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Os procedimentos usados para qualificar o alienista são vários, e em sua maioria subjetivos, chegando mesmo a incorrerem em contradições, ambiguidades, e todo tipo de incertezas ao longo da história. No fragmento a seguir, por exemplo, Simão Bacamarte é ao mesmo tempo traiçoeiro e ilustre: “A notícia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lançou o

terror à alma da população.” (MOON; BÁ, 2007a, p. 26, grifo nosso).

O texto machadiano, muito presente na história em quadrinhos, põe em xeque aquele tipo de descrição objetiva e inquestionável de um personagem, pois o narrador machadiano reporta a opinião e as falas de inúmeros personagens e do discurso que ele leu nas crônicas de Itaguaí. O discurso de um narrador sobre um personagem tende a ser menos questionado se ele for um narrador heterodiegético e, consequentemente, extradiegético. Seu discurso é tido como verdade por ele aparentar saber de tudo, o que seria pura ingenuidade por parte de um leitor. O narrador machadiano não nos dá nenhuma certeza, só dúvidas.

158 precisão, pois muito do que seria reportado pelo narrador é dito diretamente por um personagem, através dos balões de fala. Um personagem não pode, no universo diegético, saber de tudo. O que se conclui disso é que a descrição do Dr. Bacamarte, em seus aspectos morais, pelo menos, não é objetiva. Cada personagem teve dele uma visão, e que pôde ainda ser modificada ao longo da narrativa. Quem foi Simão Bacamarte? Um tirano, louco ou um grande sábio? Ele foi muitos sujeitos, e lhe foram atribuídas muitas máscaras. Aqui abordamos três, mas poderíamos ainda construir sua imagem de benfeitor da humanidade, de

marido, de homem temente a Deus (ou à Igreja?), de visionário, etc. A ambiguidade

machadiana cede lugar à ambiguidade de Moon e Bá, permanecendo abertas as possibilidades de interpretação.

A tabela seguinte sintetiza os procedimentos utilizados para caracterizar Simão Bacamarte ao longo da história. Os procedimentos visuais foram substantivados de maneira genérica. Os procedimentos verbais foram retirados ipsis litteris da narrativa, podendo aparecer como substantivo, verbo, adjetivo ou locução. Os eixos de caracterização foram baseados nas três faces que trabalhamos anteriormente atribuídas ao personagem: o grande homem, sábio e cientista; o louco, alienado; e o tirano, déspota. Por fim, as conotações foram postas de forma geral, representando apenas um ou outro aspecto dos significados possíveis na história.

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Tabela 4: Síntese dos procedimentos descritivos. SÍNTESE DOS PROCEDIMENTOS DESCRITIVOS

Eixos de caracterização Componentes descritivos Procedimentos Visuais Procedimentos verbais Conotações atribuíveis Signos

icônicos Signos plásticos

Signos linguísticos Ciência. Sabedoria. Conhecimento. Nomeação/ Singularização55 A figura do personagem Enquadramento. Ângulo. Cores. Traços distintivos Alienista. Médico. Doutor. Simão Bacamarte. Destaque. Distinção Trabalho. Estudos. Razão. Sabedoria. Ciência. Localização- situação Casa Verde. Biblioteca Casa Verde. Itaguaí. Qualificação Cachimbo. Óculos. Pena. Vela. Livros. Manuscritos Ativo. Sagaz. Hipócrates. Grande homem. Sagacidade. Estudos. Ilustre. Sábio. Austero. Perspicaz. Modéstia. Grande arabista. Loucura. Alienação. Nomeação/ Singularização A figura do personagem. Isolamento na Casa Verde. Enquadramento. Ângulo. Cores. Traços distintivos Alienista. Simão Bacamarte. Distinção. Alienação. Loucura. Casa Verde. Biblioteca. Alienado. Louco. Vira o juízo. Assombrosa. Monomania. Mentecapto. Localização- situação Casa Verde. Biblioteca. Aposento. Qualificação Gestos. Livros. Manuscrito. Isolamento. Poder. Despotismo. Influência. Nomeação/ Singularização A figura do personagem Enquadramento. Ângulo. Cores. Traços distintivos Alienista. Doutor. Filho da nobreza. Simão Bacamarte. Destaque. Reconhecimento. Distinção Influência. Despotismo. Poder. Tirania. Localização- situação Casa Verde. Sacada. Câmara. Biblioteca. Casa Verde. Câmara. Brasil. Portugal. Espanhas. Cárcere privado. Bastilha da razão humana. Qualificação Gestos. Vestimenta.

