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O ensino da Engenharia em Portugal surge na época do Marquês de Pombal com o Colégio dos Nobres, no qual, entre as matérias ministradas, tinham-se a Arquitetura Civil, a Arquitetura Militar e o Desenho.

Engenharia ou Fortificações e Artilharia eram consideradas aplicações da Aritmética e da Geometria. Portugal foi pioneiro no século XVI com a Escola de Santo Antão, em cuja Aula

da Esfera se ensinava matemática e suas aplicações, inclusive à navegação e à artilharia e

fortificações.

Nota-se que em Portugal a denominação Aula foi usada para delimitar vários grupos distribuídos em diversas áreas, dentre as quais podemos citar Aula de Anatomia e Cirurgia, Aula de Artilharia, Aula de Debuxo e Desenho, Aula de Fortificação, Aula de Matemática da Brigada Real da Marinha, Aula de Matemática no Castelo São João Baptista na Ilha Terceira entre outras, demonstrando que o termo Aula especifica não somente a área como também a sua atuação, sendo a Matemática não somente uma disciplina nas uma área em destaque como a Medicina e as Fortificações.

O decreto de 13 de maio de 1641 criou em Lisboa a primeira instituição específica para o ensino de Artilharia e Fortificação, numa das salas dos Paços da Ribeira, a Aula da Artilharia

e Esquadria . Estudava-se Aritmética, Geometria, Trigonometria Plana, Fortificação.

Esquadria devia se referir ao corte de pedras em esquadro, para cantaria das fortificações. Nos assuntos especificados, não consta a Artilharia, que devia ter pouca importância em relação aos estudos de Matemática e de Fortificação44.

Em 1647, a Aula de Artilharia e Esquadria passou para a Ribeira das Naus, com o nome de

Aula de fortificação, também referida como Aula de Fortificação e Arquitetura e Academia Militar. Uma instituição de ensino começava, em geral, com a denominação de Aula,

passando, após, à de Academia. Os documentos de época, até o século XIX, não dão

44 Isso se confirma na obra de Henry Hondius (1625) dividida em quatro partes, a primeira trata da Arquitetura

Militar: fortificação de praças, regulares e irregulares, dando as plantas de vários tipos de fortes, com as medidas necessárias à sua construção (paredes, fossos, abóbadas, etc.) onde o autor se refere a “Arquiteto ou Engenheiro”; a segunda parte, sobre artilharia descreve o canhão e outras armas, balas, pólvora; a terceira cuida da organização da campanha, atr ibuição dos oficiais; munições; víveres e a quarta aborda métodos para o ataque e defesa das praças: fogos artificiais, como bolas de fogo para incendiar acampamento inimigo. Há ainda um anexo sobre geometria para a construção de polígonos com provável aplicação à de fortalezas poligonais. Citação do livro de PARDAL, P. Brasil, 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1985. 110 pp.p. 47.

importância à denominação exata e é comum encontrar-se, indiferentemente, para o mesmo órgão, os títulos de Aula Militar, Academia Militar, Aula Régia ou Academia Real.45

Os engenheiros eram oficiais militares “que eram e são ainda muito poucos os que merecem o

nome de verdadeiros Engenheiros, pela deficiência de seu ensino, e assim eram impropriamente chamados meros mediadores, apontadores e olh eiros que fiscalizavam obras

de reparação em próprios do governo, e também de particulares”46. As funções principais de

um engenheiro bem instruído (fortificar, defender e expugnar, ou seja, tomar de assalto) deveriam ser tão unidas entre si, que não se pode obrar com acerto em qualquer delas se não as soubesse todas, afirmava Manuel de Azevedo Fortes.

Manoel de Azevedo Fortes oferece-nos, ainda, em sua obra O Engenheiro Português curiosos conceitos da época: “Entre as Ciências Matemáticas é a Fortificação, ou Arquitetura Militar,

uma de suas partes mistas, pela dependência que tem da Aritmética e da Geometria, que são

as duas partes que compõem a Matemática Pura e Especulativa, e Prática [...].47” Além

disso, no ataque e defesa das praças, uma das funções do engenheiro, era fundamental a artilharia.

Em Lisboa, a Academia Militar foi substituída, em 1779, pela Academia Real de Marinha, para alunos paisanos, mas também cursada pelos futuros oficiais engenheiros até 1790, quando surgiu a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho.

45 Como responsável por essas Aulas Lisboenses, “cita-se apenas o engenheiro Luís Serrão Pimentel, que

certamente era seu único professor, como ocorreu no Brasil nas Aulas anteriores a 1792. Esse pioneiro escreveu o primeiro livro português sobre fortificações, onde declara ser lente de matemática na “Aula Régia” de Lisboa, cosmógrafo-mor e engenheiro-mor do Reino: Método Lusitânico de desenhar as Fortificações das Praças Regulares e Irregulares, Fortes de Campanha e Outras Obras Pertencentes à Arquitetura Militar, de 1680. A obra organiza-se em dois “livros”. O primeiro – e único publicado trata do projeto e construção das fortificações, oferecendo, como citada obra de Hondius, o dimensionamento dos elementos paredes, abóbadas e fossos sem justificação teórica que apresenta um apêndice sobre geometria e trigonometria linear, para desenhar os fortes e seus elementos. Na introdução define “Arquitetura Militar, ou Fortificação, (...) ciência que ensina a fortificar toda a sorte de praças e a defendê-las contra a invasão dos inimigos”. O segundo livro abrangeria o ataque e defesa das praças, considerados, pela definição citada, parte da arquitetura militar, e onde possivelmente se abordaria a artilharia. Esses conceitos se mantiveram na obra O Engenheiro Português, de Manuel de Azevedo Fortes, Lisboa 1728, que foi a evolução de apostila da Academia Militar, onde o autor era professor. Este diz, na introdução, que antes só duas obras haviam sido impressas em Portugal, sobre fortificação: o Método Lusitano de Fortificação (sic), de L. Serrão Pimentel, que dava o método à holandesa, em desuso; e o Fortificação Moderna, traduzido do francês. A obra de Manuel de Azevedo Fortes se divide em dois volumes. O primeiro, sobre geometria ‘prática’ – no qual afirma que nada, antes, fora impresso em Portugal – apresenta medidas de distâncias, superfícies e volumes, desenho de plantas militares, abordando também trigonometria plana. O segundo volume discorre sobre a fortificação: escolha do sítio, fortificação regular e irregular, planejamento e construção das praças onde as medidas de seus elementos são fornecidas sem justificativa, ataque e defesa das praças.” - PARDAL, P. Brasil, 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1985. 110 pp – p. 48

