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Breve histórico: evolução da agenda política e científica

O termo desenvolvimento se refere ao desdobramento linear ao longo do tempo de um processo, expansão ou realização de potenciais, frequentemente associado à ideia de progresso ou a uma teleologia (DALY, 2004). Aplicado a processos socioeconômicos, costuma ser associado à evolução material e econômica de um país ou setor.

No mainstreaming político e científico, desenvolvimento é sinônimo de crescimento econômico, uma perspectiva herdada da economia neoclássica (CANNON; MÜLLER- MAHN, 2010). Neste raciocínio, o indicador-chave usado para avaliar o desenvolvimento é o Produto Interno Bruto (PIB), proposto em 1934 por Simon Kuznets. Desde a Conferência de Bretton Woods (1944) vem sendo a principal medida adotada pelos países para avaliar avanços e retrocessos do desenvolvimento (CAVALCANTI, 2003; SÖDERBAUMA, 2006).

Curiosamente, o próprio Kuznets alertou para a limitação do PIB como indicador para refletir o bem estar humano, crítica esta a qual fizeram coro outros economistas posteriormente (ABRAMOVITZ, 1959).

A partir da década de 1970, a perspectiva do desenvolvimento como desempenho econômico passou a ser mais intensamente questionada. O relatório Meadows (1972) é um marco nesse sentido. O relatório evidenciou a existência de limites ecológico para o crescimento econômico infinito, pondo em xeque o paradigma neoclássico e trazendo para a pauta científica e política questões ambientais. Dentre estas, encontrava-se o aquecimento global e a mudança climática (NORDHAUS, 1975; SCHIPPER, 2006).

O debate sobre a relação entre desenvolvimento e meio ambiente foi intensificado durante as décadas de 1970 e 1980, culminando, em 1987, no Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum) - elaborado pela Comissão de Desenvolvimento e Meio Ambiente das Nações Unidas. Na ocasião, o conceito de desenvolvimento sustentável foi lançado como um desdobramento do conceito de ecodesenvolvimento, empregado durante a Conferência de Estocolmo (VEIGA, 2009; BETTERNCOURT; KAUF, 2011).

No início da década de 1990, a elaboração do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) trouxe para o foco a perspectiva humana do desenvolvimento, tonando-se, nas décadas seguintes, um dos indicadores mais utilizados para avaliar avanços e retrocessos do desenvolvimento. Como premissa, o IDH entende desenvolvimento como “uma expansão das capacitações humanas, uma ampliação de escolhas, um fortalecimento das liberdades e respeito” (FUKUDA-PARR; KUMAR, 2007). Nessa visão, a renda e a expansão da produção são meios e não fins do desenvolvimento (SEN, 2007). Essa abordagem amplia os horizontes do termo e incorpora outras dimensões que não apenas a econômica.

Na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), realizada no Rio de Janeiro, em 1992, desenvolvimento sustentável ocupou o centro dos holofotes. A importância crescente do tema resultou na construção de uma comunidade científica diversificada em torno do desenvolvimento sustentável nos anos posteriores à Conferência. Esta construção seguiu diferentes caminhos colaborativos epistêmicos e institucionais, associados principalmente à pesquisa em mudança climática, mudança ambiental global e suas implicações para a dimensão humana (TURNER, 2011).

O estado-da-arte deste universo científico foi sintetizado durante o Congresso Mundial sobre Desafios de uma Terra em Mudança (World Congress on Challenges of a Changing Earth), realizada em Amsterdã, em 2001. Na ocasião, milhares de cientistas sociais e naturais se reuniram em uma reflexão conjunta. O objetivo era identificar abordagens e delinear uma agenda científica para guiar a pesquisa em mudanças globais e suas consequências para os sistemas humanos (STEFFEN et al, 2002). A proposta de uma ciência da sustentabilidade ganhou força e, durante a década 2000, houve grande esforço

para estabelecer os princípios e diretrizes da nova ciência (KAJIKAWA, 2008; KATES, 2001; KATES, 2011; TURNER, 2003; TURNER, 2010). Porém, elevar a pesquisa em sustentabilidade ao status de ciência não é consenso e encontra críticas por parte de alguns autores (GOEMINNE, 2011).

O campo de pesquisa vem crescendo rapidamente; diversos periódicos especializados no tema surgiram ao longo da década de 2000. Turner et al (2011) estimam que sejam publicados anualmente 3.000 artigos relacionados à sustentabilidade. Já Bettencourt & Kaur (2011)13 verificaram que desde 1974, cerca de 20 mil artigos foram publicados sobre o tema, envolvendo 37 mil autores distribuídos em 174 países e 2.200 cidades. Os autores também observaram que desde 1990, a produção científica no tema tem crescido rapidamente, dobrando a cada 8 anos.

