Quem nos impulsiona? Nós nos movemos, somos ardentes e incisivos. O que vive é estimulado – em primeiro lugar por si mesmo.
Ernst Bloch, O princípio Esperança (2005, p. 48)
Pelas pulsões,99 o ainda-não-consciente ganha dinâmica nos escritos de Bloch e inicia a sua articulação com os desejos (assim poderia ser, mas de modo passivo, parecido com o ansiar), o querer (o desejar somado a uma escolha, um alvo a alcançar), a vontade (como gênese do ainda-não-consciente) e os sonhos acordados (o desejo de ver as coisas mudarem, que não adormecem). Um dos seus pressupostos é que o controle das pulsões corresponde ao momento de expansão do pensamento consciente e que, nele, contracena o sentido de realidade interior e exterior. Para aproximar-se do mecanismo das pulsões, tema tão vasto
99 O uso do termo pulsão surgiu em 1625 na França, derivado do latim pulsio, como sinônimo do ato de impulsionar. A palavra usada por Freud, em alemão, é Trieb e aparece pela primeira vez no Projeto para uma Teoria Científica, de 1895, e, posteriormente nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sensualidade em 1905. O conceito freudiano de pulsão está acondicionado em duas vertentes: as pulsões de conservação do eu e as pulsões sexuais. A partir de 1920, com Além do Princípio do Prazer, Freud introduz os conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, o que não significou o abandono dos conceitos anteriores, mas um desdobramento dos mesmos. Fazem parte do universo das pulsões, a pulsão sádica e de domínio. Freud não confunde pulsão com instinto (Instinkt). A confusão não se deve a Freud, mas a James Strachey, que traduziu o termo Trieb como instinto cujo significado corrente é mais próximo de impulso do que de instinto (GARCIA-ROSA, 1985, p. 114).
quanto o ser humano, Bloch cita o estado de urgência que acompanha o homem desde o nascimento:
Ninguém escolheu para si esse estado de urgência: ele está conosco desde que existimos e pelo fato de existirmos. No nosso ser imediato, tudo se dá de modo vazio e por ávido, almejante e por isso inquieto. Mas nada disso se sente. Primeiro, é preciso que isso saia de si mesmo. Então é percebido como uma urgência muito vaga e indefinida. Nenhum vivente se livra do quê dessa urgência, por mais que esse quê tenha lhe cansado. Essa sede se manifesta constantemente e não se identifica (BLOCH, 2005, p. 49).
A urgência é interior, mas ela ganha o exterior e pode ser uma avidez qualquer, voltar- se para um alvo meramente individual – o pão, o desejo sexual, o poder, a servidão, a idolatria –, como pode direcionar-se para um alvo, um desejo maior, a exemplo de um avançar ativo, um desejar possível, com rumo definido, a posse de si mesmo.
Em Traces, Bloch recorre a dois exemplos ilustrativos. Um menciona a pobreza: uma mulher que economiza luz, porque é mais fácil do que economizar comida, mas, seja o que for que economize, o seu propósito é estar a serviço do seu senhor, mesmo na solidão da sua privação (BLOCH, 1968, p. 15). O outro trata da filosofia: não é papel da filosofia fazer o lobo sair da floresta, mas não se poderá fazer o lobo sair da floresta sem a filosofia. Não se pode transformar o mundo sem o pensamento. Não se deve agir sem pensar. O pensamento é que abre as janelas do mundo, é que deixa o mundo mais claro (BLOCH, 1968, p. 175).
Esses exemplos servem para mostrar que Bloch não trata de uma realidade estática, tragada pela alienação de um certo tipo de vida, mas de realidade dinâmica, que, como pensamento concreto, ―entrega-se à correnteza, não ao repouso‖, e isso de uma forma não alienante (BLOCH, 2006a, p. 405). Ele aborda o ainda-não-consciente com o sol humano, o símbolo da luz e, é possível, da busca dessa mesma luz. O pobre, se vier a pensar dinamicamente na perspectiva da luz da rebeldia, reuniria forças para insurgir-se contra o senhor, assim como a filosofia pode renovar-se a partir da própria essência, sem mais interditar o futuro.