Dinheiro. Catão. Influência. Déspota. Tirano. Aleivosia. Cobiça. Ilustre. Velhaco. Energia.

55 Vimos que pelos procedimentos visuais o componente descritivo de nomeação não é possível, tornando-se,

assim, um componente descritivo de singularização, visando o mesmo efeito que a nomeação tem no modo descritivo: fazer identificar seres num mundo.

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CAPÍTULO 6

Dois Lindos Casos: Heterogeneidade Enunciativa n'O Alienista

O Mesmo e o Outro: o discurso se constitui em uma relação de alteridade. O Alienista em quadrinhos nos leva a lidar com tipos particulares de instituições e valores, a saber: a Literatura e os Quadrinhos – um discurso constituinte e um discurso com pretensões constituintes. Por sua pretensão autoral, de obra de quadrinhos, de discurso perene, estamos lidando com um enunciado escrito e inscrito.

A ideia de inscrição com a qual trabalhamos aqui vem de Maingueneau (2006, 2008a). Para esse autor, inscrever-se (em uma instituição) significa “seguir os traços de Outro invisível, que associa os enunciadores-modelo de seu posicionamento” (MAINGUENEAU, 2008a, p. 47). A inscrição se reveste da autoridade que a instituição discursiva pode lhe conferir. O termo inscrição está associado aos discursos constituintes, como, por exemplo, o

literário, cujo estatuto enunciativo está além de um “enunciado”, “obra” ou “texto” – trata-se,

afinal, de uma inscrição. Por esse viés, o discurso quadrinístico de Moon e Bá teria, então, uma pretensão constituinte à medida que tenta instituir as formas e conteúdos característicos de suas enunciações e moldar seus enunciadores de maneira apropriada.

O Alienista, de Moon e Bá, pretende ser um texto com status de livro, uma obra de

quadrinhos inscrita na instituição discursiva quadrinística. Mas afinal, o que faz de um enunciado uma obra (autoral)? Como os autores e suas obras estão relacionados entre si no vasto campo discursivo56 de sua legitimação? A emergência de uma obra, certamente, não se dá com sua simples escritura. Há um movimento dialógico entre o ambiente sociodiscursivo e a materialidade do texto, movimento de tomada da palavra pelo autor em um dado campo

discursivo, lugar em que diferentes enunciadores se colocam constantemente (e sem

consciência, por vezes) em negociação de uma posição. Falar, em uma dada instituição discursiva, é fazer dizer a sua voz em detrimento da voz do(s) Outro(s). Moon e Bá

56 Partimos de Maingueneau (2008c) ao usarmos a ideia de campo discursivo. O autor insere essa noção entre

duas outras, formando uma apreensão panorâmica do Discurso, que passa pelo universo discursivo, pelo campo

discursivo até o espaço discursivo – tomado como recorte pelo analista conforme seus objetivos de análise. Por universo discursivo entende-se o conjunto de formações discursivas de todos os tipos, que interagem em uma

conjuntura. Embora finito, o universo discursivo é irrepresentável. Dentro desse universo, o analista recorta os

campos discursivos, que são definidos como um conjunto de formações discursivas que estão em concorrência,

que se delimitam mutuamente por uma posição enunciativa em certa região. O espaço discursivo “delimita um subconjunto do campo discursivo, ligando pelo menos duas formações discursivas [...] cruciais para a compreensão dos discursos considerados” (MAINGUENEAU, 1997, p. 177).

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constituem sua identidade autoral e também a identidade discursiva d’O Alienista – de um Alienista – por meio do silenciamento elaborado do discurso machadiano. “O silêncio pode,

desse modo, ser concebido, aqui, como uma presença real na constituição social do(s)

sentido(s), dos múltiplos sujeitos da enunciação e da linguagem.” (MELLO, 2002b, p. 89).

