3.6.1 F ração areia
Nos horizontes onde foi avaliada a mineralogia, nos difratogramas de raio-X (Figura 22) o quartzo foi o principal mineral (0,424; 0,335; 0,213 e 0,182). Principalmente no perfil BAC4, em função dos sedimentos que deram origem a estes solos, em área adjacente ao mangue, no delta do rio Acaraú, portanto com maior proximidade do litoral e maior influência de sedimentos quartzosos marinhos. No horizonte Cvn do perfil BAC1 também predomina o quartzo, além de plagioclásios, já com padrões de alteração, identificados pelos picos principais de difração em 0,397, 0,319 e 0,314 nm; principalmente albita, indicando que a origem de rochas ácidas no material parental, o que também justifica os altos teores de Na nos solos.
Os horizontes do Planossolo Háplico (BAC2 - 2Bt2 e 2Btvnz) e do Neossolo Flúvico (BAC3 – 3Cvn) apresentaram outras fases minerais além do quartzo. No BAC2, os difratogramas dos horizontes 2Bt2 e 2Btvnz foram semelhantes, embora neste último o grau de cristalinidade tenha sido maior. Os minerais identificados foram plagioclásios (albita, labradorita, oligoclásio e bitownita) e feldspatos potássicos (microclínio = 0,420; 0,377; 0,330; 0,323 e 0,300 nm). No horizonte 3Cvn (Perfil 3), também foram observados plagioclásios como albita, andesina, labradorita e bitownita, além de feldspatos potássicos como microclínio e anortoclásio.
Estes perfis encontram-se próximos ao leito do rio, onde predomina rochas metamórficas do Pré-Cambriano, principalmente migmatitos, o que justifica parte dos plagioclásios. Parahyba et al. (2010), em estudos com Planossolos do Agreste pernambucano, observou o predomínio de quartzo e feldspatos nas frações silte e areia.
Figura 22: Mineralogia da fração areia de alguns horizontes e camadas de solos
formados na Bacia do Baixo Acaraú-CE. Qz: Quartzo; Pl: Plagioclásios; e Fd: Feldspatos-K.
A origem do feldspato, apontado nos difratogramas, pode ser do embasamento cristalino que predomina na bacia, com ocorrência de materiais graníticos. A permanência deste mineral no sistema pode ser devida a sua menor superfície específica, que desfavorece a hidrólise e dissolução, de modo que este último processo é retardado quando os valores de pH são elevados, como os observados nestes solos (MARTINS & MARTINS, 2004).
A presença de minerais primários nos solos está relacionada com a diversidade litológica em toda a extensão da bacia do rio. Segundo Mota & Valladares (2010), em cerca de 90% da área da bacia do Acaraú, predominaram rochas ígneas e metamórficas com elevada resistência ao intemperismo. Os 10% restantes são formados por rochas sedimentares ou por sedimentos inconsolidados, em áreas do Grupo Barreiras e ao longo dos leitos dos rios. Nesses locais a maior parte dos materiais é transportada pela água durante os períodos onde o fluxo de água nos canais de drenagem é mais intenso.
Os resultados da mineralogia da fração areia confirmam a presença de importante reserva de elementos no solo, como o potássio (microclínio), o sódio e o cálcio (feldspatos calco-sódicos). Mas a intemperização e aumento dos teores destes elementos também são fatores agravantes para a salinização no ambiente semi-árido. O que exige maior rigor na adoção de praticas agrícolas, principalmente relacionadas à irrigação. Souza (1995), em estudos na Serra Talhada (PE), encontrou plagioclásios sódicos, provenientes do material de origem, na mineralogia da fração areia e silte. Segundo o autor a presença destes minerais favorece a sodificação pelo suprimento de Na no sistema, havendo uma tendência de acúmulo de sais no solo.
3.6.2 F ração argila
Com relação à mineralogia da fração argila (Figura 23) os horizontes apresentaram características bastante semelhantes. Assim, se pode interpretar que predominam condições herdadas do material de origem, com alterações quanto ao grau de cristalinidade e na quantidade dos minerais nas camadas de solo, de acordo com as condições do ambiente de formação.
Dentre os minerais de filossilicatos, foi identificada a caulinita (Ct), através dos picos 0,71 e 0,36 nm, que sofreram colapso e não apareceram nos difratogramas, quando as amostras foram saturadas com K e aquecidas a 500ºC (DIXON, 1989). A caulinita é um mineral de argila de ampla ocorrência nos solos e sua formação se dá em diversos tipos de materiais de origem, a partir de alterações hidrotérmicas e do intemperismo de minerais como o feldspato. O horizonte 3Cvn do perfil BAC3 foi o que apresentou menor grau de cristalinidade das partículas, quando comparado aos demais horizontes avaliados, havendo maior expressão de filossilicatos 2:1, indicativo
de menor grau de desenvolvimento pedogenético, e sendo condizente com a classificação de Neossolo deste perfil.
Figura 23: Mineralogia da fração argila de alguns horizontes e camadas de solos
Outro filossilicato identificado nas amostras foi a ilita (Mi) (1,04; 0,50 e 0,33 nm), mineral 2:1 do grupo das micas, cujas entrecamadas são preenchidas com K, fazendo com que não seja observada expansão ou contração do mineral. Foi observada, nas camadas dos perfis avaliados, uma assimetria basal e menor agudez dos picos de ilita, indicando a transformação da mica em outros minerais (OLIVEIRA et al., 2004).
Além deste filossilicato, foi constatada a presença de esmectita, apontada pelo difratograma através dos picos a 1,4-1,5 nm, após tratamento com K, seguido de colapso parcial quando aquecida, além da expansão após saturação com glicol. A baixa pluviosidade, aliada à alta evapotranspiração, e neste caso, a condição de saturação do solo, onde ocorrem elevados teores de bases e menor perda de sílica, a formação de esmectita no solo é favorecida, a exemplo da camada Cgnz2 do perfil BAC4.
Os picos de esmectita nas camadas do perfil BAC2 (2Bt2 e 2Btvnz) indicam a menor expressão deste tipo de filossilicato na fração argila do solo, havendo o predomínio de ilita e caulinita. Talvez esse comportamento indique a ocorrência da intemperização das esmectitas, formando caulinitas. Enquanto que a presença deste mineral de argila no perfil BAC1, em maior quantidade, confere ao solo grande capacidade de expansão e contração, favorecendo o fendilhamento, a formação das superfícies de compressão e fricção, além da dureza dos agregados. Corrêa et al. (2003), relatou composição mineralógica semelhante em Vertissolo da região de Souza-PB.