Apesar de ser vista como um mecanismo extremamente legítimo para a coordenação das cadeias e para a comunicação dos cumprimentos dos padrões exigidos é importante fazer uma leitura crítica a respeito de como ela funciona para avaliar a sua legitimidade e autoridade, por tratar-se de um conceito relativamente recente no setor agrícola.
Albersmeier et al (2009) em um artigo intitulado The reliability of third-party
certification in the food chain: From checklists to risk-oriented auditing, levanta essa questão
apontando uma série de críticas ao conceito de certificação de terceira parte.
Conforme estes autores, as seguintes críticas podem ser feitas com referência a este formato de certificação. Primeiro, os auditores individuais tem pouco treinamento e conhecimento sobre essa nova tendência dos mercados e também sobre os próprios processos de produção agrícola, pois essa é uma profissão relativamente recente e nem sempre essas pessoas dominam todas as etapas de produção, gestão e comunicação dos atributos.
Segundo, nos esquemas privados de certificação o cliente pode escolher quem vai certificá-lo e neste caso, conclui-se que nem sempre a independência é garantida, pois este é um mercado altamente competitivo. Ora, a literatura econômica afirma que os clientes tendem a maximizar seus ganhos individuais, portanto, as empresas que serão certificadas, muitas vezes buscam valores mais baixos de mercado e isso na certificação significa padrões menos rígidos ou monitoramento mais distante das unidades de produção. Na pesquisa realizada pelos autores citados, os entrevistados (auditores da EurepGap8) reportaram que a busca pela manutenção ou por novos clientes pode levar alguns auditores a deliberativamente auditar sem muita atenção para minimizar os custos e ao mesmo tempo aumentar as chances de ser recontratado e recomendado. Isso também vai ao encontro do interesse das companhias auditadas (clientes) serem asseguradas de que passarão pela auditagem. Para passar elas evitarão auditorias severas e
exercerão pressão para tal. Esse efeito pode ser especialmente forte quando os clientes individuais têm fortes posições políticas e econômicas (ALBERSMEIER et al, 2009).
Nessa direção, os autores concluíram que os fornecedores podem não estar interessados nos mais altos padrões de inspeção e que, assim, esse comportamento reduz a probabilidade da certificação ser confiável uma vez que eles são incentivados a selecionar as auditorias conhecidas por empregar padrões menos restritivos de inspeção. Da mesma forma as certificadoras vão buscar minimizar seus custos de auditoria para serem contratadas e por meio desses artifícios podem se tornar dependentes dos seus clientes por conta deste pagamento (ALBERSMEIER et
al, 2009).
A terceira crítica refere-se à redução do valor real da taxa nos inícios das atividades. De acordo com os autores, foi relatado também que para ganhar o contrato, os auditores colocam as taxas para a primeira inspeção abaixo dos custos reais calculados. Como os lucros costumam ser percebidos apenas em uma relação contínua de negócios, os retornos anuais das inspeções subsequentes dependem da lealdade dos seus clientes e de uma relação que se dá em médio prazo. Além disso, como cada inspetor é um agente de uma companhia grande de certificação, trabalhando muitas vezes como pessoa jurídica, não se pode dizer que todo certificador possui os mesmos objetivos que a companhia de certificação. De fato, os agentes podem maximizar seus lucros e na prática isso é conhecido como contratos paralelos (ALBERSMEIER et al, 2009).
Diante disso e da contextualização de que a CTP é um instrumento da economia de escala e de mercados globalizados onde as assimetrias de informação são extremamente altas, Hatanaka, Bain e Busch (2005) afirmam que a CTP possui desafios em relação aos pequenos e médios produtores que não são beneficiados pela economia de escala, geralmente necessária para a adoção deste formato de certificação. Há de se fazer muitos investimentos para ir ao encontro dos padrões estipulados, tanto no que se refere à produção, quanto na compra de equipamento e tecnologias e contratação de pessoal para conduzir as tarefas cotidianas e contínuas de documentação e é o produtor quem paga por esses custos. Para estes autores, e se configurando desta forma como a quarta crítica a este sistema de garantia da qualidade, o fato de que os investimentos necessários para implementar a CTP podem resultar na exclusão do mercado de alguns produtores ou então na condução a mercados menos rentáveis. Isso pois, além dos custos normais da certificação, os produtores nos países em desenvolvimento geralmente tem que pagar
as despesas e diárias dos certificadores das nações industrializadas, pois em muitos países não existem pessoas ou empresas acreditadas (HATANAKA, BAIN e BUSCH, 2005).
Se partirmos do conceito de redes globais de commodities conforme definição de Gereffi (1994) e Raynolds (2004), em que as relações econômicas são também relações sócio políticas, podemos concluir que a CTP é um mecanismo dos atores econômicos de grande escala e que os padrões são geralmente construídos nos países do Norte e exportados para os países do Sul. Ora, se consideramos as diferenças de clima, vegetação, relevo, cultura e sociedade entre esses países, podemos pensar que as instituições no sentido de normas, regras e costumes da agricultura também são diferentes. Isso implica em assimetria de poder entre os atores, principalmente no que se refere à criação, verificação e monitoramento dessas normas.
No caso do mercado de orgânicos, isso fica muito claro quando analisamos a sua estrutura global, em que os principais consumidores estão nos países de alta renda e os principais produtores nos países de baixa renda. Soma-se a isso o fato de que a CTP se tornou um mecanismo de entrada nos mercados globais e por isso o cumprimento dos padrões construídos nesses países, no caso dos orgânicos, pela Federação Internacional dos Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM) é assegurado (FONSECA, 2005).
De acordo com CAMARGO (2012), como os maiores mercados de produtos orgânicos, que são majoritariamente os países desenvolvidos, exigem a certificação por auditoria de terceira parte independente e a IFOAM possui um sistema de garantia de alimentos orgânicos amplamente reconhecido ao redor do mundo, ela se tornou referência para o comércio internacional de orgânicos, em especial para a importação europeia, garantindo com isso o cumprimento das normas das certificadoras e implementando os seus princípios em nível internacional. Sabe-se que a certificação é um mecanismo que reduz as assimetrias de informação e, com isso, os custos de transação. Assim, a existência da certificação é um imperativo nas relações comerciais de produtos orgânicos mas não é garantia do cumprimento dessas normas, menos ainda de monitoramento.
Assim, concluímos que a CTP se justifica quando vista como algo que vá diferenciar um produto para determinado nicho de mercado, consolidado por consumidores mais exigentes e com maior poder aquisitivo. Se pensarmos como modelo de desenvolvimento para a agricultura
familiar orgânica que inclui pequenos agricultores, outros formatos de avaliação da qualidade orgânica podem ser mais cabíveis. Isso porque o olhar sobre a certificação de produtos orgânicos neste estudo é não como objeto em si mesmo, senão como um projeto social e político levado a cabo por atores sociais com base no controle social e na articulação em rede, o que amplia a finalidade dos SPGs, sobretudo para o acesso aos mercados e para a garantia de suas condições sociais de existência (CALDAS, 2013).