A problemática da legitimação de um discurso se intensifica quando se trata da emergência de uma obra adaptada, ou melhor, de uma tradução intersemiótica. Quem, num dado campo discursivo, tem autoridade para tomar o texto do Outro e fazê-lo seu enunciado? Nesse caso, o atravessamento de instituições discursivas gera um campo de confronto de

posicionamentos estéticos e éticos (o direito de falar a fala do outro) cuja característica

latente é a interdiscursividade.

Tratar da inscrição de uma obra de ficção significa percorrer o trajeto de sua existência

numa certa rede discursiva. Naturalmente, uma obra não surge sem ser atravessada já em sua gênese por inúmeros discursos e sem suscitar outros atravessamentos em seu campo. Logo,

uma obra de ficção, assim como outros textos, é essencialmente heterogênea em sua

enunciação: ela agrega muitas vozes e, portanto, muitos sujeitos.

Authier-Revuz (1984) fornece-nos um material primordial sobre a heterogeneidade enunciativa. Em seu trabalho, ao trazer os conceitos de heterogeneidade mostrada e constitutiva, a autora evidencia que a relação de um texto com outros textos se dá não só nos enunciados, mas, sobretudo, na enunciação, onde se instalam os sujeitos e seus discursos. Sua proposta de encarar também uma heterogeneidade do dizer (da enunciação), não só do dito (do enunciado), torna possível afirmar que os autores Fábio Moon e Gabriel Bá estabelecem uma relação com Machado de Assis não somente no nível do enunciado através das marcas explícitas em sua obra, mas que também sua enunciação se coloca de modo radical em

concorrência com a enunciação machadiana.

Por sua vez, Maingueneau (2006) e Charaudeau e Maingueneau (2008), ao conceituarem a cena de enunciação de uma obra, ressaltam o caráter de encenação da linguagem pelos sujeitos envolvidos na produção e recepção de um texto. Cada discurso surge em uma cena de enunciação que é mais que o local de sua emergência: é também parte significativa desse discurso. E cada discurso encena sua linguagem da maneira que lhe é própria, instituindo no processo sua identidade: o discurso quadrinístico tem sua própria encenação.

163 assumem diferentes papéis, fragmentando-se/desdobrando-se57 em instâncias discursivas por meio de um modo de organização do discurso. Vê-se em Charaudeau (2008) que a encenação da linguagem ocorre de uma maneira específica em uma situação de comunicação, mais ou menos ritualizada, e por sujeitos específicos. Razão pela qual nos perguntamos se a

linguagem machadiana não seria uma linguagem outra na encenação quadrinística.

Em seu trabalho, Costa (2010) propôs, a partir de Charaudeau (2008) e Maingueneau (2006), uma abordagem do texto narrativo que levasse em conta o desdobramento dos sujeitos nas três instâncias que compõem uma obra: a social, a enunciativa, e a enunciada, que ele chamou de tempo real, tempo enunciativo e tempo ficcional, respectivamente. Tais instâncias foram agrupadas sob o termo tempo narrativo, tomado da narratologia e ampliado no quadro da AD. A separação em três instâncias do tempo narrativo coincide com três categorias de instâncias de sujeito na produção e recepção da obra. Apesar de Costa (2010) levar em consideração que os sujeitos/discursos são heterogêneos, fragmentados, dispersos, seu trabalho teórico se foca na manifestação de apenas um tipo de obra narrativa: o romance.

