Com o intento de conduzir o auditório a querer realizar uma determinada ação ou a evitar que algo se produza, valem-se os oradores tanto de argumentos caracterizados por processos de ligação de noções quanto pelos caracterizados por processos de dissociação de noções (cf. tópico 2.3 do capítulo II). A fim de averiguarmos como o posicionamento do orador em relação ao tema em discussão influi em sua escolha de estratégias retóricas como alicerces dos valores deônticos que instaura, centramos, neste ponto da análise, a atenção nos alicerces argumentativos em consonância ao ponto de vista quanto ao tema em discussão.
Antes, porém, faz-se necessária a seguinte ressalva: as ilustrações que concedemos das técnicas argumentativas segundo delineadas por Perelman & Tyteca (cf. capítulo II) são passíveis de mais de uma interpretação. Ao analisarmos um argumento alicerçado no recurso à comparação, por exemplo, este poderia ser entendido como alicerçado no recurso ao modelo. Preocupamo-nos em examinar as diversas técnicas em suas formas mais caracterizadas, o que não significa termos reduzido a zero a possibilidade de outras interpretações. Anuímos, assim, com a ressalva também fornecida pelos proponentes da Nova Retórica, os quais, antes de darem início à análise dos esquemas de argumentos com os quais aqui trabalhamos, assim se expressam:
Não se deve crer que esses grupos de esquemas argumentativos constituam entidades isoladas. Em geral estamos autorizados, como já dissemos, a interpretar um raciocínio segundo um outro esquema. Entretanto, além disso, podemos considerar que certos argumentos pertencem tanto a um como a outro grupo de esquemas. (PERELMAN; TYTECA [1958] 1996, p.217)
6.9.1 Técnicas em discursos cujo posicionamento é favorável à redução da maioridade penal
Dos vinte e nove proferimentos que constituem o corpus desta pesquisa, em oito deles [02, 06, 08, 14, 15, 20, 24 e 27] faz-se notar posicionamento favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos como medida a ser adotada no projeto de política de
segurança nacional em discussão no Parlamento. Nesses, observamos as seguintes técnicas argumentativas atuando como alicerces de valores deônticos instaurados:
a) Argumentação pelo recurso ao vínculo pragmático e ao ridículo
(137) Ontem ouvi a Relatora do ECA, Deputada do Espírito Santo, dizer que não podemos diminuir a maioridade penal, caso contrário, vamos encher de mais gente ainda as penitenciárias. Ora, meu Deus do céu, encher a penitenciária de menor marginal é muito melhor do que encher cemitérios de pessoas inocentes. E achar que um garoto de 16, 17 anos não tem entendimento das coisas é abusar da nossa inteligência. (Discurso 02)
Em (137), observamos que o orador traz, para dentro de seu discurso, palavras de terceiros, as quais ele afirma ter ouvido. Nelas, instaura-se uma negação de permissão que recai sobre a parlamentar que as proferiu e seus pares, o que inclui o orador. Segundo a citação, a relatora do Estatuto da Criança e do Adolescente opõe-se à redução da maioridade valendo-se, como argumento, da incapacidade física das penitenciárias ([...] não podemos diminuir a maioridade penal, caso contrário, vamos encher de mais gente ainda as penitenciárias). Como contra-argumento, o orador conclui pela superioridade da adoção da medida que a relatora condena (encarcerar menores de 18 anos em cadeias já superlotadas), partindo da utilidade de suas consequências (é muito melhor do que encher cemitérios de pessoas inocentes). Como o País está sob clima de forte comoção em decorrência de recentes casos de assassinatos com requintes de crueldade, muitos anseiam ver menores que praticam crimes fora de circulação a qualquer preço, pois temem serem vítimas da violência.
Na sequência, o orador solidifica a defesa de seu ponto de vista por rebater outro argumento muito utilizado pelos que são contrários à redução: o de que menores de 18 anos não estão plenamente capacitados para responder por seus atos. Se, no primeiro contra- argumento, o orador valeu-se do vínculo pragmático entre uma medida e suas consequências, agora ele se vale do argumento pelo ridículo (―E achar que um garoto de 16, 17 anos não tem entendimento das coisas é abusar da nossa inteligência‖). O orador faz parecer que o argumento de seus adversários é conflitante com a opinião aceita, opondo-se à lógica.
Aqui destacamos que o alicerce do valor deôntico relatado pelo orador é a apresentação de incompatibilidades entre a proposta de redução e a execução da proposta, em
decorrência da falta de espaços físicos nas penitenciárias brasileiras. Os dois recursos retóricos utilizados pelo orador (argumentação pelo recurso ao vínculo pragmático e argumentação pelo recurso ao ridículo) visam à desconstrução do alicerce argumentativo no qual a relatora do ECA ancorou a proibição instaurada em seu discurso, ao mesmo tempo em que constroem as bases para as recomendações que o orador instaura, opostas à proibição relatada.
b) Argumentação pelo recurso à divisão do todo em suas partes e à comparação
(138) O Brasil não tem como atender a uma demanda de 3 milhões a mais de habitantes por ano. Não podemos falar em combater a fome, a miséria, a violência, sem antes falar em controle da natalidade – a palavra é controle, sim; não adianta falar em planejamento com quem nunca vai assimilar a educação. Como disse, são 3 milhões de novos habitantes por ano, 250 mil por mês, 8.200 por dia. Quando eu completar meu tempo de 25 minutos, mais 142 brasileiros terão nascido, a grande maioria sem a menor condição de sobrevivência. Vale lembrar que, em 1970, à época do Tricampeonato Mundial, éramos 90 milhões de brasileiros; hoje estamos batendo à casa de 180 milhões, em apenas 35 anos. Os Estados Unidos, com toda a sua cultura, no mesmo período, passou de 200 milhões para 300 milhões de habitantes, e 60% desse crescimento advém de latinos, que nasceram ou foram para lá. (Discurso 02)
Em (138), observamos que o orador instaura uma proibição pela negação de permissão, a qual recai sobre ele e seus pares, segundo a qual a discussão em torno do combate à violência não pode ser realizada sem que haja um programa de controle de natalidade no País. Segundo o orador, a taxa de natalidade no Brasil inviabiliza que se cuide a contento da quantidade de novos brasileiros gerados anualmente. Como sustentação da proibição, o orador recorre à argumentação pela divisão do todo em suas partes: ―são 3 milhões de novos habitantes por ano, 250 mil por mês, 8.200 por dia. Quando eu completar meu tempo de 25 minutos, mais 142 brasileiros terão nascido‖. A menção a três milhões de novos brasileiros por ano torna-se bem mais vívida quando o orador subdivide esse número sucessivamente: pelo número de meses do ano, pelo número de dias de um mês, pelas 24 horas de um dia de cada mês. Esse recurso amplia o efeito de presença da quantidade, conferindo-lhe destaque.