Não é diferente do domínio que as pulsões exercem sobre o homem. Na hipótese de se tornar consciente, o homem é capaz de compreender o mecanismo de alienação a que se deixa submeter. A desalienação é, nesse sentido, uma nuança sutil que pode significar o despertar para uma realidade no tempo, tal como entenderam Heráclito, o filósofo da correnteza, Empédocles e Agostinho, pode recair no eterno retorno do tempo circular, mas aponta
igualmente para a mutabilidade do mundo. As pulsões estão cheias dessas possibilidades. O enigma é como decifrá-las e transformá-las em fontes de mudanças.
O pulso necessita de alguém atrás de si. Porém, quem é o estimulável que busca? Quem se move no movimento vivo? Quem dá o impulso no animal? Quem deseja no ser humano? Aqui, nem tudo gira em torno do eu, pois uma pulsão nos sobrevém. Todavia, isto não significa que não exista qualquer ser individual, completo em si mesmo quem carrega as pulsões, sente-as e, mediante a sua satisfação, desfaz-se de todo sentimento de desgosto. Ao contrário, esse ser é, em primeiro lugar, o corpo vivo individual: sendo movido por estímulos e transbordando deles, possui ele os impulsos que não pairam de modo genérico. Se o animal come, é o seu corpo que fica saciado, e nada além disso (BLOCH, 2005, p. 51-2).
Pulso e pulsão são rigorosamente a mesma coisa na linguagem blochiana. Revelam aquela que é o embrião da antropologia filosófica de Bloch, a ―obscuridade do instante vivido‖. Enraizado no vazio, obscuro no seu conteúdo e duração, mas parte inerente ao homem, o ―pulso da obscuridade vivida‖ consegue enganar a vida e torna as coisas inconclusas (BLOCH, 2005, p. 284). Como um ―ponto cego‖ dos sentidos, o instante vivido permanece invisìvel na sua ―imediatez‖ e submerge a consciência sempre que o pulso lateja e desperta. Passa do repouso ao movimento sem aviso.
Ninguém sabe, segundo Bloch (2005), exatamente o que acontece, embora o ―pulso‖ seja a coisa mais experimentada que existe. Como latência, o nada pode ser o nada, mas também pode ser o tudo, porque se algo existe pode mudar, situar-se no ponto zero de um ―ativo-utópico. Uma realidade parece efetiva, ainda no entendimento de Bloch (2005, p. 288): é o ―pulso‖ que, em última análise, também proporciona o modelo de caráter. Em Bloch, a ―imediatez‖ é que significa ―não-ter-a-si-mesmo‖ no tempo e no processo manifesto da realidade. É o que justifica a atenção de Bloch para o conceito do ainda-não-consciente e pela possibilidade da consciência antecipadora por meio dos sonhos acordados. A qualidade essencial do futuro – que ele afirma e reafirma em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) e em O Princípio Esperança – dependem da superação da obscuridade.
Por não se restringirem ao egoìsmo capitalista do si mesmo, as ―pulsões‖ ou o ―pulso‖ constituem fenômeno em aberto com possibilidade de desdobrar-se em solidariedade transformadora. O acontecimento pode não deixar a obscuridade imediata, tal como Bloch (1968, p. 26- 37) menciona em Traces (Spuren) ao se referir às dificuldades que o homem enfrenta para perceber que a inevitabilidade do destino não passa de uma ilusão ou ao prazer que os ricos têm de jogar com os pobres, mas no decorrer do processo a realidade é percebida e captada como agora. Não se trata de uma abstração, mas da dialética do real que, como
lembra Bloch (2005, p. 288) surge como ―elemento intenso‖ em ―correspondência com o corpo‖. Confunde-se com os afetos, geralmente não associadas às condições econômicas dos indivíduos e à sociedade de classes, à autopreservação ou à fome, embora perpassem as sociedades e mudem de acordo com as épocas históricas (BLOCH, 2005, p. 68-70).
