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O estudo da gramática antecedia o aprendizado da Retórica e Poética, tidas como disciplinas mais adiantadas. Essa ordem de estudos, talvez, seja herança da formação clássica que fora reproduzida no ensino das línguas vivas e que se verifica nos currículos do Colégio Pedro II. A pequena participação da "Gramática Nacional" até 1869, ensinada apenas no primeiro ano, deveu-se, sobretudo, à supremacia da formação clássica nesse período. Para Fávero (2002), há outra possível causa: a de que os alunos, por fazerem parte de uma parcela privilegiada culturalmente, não precisavam aprender gramática, uma vez que já chegavam às escolas alfabetizados e detentores dos rudimentos da língua portuguesa.

De acordo com Haidar (idem), as aulas de português, entre 1841 e 1882, eram assim estabelecidas:

• 1841 – 1º ano – Gramática Geral e Nacional. • 1850 – 1ª ano – Gramática Nacional.

• 1856 – 1º ano – Português. • 1858 – 1º ano – Português. • 1862 – 1º ano – Português

• 1862 – 6º ano – Gramática Filosófica e Retórica. • 1877 – 1º ano – Português.

• 1877 – 2º ano – Português. • 1878 – 7º ano – Português. • 1882 – 1º ano – Português. • 1882 – 2º ano – Português. • 1882 – 3º ano – Português. • 1882 – 4º ano – Português. • 1882 – 5º ano – Português. • 1882 – 7º ano – Português.

O primeiro professor nomeado do Colégio Pedro II de gramática portuguesa, retórica e grego, foi o médico Joaquim Caetano da Silva. Além de exercer vários cargos públicos, ele também foi Reitor do Colégio Pedro II, diretor da instrução pública da Corte e diretor do arquivo nacional. Outro nome também é referência no ensino de Gramática Nacional e Latina: o de José da Silva Pinheiro Freire, nomeado em 1838.

O Regulamento de 1841 caracteriza-se, não só pela diminuição significativa da carga horária de Gramática Nacional, de Retórica e de Latim – refletindo talvez a abreviação do curso secundário, que de oito passara para sete anos –, mas também o aumento das aulas de línguas estrangeiras (francês, inglês e alemão) em 270%. Esse dado aponta para o fato de que a formação da elite passava a se preocupar com o estudo das línguas modernas, talvez, causado pelo contato com a cultura dos principais países da Europa.

Ainda nessas primeiras décadas do século XIX, era comum ver-se, nos programas do Colégio Pedro II, a designação de Gramática Geral, também conhecida como Gramática Filosófica. O autor mais importante dessa modalidade foi Jerônimo Soares Barbosa, com a publicação de As Duas Línguas ou

Gramática Filosófica da Língua Portuguesa, comparada com a latina, para ambas se aprenderem ao mesmo tempo. Na segunda edição, de 1830, o título foi

alterado para Gramática Filosófica da Língua Portuguesa, ou Princípios da

Figura 07-Gramática de Jerônimo Soares Barbosa-1830

A Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza7 de Jerônimo Soares

Barbosa (1822) foi usada no ensino de língua portuguesa, intitulada, inicialmente, como Manual Encyclopedico para uso das Escolas de Instrução Primária. Além de sua função normativa e do seu caráter educativo, constituiu uma obra de

7 Para Fávero (1996, p. 206), pode-se dizer que a Gramática Philosophica apresenta dois

objetivos: 1) elucidação teórica sobre a origem e a natureza da linguagem: deve-se explicar os fatos com a universalidade da razão, já que é ‘razoada’ (...); 2) instituição da norma prescritiva, atendendo a interesses políticos e culturais”.

referência, de pendor filosófico, cuja influência marcou a história da gramaticografia portuguesa.

Além de defender o princípio de que se deve partir do ensino da gramática da língua materna para ensinar a língua latina, Jerônimo Soares “valoriza o domínio da norma culta como fator de prestígio, pela imitação e assimilação de usos e costumes da corte”. (FÁVERO, 1996).

