As mulheres são atendidas em um Centro Obstétrico, em Maranguape, cidade do Estado do Ceará. Todas são nativas da cidade de Maranguape, a minoria da zona urbana e a grande maioria procedente da zona rural.
A idade das mulheres oscila dos 15 aos 45 anos. Quanto aos estudos, poucas concluíram o Ensino Fundamental e a grande maioria não é escolarizada. Todas são assistidas pelos benefícios sociais do Governo Federal, tais como bolsa escola, bolsa família, não têm emprego com carteira assinada e apenas fazem serviços avulsos de lavagem de roupa, faxineiras, babás e empregadas domésticas.
Quanto ao estado civil, dizem ser casadas “no padre e no papel” ou em união com o companheiro como “juntas” ou “namoradas”. Estão no segundo, no terceiro “casamento,” ou sem companheiro, ou “largada,” viúva, “por enquanto sem ninguém”. Residem com suas mães, ou com o companheiro e as casas em que moram todas são construídas em “terreno da
Prefeitura”.
Em média, moram de 8 a 10 pessoas por cada casa de 2 cômodos, todas com luz , mas sem saneamento básico. Muitas referem-se ao núcleo familiar como difícil, com pai, companheiros, ou irmãos envolvidos com dependência de drogas lícitas e ilícitas, ex- prisioneiros, “devendo à justiça”.
51 Hospital em que a pesquisa se realizou.
Os pais de seus filhos em geral são um por gravidez e desfazem muito amiúde as relações afetivas, “infelizmente”, pois os homens “são uma sombra, um amparo”, “mas
quando não prestam é melhor ficar só que mal acompanhada”.
Relataram sofrer com frequência espancamentos e maus tratos de seus companheiros. Por isso, algumas “se juntam”, pois o casamento traria mais “dificuldade de
separação”. As acompanhantes - as mães - são “participantes complementares” (BAKHTIN,
2008) e polifonizam o diálogo da realidade num nível de isomorfismo substancial.
A história se recria e reatualiza em novos contextos com novos atores e mesmos roteiros. A seguir, o quadro 3 apresenta as mulheres52.
Quadro – 3: As mulheres: uma breve apresentação
1Antônia (parturiente) 6 filhos, 22 anos- “Tô solteira e num quero me casar não, ...(....) sou muito nova, os buchos que peguei foi só doideira, num tenho sorte cum home, cada um é pior do que os otros, só que a gente ...a gente assim... é sem juízo...e depois quando tamos grávida largam, é que eu num mim dou com comprimido”.
2 Neide do São Luís (parturiente)
5 filhos, 35 anos – “Junta tô no derradeiro casamento, derde que embuchei e ele me largou que tô querendo agora é só cuidar dos meus filho, essa coisa de home aperreia muito o juízo da gente, eu conheci uma sapatão ela tá de olho em mim e diz que com mulher é melhor pois não tem bucho, mas num sei não , não sei nada dessas histórias, acho que é mermo o fim do mundo”
3Madalena (parturiente) “Eu ...eu tô já nos quatro.... desse agora é...o último se Deus quiser...tenho 35, tô nus 36... só junta, ....e esse parto foi o pior da minha vida, dos quatro que tive esse foi o pior.”
4 Bebel da Lagoa do Juvenal (gestante)
36 anos 3 filhos: “ é uma esperança que eu fique boa, né. Que eu boto o , o barco pá frente, né. Que eu fique boa, né, ...por que os médico qué que arrente fique boa, né. E quando Deus dá um bucho é sinal que tô, que posso ter saúde né, os outro fi num mim quer bem né e agora eu mais o meu véi nóis se quer muito bem né...esse bucho vai ver, ser uma coisa de Deus nar nossa vida né.”
5 Maria do Lajedo
(parturiente) 3 filhos, 15 anos – “ Junta falta butar os papel no cartório, mas num tô querendo muito não, sou muito nova, êle é mais velho que eu, viúvo, sei lá né, gente muito nova como home mais velho às vez dá e ás vezes não dá certo.”
6 Rosa da Preguiça (parturiente)
3 filhos, 20 anos. “ Desse último companheiro que arrumei já tô arrumando os papel.Ele é bom só num presta quando bebe. Falta agora o do padre, mas o padre lá da Serra só casa nóis quando ele parar de beber e butar buneco”
7 Fatinha da Jubáia
(parturiente) 23 anos, 4 filhos: “Junta pela terceira vez mas dessa vez é a última que tenho minino, tenho fé em Deus e Nossa Senhora que vou arranjar uma ligação. É que dessa vez num deu tempo. Mas daqui a 40 dia eu vou, o dotor me prometeu se eu num tiver relação quando chegar em casa nesses 40 dias ele faz a minha ligação pelo imbigo.”
8 Helena do Cacimbão
(parturiente) 30 anos, 4 filhos: “Largada do último companheiro, só por enquanto”.
9 Dona Francisca (Mãe) 43 anos, 9 filhos,“viúva, a espera de um novo namorado, “essa história da gente viver sem uma sombra é muito ruim, e depois é bom a gente ter um homem né”.
10 Irmã Cleide (Mãe) 45 anos ,10 filhos. “Junta com um crente, um vei muito bom que a mulher largou ele. E agora tá comigo. Meus filhos 6 morreram de morte e 3 foram assassinados nas festas da vaquejada do Itapebussú. Tem 5 vivo, tudo casado e pai de famia e essa única fême que restou agora mãe desse minino home”.
