As questões que me colocaram nos caminhos desta pesquisa, referem-se à formação pedagógica do docente universitário. Muitas indagações permearam meu desejo em pesquisar este tema, mas, voltando meu olhar para os que promovem esta formação, passei a ter uma questão mais pontual: a de conhecer mais sobre o papel dos assessores pedagógicos que atuam nos espaços institucionais para a formação pedagógica dos professores universitários e como sua atuação qualifica a formação dos docentes que ali atuam.
No entanto, a questão específica, que se mostra necessária nesse percurso de pesquisa, é saber “qual a relação que pode ser estabelecida entre a concepção de formação presente nos espaços institucionais e a ação das assessorias pedagógicos na busca pela qualidade da ação dos professores universitários”?
Quando falamos em fazer ciência, a preocupação com o problema de pesquisa é fundamental. Afinal, qual a relevância de uma pesquisa que deseje conhecer mais sobre o trabalho e as concepções de formação dos assessores pedagógicos e buscar indícios que este trabalho, a partir dessas concepções, qualifica o percurso do docente universitário?
A partir de uma grande pesquisa bibliográfica, em que comecei a aprofundar-me no contexto universitário, procurando saber o que tem acontecido nas últimas décadas e o que os diversos autores que o estudam têm revelado a seu respeito, por meio de discussões em disciplinas e participação em congressos que tratam da temática da universidade, foi possível perceber que a questão da formação do docente, no sentido de uma profissionalização voltada para a docência, ainda é frágil dentro da universidade. De tal maneira, descobri que apenas há algum tempo isso começou a ser discutido com mais ênfase, pois, até então, o que se tinha como paradigma era que o caminho estava correto, que o ensino na universidade deveria mesmo ser centrado no professor e que sua formação específica dava conta de “passar” os conhecimentos necessários para que ocorresse a constituição de um bom profissional.
Os tempos mudaram e foi se sentindo a necessidade de repensar essa posição, e esse sentimento tem levado alguns pesquisadores a se debruçarem sobre esta temática, apesar de sabermos que a situação anterior ainda se faz presente no contexto da universidade. A questão do assessoramento pedagógico e dos Centros de Formação também tem estado no foco de algumas pesquisas. No entanto, há a percepção de que estamos apenas no início da discussão, porque muito se tem para pensar sobre a formação pedagógica do docente universitário e, especialmente, sobre aqueles que se propõem a realizarem esta formação, que aqui estamos chamando de assessores pedagógicos de acordo com nossas referências teóricas.
A partir da caminhada de descoberta sobre este tema, que se mostrou relevante durante todo o percurso, veio o desafio de escolher as melhores formas de abordar este assunto para que se tornasse uma pesquisa social que trouxesse em seu bojo os rigores próprios da ciência e pudesse vir a contribuir com a reflexão acerca das questões colocadas já aqui, desde a revisão bibliográfica sobre a universidade.
Nesse sentido, Lüdke e André (1986) afirmam que as pesquisas em educação estão situadas entre as ciências sociais e humanas, mas por muito tempo seguiram os caminhos das ciências naturais, buscando construir conhecimento científico dentro do campo da educação por meio de experimentos e isolando os fenômenos. No decorrer do tempo, foram sendo encontrados outros caminhos, pois era necessário que as metodologias de pesquisa “se
adaptassem melhor ao objeto de estudo considerado importante pelos pesquisadores em educação” (LUDKE E ANDRÉ, 1986, p. 3).
Dessa forma, surgiram, e surgem até hoje, caminhos que permitem que a pesquisa social, humana e em educação seja realizada com todo rigor esperado de uma pesquisa científica, ao mesmo tempo em que considera suas peculiaridades em lidar com situações sociais, culturais, dentro de contextos específicos que exigem uma análise diferenciada.
Para tanto, buscando uma análise que tenha seu olhar voltado para a interpretação do real por meio de seu contexto social, histórico, cultural, optamos por uma abordagem qualitativa da pesquisa, um caminho também possível quando pensamos em pesquisa educacional.