Os contornos da ciência da sustentabilidade ainda são difusos, caracterizados pela convergência entre diferentes abordagens das ciências sociais, naturais e engenharias (BETTENCOURT; KAUR, 2011). A natureza interdisciplinar se manifesta no foco variado das publicações. Kates (2011), por exemplo, verificou que dos 232 artigos da secção de sustentabilidade do periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), 62% tiveram por foco a sustentabilidade dos sistemas ambientais de suporte a vida, enquanto 38% centraram sua análise no bem estar humano. Aronson (2011) identifica na Ecologia de Paisagens, Ecologia da Conservação, Ética Ambiental, Direito Ambiental, Economia Ecológica e Restauração Ecológica as bases da ciência da sustentabilidade. Já Kajikawa (2008) sugere à pesquisa em energia, agricultura, sociologia rural, recursos hídricos, agricultura, negócios e economia ecológica como áreas científicas afins da Ciência da Sustentabilidade.

Definindo Desenvolvimento Sustentável

A definição mais difundida de DS é a trazida pelo Relatório Brundtland (1987): “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” (BRUNDTLAND, 1987). Outra definição bastante popular de DS é desenvolvimento ecologicamente sustentável, economicamente viável e socialmente justo (ALLEN et al, 2003). De forma semelhante, Kochler & Hecht (2006) sugerem que desenvolvimento sustentável envolve crescimento econômico equitativo, proteção ambiental e bem estar social. Se, por um lado, tais definições tem seu mérito ao expandir a compreensão do desenvolvimento para além de sua dimensão econômica, são vagas e pouco operativas (JABAREEN, 2008). Não

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Os autores analisaram a literatura peer review em língua inglesa entre 1974 e 2010. Utilizaram como critério

primário a presença no título, resumo ou palavras-chave os termos sustentabilidade ou desenvolvimento

esclarecem quais são as necessidades das gerações presentes e futuras, nem o que é socialmente justo e ecologicamente sustentável, abrindo margem para múltiplas interpretações.

Todavia, há aqueles que enxergam na vaguidão o grande poder do conceito de DS. Daly (1996) defende que esta característica do conceito permite consensos em torno de temas politicamente sensíveis, ao contrário de definições mais restritas. O autor argumenta que o conceito de DS é um conceito dialético, uma noção que provoca a reflexão e reorientação rumo a novos caminhos de desenvolvimento. Difere de conceitos analíticos, cujo valor se encontra nas suas definições relativamente fechadas, importantes como ferramentas epistêmicas para recortar a realidade tendo em vista o objeto de estudo.

O adjetivo sustentabilidade é acrescido ao substantivo desenvolvimento para definir um processo que preservar as bases ecológicas que o sustenta ao mesmo tempo em que atende a valores, objetivos, tradições, instituições e culturas socialmente desejáveis (LÉLÉ, 1991). Nesse contexto, é possível identificar sistemas de suporte à vida e à comunidade como aspectos a serem sustentados, enquanto pessoas, sociedade e economia como aspectos a serem desenvolvidos (LÉLÉ, 1991; NESS, 2007). O modelo teórico dos três pilares da sustentabilidade (ambiental, econômico e social) é o mais amplamente utilizado na pesquisa em DS (KASTERNHOFER; RAMMEL, 2005; POPE et al, 2004). Ele é um contraponto ao peso excessivo dado à dimensão econômica por abordagens convencionais do desenvolvimento. Entretanto, outras propostas que expandem o número de dimensões para além dos três pilares ou configuram arcabouços alternativos vem sendo apresentadas e discutidas por diferentes autores (MCNEILL et al, 2012; PAWLLOWISK, 2008; SEGHEZZO, 2009).

No que tange a dimensão ambiental, desde que o relatório Meadows apontou os limites ambientais do crescimento, esforços tem sido feitos para identificar os limites ecossistêmicos e a capacidade suporte destes em prover bens e serviços essenciais, produzindo métodos de avaliação e indicadores para dar suporte à tomada de decisão, tais quais a Pegada Ecológica e o PIB verde (WACKERNAGEL; REES, 1996; BOYD, 2007; BOYD; BANZHAF, 2007; HOLMEBERG et al, 1999; ROCKSTRÖM et al, 2009). Conceitos como capital natural, capital natural crítico, serviços ambientais e resiliência ecológica vem sendo empregados para trançar considerações sobre a dimensão ambiental da sustentabilidade (CONSTANZA et al, 1997; BRAND, 2009; JABAREEN, 2008).