11 Dona Helena da Serra da Onça (acompanhante)
45 anos, 6 filhas: “Solteira mas ainda na fé de arrumar um véio bom que dê sustento e sombra. De todos os buchos todos os filhos foram fême, butei fême no mundo só pra sofrer, infelizmente”
12Cristina(parturiente) 15 anos, 3 filhos: “ Vou parar de ter menino, tá bom, este agora eu vou criar, os outros e dei tudim, um prá vó dele , a mãe do pai dele, o outro pra minha mãe, agora este é pra mim né, na minha velhice, quem vai cuidar de mim ? E eu vou é estudar, fazer ENEM, me formar, ter uma vida independente, já ví que esse homens não prestam.”
13Maria das Rosas 18 anos “meu primeiro filho, eu num queria não mas veio né... Vou criar ele, o pai não quer
52Todos os nomes citados são fictícios de acordo com as resoluções da ética em pesquisa com seres humanos na defesa do anonimato dos sujeitos do estudo.
(parturiente) nem saber, a vontade que da é botar lá na porta da casa da mãe dele. Ele tinha prometido pra mim deixar a mulher dele. Ela é bem mais véia que ele, ele só quer saber do dinheiro dela, ela é viúva de um sargento ganha bem, e ele tá se aproveitando... cabra sem vergonha”.
14 Joselane da Cachoeira(parturiente)
24 anos. 4 filhos. “Eu sempre quis uma menina fême. Graças a Deus veio. Esse pai dessa menina é bom pra mim. Tô no quarto filho dele. Ele trabaia na roça mais eu, lá nos terrenos do Vieira. É um bom marido, só é mudo, mas eu entendo tudo dele.Também lá em casa eu tenho um menino mudo. Lindo ele é.”
15 Cícera das Lages (parturiente)
30 anos. “Eu tenho 3 filhos. Dois do meu primeiro marido.O meu mais velho de 16 anos também tá junto e a mulher dele mais velha que ele tá grávida, Deixei,... num prestava, o segundo, uma menina tem 15 anos e já sou vó. Tem uma nenênsinha linda. Agora eu abortei. Foi o jeito, peguei esse minino sem querer, e graças a Deus meu namorado me arrumou um citotec. No começo tive medo de usar, a gente fica assim né pensando, mas ele mim deu a maior força, Num dava não pra gente se juntar e antes de um filho agora. Foi o primeiro e último.Já sou vó né, e ter que ter menino novo a essa altura do campeonato não. Deus me alivre.Eu vou é pedir o vereador lá da Jubaia pra ver se arranja uma ligação pra mim. Tem é muita mulher que ele arranjou ligação nas inleições... política mermo né... a gente só consegue as coisas nas inleições.”
16 Raimunda da Papara (parturiente)
32 anos 4 filhos: “ pelejei pra mim auperar, nas não não deu tempo. Vou levar os papél53 [...]e depois do resguardo o dotor disse que me aupera . Só tenho um menino comigo, o resto eu dei.”
17 Angélica do Rato de Baixo
(parturiente)
4 1 anos . “Eu tô assim né um pouco arrependida, mas às vezes não. Eu sei que é pecado, mas só Deus sabe o que eu passo na minha vida. Vivo assim sem muito juízo, sei que estou em pecado. Já fui da Igreja, mas voltei a beber, e quem me botou na bebida foi ele. Já tive três filhos dele. O mais velho me botou pra fora de casa. Por isso é que eu abortei. E eu nem sabia que tava grávida. Foi só àquelas dores e o sanguaral escorrendo entre minhas pernas. Aí a Enfermeira de lá me botou na ambulância e o dotor... disse que era um aborto”.
18 Rita de Cássia do Rato de Cima (parturiente)
33 anos, 5 filhos. “Fiz ligação, graças a Deus. O meu último menino morreu. Só foi passar o resguardo que vim ligar. Mulher, tu nem sabe, é igual a gente se operar. Tô sentido muita dor. Mas tõ satisfeita. O dotor... disse que esse último menimo morreu é porque eu tenho pressão alta, e ele ainda nasceu de bunda mulher, afe maria, é horrível parto de menino de bunda, eu nunca tive não esse do menino que morreu é que foi a primeira vez.O bichim era tão gordo, mas o dotor Falou que faltou oxigênio pra ele. Nasceu roxo”.
19 Anjo do Céu. Maria Celeste. (Paciente faleceu no parto durante o período da pesquisa).
21 anos 2 filhos. “Meu parto foi normal, graças a Deus o nenên tá ali na incubadeira. Teve só um negocinho de oxigênio, mas o dotor. Disse que ele agora tá bem. Eu sofri muito nesse parto, cheguei nas últimas, nem sabia que ia ganhar agora. Passei a noite inteira com dor, cheguei aqui às 5 horas o menino já tava coroando. Mas agora estou tonta” ...
20 Dona Conceição do
Trapiá (parturiente) 35 anos 7 filhos. “Muié, eu bem que disse pra tu que eu ia ter esse minino aqui. O dotor me mandou pra Fortaleza, pois ele disse que eu tava com negócio de complicação. Aí eu pensei: e se eu morrer? Lá em Fortaleza? Deus me alivre. E o trabaio que dá prá pegar difunto longe, a gente fica podre e num chega. Eu sempre quero me interrar limpinha e não podre...”
Na amostra, além da especificidade da parição, outras categorias assemelham-se e identificam certas regularidades: pobreza, pouca escolarização, nativas do mesmo município, mulheres quase crianças, adolescentes, jovens e maduras em condições reprodutivas.
53 Os papéis que a parturiente se refere é a Declaração de Autorização de Laqueadura (ligação das trompas ou método de esterilização radical) que deve ser assinada pelo parceiro, marido, pois o SUS somente realiza o procedimento, com a autorização consentida. Neste caso o procedimento cirúrgico deve ser realizado após 40 dias do parto vaginal ou fisiológico.