Os efeitos com suas causas parecem, e ter bons amigos, a melhor razão de bons juízos. Juan Lopes Sierra.
Neste capítulo, discorremos acerca das relações de afeição291, tais como o
amor e a amizade, que contribuíam para formalizar não somente as relações quotidianas na Península Ibérica no século XVII, mas também o exercício do poder político, privilégio dos homens notáveis. Primeiramente, devemos voltar a ressaltar que as sociedades das monarquias ibéricas seiscentistas não devem ser compreendidas por meio de uma visão romântica, a qual presume que o papel do indivíduo e de suas expressões subjetivas possuíam importância central no imaginário e nas relações político-sociais292.
À vista disso, o dever em relação à sociedade possuía prioridade frente à vontade particular, como adverte António da Silva e Sousa293, em sua Instrucçam
politica de legados, impressa em 1656: “conforme as leyes da natureza, o homem
nam naceo sò para si: hua parte deve a sua patria, outra deve a seus pays, e a outra a seus amigos [...]294”.
291 Preferimos utilizar a palavra “afeição” em vez de “afeto”, pois o padre Rafael Bluteau, em seu
Dicionário da Língua portuguesa, composto no início do século XVIII, diferencia os dois termos. De acordo com a obra, a palavra “Afeto” significa uma comoção violenta da vontade, amor, propensão ou aversão forte, em razão de sensações fortes agradáveis ou penosas, enquanto “afeição” significa afeto amoroso ou propensão amigável, benévola, e comumente se toma por afeição amigável. Nesse sentido, creio que o termo afeição se adequa melhor ao tema estudado. SILVA, Antonio de Moraes; BLUTEAU, D. Rafael. Diccionario da Lingua Portuguesa composto pelo padre D. Rafael Bluteau: reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789. Tomo segundo L – Z, p. 34- 35.
292 CARDIM, Pedro. Amor e amizade na cultura política dos séculos XVI e XVII. Lusitânia
Sacra, Lisboa, n. 11, p.21-57, 1999, p. 22.
293 António da Silva e Sousa foi um doutor em direito, graduado na Universidade Athenas
Coimbricense. Foi nomeado provedor da Beja, após a aclamação de Dom João IV. Foi também desembargador do Porto da Casa de Suplicação e dos Agravos. Tendo mostrado bastante habilidade no serviço dos referidos cargos, foi enviado para a Suécia, para tratar acerca da prisão do Infante Dom Duarte. Retornando a Portugal, foi nomeado corregedor do Crime e da Corte pelo regente Dom Pedro. MACHADO, Diogo Barbosa. Biblioteca lusitana: histórica, crítica e cronológica – na qual se compreende a notícia dos autores portugueses e das obras, que compuseram desde o tempo da promulgação da Lei da Graça até o tempo presente. Lisboa: Oficina de Antônio Isidoro da Fonseca (v.1), 1741-1759, p. 390-391.
294 SOUSA, António da Silva e. Instrucçam politica de legados ao Sereníssimo Principe Dom
Afonso Nosso Senhor, por António da Silva e Sousa, Amburgo: [s.n], 1656, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 41-42.
Seguindo pela mesma lógica, António de Sousa de Macedo, em sua
Armonia política (1651), afirma que acaso o monarca, atendo-se apenas a sua consciência particular, despreze a “opinião comum”, ele
sera injusto comsigo, privandose da honra devida ao virtuoso: com o proximo, negandolhe o bom exemplo: e com a virtude, tirandolhe o meo de se communicar. Por isto o hommem não he senhor absoluto, mas dispenseiro fiel de sua reputação; pois se a quiser estragar pello que lhe toca, a deve conservar pello que pertence ao publico295.
Na época moderna, a amizade e o amor estavam relacionados a ideias religiosas e filosóficas, que compreendiam tais sentimentos enquanto tendência natural para a colaboração mútua entre os homens, a partir da qual se pautavam tanto as relações sociais, quanto a relação íntima entre o homem e a Divindade296.
No sentido teológico, o amor e a amizade eram vistos como desdobramentos da virtude da caridade cristã, que consiste em “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”297.