Oliveira (2008) afirma que a pesquisa qualitativa leva em conta o fato de o ser humano não ser passivo, mas se constituir em um ser que interpreta o mundo em que vive continuamente. Diz que o homem é diferente dos objetos, por isso o seu estudo necessita de uma metodologia que considere essas diferenças. Nesse posicionamento teórico, há a possibilidade de interpretar a realidade a partir dos dados levantados, mas não apenas isso. É possível, também, intervir nessa realidade por meio do contato com os sujeitos pesquisados.
Coutinho (2011), ainda sobre a abordagem qualitativa ressalta que
A nível conceitual, o objeto de estudo na investigação não são os comportamentos, mas as intenções e situações, ou seja, trata-se de investigar ideias, de descobrir significados nas ações individuais e nas interações sociais a partir das perspectivas dos atores intervenientes no processo (COUTINHO, 2011, p. 26).
Esse nível conceitual está presente neste trabalho, pois, descobrir significados nas ações individuais e nas interações sociais e averiguar como esses significados contribuem na formação pedagógica do docente universitário, esteve presente durante todo percurso da pesquisa.
Godoy (1995), explica que, na abordagem qualitativa da pesquisa
Parte de questões ou focos de interesses amplos, vão se definindo à medida que o estudo se desenvolve. Envolve a obtenção de dados descritivos sobre pessoas, lugares e processos interativos pelo contato direto do pesquisador com a situação estudada, procurando compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos sujeitos, ou seja, dos participantes da situação em estudo (GODOY, 1995, p. 58).
Realmente, as questões foram se aprimorando no decorrer da coleta de dados, os caminhos foram sendo redefinidos, pois “refazer e retocar o caminho” é parte integrante do processo de pesquisa e foi o que fizemos durante todo este percurso, procurando sempre compreender o posicionamento dos participantes em cada situação vivida junto a eles.
Tendo clara a questão de pesquisa e a abordagem que utilizaríamos, a decisão estava em busca do melhor delineamento para o estudo e, ao verificar os objetivos que foram se formando e a pergunta já amadurecida, pensamos que o estudo de caso seria um caminho coerente para chegar onde estávamos dispostos a ir.
O estudo de caso, segundo Yin (2001, p. 32), é uma investigação empírica de “um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto de vida real”. O autor diz que é preciso ficarmos muito atentos ao nosso problema de pesquisa, pois, dependendo da pergunta que faremos, a estratégia metodológica será diferenciada e, para que o estudo se configure em um estudo de caso, é necessário que a questão de pesquisa se concentre em perguntas que salientem o “como” e o “por que”, o que também fez com que nos identifiquemos com essa estratégia metodológica.
Lüdke e André (1986) dizem que “quando queremos estudar algo singular, que tenha um valor em si mesmo, devemos escolher o estudo de caso” (p. 17). As autoras elencam sete características fundamentais do estudo de caso que vemos se encaixarem nessa pesquisa:
Os estudos de caso visam à descoberta; enfatizam a “interpretação em contexto”;
buscam retratar a realidade de forma completa e profunda; usam uma variedade de fontes de informação; revelam experiência vicária e permitem generalizações naturalísticas; procuram representar os diferentes e às vezes conflitantes pontos de vista presentes numa situação social e os relatos do estudo de caso utilizam uma linguagem e uma forma mais acessível do que os outros relatórios de pesquisa (LÜDKE E ANDRÉ, 1986, p. 18-20).
Essas características estão presentes em nossa pesquisa, pois, quando nos propusemos a pesquisar os Centros de Formação Pedagógica das Universidades Estaduais Paulistas e seus assessores, buscamos fazer uma averiguação de forma profunda, mergulhando na realidade pesquisada e propondo, até o fim, não só descrever essa realidade, mas analisar, refletir, apontar caminhos e levantar mais questões, para que a pesquisa nessa área possa crescer cada vez mais. Uma das características apontada pelas autoras diz respeito à interpretação do contexto e, Yin (2001), complementa dizendo que as condições contextuais são substanciais num estudo de caso, sendo que o pesquisador precisa ter isso muito claro para confirmar que pretende fazer este tipo de estudo, pois vai lidar com o contexto do fenômeno escolhido primordialmente.
