A nova Lei do Estágio, nº 11.788/08, tem como antecedentes a lei nº 6.494/77 e vários decretos.
O decreto nº. 20.294, de 12.08.1931, foi a primeira norma jurídica que fez menção aos estagiários, disciplinando um acordo entre o Ministério de Agricultura e a Sociedade Nacional de Agricultura, que admitiria em suas escolas alunos estagiários recebendo uma dotação anual por aluno matriculado (CAIXÊTA JUNÍOR, 2014). Contudo, o termo estágio só foi melhor definido na Lei Orgânica do Ensino Industrial29, nº 4.073 de 30 de janeiro de 1942, dizendo que:
Art. 47 Consistirá o estágio em um período de trabalho, realizado por aluno, sob o controle da competente autoridade docente, em estabelecimento industrial.
Parágrafo único. Articular-se-á a direção dos estabelecimentos de ensino com os estabelecimentos industriais cujo trabalho se relacione com os seus cursos, para o fim de assegurar aos alunos a possibilidade de realizar estágios, sejam estes ou não obrigatórios (BRASIL, 1942).
Nota-se que, mesmo timidamente, a Lei Orgânica do Ensino Industrial estabelece uma finalidade didático-pedagógica ao estágio, oportunizando uma articulação do conhecimento teórico ao prático sob o controle da competente autoridade docente, que em
29 Art. 1º Esta lei estabelece as bases de organização e de regime do ensino industrial, que é o ramo de ensino, de
segundo grau, destinado à preparação profissional dos trabalhadores da indústria e das atividades artesanais, e ainda dos trabalhadores dos transportes, das comunicações e da pesca. (BRASIL, 1942)
tese teria liberdade e autonomia de definir a carga horária e o itinerário formativo dos estudantes.
Podemos inferir que, aqui, o estágio como forma de trabalho girava em torno do ensino/formação, quando a lei afirma que os estabelecimentos industriais é que devem se relacionar com os cursos para se ofertar estágio, e não em torno do mercado e/ou das empresas – como perceberemos em algumas leis que se seguem e, em especial, nos estágios das EEEPs, onde o curso é que se adapta às empresas e ao mercado.
Já na Portaria Ministerial nº 1.002/67, do então Ministério dos Negócios do Trabalho e Previdência Social, no período da ditadura militar-empresarial30, instituiu os estágios nas empresas para entudantes do ensino superior e escolas técnicas de segundo grau, estando as empresas incubidas do pagamento de uma bolsa durante o período do estágio e seguro contra acidentes pessoais, não gerando, contudo, vínculo empregatício. Este documento afirma considerar: “urgente a necessidade de criar condições que possibilitem o entrosamento emprêsa-escola, visando à formação e ao aperfeiçoamento técnico-profissional” (BRASIL, 1967).
Percebe-se que esta portaria advém não do então Ministério da Educação e Cultura, e sim sob iniciativa do Ministerio dos Negócios do Trabalho e Previdência Social.
Esta portaria se assemelha com a nova Lei do Estágio, nº11.788/08, quando presume o estabelecimento de acordo entre instituição de ensino e empresa, enquanto a nova lei prevê um termo de compromisso (documento similar) entre a instituição de ensino, empresa e estagiário31. Também essa portaria estabelece que as instituições de ensino encaminhem seus estudantes para o estágio – a mesma atribuição é incumbida à SEDUC/EEEPs pelo Decreto estadual n° 30.933/2012; para a nova Lei do Estágio, essa função de articulação escola-empresa pode ser exercida por agentes de integração, podendo
30 Para o historiador Pedro Campo, o conceito de ditadura militar-empresarial reflete não apenas o apoio mútuo
entre empresários e militares, mas também o modo como os empresários compuseram a ditadura. Disponível em: <http://nucleopiratininga.org.br/empresarial-militar-civil-militar-ou-somente-militar-tres-conceitos-para-definir- o-mesmo-golpe>. Acesso: 01/08/2016.