As questões concernentes à legitimidade de obras de tradução intersemiótica como O

Alienista em quadrinhos permaneceram em aberto no arcabouço teórico-metodológico

trabalhado por Costa (2010) e Maingueneau (2006). Questões como: se houver um “limite” entre o discurso literário machadiano e o discurso quadrinístico de Moon e Bá, que “limite” seria este? De que e como se constitui a heterogeneidade entre esses discursos? De onde Moon e Bá retiram autoridade enunciativa para tomar o enunciado machadiano e fazer dele o seu enunciado? E se a presença machadiana for mais importante do que seu enunciado? De que se constitui a interdiscursividade quando a obra ulterior reconfigura espaços discursivos dentro de seu próprio campo?58

Uma vez que “a identidade discursiva está construída na relação com o Outro”

(MAINGUENEAU, 1997, p. 119-120), qual a identidade discursiva dessa obra? Como

compreender esse relacionamento? É no interior do campo discursivo “que se constitui um

discurso e levantamos a hipótese de que essa constituição pode deixar-se descrever em termos de operações regulares sobre formações discursivas já existentes” (MAINGUENEAU, 2008c,

57 Fragmentar-se e desdobrar-se definem o paradoxo da constituição do sujeito: por um lado, ele se fragmenta,

de modo que cada parte seja constituinte de seu todo. Por outro lado, cada uma dessas partes é em si mesma um todo significativo, para a qual o sujeito se desdobra, sendo a parte de um todo e todo em sua parte.

58 Essa última questão retoma saberes de crença compartilhados sobre os quadrinhos. Como disse Bá (2007), o

público pode gostar da obra por ser quadrinho, e pode valorizá-la como “obra” por ser (tomada como) literatura. A proposta manifesta de Bá (2007) é mudar esse cenário, não desperdiçando as oportunidades de “dar mais visibilidade aos Quadrinhos com trabalhos fracos, adaptações baratas e recortadas”. (BÁ, 2007, web).

164 p. 34). Assim, como uma tradução intersemiótica opera os discursos envolvidos?

Essas questões são problemáticas, e retomam trabalhos de prática de análise discursiva que têm se voltado para o interdiscurso, sem, no entanto, atingir o centro do problema. A razão talvez esteja na natureza fugidia do objeto: ao encarar a heterogeneidade enunciativa, os analistas precisam distinguir duas formas de presença do Outro em um discurso: a

heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva. Sendo que:

Só a primeira é acessível aos aparelhos linguísticos, na medida em que permite apre- ender sequências delimitadas que mostram claramente sua alteridade [...]. A segun- da, ao contrário, não deixa marcas visíveis: as palavras, os enunciados de outrem es- tão tão intimamente ligados aos textos que elas não podem ser apreendidas por uma abordagem linguística stricto sensu. (MAINGUENEAU, 2008c, p. 31).

Neste capítulo, tentaremos apreender a alteridade do discurso quadrinístico n’O

Alienista e proporcionar algumas respostas para as questões acima. Cientes de nossas

limitações e de que O Alienista em quadrinhos traz sequências que mostram claramente sua alteridade, tentaremos acessar a heterogeneidade do discurso de Moon e Bá em relação ao discurso machadiano naqueles fragmentos menos evidentes, nos quais não se encontra um trecho machadiano visível, mas sim uma imagem sem palavras, que pode estar ou não íntima e diretamente ligada a um trecho d’O Alienista de Machado. Em todo caso, trata-se de uma tentativa de silenciamento. Observamos que:

[...] o silêncio contém uma multiplicidade de significações e que ele fala tanto ou mais que as palavras, tornando-se uma forma estratégica de expressão e até mesmo uma tá- tica de comportamento deliberado. Dito de outra forma, o silêncio revela-se um ele- mento essencial na comunicação textual. (MELLO, 2002b, p. 87-88).

É um paradoxo constitutivo da linguagem, do sentido, do discurso, buscarmos a presença de Machado na(s) tentativa(s) de ausentá-lo. Os silêncios fazem parte da heterogeneidade dos discursos, pois sem o silêncio não há alternância de vozes. (MELLO, 2002b). O silêncio n’O Alienista em quadrinhos é constitutivo do seu sentido (interno e externo): constitutivo do sentido da história em si e da sua razão de ser um Alienista outro.

“Este silêncio estabelece o que fica fora para se poder significar.” (MELLO, 2002b, p. 100).

Por meio das imagens sem palavras, objetivamos rastrear as marcas machadianas silenciadas

na criação da identidade discursiva d’O Alienista em quadrinhos. Para esse fim, teceremos

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Benzer Belgeler