Considerando que o amor e a amizade eram vistos como seguimentos e manifestações de uma mesma origem, isto é, da caridade cristã, as definições de ambos conceitos eram bastante imprecisas, chegando por vezes a coincidirem- se298. Portanto, limitaremos nossa análise ao conceito de amor enquanto “amor ao
próximo”, ou seja, enquanto a inclinação natural dos homens de fazer o bem uns
295 MACEDO, António de Sousa de. Armonia política dos documentos divinos com as
conveniências d'Estado: exemplar de principes no governo dos gloriosíssimos reys de Portugal ao sereníssimo principe Dom Theodosio por Antonio de Sousa de Macedo, Haga do Conde: na officina de Samuel Broun impressor ingrez, 1651, Biblioteca Nacional de Portugal, p. 30-31.
296 Ibidem, p. 24.
297 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. Da doutrina à vivência: amor, amizade e casamento
no leal conselheiro do Rei D. Duarte. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, Porto, v. 1, p.133-194, 1984, p. 140-141.
298 A historiadora Maria de Lurdes Fernandes, que buscou compreender as relações de amizade,
amor e casamento a partir do livro Leal Conselheiro, escrito pelo Rei D. Duarte, na primeira metade do século XV, nos traz uma importante reflexão acerca de como o monarca aborda o tema em alguns capítulos de sua obra. De acordo com a autora, D. Duarte inicia o texto com distinções pouco claras entre as noções de amor e amizade, para em seguida ir delineando-as até chegar a definições mais precisas desses conceitos. Na concepção do Rei-Filósofo, a amizade era preferível ao amor, pois o amor, enquanto atributo do coração, poderia levar a pessoa a desejar ser amada acima de tudo, de maneira desvairada, enquanto a amizade, que nasce do “entendimento”, desperta o desejo de servir aquele a quem se quer bem, antepondo o bem do amigo ao seu próprio. Entretanto, D. Duarte não condena o amor, apenas recomenda que se encontre o equilíbrio entre o “amar com o coração” (amor) e o “amar com o entendimento” (amizade). FERNANDES, op. cit., 148-155.
aos outros; e de amizade, como o desejo consciente de amar e ser amado por alguém com quem se possui certas qualidades e virtudes em comum299.
No que diz respeito à unidade política, esta se fundamentava no amor comum em torno do monarca, que garantia a harmonia coletiva, ao passo que inibia as hostilidades entre os homens dentro dos territórios da Coroa, proporcionando o sentimento de segurança dos súditos em relação as suas vidas. Tal harmonia e segurança eram sustentadas por meio dos princípios morais suscitados pela ideia da existência de uma afinidade natural entre o rei e seus súditos, que resultava no amor para com o soberano300.
Contudo, é válido lembrar que o âmbito político não se apartava do religioso e a ética cristã da amizade e do amor ao próximo não poderia ser pensada sem o engajamento ativo na organização do poder. Amar ao próximo não era considerado um mero comando à consciência individual, mas a afirmação do fundamento natural e divino da organização político-social, que embora feita por homens, deveria atender aos desígnios da Divindade. Portanto, a monarquia e suas instituições jurídico-institucionais eram concebidas como meios propícios para o contato entre a humanidade e Deus, confirmando a necessidade dos homens de unirem-se em um corpo político e cristão hierarquizado, visando a consumação da ordem divina da trajetória humana. Nesse sentido, o amor, antes de um sentimento, configurava um dever cristão desdobrado em providência política301.
Em relação aos esquemas formais que representavam publicamente o amor ao próximo e a amizade, podemos dizer que assim como os discursos memoriais não configuravam a expressão de paixões individuais “barrocamente”, mas sim eram definidos por um “esquematismo do modelo”, pautado pela memória dos “bons usos” das representações retóricas302, durante o século XVII
ibérico, os sentimentos e os laços de afeição não estavam exclusivamente limitados à esfera privada. Estes eram, ao contrário, marcados por formalidades públicas, que abarcavam diversos gestos externos e aspectos visíveis de conduta
299 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. Da doutrina à vivência: amor, amizade e casamento
no leal conselheiro do Rei D. Duarte. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, Porto, v. 1, p.133-194, 1984, p. 140-150.
300 MARAVALL, J. A. Teoría del estado em España en el siglo XVII. 2. ed, Madrid: Centro de
estudios constitucionales, 1997, p. 344-345.