31 Portaria Ministerial n. 1.002/67: “Art. 2o - As empresas poderão admitir estagiários em suas dependências,
segundo condições acordadas com as Faculdades ou Escolas Técnicas, e fixadas em contratos- padrão de Bolsa de Complementação Educacional, dos quais obrigatoriamente constarão.
a) a duração e o objeto da bolsa que deverão coincidir com programas estabelecidos pelas Faculdades ou Escolas Técnicas; b) o valor da bolsa, oferecida pela empresa; c) a obrigação da empresa de fazer, para os bolsistas, seguro de acidentes pessoais ocorridos no local de estágio; d) o horário do estágio {…}”. Já na Lei 11.788/08: “Art. 3o O estágio {…} não cria vínculo empregatício de qualquer natureza, observados os seguintes requisitos: {…} II. – celebração de termo de compromisso entre o educando, a parte concedente do estágio e a instituição de ensino”.
eles serem públicos ou privados32.
O decreto n° 64.918, de 31 de julho 1969, instituiu em caráter permanete a Operação Mauá (OPEMA), subordinada ao Ministério dos Transportes, “com a finalidade de integrar os universitários na problemática dos transportes, através de estágios de serviços que lhe facultem o treinamento e a pesquisa, dentro das técnicas em uso nos diferentes centros do País” (BRASIL, 1969).
Houve posteriormente a previsão do estágio supervisionado, através da Resolução do CFE (Conselho Federal de Educação) nª 9, de 10 de outubro de 1969, a qual fixava a formação pedagógica das licenciaturas. Tal resolução, posteriormente consagrada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica (MEC/CNE, 2002), prescreve apenas uma carga horária mínima para o estágio supervisionado, ficando a cargo dos cursos definirem seus formatos.
A semelhança da Portaria Ministerial n° 1.002/67, o decreto n° 66.546, de 11 de maio de 1970, institui um “Projeto Integração”:
Art 1º Fica instituída a Coordenação do "Projeto Integração", com o objetivo de implementar programa de estágios destinadas a proporcionar a estudantes do sistema de ensino superior de áreas prioritárias, especialmente as de engenharia, tecnologia, economia e administração, a oportunidade de praticar em órgãos e entidades públicos e privados o exercício de atividades pertinentes às respectivas especialidades (BRASIL, 1970).
No mesmo sentido do decreto acima, a lei n° 5.692 de 1971, que criou regras relativas às diretrizes e bases do ensino de 1° e 2° grau, previa o estágio como forma de cooperação entre empresa e escola, estabelecendo a inexistência de vínculo empregatício (RIBEIRO DOS SANTOS, 2009).
Em 13 de janeiro de 1972, o decreto n° 69.927 instituiu em caráter nacional o Programa “Bolsa de Trabalho”, semelhante ao Programa de Estágio das EEEPs (decreto n° 30.933/12). Nele, as bolsas de trabalho são custeadas pelo governo com a diferença que o primeiro previa também parcerias/convênios com entidades privadas para tal financiamento,
32 Portaria Ministerial nº. 1.002/67 - Art. 4º - Caberá às Faculdades ou Escolas Técnicas o encaminhamento dos bolsistas às emprêsas, mediante entendimento prévio, não podendo ser cobrada nenhuma taxa pela execução de tal serviço, tanto das emprêsas como dos bolsistas.
Lei nº. 11.788/08 - Art. 5° - As instituições de ensino e as partes cedentes de estágio podem, a seu critério, recorrer a serviços de agentes de integração públicos e privados, mediante condições acordadas em instrumento jurídico apropriado, devendo ser observada, no caso de contratação com recursos públicos, a legislação que estabelece as normas gerais de licitação.
Decreto nº. 30.933/12 – Art. 4° - No âmbito deste Programa {…}, os serviços de Agente de Integração serão executados pela Secretaria de Educação – SEDUC e pela Secretaria do Trabalho e Ação Social – STDS, engajando o estagiário em Instituições Públicas e Privadas, nos termos da legislação vigente. Parágrafo único. Compete aos Agentes de Integração identificar no mercado oportunidades de estágio para os beneficiários do Programa regido por esse Decreto.
enquanto o Governo do Estado do Ceará assume integralmente os custos referentes ao estágio das EEEPs (Anexo C).
Ribeiro dos Santos (2009) evidencia o interessante Projeto de Lei n° 776 de junho de 1972, que visou instituir o estágio universitário junto aos órgãos da administração federal, com todos os direitos previstos pela Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Mas em 26 de maio de 1975, o decreto n° 75.778 passou a regular o estágio de estudantes não apenas do ensino superior, mas também do ensino profissionalizante de 2° grau no Serviço Público Federal, sem vínculo empregatício.