Se nenhuma pulsão persiste imutável, o mesmo se dá com aquilo que a sustenta. Nada está estabelecido de uma vez por todas desde o início e justamente o nosso si mesmo não nos é predeterminado. Havendo uma mudança histórica das paixões, surgindo novas paixões com objetivos renovados, modifica-se também a fogueira subjetiva na qual todas elas estão cozinhando. Não há mais uma pulsão ―original‖, tampouco há um ser humano primordial ou até um ―velho Adão‖. A pretensa ―natureza humana‖, nos termos de uma investigação rígida da pulsão fundamental, foi recriada e derrubada cem vezes no decorrer da história (BLOCH, 2005, p.70).
A metamorfose no sentido de suplantar a obscuridade pode ser percebida como necessária, mas não se concretizará na sociedade de classes. O cenário de mudanças é dado pelo processo histórico. Por insuficiência da metamorfose, a intuição criativa ficou embotada, e a utopia, prisioneira do atavismo, confundiu-se com fantasia quimérica. Tratou-se, para Bloch (2005), de submissão às pulsões do homem burguês, em Freud,100 e do homem mitológico, em Jung, não a visão do homem histórico.
Esse paradoxo tem a função de legitimar diferentes tipos de homem: para Rousseau e o Iluminismo, o ―homem natural‖, ―arcádio e racional‖; para Nietzsche, o homem era avesso à ―razão‖, o que servia aos interesses capitalistas, e o idealista Schiller reconhecia que o homem era movido ―pela fome e pelo amor‖, colocando a fome em primeiro lugar (BLOCH, 2005, p. 70-1). As diferentes classificações do homem camuflam o alvo principal: abstraído o páthos revolucionário do homem como ser social, a superação do capitalismo é adiada ou
100 Distância e aproximação são ingredientes decisivos na relação de Freud com a filosofia. Considerava-se um ―filósofo da psicanálise‖ e referiu-se à filosofia com respeito e, em mais de duas dezenas de vezes, aborda, nas suas principais obras, a filosofia e filósofos. Refere-se a Bacon e Schiller (FREUD, 1995, p. 892, 1245, 1304). Ou à filosofia, como a filosofia do misticismo e filosofia da vida (FREUD, 1995, p. 3646, 5681). Entretanto, não camuflava sua desconfiança quanto ao discurso filosófico por não se circunscrever a um objeto específico, como é a psicanálise, e por procurar explicar o homem e o real na sua totalidade. Em
Totem e Tabu, de 1933, considera o homem da pré-história, em certo sentido, ―nosso contemporâneo‖, refém das neuroses pelo respeito aos soberanos, pela necessidade de líderes e pelo temor da morte (FREUD, 1973, p. 1747-85). ―Diante da Revolução Russa, Freud não manifestava entusiasmo. Perguntava-se, em 1930, o que fariam os soviéticos depois que tivessem exterminado todos os burgueses (FREUD, 1973, p. 3647-8). Entendia que a questão era muito maior, sendo indispensável combater, em cada ser humano, as tendências antagônicas de vida e de morte, de felicidade individual e de união humana, de enfrentamento entre o indivíduo e a cultura, no sentido da liberdade, da felicidade e da concepção da própria história. Argumentava: o instinto de agressividade decorrente da propriedade privada, mas das restrições existentes desde as sociedades primitivas, quando a propriedade privada era escassa (FREUD, 1973, p. 3048-65).
mesmo ignorada. Consequentemente, o mundo é duplicado em imaginário e real, com o mundo imaginário tendendo a preponderar sobre o mundo real.