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De fato, há um consenso nas ciências sociais de que o período pós-anos 70 representa uma transição de uma fase distinta no desenvolvimento capitalista para uma nova era. Há uma emergência de forças tecnológicas, sociais, institucionais e de mercado que parecem se constituir como bem diferentes daquelas dos anos anteriores. Termos como “crise estrutural”, “transformação” e “transição” são comumente utilizados na descrição destes anos, assim como termos como “pós-fordismo”, “pós-industrialismo”, “pós-modernismo”, “quinto Kondratiev” e “sociedade informacional” têm aparecido na literatura acadêmica para descrever esta emergente nova era do capitalismo.

Ambas tentativas de terminologias se justificam, já que as mudanças na economia no pós-70 não foram poucas: 1) crescente integração de atividades da indústria com as de serviços; 2) reorganização das firmas; 3) aumento da internacionalização das atividades econômicas; 4) crescente utilização das tecnologias de informação; 5) demanda por força de trabalho mais qualificada; 6) crescentes complexidade e volatilidade do consumo; e 7) mudanças no modo de intervenção estatal (KON, 2004: 91).

Diferentes escolas ou grupos de autores cunharam os termos citados

acima. A precaução dos regulacionistas18 em nomear a nova era e dizer quais são

seus elementos constituintes se contrapõe ao otimismo tecnológico dos neo-

schumpeterianos19. Estes consideram as tecnologias da informação – no sentido

de produtos baseados na microeletrônica e redes de comunicação – elemento

18 O ponto em comum entre os autores desta abordagem, que tem origem na década de 70 com

economistas políticos franceses, é a intenção de desenvolver uma estrutura teórica capaz de explicar o paradoxo do capitalismo: a inerente tendência à instabilidade, crises e mudanças e sua habilidade de manter longos períodos de estabilidade. Estaria em jogo a crise do macrossistema fordista, que sintetizava um paradigma industrial (um tipo distinto de processo de trabalho), um regime de acumulação (um modo estável de crescimento macroeconômico), um modo de regulação (econômica e social) e um modo de socialização (de organização social). Boyer apresenta quatro fatores da crise estrutural do fordismo: queda nos níveis de produtividade; maior dificuldade de gestão nacional das economias com a globalização dos fluxos econômicos; despesa social crescente; e mudanças nos padrões de consumo em direção a uma maior variedade na demanda (BOYER e DURAND, 1997; RUIGROK e TULDER, 1995)

19 Esta abordagem tem como base uma reavaliação do conceito de ondas de transformação

econômica e tecnológica de Schumpeter. Autores como Freeman, Dosi, Soete e outros atualizam a abordagem schumpeteriana de mudança econômica ao retomar tanto a noção de longos ciclos quanto a centralidade da tecnologia (para o produto e para o processo) para o desenvolvimento do capitalismo. Além disso, há uma intenção de integração de aspectos institucionais à teoria econômica, numa resposta às deficiências das teses baseadas na economia neoclássica (RUIGROK e TULDER, 1995).

central deste novo momento do capitalismo. Seria a tecnologia a chave a conduzir o crescimento futuro e a afetar o comportamento de toda a economia ao aumentar a produtividade e ao abaixar os custos de produção. As inovações não se limitariam à produção, mas envolveriam também as práticas de gerenciamento, principalmente no que concerne a novas relações intersetoriais e interfirmas, com o desenvolvimento de formas de comunicação em redes. Este novo período seria, portanto, baseado em inovação e conhecimento: computadores, bens eletrônicos, software, telecomunicações, robótica, bancos de dados são elementos essenciais; novos padrões de trabalho, como tele-trabalho, trabalho em casa e horários flexíveis, passam a existir; novas formas de consumo baseadas em sistemas de comunicação avançados, como e-commerce, também surgiriam.

O entusiasmo dos neo-schumpeterianos interage bem com Castells. A tese deste é que a economia informacional se desenvolve a partir de uma nova lógica de organização, a qual está relacionada com o processo de transformação da tecnologia. Ou seja, a convergência entre a nova lógica organizacional e o novo paradigma tecnológico constitui o fundamento histórico da economia informacional.