Métodos de valoração ambiental e instrumentos econômicos, como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), vêm ganhando proeminência como estratégia de incorporar os custos ambientais - tradicionalmente invisíveis na abordagem da economia neoclássica - no processo de desenvolvimento, (CONSTANZA et al, 1997; FABER et al, 2002). Princípios como poluidor-pagador e provedor-recebedor estão em pauta, fomentando discussões sobre

como conciliar os custos ambientais do desenvolvimento e os custos socioeconômicos do não-desenvolvimento. Este é um tema especialmente sensível no contexto internacional, uma vez que levanta questões sobre direitos e deveres dos países desenvolvidos e em desenvolvimento (BALMOFORD; WHITTEN, 2008). Entretanto, as estratégias de valorização ambiental não estão imunes a críticas. Autores argumentam que a natureza é incomensurável e que tentativas estabelecer valores para bens e serviços ambientais falham em capturar a complexidade ecossistêmica e dos valores subjetivos envolvidos (KOSOY; CORBERA, 2010). Estes são apenas alguns exemplos dos dilemas entre desenvolvimento e sustentabilidade, nos quais questões éticas, subjetivas e socialmente construídas, confrontam-se com questões práticas da gestão ambiental.

A “sustentabilidade” também é uma questão de equidade distributiva, sobre compartilhar a capacidade de bem-estar entre as gerações presentes e futuras (JABAREEN, 2008). O IDH, por exemplo, é uma tentativa de integrar as condições básicas para que equidade seja alcançada (renda, educação), assim como um dos seus reflexos na qualidade de vida humana (longevidade). O índice de Gini é outra tentativa de mensurar a equidade por meio da avaliação do quanto a distribuição de renda e consumo desvia de uma hipotética distribuição ideal (WORLD BANK, 2012). Iniciativas mais ousadas vão além e buscam avaliar aspectos subjetivos da sustentabilidade, como aqueles associados ao bem estar humano. É o caso do Índice de Felicidade Bruta Nacional, adotado pelo Butão, no qual a qualidade de vida é elemento-chave na avaliação do desenvolvimento nacional (BATES, 2009; TELLA; MACCULLOCK, 2009).

Por fim, a equidade também perpassa diferentes aspectos, como justiça social/ambiental, democracia, direitos humanos, liberdade, qualidade de vida, intimamente relacionada às regras sociais e ao processo de construção de regras e distribuição de poder (MARTINEZ-ALIER, 2007; DEMPSEY et al, 2011; JABAREEN, 2008). É nesse contexto que a dimensão político-institucional emerge como o quarto pilar da sustentabilidade, fruto da percepção de que paisagens institucionais e relações de poder determinam a gestão dos e o acesso aos recursos naturais e econômicos, influenciando, portanto, a sustentabilidade ambiental, social e econômica (DALE, 2010; LEMOS; AGRAWAL, 2006).

No âmbito científico, cabe destacar a abordagem da economia ecológica, na qual questões de equidade, crescimento econômico, limites ecossistêmicos e sustentabilidade vem sendo intensamente debatidas (VEIGA, 2009). A economia ecológica surge nas ciências econômicas como contraponto à economia neoclássica, propondo-se a problematizar a economia frente a um mundo de recursos ambientais finitos e marcado por desigualdade na distribuição de bens, serviços e poder (DALY; FARLEY, 2011). Em uma de suas frentes de pesquisa mais polêmicas, os economistas ecológicos propõem o

decrescimento econômico ou decrescimento sustentável, cuja premissa defende a necessidade de transitar do paradigma do crescimento econômico para o do decrescimento sustentável, no qual o desenvolvimento ocorre sem ser, necessariamente, acompanhado de expansão econômica (KLITGAARDS; KRALL, 2011; LATOUCHE, 2009; MARTINEZ-ALIER, 2010; O’NEILL, 2011; SCHNEIDER et al, 2010). A economia ecológica também agrega a perspectiva global à análise da sustentabilidade, lembrando que o sistema Terra é integrado, e as dinâmicas locais tem implicações em processos ecossistêmicos que vão além das dinâmicas econômicas locais (RODRIGUES-FILHO, et al, 2013)

1.3.2 Adaptação e desenvolvimento sustentável

Benzer Belgeler