Foi dito no início do trabalho que os registros escritos e tipografados, para além de se constituírem como marcas operadas por ferramentas ou tecnologias de produção, são
também fixações ou materializações das convenções histórico-culturais que regulam estéticas e práticas, e que promovem relações de sentido e de memória em torno das formas. Essa no- ção de materialidade, que se comunica com o paradigma indiciário proposto por Ginzburg (2007) sobre os objetos como extensões contextuais, é tomada como centro de discussão do movimento contemporâneo da Ciência da Informação chamado “neodocumentação”, notada- mente pelos estudos promovidos por Frohmann (2006; 2008). O neodocumentalismo é de origem anglo-saxã e teve iniciado seu trabalho na década de 1990, promovendo o resgate e a atualização de conceitos clássicos da Documentação, ciência inaugurada por Paul Otlet na França, em meados do século XX (ORTEGA; LARA, 2010; ORTEGA; SALDANHA, 2017).
Ao propor o retorno à ideia primeira de documento no lugar da informação objeti- va que se tornara forte no campo, o grupo busca, segundo Araújo (2017, p. 18), não apenas uma substituição terminológica, mas reconciliar os estudos informacionais à realidade social, tendo em vista que os documentos trazem consigo “as marcas de seu contexto, de quem o produziu, do suporte em que está inscrito, de suas dimensões e tamanho, de seus aspectos estéticos, entre outros”. Com isso, promove-se “um reencontro com as dimensões contextuais às quais o documento encontra-se vinculado e seu uso”, pois o “documento possui as ‘marcas’ de sua origem, e é a noção de ‘materialidade’ que permite identificar essa ligação” (ARAÚJO, 2017, p. 18). De acordo com Frohmann (2006, p. 3), contrapondo-se ao conceito mental de informação, isto é, à informação como forma abstrata e independente da interação social:
[...] o conceito de materialidade traz um entendimento muito mais rico do caráter público e social da informação em nosso tempo. Para mim, [...] muito do caráter pú- blico e social da informação depende dela. Estou convencido de que, sem a atenção à materialidade da informação, grande parte das considerações sociais, culturais, po- líticas e éticas, tão importantes para os estudos da informação, se perdem.
O documento pode, então, ser compreendido como um fenômeno material advin- do de práticas humanas. Nesse tocante, a Documentação, área historicamente debruçada sobre essa problemática, torna-se “o meio de materialização da informação”, e estudá-la é buscar compreender “as conseqüências [sic] e os efeitos da materialidade da informação” (FROH- MANN, 2006, p. 3). A relação entre matéria e conteúdo simbólico via Documentação está presente desde Otlet, conforme pode ser observado em outro texto de Frohmann (2008), em que o documento já era interpretado como algo “at the centre of a complex process of com-
institutions10” (RAYWARD, 1991 apud FROHMANN, 2008, p. 75). Segundo o autor, a téc- nica documentária, para Otlet, era a maneira científica, logo, disciplinar e rigorosa, de siste- matizar fatos sociais e naturais em vista de promover um desenvolvimento social universal.
Os fatos, cada qual dotado das particularidades de seu meio, deveriam ser objeti- vados pela atividade da Documentação e, uma vez “purificados” das interferências autorais, isto é, uniformizados, padronizados, classificados e catalogados, tornar-se-iam operantes “to
collaborative scientific labour in the form most useful for knowledge production11” (FROH-
MANN, 2008, p. 81). Por sua vez, os documentalistas, diante da proposta modernista de O- tlet, seriam os atores responsáveis pelo exercício da força no sentido de estabilizar a cadeia polissêmica subjetivamente emanada desses fatos. Mesmo denunciada por seu direcionamento positivista, sintoma daquele tempo, o que a proposta documentária de Otlet revela, segundo Frohmann (2008), é que os documentos, desde a gênese de seu campo, podem ser entendidos como efeitos ou matérias que revelam organizações humanas de poder e de controle, em que a ordem que dita tal processamento dos fatos segue as diretrizes de alguém ou de algum grupo.
