Os pressupostos teóricos trazidos até aqui apontam para o fato de que não há como desvincular o acontecimento enunciativo da estrutura que sustenta a língua, bem como das redes de memória e dos percursos sociais que o trazem à tona. Vislumbramos, então, que na medida em que a língua produz acontecimento já nos oferece um passado em suas próprias formas e essas formas são capazes de nos inserir na corrente da memória, fazendo com que presente e passado se instalem nesse acontecimento de modo a fazê-lo figurar em acontecimentos futuros.
Isso posto, é possível afirmar que no acontecimento há um reconhecimento do passado e uma projeção do futuro, que se concretizam na realização enunciativa presente. Futuro, porque
produz as bases de ancoragem para que outros acontecimentos surjam. “O acontecimento tem
como seu um depois incontornável e próprio do dizer. Todo acontecimento de linguagem
significa porque projeta em si mesmo um futuro.” (GUIMARÃES, 2002, p.12). E passado, porque se ancora em fatos anteriormente constituídos, “esta latência de futuro, que, no
acontecimento, projeta sentido, significa porque o acontecimento recorta um passado como
memorável.” (GUIMARÃES, 2002, p.12).
Trabalhamos, pois, com a concepção de que “...um acontecimento não existe fora das suas efectuações. Mas também não se esgota nelas, não ‘está’ apenas no seu existir atual.” (SOUSA DIAS, 1995, p.89). Esse fato nos impulsiona a dizer que “o acontecimento é virtual.” (SOUSA DIAS, 1995, p.89). É preciso esclarecer que trabalhamos com a
perspectiva segundo a qual o virtual é a instância em que age a memória sócio-histórica. Essa proposta de perceber o acontecimento como uma virtualidade em latência de atualização pode ser notada, por exemplo, na sentença descrita em (27):
(27) FIGURA 1 - Propaganda UNIMED
Fonte: Propaganda obtida por meio do Google31
Na propaganda da UNIMED, temos claramente a não ocupação linguística do lugar sintático de objeto como um recurso fundamental para a funcionalidade do texto. Não há a ocupação material do lugar sintático projetado pelo verbo alongar, mas isso não afeta a unidade da
sentença, porque há uma “memória de seu lugar que advém de outros extratos de ocorrência que são constitutivos do espaço sintático” (Dias, 2007b, p.197). Expliquemos melhor. Se as
sentenças
(28) A vida é curta. (29) Alongue.
fossem analisadas independente de relação que estabelecem com o acontecimento enunciativo no qual se inserem, facilmente seria proposto, por uma análise de perspectivas tradicionais, que o sujeito da 1ª sentença também ocuparia o lugar sintático de objeto acionado pelo verbo Alongue na sentença 2. Entretanto, percebemos que os outros enunciados que compõem o anúncio funcionam como um domínio referencial que possibilita a entrada de um novo item lexical, capaz de ocupar o lugar posto em cena pela predicação de que participa
31 Disponível em: http://www3.propmark.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=54755&sid=7. Acesso em 12.02.09.
o verbo alongar. Ou seja, quando a propaganda produz uma linha do tempo cujos enunciados afirmam que
(30) Aos 8 anos, eu me esticava para pegar frutas no pé. e
(31) Aos 36, continuo adorando frutas depois do alongamento.
é acionada a possibilidade de que a formação nominal o corpo também funcione como um referente capaz de oferecer efeito de completude a (29) Alongue. É importante dizermos que trabalhamos com o conceito de formação nominal proposto por Dias (2011). Segundo o autor; a formação nominal
se constitui em centro de articulação temática. Na medida em que constituímos um tema, ou um foco de interesse na enunciação, estamos trazendo a memória de sentidos que se agregam aos nomes. As determinações contraídas pelos nomes, constituindo um grupo ou sintagma nominal, apresentam as condições de recebimento dos traços de atualidade advindos da construção temática na sua relação com o mundo contemporâneo.[...] A constituição desse centro de referência pode ser captado pela língua em formato concêntrico, tendo um substantivo na nucleação, de forma a encapsular um conceito historicamente constituído[...] (DIAS, 2011, p.275).
Retomando a análise da propaganda (27), percebemos que ela ganha pertinência quando, sem realizar muito esforço, podemos captar, na memória dos dizeres em que se inscrevem sentenças com o verbo esticar-se e com o substantivo alongamento, um domínio de referência que inclui também o substantivo corpo. Portanto, é esperado que os enunciados (28) e (29) recebam as seguintes formulações:
(32) A vida é curta. Alongue a vida. (33) A vida é curta. Alongue o corpo. Ou ainda
(34) A vida é curta. Alongue o corpo, [para alongar] a vida.