No caso de nossa pesquisa, essa questão estava clara desde o início, no entanto, estudar apenas um Centro de Formação Pedagógica, de uma universidade, não nos daria os olhares que gostaríamos de ter sobre as iniciativas como esta. Assim, optamos por investigar três universidades, o que tornou nossa investigação um estudo de caso múltiplo.
Tendo como objetivo geral da pesquisa o desejo de saber quais as concepções de formação que os assessores pedagógicos, corresponsáveis pelos processos de formação pedagógica de professores universitários, possuem, e, como essas concepções contribuem para a qualificação do lócus de formação desses docentes, iniciamos a escolha das universidades que queríamos pesquisar. Além de nos permitir trabalhar o objetivo geral, a escolha das universidades também nos impulsiona aos objetivos específicos, já citados previamente nesta pesquisa, mas que retomamos neste momento. São eles:
1. Identificar e conhecer as formas institucionais de apoio pedagógico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, da Universidade de Campinas – UNICAMP e da Universidade de São Paulo – USP, suas estratégias e abrangência de atuação, organizando um quadro analítico que permita compreender como essas iniciativas estão organizadas e como tem se dado as trajetórias institucionais relacionadas ao assessoramento pedagógico;
2. Averiguar como a experiência pessoal do assessor pedagógico, suas concepções e a vivência de formação dentro da instituição a qual coordena, contribui para auxiliar na construção dos caminhos do respectivo Centro de formação do qual faz parte;
Nos caminhos de descoberta, optamos pelos Centros de Formação existentes nas três Universidades Estaduais Paulistas. A escolha foi feita, em primeiro lugar, por nos encontrarmos numa dessas universidades, o que nos move a conhecer mais sobre as propostas de formação pedagógica dessa instituição aos seus docentes. A escolha das outras duas se deu por se situarem no mesmo Estado e pertencerem a um universo comum, desde o mesmo órgão fiscalizador, pagador e legislador até o espaço de ocupação. Este, então, é o nosso lócus de pesquisa.
Para uma compreensão melhor do que Yin (2001) traz sobre o Estudo de Caso Múltiplo, exemplificamos com um fluxograma o caminho percorrido.
Figura 1 - Visualização deste Estudo de Caso Múltiplo
Definição de Planejamento – Preparação, Coleta e Análise – Análise de Conclusão
Fonte: Adaptação de Cosmos Corporation (apud Yin, 2001, p. 73).
Yin (2001) fala da importância da etapa inicial, em que se determina o estudo e no desenvolvimento da teoria. Diz, ainda que “cada caso, em particular, consiste em um estudo completo, no qual se procuram provas convergentes com respeito aos fatos e as conclusões para o caso” (YIN, 2001, p. 72). A partir de todo o percurso, ao final se verificará cada caso, buscando a compreensão das concepções presentes nas práticas dos assessores e nos Centros de Formação que tiverem sido reveladas no decorrer do estudo.
A partir da escolha dos Centros a serem pesquisados e das estratégias metodológicas definidas, fomos em busca dos participantes de nossa pesquisa, que seriam os responsáveis diretos pela organização e operacionalização das formações aos docentes dessas universidades – aqui chamados de assessores pedagógicos. Foram 4 assessores ao todo pesquisados, sendo um do CENEPP (Unesp), um do GAPRP (Usp) e dois do EA2 (Unicamp).
Junto aos sites dos centros12 pudemos fazer um levantamento desses assessores e delimitamos os participantes aos coordenadores desses Centros, por serem pessoas que estão à
12 CENEPP - <http://siscenepp.ibb.unesp.br/#>; GAPRP - <http://gap.cirp.usp.br/contato/contato.html>;
frente do trabalho realizado, tendo uma visão global de todo funcionamento e por todos possuírem a característica de atuarem diretamente na formação.