O mesmo ocorre com Suzanne Briet (2016). Responsável por dar continuidade à noção clássica da Documentação iniciada por Otlet, a autora afirma que documento diz res- peito a ensino ou à prova. Por suas palavras, pode ser “todo indício, concreto ou simbólico, conservado ou registrado, com a finalidade de representar, reconstituir ou provar um fenôme- no físico ou intelectual” (BRIET, 2016, p. 1). Assim, em sua visão, tudo pode ser considerado documento desde que tenha participado de um processo de representação que o tornará útil, viável às demandas científicas. Esse processo se manifesta como um conjunto de práticas e convenções que determinarão a tipologia do objeto, se ele será reconhecido como primário ou se integrará a rede de derivações de algum. Diante disso, estabelece-se uma práxis em que não apenas os fenômenos são materializados e ordenados por ações de classificação e catalogação, como também o próprio “homo documentator” surge “das novas condições da pesquisa e da técnica” (BRIET, 2016, p. 13, grifo da autora), manifestas pelo exercício da função junto às habilidades profissionais específicas que lhe são requeridas.
Apesar de ser diversa a noção dada a documento e à prática documentária que se seguiu após a fase de Briet (2016), nos diferentes territórios onde foi estudada, França, Espa- nha e América Latina, a versão clássica “se cristalizou fortemente via procedimentos de base empírico-normativa, portanto, alheios à abordagem comunicacional e ao instrumental metodo-
10Livre tradução: “no centro de um processo complexo de comunicação, da acumulação e transmissão do conhe-
cimento, da criação e evolução das instituições”.
lógico que permite realizá-la”, indicando uma “alienação que permeia, muitas vezes, a reali- zação destas práticas e os estudos que as norteiam” (ORTEGA; SALDANHA, 2017, p. 9). Assim, embora criticada como um movimento carente de uma melhor definição frente ao complexo percurso histórico-epistemológico traçado pela Documentação (ORTEGA; SAL- DANHA, 2017), tendo em vista que “as definições iniciais de documento e Documentação já continham, em germe, a noção de informação tal como entendida contemporaneamente” (ORTEGA; LARA, 2010, p. 11), a neodocumentação “privilegia o documento quanto às rela- ções de poder que o envolvem enquanto objeto produzido pelo homem, portanto, relações localizadas histórica, social e politicamente” (ORTEGA; SALDANHA, 2017, p. 18), diver- gindo, com isso, da vertente clássica que prioriza as relações de representação sistêmica.
Por reconhecer e buscar compreender as relações de poder exercidas nas e pelas produções e seleções documentais é que Frohmann (2006) recorre ao pensamento de Foucault acerca da materialidade dos enunciados. Segundo o autor, do mesmo modo que um enunciado foucaultiano deve ser analisado “pela via de sua existência [material]”, isto é, quanto ao modo que surge, pelas “regras de sua transformação, ampliação, as conexões entre enunciados, e seu desvanecimento até deixar de existir” (FROHMANN, 2006, p. 3 e 4, grifo do autor), assim os documentos também devem ser compreendidos, a partir de uma fonte de energia, força e po- der que acontece em âmbitos os mais diversos, tanto sociais como tecnológicos. Identificada tal fonte é que se torna possível perceber a maneira pela qual esses fenômenos documentais e discursivos se estruturam, estabilizam-se, tornam-se circulantes e promovem efeitos, signifi- cados ou informações.
