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vida. É uma realização pessoal. O desenvolvimento docente veio acompanhado do meu amadurecimento pessoal”. (Narrativa de vida).

Daniel Almeida Hecktheuer (2012).

O Prof. Daniel Almeida Hecktheuertem 32 anos, solteiro, sem filhos. É técnico em mecânica, graduado em Engenharia Mecânica e mestre na mesma área. Exerce a docência há cinco anos no IFSul. Iniciou a sua atuação docente em 2007, como professor substituto no Campus Pelotas e, em 2009, como professor efetivo no Campus Passo Fundo, no Curso Técnico em Mecânica.

A entrevista com o Prof. Daniel foi a terceira das seis, realizadas para este estudo, e ocorreu na tarde do dia 21 de março de 2012, nas dependências do IFSul – Campus Passo Fundo.

A sua narrativa foi cercada por muita expectativa, pois a trajetória do professor Daniel é marcada por um processo de grande crescimento que, segundo ele, foi de “amadurecimento”, pois ingressou no IFSul – Campus Passo Fundo – logo após concluir a sua graduação em Engenharia Mecânica e, mesmo assim, já trazia a docência como a sua primeira experiência profissional.

Ao iniciar o seu relato, buscou se apresentar, dizendo de seu vínculo com a Educação Profissional, talvez tecendo os primeiros fios constituidores do educador que se revela ao longo de sua narrativa.

“Meu nome é Daniel Almeida Hecktheuer, tenho 32 anos, sou natural de Pelotas. Eu fiz o 2º Grau já no Instituto, antiga escola técnica. Fiz o curso técnico em mecânica, na época, o meu 2º Grau foi Técnico. Depois, eu saí do técnico em mecânica e fui fazer Engenharia Mecânica, onde me formei”.

Desta forma, relata que os seus vínculos com a EPT são anteriores ao seu ingresso no Curso Técnico em Mecânica, visto que iniciam através de sua família. “A minha mãe é professora aposentada do instituto. A minha mãe foi professora a vida toda, cresci neste meio. Meu irmão também é formado, é engenheiro e trabalha no instituto também como professor”.

Mesmo assim, não tinha a docência como uma das opções de escolha profissional, mas, no caminho, novas trilhas se colocam, onde novas inserções o aproximam da docência.

“Quando eu fui cursar o meu técnico e a Engenharia, nunca passou pela minha cabeça ser docente. Me formei: ‘bom vou para a indústria’. No final da graduação, surgiu a oportunidade de trabalhar como professor substituto no instituto no Campus Pelotas. Fiz a seleção e entrei. Ali, então, fui dar aula no curso técnico, passei a gostar muito. Aí estava terminando meu contrato substituto de 2 anos, continuei gostando da docência. Surgiu o concurso para efetivo aqui em Passo Fundo, já fiz concurso. Quando terminei minha graduação, imediatamente ingressei como docente”.

Mesmo sem vivência relevante, relata nunca ter apresentado grandes dificuldades relacionadas ao exercício cotidiano da docência, mas, quando elas surgem, busca resolvê-las, encarando-as como desafios que se transformam em motivação para novas construções.

“Talvez, pelo meu convívio com minha mãe e meu irmão, mesmo eu não tendo formação para ser professor, nunca encontrei muitas dificuldades. Às vezes, alguma disciplina nova me desafiam no primeiro semestre que trabalho, me faz estudar muito, estruturar as aulas, mas depois, no segundo semestre, eu aprimoro as aulas, e aquilo que era desafio passa a ser motivação”.

Outro aspecto assinalado pelo Prof. Daniel é a relação que estabelece com os seus alunos.

“Tenho bastante facilidade para dialogar com os alunos, nunca fui envergonhado, nunca tive problemas de relacionamento. Procuro resolver meus problemas dentro da sala de aula, conversando, argumentando, ouvindo e principalmente respeitando da mesma forma que eu gostaria de ser respeitado. Procuro sempre ser transparente com meus alunos e espero deles o mesmo comportamento”.

Portanto, a sua narrativa sobre a docência revela preferência pelas aulas práticas, eis que, nelas, é possível perceber, de forma clara, os avanços e as dificuldades de cada aluno.

“Eu gosto quando o aluno entra, chega no 1º dia de aula, nem sabe o que é uma máquina e, no final do período, ele sai operando aquela máquina, fazendo relação com a parte teórica e logo aplicando esse conhecimento no seu trabalho. Acho isso emancipador”.

É possível acreditar, através da narrativa do professor, que a sua prática pedagógica assume características dialógicas e acolhedoras, devido às aprendizagens profundamente humanas, construídas nas vivências com os colegas do curso de Mecânica.

“Quando iniciei aqui em Passo Fundo, sentia bastante insegurança, eu lá, em dois anos, já tinha constituído o meu espaço, tinha confiança, amigos, vivia num relacionamento muito bom; vim pra cá, tudo novo me trouxe bastante insegurança. Hoje estou super adaptado, mas graças à forma como fui acolhido aqui, principalmente pelos colegas do curso, onde tínhamos um ambiente só do curso. Lá conversávamos, tirava dúvidas e, ao mesmo tempo, foi proporcionando fazer amizades mais profundas. Pra mim foi muito bom, eu tenho um grupo forte, e as amizades foram crescendo”.