301 PÉCORA, Alcir. Teatro do Sacramento, São Paulo: editora da unicamp", 2008, p. 193-194. 302 HANSEN, João Adolfo. Barroco, neobarroco e outras ruínas. Destiempos, México, v. 14, n. 3,
que, por sua vez, estavam ligados à memória dos benefícios feitos por aqueles com os quais se mantinha alguma relação amistosa303.
Tais relações fraternais, para além dos laços de parentesco e do matrimônio, podiam assumir diversas formas, como o apadrinhamento, o clientelismo, o compadrio, o companheirismo militar, a confraria, dentre várias outras. Nesse sentido, as fórmulas que exteriorizavam a afeição evocavam o ajuste da relação de benevolência304 e lealdade, sobre a qual se assentava a amizade e o
amor ao próximo305.
No entanto, a amizade não requeria necessariamente um nivelamento entre as partes envolvidas. Embora a amizade entre iguais representasse a forma mais perfeita de união, ela poderia ser estabelecida entre pessoas de “famílias diversas, de diferentes condições sociais, ou gozando de distintas posições de poder”, sendo capaz de unir tanto aqueles que partilhavam o mesmo estatuto social, quanto pessoas que ocupavam posições sociais díspares, tais como um patrono e seu cliente. Ambos os tipos de relação eram regulados pela mesma noção de benevolência, na qual o respeito pelo decoro hierárquico encontrava-se sempre presente306.
Apesar da amizade poder se manifestar entre pessoas de diversas posições sociais, a quebra do decoro hierárquico nas relações fraternais resultaria em grandes prejuízos para a organização político-social. Um exemplo disso encontra- se em um manuscrito acerca da vida do rei Dom Afonso VI, intitulado Epítome da
vida do Sereníssimo Rei de Portugal D. Afonso VI, supostamente escrito por Don Nuno Álvares Pereira de Melo, duque de Cadaval e copiado por Luís Teixeira de Carvalho, em 1668307.
303 CARDIM, Pedro. Amor e amizade na cultura política dos séculos XVI e XVII. Lusitânia
Sacra, Lisboa, n. 11, p.21-57, 1999, p 21-40
304A benevolência era considerada um atributo do amor e da amizade, identificada como uma
“inclinação natural para o bem”, que era efetivada na troca de benefícios entre amigos e familiares. CARDIM, op. cit., 1999, p. 36
305 Ibidem, p. 21-40. 306 Ibidem, p. 44-45.
307 Trata-se de um manuscrito o qual foi supostamente escrito por Don Nuno Álvares Pereira de
Melo, duque de Cadaval, que possuía diversas queixas em relação às ações de Dom Afonso VI, tornando-se uma importante influência na deposição desse monarca. O copista, Luís Teixeira de Carvalho, afirma que o manuscrito chegou a suas mãos após a morte de um clérigo, seu antigo dono. CARVALHO, Luiz Teixeira de. Epítome da vida do Sereníssimo Rei de Portugal D. Afonso VI, Coimbra: Manuscritos Reservados, 1668. Biblioteca Nacional de Portugal.
Nesse discurso, o autor relata a amizade de D. Afonso VI308 com António
de Conti, um vendedor de bugigangas que caíra nas graças do jovem rei. Com o escândalo que causou a relação do monarca com um "homem de baixa esphera", sua mãe, a rainha Luísa de Gusmão, impediu-lhe de continuar encontrando-se com o rapaz. Todavia, vendo o rei muito sentido com a situação e temendo pela sua saúde, acabou por permitir que Conti se tornasse moço de guarda-roupa do rei, e assim, segundo o autor, "Antonio de Conti foi affastando a El Rey de todas as pessoas Grandes, metendolhe negros, mouros, e mulatos, por ver que propendia a inclinação do Rei por aquella gente [...]309".
Podemos perceber que, mesmo havendo uma enorme distância entre as posições ocupadas pelo monarca e Antonio de Conti, a rainha permitiu a introdução do jovem no Paço como moço de guarda-roupa, pois temia pelo estado de saúde do filho, que se entristecera com a separação imposta por sua mãe. Nesse caso, nota-se que a desarmonia causada por essa amizade, que afastava o rei de todas as “grandes pessoas”, não havia sido causada, em princípio, pela diferença de estatuto social, mas pela falta de virtude em António Conti, que se aproveitou da propensão pueril do monarca para inseri-lo em um círculo de amizade que contava apenas com pessoas de “baixa esfera”, quebrando, dessa forma, o decoro hierárquico.