A cada vez que a peça publicitária da UNIMED-BH é recebida por um leitor, o lugar sintático de objeto está em causa, isto é, ganha uma mobilidade; a mobilidade da oscilação entre ser ocupado pelos itens a vida e o corpo. O espaço do lugar sintático de objeto é o espaço da relação entre: uma regularidade, consubstanciada em (32) e marcada estruturalmente pelo
domínio referencial da sentença anterior (A vida é curta), bem como pelo objetivo da propaganda que é valorizar a aquisição de um plano de saúde, logo, valorizar a vida e; uma atualidade, consubstanciada em (33), atualidade essa que só pôde ser configurada mediante o cruzamento de dizeres historicamente produzidos em outros acontecimentos enunciativos, que foram acionados pelas demais sentenças (“Aos 8 anos, eu me esticava para pegar frutas no
pé.”e “Aos 36, continuo adorando frutas depois do alongamento.”) constitutivas de (27). A
enunciação, portanto, é o acontecimento do dizer no qual uma atualidade cruza com uma memória (GUIMARÃES, 2002). Em se tratando dos propósitos dessa pesquisa, o lugar sintático de objeto é o palco desse cruzamento. Não há que se pensar, portanto, em falta de complemento em (29), mesmo porque a funcionalidade do texto é devida ao fulcro do olhar sobre a mobilidade da saída e entrada no domínio de referência do lugar sintático de objeto. A utilização desse exemplo para ilustrar a virtualidade, que acreditamos constituir o acontecimento, deve-se ao fato de que percebemos que há uma regularidade de preenchimento para o lugar sintático projetado pelo verbo alongar sendo afetada por novas forças referenciais, que acreditamos estar em estágio virtual, latentes de atualização. Diante disso, como já sinalizamos, nos instiga verificar como o acontecimento enunciativo opera com essa regularidade, de modo a que outras regularidades surjam e sejam postas em cena, ou seja, questionamos que virtualidade é essa que há nesse lugar e que elementos dos enunciados ou dos modos de enunciação podem determinar a atualização de outras regularidades a partir das já existentes.
É importante destacar que, ao nos referirmos a uma atualização do sentido não a imaginamos como uma simples retomada, como uma mera repetição de enunciações anteriores aptas a participar de novos acontecimentos enunciativos. Sendo assim, o acontecimento atual não é um simples colocar em cena a virtualidade porque, ao se realizar, ele já é afetado pelo diferente. Sua formulação já recebe a possibilidade de um escapar do já-posto, assim, quando enunciamos, estamos operando no mundo da diferença porque estamos na relação do que foi e do que é, com possibilidade de diferir sempre o que é do que foi.
Levemos em conta outro exemplo para esclarecer um pouco melhor esse ponto de nossa análise.
(35) FIGURA 2 - Propaganda Havaianas Wave
Fonte: Propaganda obtida por meio do Google32
Em (35), temos novamente uma sentença que apresenta o lugar sintático de objeto aberto a duas possibilidades referenciais de ocupação. Entretanto, recorrendo à memória de dizeres que perpassa o enunciado
(36) Sandálias e mulheres, os homens preferem com curvas.
notamos que o sentido marcado sócio-historicamente e, portanto, previsto para se efetivar, ganha atualização. Assim, a sentença
(37) Os homens preferem mulheres com curvas.
passa a veicular um novo sentido devido à cena enunciativa de que faz parte. Ou seja, trata-se de uma ampliação referencial, que visa captar uma característica específica do tipo de produto que a Marca Havaianas apresenta ao mercado consumidor masculino. Para tanto, é preciso que o sentido do enunciado também figure da seguinte forma:
(38) Os homens preferem sandálias com curvas.
Sendo assim, percebemos que a expressividade do anúncio não poderá ser captada
32Disponível em: http://www.google.com.br/search?num=10&hl=ptBR &site=imghp&tbm=isch&source =hp&q =homens+e+sand%C3%A1lias%2C+os+homens+preferem+com+curvas&oq=homens+e+sand%C3%A1lias%2 C+os+homens+preferem+com+curvas&gs_l=img.3...1870.11407.0.11776.49.13.0.35.0.0.611.2570.4j4j3j0j1j1.1 3.0...0.0.Cdc0vnO7ZA8. Acesso em 09.07.2012.
espontaneamente, ela só será estabelecida na relação com um já-dito. Isso corresponde a dizer que quando estamos no acontecimento enunciativo nos encontramos no virtual, no mundo da indeterminação dos sentidos – conforme (38) - mas, ao mesmo tempo, nos valemos das distinções históricas – exemplificada em (37). Por isso, ao atualizarmos o virtual, somos afetados pela repetição e pela diferença. “No virtual, a diferença e a repetição fundam o movimento da atualização, da diferença como criação... .” (DELEUZE, 2006, p. 299).
Nessa perspectiva, o acontecimento enunciativo é permeado por determinações de sentido, conforme detalharemos melhor ao discutirmos sentido e referência. Determinar é, portanto, atualizar uma virtualidade. Sendo assim, para que uma enunciação ganhe efeito de completude é preciso que haja delineamentos de sentidos, que se encontram em estágio virtual e são da ordem do orgânico e do simbólico.