Dos centros de poder, energia e massa dos documentos, Frohmann (2006) identi- fica quatro possibilidades: a institucional, a científica, a representacional e a tecnológica. Pela via institucional, o autor atrela o ganho de força ao grau de sua imersão nos processos e roti- nas das instituições. Como afirma, “vemos que os documentos que circulam através e dentre as instituições têm uma materialidade pronunciada”, sendo necessário “muito esforço [para] produzi-los, instituir práticas com eles, substituí-los por diferentes documentos, e instalar do- cumentos manufaturados e disponibilizados por uma instituição em outra” (FROHMANN, 2006, p. 5). Esses documentos variam em grau de importância ou impacto a depender dos usos, dos fluxos, das tramitações que ocorrem dentro desses locais e entre outros que os utili- zam. Além disso, o autor também observa a importância dos mecanismos de disciplina, outra categoria de Foucault, que opera junto ao monitoramento e às ações corretivas que ordenam as práticas discursivas e documentárias. Trata-se de um regime, que no tópico seguinte será definido como “de informação”, a estabelecer os “contornos” simbólicos da matéria, algo que
está além de sua fisicalidade, mas que também lhe torna reconhecível e executável. São, por exemplo, as já tratadas atividades documentárias realizadas desde a esfera clássica, além dos acordos públicos ou tácitos que ordenam a vida e as produções de uma sociedade. Assim:
[...] existe um caminho direto a partir da análise do discurso de Foucault (a análise dos enunciados) para o estudo da materialidade da informação. O conceito de liga- ção é a documentação. Práticas documentárias institucionais lhe dão peso, massa, inércia e estabilidade que materializa a informação de forma tal que ela possa confi- gurar profundamente a vida social (FROHMANN, 2006, p. 7).
Pela via científica, as informações se materializam e ganham força a partir das práticas metodológicas que asseguram a realização de experiências objetivadas. Conforme Frohmann (2006, p. 8), fora da “prática disciplinada de realização do teste, essa informação [científica] tem pouco peso”, estando o estabelecimento de um fato científico condicionado a uma prática “suficientemente disciplinada”. Já pela instância da representação ou mediação sistêmica, o autor analisa a questão da formação de tipos, categorias ou identidades a partir do registro documentário. Segundo ele, “não pode haver informação sobre algo de um tipo X se este tipo não existir”, logo, “se o tipo não pode existir sem documentação, então a documen- tação é necessária para que haja informação sobre ele” (FROHMANN, 2006, p. 9). O autor ainda afirma que, quando um enunciado é removido ou desmaterializado de algum sistema, ele pode vir a inexistir “não só de um largo escopo de práticas institucionais, mas [...] também num largo escopo de práticas individuais, sociais e culturais” (FROHMANN, 2006, p. 10).
Por último, Frohmann (2006) aborda a questão das tecnologias digitais e a manei- ra complexa e automatizada de como processam e conectam dados entre si, afetando a vida social. Trata-se de como os atuais mecanismos tecnológicos têm promovido uma materialida- de técnica das informações de uso cotidiano em que, nesse regime, o que importa não é a car- ga semântica das mensagens, mas a transmissão em si. No entanto, ainda que essa construção se dê, em vias finais, separada da ação do homem, trata-se de uma maneira particular de pro- longar as intenções advindas da consciência histórica e cultural anterior dos sujeitos que a programaram, como trataria McLuhan (1977), além de Flusser (2010) e Goody (1986; 1988), acerca da ideia dos sistemas de escrita como reflexo das motivações humanas. Todos os meios pelos quais a informação se materializa, conforme visto, seguem as regras disciplinares de seus meios produtores, condição pela qual ganham força e razão de existir, seja de ordem ins- titucional, científica, tecnológica, política, econômica ou da cultura. Assim, pelo viés da neo- documentação, é a pressão das tramas intencionais e seletivas exercida de múltiplas maneiras sobre os processos infocomunicacionais que germina as relações de poder nos e pelos docu-
mentos, marcando-os e promovendo marcas na sociedade que com eles se relaciona. Isso a- carreta toda uma rede de acontecimentos em que os fenômenos ficam subjugados, compreen- são que dialoga com a ideia da escrita e da tipografia como vestígios humanos e, ao mesmo tempo, como artefatos voltados para uma emancipação ou desenvolvimento social.