Boyer, mais comedido, também aponta suas análises em direção a questões do futuro (próximo). A transição do fordismo para novos princípios, diz ele, tem sua contrapartida nos serviços, com o crescimento daqueles baseados no conhecimento abstrato, via sistemas de software e redes de comunicação. O acesso a conhecimento e tecnologia torna-se cada vez mais importante. A atualização contínua de processos e produtos é rápida e não se limita à mera aquisição de bens de capital. Relações de interdependência entre o setor público e o privado ou mais precisamente “políticas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento ou incentivos fiscais de suporte para projetos de alta tecnologia tornam-se modos chave de intervenção pública. Elas podem ser vistas como partes essenciais do novo modelo” (BOYER e DURAND, 1997: 41).

É possível perceber que a flexibilização de processos produtivos e de mercado aumenta a complexidade dos ambientes externos e internos às firmas e faz crescer a demanda por serviços (KON, 2004; TOMLINSON, 1997;

MOULAERT, SCOTT e FARCY, 1997; DAHLES, 1999)20. Neste sentido, analiticamente, observam-se dois tipos de estratégia. De um lado, os ajustes sobre a força de trabalho para diminuir a folha de pagamento, já que, por meio da terceirização, é possível efetuar uma mera redução de custos, com o crescimento do número de contratos de trabalho precarizados, a partir dos quais se promove a redução de salário e a perda de benefícios. De outro, o processo de reorganização produtiva via assimilação de novas tecnologias, que podem ser implementadas tanto integralmente pelas empresas ou parcialmente, via terceirizações ou criação de vínculos com o setor de serviços. Neste caso, abre- se espaço para a modernização do setor produtivo por meio de parcerias com setores de serviços avançados e para o desenvolvimento de processos de inovação tecnológica.21

Tais questões colocadas por estes autores não se esgotam numa discussão dicotômica se há ou não um papel vital da alta tecnologia nos sistemas de produção no capitalismo a partir das mudanças das últimas três décadas. Parece bastante mais rico colocar em debate as possibilidades abertas por estas mudanças. A reestruturação do setor produtivo, além de gerar demandas por serviços já existentes, tanto num processo de terceirização como num processo de subcontratação, ajuda a redefinir, junto à demanda dos setores financeiro e comercial, o papel de segmentos importantes como os de informática, telecomunicações e consultorias na atividade produtiva, com a criação de novos serviços e o aumento da complementaridade entre os setores secundário e terciário.

Para Boden e Miles – organizadores do já importante livro Services and the

Knowledge-Based Economy (2000) e pesquisadores na Universidade de

Manchester, um dos principais centros de pesquisa sobre KIBS no mundo –, as teses da sociedade pós-industrial não conseguem exprimir a real importância dos serviços. Afirmar que a demanda por produtos massificados diminui e que os serviços ganham espaço na economia, levando ao aumento do emprego neste último, não é suficiente. Os autores argumentam que os serviços estão

20 Serviços às empresas representam a categoria que mais cresce dentro do setor no período de

1982 a 1994 na Europa. PREIBL (2000) faz uma análise empírica exaustiva a respeito do terciário europeu neste período.

21 A questão dos fluxos de informação e conhecimento dos serviços para a indústria ou vice-versa,

crescentemente amarrados a atividades dos outros setores da economia. Serviços não são algo supérfluo, mas parte integrante de um sistema econômico dinâmico. Não se trata de uma sociedade pós-industrial, mas do desenvolvimento de um novo tipo de sociedade industrial em que os setores terciário e secundário estão ainda mais fortemente conectados, o que dificulta cada vez mais a distinção entre os dois (BODEN e MILES, 2000: 5; TOMLINSON, 1997). "O sistema econômico pode ser entendido como uma rede de funções interconectadas, algumas das quais por razões históricas são classificadas como serviços e outras como indústria" (BODEN e MILES, 2000: 257).

Estes autores concordam com Tomlinson na crítica às teses fortemente pró-indústria, como aquelas de Cohen e Zysman (1987). Para os primeiros, “a indústria ainda importa, mas o papel dos serviços no desenvolvimento econômico tem apresentado um crescimento significativo”, principalmente no que concerne aos serviços às empresas, mais especificamente os KIBS, já que a criação e a distribuição de conhecimento sustentam o processo de crescimento (TOMLINSON, 2002). A indústria depende dos KIBS e, diferentemente das afirmações de que ela perderia força por causa do desenvolvimento dos serviços, Tomlinson defende que ela se beneficia com a utilização dessas atividades. Ou seja, a oposição entre indústria e serviços não faz sentido (TOMLINSON, 1997: 17-18).