46 Fortes, Manuel de Azevedo. O Engenheiro Português, Lisboa 1728 – Obra citada por PARDAL, P. Brasil,

1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1985. 110 pp – p. 48 e 49.

47 PARDAL, P. Brasil, 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de

Em 1797 foi criada por decreto na Ilha Terceira uma aula de Matemática para oficiais do batalhão aquartelado no Castelo de São João Baptista, a fim de prepará-los para o serviço de Artilharia de Fortaleza. Essa aula só começou a funcionar em 1805, sem grandes resultados. Com as invasões francesas houve a necessidade de aumentar os quadros do exército, melhorando a sua preparação. Com isso, o Conde de Galveias transformou, por decreto de 19 de novembro de 1810, a Aula de Matemática numa Academia Militar, denominada Academia Militar da Ilha Terceira, inaugurada em 4 de novembro de 1811. Nela se ensinavam Matemática Geral, Cálculo, Mecânica, Balística, Fortificação, Tática e Artilharia, além de Desenho e Francês, num curso com quatro anos de duração.

Na Academia de Lisboa, de 1790, diz a lusitana Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol 9 p. 730 - 1943) que havia “um curso de quatro anos, verdadeiramente o primeiro Curso

de Engenharia Militar em nosso País”. Latino Coelho julga que “desta útil instituição data, em Portugal, o princípio dos esforços empenhados para criar neste reino os serviços técnicos

do Exército e adaptar a cada uma das armas científicas a sua legal habilitação48”.

Jehovah Motta diz que, desta Academia e da reforma universitária realizada em Coimbra, cuja Faculdade de Matemática é de 1772, “teremos o quadro das idéias e dos propósitos de que

resultou o Estatuto da Real Academia Militar, aprovado pela Carta de Lei, de 4 de dezembro de 1810.”49

No final do século XIX, o ensino da Engenharia era chamado Civil. As cadeiras que não eram da parte militar eram ministradas em Lisboa, na Escola do Exército, aos alunos da Engenharia Civil. Também o eram na Academia Politécnica do Porto50, criada em 1837, substituindo a Academia Real da Marinha e Comércio. Esta se destinava a formar Engenheiros, Oficiais de Marinha, Diretores de fábricas, entre outros.

Para finalizar o esboço histórico do Ensino Militar em Portugal, cumpre-nos destacar que, em 1837, a Academia Real de Marinha passou a Escola Politécnica, com curso propedêutico de quatro anos, e a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho, a Escola do Exército, com curso de três anos em Engenharia Militar, Civil e de Minas.

48

Coelho, Latino. História Política e Militar de Portugal p 306, citado por PARDAL, P. Brasil, 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1985. 110 pp. p 49 e50.

49 Motta, Jehovah Formação do Oficial do Exército p. 16, Esta obra também nos oferece a seguinte informação

“A Academ ia Real Militar (denominação oficial da Carta de Lei de 1810) é referida por alguns autores como Real Academia Militar, título que abre até vários dos livros administrativos da Entidade, ora no Museu da Escola de Engenharia da UFRJ”, citado por PARDAL, P. Brasil, 1792: Início do Ensino da Engenharia Civil e da Escola de Engenharia da UFRJ. Rio de Janeiro: Fundação Emilio Odebrecht, 1985. 110 pp. p 50.

50 Academia Politécnica do Pôrto: criada em 1837 por Passos Manuel para substituir a Academia Real e

Comércio da cidade do Pôrto (1803), que por sua vez substituiu as célebres Aulas de Náutica e de Debuxo e Desenho (1762).

Em 1911 foi criada uma Escola de Engenharia, anexada à Faculdade de Ciências reformulação do ensino superior criando as Universidades de Lisboa e do Porto, à qual a Academia Politécnica foi integrada formando a Faculdade de Ciências. Também foi criado o Instituo Superior Técnico51 tendo como organizador e primeiro diretor o eminente pedagogo Dr. Alfredo Bensaúde.

Em 1918, nas Universidades de Coimbra e do Porto, foram criadas as Faculdades Técnicas, nas quais se ministrariam o Ensino de Engenharia. A primeira não funcionou; a segunda transformou-se em Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Juntamente com o Instituto Superior Técnico foram essas instituições que formaram engenheiros em Portugal em 1943. Antes da criação desse Instituto, os cursos de Engenharia também eram professados nos Institutos Industriais e Comerciais de Lisboa e do Porto.

51 Antes da criação do Instituto Superior Técnico eram ministrados cursos de Engenharia nos Institutos

Benzer Belgeler