Deste modo, a harmonia em uma relação de amizade dizia mais respeito à comunicação de virtudes e sentimentos elevados entre os amigos, do que estritamente as suas posições hierárquicas, uma vez que nem todos eram capazes de praticar a caridade. Certos homens soberbos e cobiçosos, independentemente de seu estatuto social, agiam apenas de acordo com seus próprios interesses, dessa forma, não eram considerados aptos para o estabelecimento de uma verdadeira
308 Dom Afonso VI sucedeu seu pai, Dom João IV, no trono lusitano, após a morte do herdeiro,
seu irmão Dom Teodósio. O monarca logrou diversas vitórias contra os castelhanos nas guerras de restauração. No entanto, na Corte, Dom Afonso foi uma figura controversa. Dizia-se que, em virtude de uma doença que o rei sofrera quando criança, o rei havia ficado com problemas mentais, encolerizando-se facilmente, e desenvolvendo uma inclinação a se relacionar com pessoas de “rotos costumes”, que cometiam vários crimes com a conivência do monarca. Após ser advertido por sua mãe, a rainha Luísa de Gusmão, junto a alguns fidalgos, Dom Afonso VI manteve a sua conduta, dando provas de seu ânimo “brutal e indômito”. Dessa forma, em 1667, por meio de uma sessão da Junta dos Três Estados, decidiu-se que o rei deveria ser deposto, sendo substituído no trono por seu irmão, o infante Dom Pedro. FIGUEIREDO, António Pereira de. Elogios dos Reis de Portugal em latim, e em portuguez illustrados de notas historicas e críticas, por António Pereira de Figueiredo, Lisboa: Off. de Simão Thaddeo Ferreira, 1785, p. 211-216.
amizade, pois, de acordo com a definição cristã de caridade, o amor ao próximo devia ser cultivado desinteressadamente.310
Por outro lado, segundo o pensamento de Cícero311, os homens de bem,
compreendidos como aqueles que exercitavam as virtudes da lealdade, fidelidade, bondade e liberalidade, a partir das quais se poderia estabelecer a confiança e a constância que deveria existir em uma verdadeira relação amistosa, eram naturalmente impelidos a unirem-se em laços de amizade, ainda que entre eles houvesse diferenças de idade, riqueza, talento e até mesmo de virtudes, haja vista que com a convivência entre amigos, tais disparidades tendiam a ser gradualmente corrigidas, pois, conforme se aproximavam, os amigos tendiam a apreciar e a reproduzir as condutas e costumes uns dos outros312.
Ademais do caráter moral da amizade, esta também assumia um papel central no ordenamento político. As relações de poder estavam inseridas, segundo a ótica aristotélica, em vínculos de amizade assimétricos, os quais ligavam os governantes ao governados, os pais aos filhos e os patrões aos clientes. O laço assim estabelecido era consolidado por atitudes correspondentes às partes. Do benfeitor, esperava-se que ele doasse com liberalidade, enquanto do beneficiário, a expectativa era de que esse recebesse com gratidão, disponibilizando-se para a prestação de serviços futuros313.
Essas relações de amizade “desiguais” tendiam a se converter em associações de tipo clientelar314, que possuíam um caráter informal, embora
estivessem inseridas na lógica do dever de se beneficiar sempre aos “mais amigos”. Os benefícios e as formas de retribuição não provinham de um cálculo
310 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. Da doutrina à vivência: amor, amizade e casamento
no leal conselheiro do Rei D. Duarte. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, Porto, v. 1, p.133-194, 1984, p. 141.
311 Cícero era um dos pensadores mais citados nas obras de teólogos que escreviam acerca do amor
e da amizade, e era também muito admirado pelos autores ibéricos dos séculos XVI e XVII. CARDIM, CARDIM, Pedro. Amor e amizade na cultura política dos séculos XVI e XVII. Lusitânia Sacra, Lisboa, n. 11, p.21-57, 1999, p. 24.
312 CICERO, Marcus Tullius Diálogo Sobre a Amizade. 2001. Disponível em:
<https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxoZWxlbml zbW98Z3g6NjExMjM4YzI0MTg2ZjFmMA>. Acesso em:11 nov.2016.