Nos Programas do Colégio Pedro II de 1850 e 1851, o ensino de português manteve-se no primeiro ano. A Gramática Nacional, ensinada junto com a Gramática Latina, pelo professor Gabriel de Medeiros Gomes, tratava apenas de alguns itens, com grande ênfase nos verbos, e talvez de uma pequena parte da sintaxe, denominada "partes da oração, como se pode ver a seguir:

Em 1855, Couto Ferraz, preocupado com a nacionalização do ensino secundário, reformou os estudos do Colégio Pedro II, introduzindo, no 4º ano, as aulas de Corografia brasileira e História nacional. Também foram ampliados os currículos de Português e Retórica, com a introdução das aulas de Leitura e Recitação de Português e de Exercícios Ortográficos, no 1º ano.

As aulas de Exercícios Ortográficos apontam para uma preocupação, naquele momento, em uniformizar a língua escrita ou ainda de regulamentá-la, uma vez que cabia aos compêndios, principalmente, a função de definir a ortografia. A reforma de 1855 deu mais importância aos estudos da língua portuguesa e de sua literatura, que passou a servir de modelo do bem falar e do bem escrever/compor em vernáculo, qualidades indispensáveis para aqueles que se destinavam às carreiras públicas e às profissões liberais.

Em 1856, por meio da Portaria nº 52 de 24 de janeiro, foram fixados o currículo e os compêndios do Colégio Pedro II. O livro destinado às aulas de Gramática Nacional foi o de Cyrillo Dilermando, Gramática da língua portuguesa. Essa definição, não só levou o Colégio Pedro II à hegemonia pedagógica, como também propiciou a abertura de uma política de mercado editorial referente aos livros didáticos. Essa disciplina transformara-se, a partir de 1857, em Português cujo programa consistia em Gramática, Leitura recitação e exercícios ortográficos. Em 1877, passam a ser adotadas a Gramática Portuguesa, de Manuel Olímpio Rodrigues da Costa para o primeiro ano e a Gramática, de Teófilo Braga para o segundo. (Cf. FÁVERO, 2009).

A adoção de livros didáticos, entretanto, aponta para dois aspectos inter- relacionados: de um lado, “acreditava-se na necessidade de um material de apoio para esse fim (...)”; de outro lado, “havia o professor como co-responsável na eficácia do desenvolvimento dos planos de ensino, bem como no crescimento intelectual dos jovens. (GONÇALVES, 2007, p. 48). Ainda há de se considerar que a presença do livro didático pode ser justificado pelo fato de ser ele um material necessário ao planejamento das aulas ou, ainda, de tentar diminuir a defasagem em relação ao conhecimento gramatical dos alunos que chegavam ao ensino secundário.

Aprovado, então, o Programa do Colégio Pedro II, para o primeiro ano, depois de algumas preleções de Gramática Geral, dever-se-ia aperfeiçoar a Gramática da Língua Portuguesa a fim de começar a estudar Latim, Francês e Aritmética.

Há, na verdade, uma estreita relação entre a elaboração dos programas de ensino, a construção dos livros didáticos e as aulas dadas em uma determinada disciplina. Com a definição do currículo e dos compêndios adotados no Colégio Pedro II, os outros estabelecimentos particulares e liceus oficiais, passaram a adotar esses compêndios. Além do prestígio do Colégio, que imprimia legitimidade aos livros e valorizava o nome dos autores, adotá-los era a atitude mais segura, pois era garantida a reprodução dos pontos exigidos nos exames preparatórios.

Em relação aos professores, pode-se afirmar que eram eles os autores destes compêndios, e, muitas vezes, participavam das bancas examinadoras dos preparatórios, “para os quais anualmente eram nomeadas, além dos professores e reitores, figuras destacadas da sociedade imperial, que atuavam como delegados do governo nestes eventos de grande relevância social”. (idem). Ser nomeado examinador dos preparatórios significava quase sempre

ter poder frente ao clientelismo e, às vezes, ter sucesso financeiro como professor particular ou como professor de escolas privadas, as quais usavam tal contratação como "chamariz". O prestígio era crescente se o professor-examinador estivesse próximo do poder central, cujo ápice era fazer parte do seleto corpo docente do Colégio Pedro II. Os autores da Antologia Nacional, por exemplo, integravam este grupo ilustre, Carlos de Laet desde 1873 e Fausto Barreto desde 1879, ambos professores de português. (RAZZINI, 2000, p. 27).