Também traz, em sua narrativa, o caráter de processualidade formativa.

“Acredito muito nisso, o meu crescimento, enquanto professor, é gradual. No dia a dia, a gente vai se enxergando docente, escutando experiências, pensando no que faz, avaliando e mudando o que precisa. Então, com certeza, eu amadureci muito, cresci muito profissionalmente, devido ao convívio com os colegas, escutando problemas e tentando encontrar soluções, aprendendo com os exemplos positivo e negativo”.

Ao falar de espaços formativos para a docência, aponta as reuniões pedagógicas, a formação pedagógica e os conselhos de classe como espaços de grande significado e constitutivo de processos reflexivos sobre a atuação docente.

“Eu sou fã das reuniões pedagógicas, para mim nunca foi um problema, é prazeroso, eu acho importante. Eu acho que talvez seja um dos espaços mais importantes, porque, depois, nos outros espaços, são espaços mais de amizades não tão formais. Então, nas reuniões, é onde tu expões um problema de uma forma mais certinha e pensa nas soluções”.

No que tange ao conselho de classe, este expõe:

Gosto do conselho de classe, e acho que mostra claramente que o nosso curso é constituído, na grande maioria, de professores homens. Ah, mas eles não têm muito contato com os alunos. No conselho de classe, a gente vê claramente que os professores sabem quem é, falam o nome, onde trabalha. Então, tu vês quem tem esse relacionamento de professor-aluno, bem estreito, bem forte. Acho interessante, acho que é importante. No que contribuí como crescimento docente? Eu não sei, mas acredito contribuir de alguma forma e gosto de participar. Outra coisa interessante que ocorre no conselho de classe é a possibilidade de escutar os alunos sobre se o professor está bem ou não, que o professor tem algumas dificuldades, isso,

observação negativa, principalmente, ele volta para a sala de aula e tenta resgatar aquela deficiência.

E, em relação à formação pedagógica, destaca que:

“É muito semelhante as minhas aulas. As minhas aulas são práticas, mas toda minha prática tem uma sustentação teórica. Então, questões de avaliação todo mundo já faz. Eu faço prova pra turma há muito tempo. Mas foi na formação pedagógica que a gente conversou sobre a importância, as concepções da forma de avaliar e também como avaliar melhor. No curso, a parte teórica deu a sustentação para todas as minhas práticas realizadas no cotidiano de sala de aula. Eu gostei bastante, não foi maçante, foi gradual, levou certo tempo. Eu achei positivo para vincular as minhas práticas à teoria.

Para o professor Daniel, no período que vem exercendo a docência, mais um desafio se colocou: coordenar o seu curso. Essa atividade é vista por ele como um processo de construções cotidianas, que procura imprimir duas características, as quais ele considera fundamentais: confiança e transparência.

“Então, acho que a parte da coordenação tem dois vínculos: coordenador aluno e coordenador colega. Eu acredito que o grupo é muito forte, o grupo anda praticamente com as suas próprias pernas. Eu acredito no grupo. Eu tenho um bom relacionamento, faz parte da confiança. O que eu falo com eles e o que eles me pedem são fundamentais. Quando eu entrei, pensei: ‘acho que as coisas andam naturalmente’, nem sempre, às vezes, têm coisas que têm que ser conversadas, mas procuro ser transparente e dialogar sempre, procurando uma solução para os problemas. Com os colegas, está sendo muito bom, com o aluno é melhor ainda. Eu gosto muito de estar passando pelos corredores e ouvir: “Daniel, Daniel”. Como tenho aulas com os primeiros módulos, eu me torno uma pessoa bem acessível, porque eu tenho aula diretamente com eles no começo do curso, então eles me conhecem. Isso facilita bastante, eles passarem a ter alguma dúvida: ‘Daniel com quem eu posso falar?’. ‘Onde entrego tal documento!’. Isso é bem bacana. Como coordenador, você acaba conhecendo mais o instituto’.

Ao finalizar sua narrativa, fala de seu processo de mudança para Passo Fundo e o que isto significou em sua vida, bem como as aprendizagens que demandaram.

“Esse processo veio junto com a minha emancipação da família. Eu sempre morei em casa. Mesmo estudando em Rio Grande, eu morava em casa. Sempre tive tudo. Então, eu vindo pra cá, além da responsabilidade profissional, também tive uma desvinculação da família, onde me apeguei muito aos colegas de trabalho, eles foram as pessoas que me deram apoio. Eu me sinto bem acolhido. Eu, estando aqui dentro, me sinto bem. Sinto-me em casa. Esse desenvolvimento de docente veio acompanhado também do meu amadurecimento pessoal”.

Pela narrativa do Prof. Daniel, percebe-se que ele acredita que a natureza humana é constituída por “ritos de passagem”, que se configuram como demarcadores das fases de vida que se apresentam na sociedade contemporânea de diferentes formas, caracterizados por rupturas e descontinuidades. Para ele, o ingresso na docência foi o seu “rito de passagem” para a vida adulta. Certamente, esse aspecto deve ser analisado de forma positiva no contexto da constituição de saberes da docência, já que ele se configura como um processo extremamente rico em aprendizagens.

5.4 QUEM É E O QUE DIZ SOBRE SI A PROFA. ANÚBIS GRACIELA DE MORAES

Benzer Belgeler