313 HESPANHA, António Manuel; XAVIER, Ângela Barreto. As redes clientelares. In:
MATTOSO, José (org.). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Estampa, 1992, p. 340- 342.
314 Por clientelares, entendemos as relações de poder instituídas informalmente, ou extra-
judicialmente, que vinculavam os agentes por meio de uma lógica de obrigações referentes à prestação de benefícios e retribuição destes em forma de serviços. HESPANHA; XAVIER, op. cit., p. 342.
econômico que exigia uma reciprocidade exata, mas das trocas assimétricas de bens materiais, políticos e simbólicos, que apesar de assumirem um caráter obrigatório, também eram circunstanciais315.
Dessa forma, devido às possibilidades indefinidas de retribuição de um benefício, ao retribuir, o agraciado tendia sempre a acrescentar algo além do valor presumível da dádiva, e assim sucessivamente. Esse processo unia os agentes em um contínuo encadeamento de serviços e benefícios e consolidava o compromisso de troca de vantagens entre patrão e clientes316.
A concepção de compromisso baseada em uma “relação de amizade assimétrica” é retratada por Lopes Sierra, em seu Panegírico a Afonso Furtado, escrito na Bahia, em 1676, por motivo da morte de Dom Afonso Furtado, governador-geral do Brasil. De acordo com o autor, ao perceber que sua doença piorava e a morte era certa, o governador ordenou ao seu sobrinho, o qual vivia em Lisboa, que “agregasse a si todos os seus criados e que os conservasse como ele o fazia, fazendo-lhes o custo até o Reino”. Dessa forma, Afonso Furtado retribuiu os bons serviços de seus criados, garantindo que não ficassem desamparados após seu falecimento. Zelar pelos interesses das pessoas próximas era também um dever político, de ordem corporativa, haja vista que “quem pelas partes olha, a essência do todo quer conservar317”. Esta frase também traduz a
lógica moral da sociedade corporativa, segundo a qual a sociedade se definia desde a família até o reino.
A amizade entre os patronos e os autores dos discursos memoriais
Seguindo pela lógica apresentada previamente, a relação entre os autores dos discursos memoriais e seus patrocinadores também respeitava determinadas práticas, mais ou menos ritualizadas, para demonstrar e reafirmar a relação de amizade entre eles. Nos discursos memoriais, a prática mais comum de demonstração de amizade era a dedicatória oferecida pelos autores ao seu
315 HESPANHA, António Manuel; XAVIER, Ângela Barreto. As redes clientelares. In:
MATTOSO, José (org.). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Estampa, 1992, p. 340.
316 Ibidem, p. 340
317 SIERRA, Juan Lopes. Vida o Panegírico fúnebre al senor Affonso de Furtado Castro do Rio
Mendonca. In: SCWARTZ, Stuart B., e PÉCORA, Alcir (orgs.). As Excelências do Governador. O Panegírico Fúnebre a D. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676). São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 135.
benfeitor, ou a alguma outra grande figura com a qual o autor mantinha, ou desejava manter, uma relação clientelar318.
Acerca das relações clientelares entre autores de discursos memoriais e seus patrocinadores, o frei Fernando de Santo Agostinho319, na dedicatória que fez
a Nuno de Mendonça, Conde de Val de Reys320, no impresso de sua Oraçam
funebre nas exequias annuaes do Serenissimo Rey de Portugal Dom Manoel, em 1685, relata o seguinte:
Havendo obedecido a prègar este Sermão, porque a Mesa me havia para elle nomeado, & V.S. assistia como Provedor, me pareceo, que, sendo a presença de V.S. a q em materia tão difficio, fez satisfazer o Pregador tão illustre auditorio, era preciso, que, havendo de sahir a publico o Sermão, me valesse da protecção de V.S. para assim assegurar o credito do que havia prègado, & não temer os perigos, que costumão ter semelhantes obras, quando se expõem a todos, & muito mais quando todos conhecem, o como he antigo em V.S. o honrarme, & tudo o que me toca; & foy tão publico, como o illustrissimo Senhor Dom Antonio de Mendonça, Arcebispo de Lisboa [...] o fez a meu irmão, & a mim, não sò com a generosidade, com que costumava fazer a muitos; mas com hum affecto tao particular, que não poderà nunca ter satisfação, para se gratificar mais q o continuo reconhecimento, que sò este pòde