Uma Lei geral do Estágio só veio surgir em dezembro de 1977, sob o n° 6.494 e regulamentada pelos decretos n° 87.497/82, n° 89.467/84 e n° 2.080/96. Essa lei dispunha sobre os estágios de estudantes de estabelecimentos de ensino superior e ensino profissionalizante de 2° grau e supletivo.
Torna-se necessário registar que tanto a categoria de médicos como a de jornalistas armam-se de leis próprias, que dispõe sobre o estágio dos estudantes dessas áreas. Eis o que diz o decreto n° 83.284, de 1979, sobre o exercício de profissão do jornalista:
Art 19. Constitui fraude a prestação de serviços profissionais gratuitos, ou com pagamentos simbólicos, sob pretexto de estágio, bolsa de estudo, bolsa de complementação, convênio ou qualquer outra modalidade, em desrespeito à legislação trabalhista e a este regulamento.
Art 20. O disposto neste decreto não impede a conclusão dos estágios comprovadamente iniciados antes da vigência da Lei nº 6.612, de 7 de dezembro de 1978, os quais, entretanto, não conferirão, por si só, direito ao registro profissional. Eis o que diz a lei n°3.999, de 1961, que dispõe sobre o salário mínimo dos médicos e dos cirurgiões dentistas:
Art. 3o Não se compreende na classificação de atividades ou tarefas, previstas nesta lei (obrigando ao pagamento de remuneração) o estágio efetuado para especialização ou melhoria de tirocínio, desde que não exceda ao prazo máximo de seis meses e permita a sucessão regular no quadro de beneficiados.
Interessante notar que ambas as categorias organizadas previam formas de não degradação da profissão e, com isso, deliberam também sobre a formação dos futuros profissionais, levando em conta os estágios como parte formativa, e não como meio de concorrência que possa ferir a categoria de alguma forma. Tanto que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná criou regras para estágio em jornalismo33:
Visando a complementação da formação acadêmica e evitar a exploração de
33
Regras para realização do estágio em jornalismo. Publicado em 24/06/2013, Disponível em: <sindijorpar.org.br>. Acesso em: 01/07/2016.
estudantes, o SindijorPR apresenta as regras para realização de estágio em jornalismo, conforme aprovado pela diretoria do sindicato e em consonância com o Programa Nacional de Estágio da Fenaj {Federação Nacional dos Jornalistas} 1. QUEM PODE REALIZAR O ESTÁGIO E EM QUAIS CONDIÇÕES A) Quanto à ESCOLARIDADE:
Apenas estudantes de jornalismo regulamente matriculados, a partir do 6º período ou 3º ano;
B) Quanto ao TEMPO:
Período de estágio e horário: O estágio durará no máximo seis meses (com possibilidade de renovação por outros seis meses), com a jornada de quatro horas diárias, ou 20 horas semanais;
C) Quanto à proporção de ESTAGIÁRIOS NAS EMPRESAS: Número de estagiários:
- 1 (um) estagiário para uma equipe de até 5 jornalistas formados; - 2 (dois) estagiários para uma equipe de até 10 jornalistas formados. - 5 (cinco) estagiários para uma equipe de até 25 jornalistas
- 20% - em caso de equipe superior a 25 jornalistas. D) Quanto à SUPERVISÃO dos processos de estágio:
A escola de comunicação e a empresa deverão ter ao menos um supervisor de estágio - obrigatoriamente - para acompanhar o trabalho do estagiário, sendo o horário de jornada do estudante coincidente com o do jornalista responsável pela supervisão do estágio.
Veremos em seguida que a nova Lei do Estágio n°11.788/08 estendeu e flexibilizou mais a jornada, o prazo e a proporção de estagiários nas empresas, em sintonia com o movimento de precarização do trabalho. Apesar de alguns avanços em relação à antiga lei n° 6.494/77 (Anexo C), as brechas e entrelinhas permitem, ainda no campo formal e real, a exploração da força de trabalho dos estudantes/estagiários/trabalhadores.
Compreendemos que o primeiro decreto (n° 20.294/31), que menciona o estágio nas escolas agrícolas da Sociedade Nacional de Agricultura e a Lei Orgânica do Ensino Industrial (n° 4.073/42), dispõe sobre o estágio em ramos ocupacionais específicos e sob maior autonomia docente. A resolução nº 9/69 do CFE, que rege os estágios nos cursos de licenciatura, impõe apenas uma carga horária mínima para que os cursos decidam sobre o seu formato, deixando que o docente responsável pela disciplina crie seus métodos formativos, de acompanhamento e avaliação – enquanto isso, as exceções apresentadas dos médicos e jornalistas regulam de certo modo os estágios através de suas organizações e leis próprias (Lei n°3.999/61; Decreto n° 83.284/79). Desse modo, as leis/decretos acima tratam de campos distintos de formação.
