isto que explica por que a maior percentagem de criadores, seja no campo das artes seja no das ciências, vem das classes privilegiadas, por nelas existirem as condições para a criação. Qualquer criador, mesmo que seja um génio, é o produto do meio social e da sua época, porque as necessidades criadas antes dele vão despoletar-lhe a criatividade e apoiar-se nas possibilidades que existem fora dele. Toda a criatividade reproduz um “processo histórico, em que toda a forma subsequente é definida pela anterior” (p. 55); assim, toda a obra criativa, mesmo que resultado da criatividade individual, carrega sempre um coeficiente social.
Os interesses das crianças e a relação que estabelecem com o contexto são simples e desprovidos de precisão e as suas experiências são também mais pobres que as dos adultos; a imaginação dos adultos é mais rica e os produtos da imaginação infantil pertencem ao mundo do fantástico, cheio de simplicidade e pouca exigência; o desenvolvimento e a imaginação amadurecem ao longo dos anos e aquele mundo do fantástico dá lugar à fantasia amadurecida em que a atividade imaginativa toma uma forma mais acabada. A figura 1 resulta das
investigações de Ribot (1900) sobre a imaginação criativa. A linha a traço contínuo representa o desenvolvimento da imaginação e a linha a traço interrompido o desenvolvimento do raciocínio/inteligência.
Figura 5 - Curva do desenvolvimento da imaginação de Th. Ribot (1900)
Fonte: Vygotsky, 2012, p. 60
O desenvolvimento da imaginação começa mais cedo do que o desenvolvimento do raciocínio para coincidirem no ponto M. Analisando a parte esquerda do gráfico da figura 5, pode-se concluir que a independência da imaginação e da atividade cognitiva infantil “não prova a riqueza mas antes a pobreza da fantasia da criança” (Vygotsky, 2012, p. 60), porque o material a partir do qual a criança constrói a imaginação é mais pobre e as combinações possíveis que consegue realizar e adicionar àquele material são menores; no entanto, apesar de os produtos da imaginação da criança serem menores em termos quantitativos do que os dos adultos, a imaginação das crianças é algo inventado que consegue ser mais irreal, porque a criança acredita mais neles e porque exerce menor controlo sobre eles.
A partir do ponto M, a imaginação segue, passo a passo, a atividade cognitiva, representada pelas linhas MN e XO; contudo, a situação mais comum está representada pela curva MN’ sobre a qual Vygotsky (2012) nos diz que:
“A imaginação criativa diminui e isto é o caso mais frequente. A exceção é devida apenas aos mais dotados de imaginação talentosa, a maioria dos quais entra a pouco e pouco na prosa da vida quotidiana, enterra os sonhos da juventude, considera o amor uma quimera, etc. Isto, todavia, é apenas uma regressão e não uma anulação, porque a imaginação criativa não desaparece por completo em ninguém, mas passa a ser algo acidental” (p. 62).
Ao olhar mais de perto a fase que divide estes dois períodos, considerada a fase crítica, MX corresponde à transformação da imaginação de subjetiva para objetiva e à diminuição quer do interesse quer do gosto pelo desenho manifestados pelos adolescentes; estes têm uma posição crítica relativamente aos seus desenhos, que veem como demasiado subjetivos e perante os esquemas infantis concluem que não sabem desenhar e muitas vezes nasce uma nova forma de imaginação, que se manifesta sob a forma de criação literária, dando lugar ao incremento das qualidades objetivas. Assim, estes dois tipos principais de imaginação caracterizam-se pelo material interior ou exterior, que lhes serve de base, e pelas regras de que se socorrem na construção da fantasia, sendo externa a imaginação plástica e interna a imaginação emocional. É pertinente questionar se existe uma relação imediata entre atividade imaginativa e talento. Segundo Vygotsky (2012),
“Existe uma opinião muito difundida de que criatividade é privilégio dos eleitos; […] Esta posição não é justa […]. Se entendermos a criação no plano estritamente psicológico, como criação de algo novo, facilmente se conclui que a criatividade é fortuna de todos, em maior ou menor grau, e que ela é a companheira habitual e permanente do desenvolvimento infantil” (pp. 65-66).
Nas crianças consideradas normais é fácil identificar a criatividade, mas o mesmo não se aplica às crianças sobredotadas nas artes plásticas. Os wunderkinder são frequentes na área da música mas muito raros nos pintores e nos poetas; a existirem, manifestam o desenvolvimento precoce mais tarde do que os músicos, assim, Vygotsky (2012) refere
“Nas artes plásticas, a vocação e as capacidades para a criação revelam-se de um modo geral mais tarde, em média aos catorze anos; Giotto revelou-se aos dez anos, Van Dyck aos nove, Rafael aos oito e Greuze aos oito, Miguel Ângelo aos treze anos, Dürer aos quinze, Bernini aos doze. Rubens e Jordans também se desenvolveram muito cedo” (p. 67).
São indícios de uma genialidade futurível, que está para ser, mas ainda longe da verdadeira criatividade considerada superior. São tormentos indicadores do despertar da actividade repleta de genialidade.