No período, entre 1820 e 1880, o termo mais utilizado para o livro produzido com finalidades de ensino era compêndio,

cuja significação, de acordo com os dicionários da época consultados, relaciona-se ao tipo de livro formado por uma compilação de textos de vários autores, não uma produção original. Esse caráter estaria mais ligado ao que alguns países, como a França, chamam de livro-texto. O termo compêndio parece ter sido mais comum em Portugal: os livros portugueses produzidos com finalidade escolar no século XIX eram

identificados por seus títulos, que utilizavam os termos resumo, noções (geralmente para o ensino primário) e manual ou compêndio (para o secundário). (GASPARELLO, 2004, p. 21-2).

Em 1858, a Literatura ganhou o adjetivo pátrio, tanto no sexto ano, "Princípios de retórica e poética exemplificados com as melhores passagens dos autores antigos e modernos, especialmente portugueses e brasileiros", quanto no sétimo ano – o curso de literatura antiga e moderna, especialmente da portuguesa e brasileira, seria dado por meio de preleções dos professores até a construção de um compêndio próprio para esse fim.

A distinção entre autores portugueses e brasileiros, no entanto, ainda não implicava a independência da literatura brasileira da portuguesa, como queriam alguns românticos. Na verdade, essa distinção devia-se à filiação da literatura brasileira à tradição clássica e europeia, por meio de Portugal. Essa posição foi enfraquecida depois da Proclamação da República, embora sobrevivesse por algumas décadas ainda do século XX nos compêndios do século XX.

Em 1869, com o decreto 4.430, de 30 de outubro, que incluiu entre os preparatórios o exame de Português (entrando em vigor em 1871), houve um aumento significativo de carga horária desta disciplina no Colégio Pedro II, como já vimos anteriormente, embora o interesse em ampliar os estudos de língua portuguesa tenha se verificado com a inclusão da Gramática Filosófica (1860) e nas adoções de livros de escritores nacionais nas aulas de línguas estrangeiras (1865).

O Programa de 1870 ampliou ainda mais o estudo de português, utilizando algumas práticas pedagógicas que até então estavam reservadas às matérias mais adiantadas, do sexto e sétimo anos, como a Gramática Filosófica, a Retórica, a Poética e a Literatura Nacional. A gramática filosófica, depois de ter sido excluída do sexto ano, foi inserida no currículo de português, principalmente as análises lógica e gramatical. A redação e a composição, exercícios exclusivos da retórica, também passaram para o currículo de português (2º e 3º anos). O ponto de vista histórico passou a orientar o estudo da língua portuguesa no terceiro ano, cujas preleções deveriam ser sempre acompanhadas de numerosos exemplos.

A grande inovação deste currículo, talvez, esteja no falto de introduzir, no texto legal, comentários pedagógicos, que pregavam um ensino baseado em exemplos e exercícios, em prol da compreensão. Para o estudo da sintaxe, por exemplo, no primeiro ano, eram desaconselhadas as fórmulas abstratas, “distinções teóricas e sutilezas gramaticais que castigariam a memória dos alunos, prescrevendo, de um lado, clareza na exposição de regras e, de outro, um ensino prático, [...] ressaltado de exemplos bem escolhidos e repetidos até que lhes calem com firmeza no espírito. (RAZZINI, 2000, p. 75).

Com o crescimento dos exercícios orais e escritos, a análise gramatical (ou morfológica) e a análise lógica (ou sintática), passaram a ocupar lugar de destaque no currículo e nos exames de português. Essa didática do comentário, do exemplo e do exercício pode ser observada também na Gramática Nacional

Elementar (1864) de Caldas Aulete, adotada no primeiro ano do Pedro II.

A leitura dos autores clássicos era imposta, de forma contundente no Programa do 2º ano de 1870. Na verdade, a leitura era vista como referência no estudo da língua portuguesa nos três anos, uma vez que servia tanto aos exercícios de leitura, recitação e ortografia, quando era associada ao ensino da gramática desde 1855, e indicada para os exercícios de redação e para as composições, estabelecendo, dessa forma, um elo entre ler e produzir textos, prática referente à Retórica e Poética.