Já da Portaria Ministerial nº 1.002/67 até a nova Lei dos Estágios nº 11.788/08, há um incentivo à liberdade das empresas em adquirir estagiários de forma mais indiscriminada. Conforme leis mais gerais foram sendo criadas, o controle por parte dos profissionais organizados e a autonomia docente foi diminuindo, na medida em que a Lei geral dos Estágios generaliza as formas de trabalho sem diferenciá-los. A nova Lei do Estágio, inclusive, impõe meios de acompanhamento e faz menção à avaliação, provavelmente como
meio de legitimar os estágios como ato educativo pedagógico e não como meio precário de emprego, mas quando o faz transfere para a normatização jurídica uma alçada que deviria ser puramente educacional.
Isso fica demonstrado no revogamento do artigo 82, da Lei Federal n° 9.394/96 (LDB), quando definia que o “os sistemas de ensino estabelecerão as normas para a realização dos estágios dos alunos regularmente matriculados no ensino médio ou superior em sua jurisdição”. Contudo, a lei n°11.788/08 lhe deu a nova redação: “Art. 82. Os sistemas de ensino estabelecerão as normas de realização de estágio em sua jurisdição, observada a lei federal sobre a matéria”.
Também verificamos com esse sintético histórico das leis, que o estágio foi fortemente aclamado no período da ditadura militar-empresarial, quando das dozes menções jurídicas, oito são desse período – e na sua maioria, fazem alusão aos estágios como forma de integração escola-empresa e para o trabalho no serviço público (Anexo C). Não é forçoso refletir que o amplo apelo ao trabalho de estagiários nesse período, fortemente marcado pelo tecnicismo da educação, é produto da política econômica que achatou salários e corroborou com o chamado “Milagre Brasileiro”. Percebe-se também que é nesta época que, nas leis, o estágio passa de um conceito mais genérico da alçada da formação de algumas áreas profissionais e ganha um conceito também genérico de integração entre escola e empresa.
Em parecer CNE/CEB 35 (MEC, 2003), que tem por assunto as “Normas para a organização e realização de estágio de alunos do Ensino Médio e da Educação profissional” e onde relata parte dos debates que antecederam a nova lei n° 11.788/08, fica visível a preocupação do Ministério do Trabalho e Emprego – MET com a precarização do trabalho e dos estagiários:
A questão do estágio tem produzido grande preocupação para o Ministério do Trabalho e Emprego em vista do grande número de fraudes que têm sido perpetradas em razão da utilização ilegal desse instituto jurídico. Os instrumentos utilizados para precarizar a legislação trabalhista no Brasil já são conhecidos. O estágio encontra-se crescentemente submetido a esse mesmo processo de precarização. São exceção os casos em que os estágios têm respondido aos propósitos da lei pertinente ou mesmo às intenções manifestas nas resoluções universitárias. Apesar de tudo o que está escrito, os estágios continuam a ter, em sua grande maioria, três características principais: para as empresas, constituem uma fonte de mão-de-obra barata; para os estudantes, constituem uma fonte de renda; para as instituições do mundo do trabalho, principalmente para a área da fiscalização, constituem um problema. O tratamento do estágio como fonte de mão-de- obra qualificada e barata já representa quase uma tradição. O fato está, de certa forma, explicitamente consagrado pelo reconhecimento de que o estágio representa certa vantagem econômica para as empresas, na medida em que permite reduzir o investimento de tempo, de meios de trabalho e ‘salários’ a que estão sujeitas as empresas ao contratar.
Como se vê, o estagiário ao longo dos anos tem deixado de se constituir em elemento no processo de qualificação profissional, migrando para se transformar em
mera solução para o rebaixamento dos custos das folhas de pagamento das empresas. Hoje, mais do que nunca, temos observado no dia-a-dia das empresas a substituição de seus trabalhadores permanentes por estagiários.
Em relação aos estagiários vinculados aos cursos de nível médio, a situação é ainda mais dramática. Em virtude das reedições de Medida Provisória, estando atualmente em vigor a MP 2.164, de 24/08/2001, tem sido difundido pelo setor empresarial e pelos chamados ‘agentes de integração’, nas situações em que agem como verdadeiros operadores de mediação de mão-de-obra, a idéia de que qualquer estudante de nível médio pode ser estagiário.