Há, até mesmo, uma convergência entre indústria e serviços ganhando espaço. Configura-se um processo em que um está adquirindo características do outro. Tal convergência reflete tanto as tendências tecnológicas e as oportunidades que elas geram como as estratégias das empresas frente à concorrência (BODEN e MILES, 2000: 9). Atividades de serviços, por exemplo, adotam processos de produção industriais na linha fordista. Evidentemente não se trata de uma linha de montagem stricto sensu, mas de aumento da divisão do trabalho e de estratégias de produção padronizadas. A partir da demanda, desenvolvem procedimentos padronizados e metodologias capazes de desenvolver serviços customizados.

Os estudos sobre inovação, por exemplo, se voltam prioritariamente para a produção de bens materiais (ou industriais). Ao olhar a inovação nos serviços, percebe-se que há a necessidade de outros métodos de análise. E logo se percebe também que tão interessante quanto pensar novos métodos para

analisar inovação em serviços é observar em que medida as atividades de serviços podem atravessar todos os outros setores e funcionar como portadores de conhecimento e catalisadores de processos de inovação em outros setores. Há um caráter transversal da atividade de serviço na economia, especialmente quando observamos os KIBS. Como apontam Boden e Miles, "o conceito de economia de serviços não deveria ser reduzido ao crescimento do setor. Ela não é meramente uma economia em que as atividades de serviços são quantitativamente dominantes. Trata-se de uma economia em que o 'serviço' está se tornando um princípio norteador por toda parte" (BODEN e MILES, 2000: 258). Deste modo, verifica-se uma dificuldade maior em distinguir (e, portanto, enxergar a relevância analítica em fazê-lo) as atividades puramente de serviços daquelas puramente industriais.

A afirmação de Santos, Duarte e Terci a respeito das atividades de informática é precisa em relação a este crescimento dos serviços: “...a interação dos serviços de informática com os setores industrial, comercial e bancário assume um papel de relevância no desenvolvimento e na difusão de inovações tecnológicas (consultoria e desenvolvimento de software), além de oferecer o apoio necessário para a formação dessa nova estrutura produtiva (manutenção e processamento de dados entre outros)” (SANTOS, DUARTE E TERCI, 1999: 126).

A atividade inovadora do setor de serviços tem papel significativo no desenvolvimento do próprio setor como no dos outros. Não só os autores da escola shumpeteriana como vários outros destacam que o processo de transformação do capitalismo para um sistema de produção além do fordismo aumenta a relevância da inovação. “Pesquisa e desenvolvimento se tornam crescentemente a base de novas técnicas e as redes de inovadores se tornam crescentemente a base de acumulação de conhecimento que resulta em inovação” (BODEN e MILES, 2000: 17). Soma-se a isso a idéia de que a inovação depende da organização e da produção de conhecimento. Neste sentido, os KIBS tornam-se centrais. Estes novos serviços “tendem a estar ligados diretamente à dinâmica daqueles segmentos de alta tecnologia, considerados estratégicos para o desenvolvimento econômico contemporâneo, sendo denominados na literatura recente como ‘baseados em conhecimento’, ‘intensivos em ciência’ ou ainda

‘difusores de progresso técnico’” (MONTAGNER, MATTEO E BERNARDES, 1999: 136).

Há evidências, portanto, de que a possível centralidade destes serviços neste novo período do capitalismo mundial se encaminhou em virtude do processo de transformação no sistema de produção e no contexto institucional ocorrido nos últimos 30 anos. As reflexões pontuais a respeito deste processo de reestruturação tentaram explicitar alguns caminhos de como é possível observar as novas questões que se colocam na análise do sistema de produção capitalista. Os processos de inovação tecnológica e de difusão de tecnologias da informação, assim como o crescimento de atividades de serviços (como um todo e em especial aquelas intensivas em conhecimento) são tópicos muito ricos para o debate e ainda demandam novos estudos. Vejamos a seguir como o tema dos KIBS está sendo tratado.

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KIBS:

Benzer Belgeler