Outro acréscimo importante na Reforma de 1870 foi o estudo histórico de língua portuguesa no 3º ano. Apesar dessas ampliações, a ascensão da língua portuguesa não se deu somente no nível da carga horária. Foi determinado que a gramática da língua nacional servisse de referência às outras línguas, ou melhor. O Programa “definiu que toda gramática estrangeira ensinada no Pedro II (latina, grega, francesa, inglesa e alemã), deveria ser "sempre comparada com a da língua portuguesa".

Ainda em 1870, para complementar o estudo gramatical no primeiro ano do Pedro II, foi adotado o compêndio Ornamentos da Memória do padre José Ignácio Roquette (1801- ?)8. No subtítulo já se depreende a finalidade e as escolhas:

8 José Ignácio Roquette, clérigo português, “viveu muitos anos em Paris até ser nomeado em 1858

exercícios seletos para formar o bom gosto e verdadeiro estilo da língua portuguesa, extraídos dos melhores clássicos em prosa e verso.

No prólogo, o padre Roquette elege a leitura (e memorização) dos

clássicos reunidos por ele, sobretudo Camões, Vieira e Bernardes, como a melhor

solução para combater diversos males da educação dos jovens "mancebos":

Que a lição aturada e refletida de nossos Clássicos seja o meio único e seguro de bem aprender a língua materna, verdade é de todos mui conhecida e aprovada. Como suceda porém que este estudo, não tão fácil nem tão breve como parece, não possa fazer-se senão de findos os estudos preparatórios e os maiores das ciências e faculdades superiores da universidade; e como por outro lado faleçamos de um bom método de ensino literário em que a língua e literatura materna figure a par das línguas estranhas, antigas e modernas, até se completar por uma retórica nacional; acontece quase sempre que, tendo adquirido nas aulas e liceus, nas academias e escolas superiores, mui avultados conhecimentos das línguas estranhas antigas e modernas, achamo-nos por extremo pobres de conhecimentos da nossa, que falamos só por a ouvir falar, e talvez com os erros vulgares a que não atendemos, ou que por ventura defendemos só porque os bebemos com o leite, e ninguém deles nos advertiu.

Acontece mais, que familiarizados com as belezas das outras línguas, e não tendo nenhuma notícia das da nossa, a acusamos de imperfeita e pobre, e por ventura a desprezamos, sendo que a imperfeição e a pobreza estão em nós, e não nela, e devêramos começar por bem aprendê-la, para a compararmos com as outras, e então conheceríamos nossa injustiça, e faríamos dela o bem merecido apreço que fizeram Camões e Vieira.

Também acontece que muitos, grandes admiradores da língua em que tantos Poetas cantaram os heróicos feitos nacionais, e justos apreciadores de suas belezas poéticas, desdenham dar-se ao estudo de seu mecanismo gramatical, e não se acham bem providos de um sem número de expressões elegantes e formosas, de que abundam nossos bons escritores, e que uma educação incompleta não soube dar-lhes. Para obviar a estes inconvenientes um só meio há, mas seguro e eficaz, o qual consiste em fazer aprender de cor aos meninos, desde seus primeiros anos, os lugares mais notáveis de nossos bons autores, mormente os poetas, para deste modo se familiarizarem com a boa linguagem de seus maiores, e não ficarem, por assim dizer, estranhos em sua própria terra.

Os pais e os mestres que, durante a educação de seus filhos e alunos, lhes fizerem aprender todos os dias alguns pedaços bem escolhidos de nossos clássicos, dar-lhes-ão um tesouro de eloqüência, cuja utilidade ao diante conhecerão, e saberão apreciar quando houverem de compor

serviu também como secretário de despachos do cardeal patriarca D. Manuel Bento Rorigues. Em 1847, recebeu do Imperador do Brasil a Ordem de Cavaleiro Imperial da Rosa. O contato com o Imperador brasileiro talvez tenha animado o autor a dedicar seu compêndio à "educação da mocidade portuguesa e brasileira" Foi nomeado sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa em 1850”. (RAZZINI, 2000, p. 42).

ou falar no pátrio idioma; e lhes darão ao mesmo tempo o melhor antídoto contra a peste de linguagem peregrina, mormente francesa, que impunemente tem desfigurado a formosa língua que nos legaram Barros, Camões, Luiz de Souza, Vieira e Bernardes.