Destaque-se que a Lei n.o 6.494/77 (estágio) não foi revista de maneira a incorporar os princípios da Doutrina da Proteção Integral agasalhados pela Constituição Federal de 1988, pela Lei n.o 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente) e pela Lei n.o 10.097/00 (aprendizagem). Além de não incorporar tais princípios, a lei do estágio por força da MP n.o 2.164/2001, foi no sentido oposto, tornando o estágio porta aberta para as fraudes e negação de direitos básicos e fundamentais garantidos aos jovens.
Mas, a interpretação originada pelo comando inserido pela MP 2.164 foi de maneira equivocada, por parte de algumas instituições e empresas, a de que não mais se exigiria a qualidade de profissionalizante para os cursos de nível médio. Rapidamente, instituições interessadas na intermediação generalizada de mão-de- obra adolescente, se puseram a teorizar e defender a exploração de estudantes matriculados em cursos de ensino médio, sem conteúdo profissionalizante, na condição de estagiários. Que relação pode haver entre um serviço rotineiro, maçante e tradicional de auxiliar de escritório, digitador ou atendente com matérias de geografia, história, matemática ou português. Na verdade, não se estagia pois o trabalho não guarda qualquer relação com o currículo escolar. Apenas, se substitui mão-de-obra permanente por falsos estagiários.
Este Ministério entende que as formas de inserção de jovens no mercado de trabalho (aprendizagem – estágio – contratação regular após 16 anos) devem ser tratadas de forma a garantir que tal inserção se faça com a garantia de que se afastem quaisquer possibilidades de fraudes e tentativas de explorar força de trabalho de jovens de forma desprotegida. A linha perseguida deverá ser sempre a do trabalho decente. […] Finalmente, este Ministério propõe que seja aprofundado o debate, junto aos atores envolvidos com a temática do estágio, em torno da possibilidade de extensão do estágio para a educação profissional de nível básico, mediante o cumprimento de requisitos mínimos (dentre outros, vinculação ao projeto pedagógico da escola, limitação de carga horária máxima de dedicação ao estágio face à carga horária total do curso e remuneração) e considerando-se a eventualidade de sua implementação sendo determinada por mudanças na lei.
De fato, a nova Lei do Estágio (n° 11.788/08) incorporou o currículo e o projeto pedagógico, dando maior ênfase ao papel da instituição de ensino no acompanhamento do estágio. Ao mesmo tempo em que a incube de maiores responsabilidades perante a possibilidade de fraude da lei, incorpora também meios de acompanhamento dos estágios, como relatórios, orientação do professor e supervisão de um profissional da área de atuação do estagiário, integrante do quadro de pessoal da concedente; fixa a jornada, o período possível de estágio e direito a recesso (Quadro 3 e Anexo C).
A nova lei fixa também o limite de estagiários contratados, relativo ao número de profissionais. Contudo, esse limite não se aplica aos estagiários de instituições de ensino
superior e educação profissional de nível médio – os dois níveis que possuem o maior contingente possível de estagiários. Sendo assim, no estágio curricular das EEEPs “a empresa/órgão/instituição pode ter quantos estagiários quiser, contanto que disponibilizem um funcionário para supervisionar grupos de até 10 estagiários, por supervisor” (SEDUC, 2014).
A previsão para estágio de estudantes de ensino médio e dos anos finais do ensino fundamental, conforme visa a nova lei (art. 1°), como relatado no parecer acima do MET, é motivo para estranheza, já que não é resguardado conteúdo profissionalizante que possa conferir compatibilidade com o estágio34.
Conforme o parecer CNE/CEB 35 (MEC, 2003) demonstra, as discussões oficiais em torno do estágio perpassam o mesmo panorama feito em torno da educação no preparo para o trabalho e para as mudanças operadas no mercado, com a participação sempre marcada do setor empresarial.
Segundo Shiroma (2007), as políticas educacionais marcadas pela contrarreforma do Estado buscam uma aparência de consenso através de algumas representatividades da sociedade civil, da mídia, intelectuais, etc. No citado parecer do MEC, essa falsificação de um consenso persiste.
[…] as minutas de Parecer e de Resolução, regulamentadoras das atividades de estágio supervisionado, permaneceram em regime de Audiência Pública Virtual, no