Para facilitar este aperfeiçoamento, tanto para desejar na educação dos mancebos portugueses e brasileiros, escolhemos dos nossos melhores autores os lugares mais distintos, em que há mais riqueza de linguagem, e em que o gênio, nobreza e harmonia da língua se ostentam com mais vigor e amenidade, dando sempre preferência aos assuntos morais e descritivos, como os mais úteis e recreativos, e fizemos deles esta pequena Seleta, cuja utilidade será por certo maior que seu tamanho se bem se atender às razões que levamos expendidas. [...]. (apud RAZZINI, 2000, p. 42).

Como se pode perceber, talvez, esse Compêndio estivesse muito mais direcionado ao público das escolas brasileiras do que propriamente às escolas portuguesas quando afirma: “Acontece mais, que familiarizados com as belezas das outras línguas, e não tendo nenhuma notícia das da nossa, a acusamos de imperfeita e pobre, e por ventura a desprezamos, sendo que a imperfeição e a pobreza estão em nós, e não nela, e devêramos começar por bem aprendê-la...”. Seu compêndio foi adotado oficialmente quando o ensino da língua vernácula encontrava-se em ascensão mo Colégio Pedro II, ou seja, a ela estava sendo dada maior atenção e carga horária.

Figura 09- Ornamentos da Memória de Pe. Roquette.

No segundo ano, foi adotada a Gramática Portuguesa de Vergueiro e Pertence, impressa em Lisboa em 1861. Foram adotadas ainda duas antologias lusitanas, a Seleta Portuguesa para uso das escolas de Francisco Martins de Andrade, publicada em Lisboa em 1859, e as Poesias Seletas (1860) de Henrique Carlos Midosi, publicada sua 14ª edição em Lisboa, pela Imprensa Nacional, em 1884.

Figura 10- Compêndio de Gramática Portuguesa- Vergueiro e Pertence

No terceiro ano, foi acrescentado o estudo histórico da língua portuguesa, cuja base estava, em parte, na gramática geral (que comparava o vernáculo com o latim), expressa pela adoção do compêndio de Sotero dos Reis (1ª edição 1862)

Postilas de gramática geral aplicada à língua portuguesa pela análise dos clássicos, ou guia para a construção portuguesa.

Essa gramática fora adotada pela primeira vez em 1866. Desde então, ela “reinou nos bancos escolares brasileiros antes mesmo do programa de exames de Fausto Barreto”. (FÁVERO, 2006, p. 92). Apesar de seguir os princípios da gramática filosófica, em grande parte já substituída pelo modelo histórico- comparativo, e de receber críticas severas de Grivet, essa gramática continuou a ser adotada por todo o país.

Logo em sua introdução, Sotero dos Reis divide sua gramática em geral e particular, destacando a primeira como ciência e a segunda como arte. Segundo Fávero (2006, p. 94), “inscreve a gramática portuguesa definindo que também seria considerada a arte de falar e escrever corretamente”.

Foi também nesse programa que apareceram alguns sinais de que novas teorias linguísticas chegavam à escola, ao comparar o vernáculo com o latim e estudar as influências que ele recebeu de outras línguas modernas e das línguas arábica e indígena.

A inclusão da influência indígena, em particular, aponta que o estudo histórico da língua portuguesa no Colégio Pedro II desembocava no Brasil, lembrando questões nevrálgicas debatidas por escritores dos dois lados do Atlântico, sobre a existência ou não de uma língua e de uma literatura especificamente brasileira, referindo-se às censuras de escritores portugueses sobre nossa produção literária, que suscitaram respostas indignadas de autores brasileiros. Algumas discussões acabaram em polêmicas, veiculadas pela imprensa, como a de José de Alencar e José Feliciano de Castilho (1871), e a de Carlos de Laet e Camilo Castelo Branco (1879). O foco principal das polêmicas incidia na discussão sobre a originalidade da língua e da literatura produzidas no Brasil.

Em 1876, o Regulamento anexo ao decreto 6.130 de 1º de março, diminuiu um ano de estudo do vernáculo. Mas, conforme tabela de horário de 1877, observa-se o ganho de 15% na carga horária de português. Esse aumento aliado à antecipação das aulas de retórica e poética para o quinto ano (cuja carga horária também aumentara para seis horas semanais), reconhecia a tendência de