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BÖLÜM V : SONUÇ VE ÖNERİLER

5.1. Sonuçlar

5.1.3. Sınıflarına İlişkin Sonuçlar

europeu, africano e indígena fossem colocados em contato. Encontro este que foi acompanhado por conflitos, acordos, estratégias, adaptações e acomodações que caracterizaram as misturas biológicas e configuraram múltiplos e complexos processos de mestiçagem cultural. As trocas de ricas e variadas mercadorias, o desenvolvimento de novas atividades econômicas, a circulação de informações, o êxodo de pessoas e a fixação nas novas terras fizeram com que estes trânsitos culturais se manifestassem nas mais variadas dimensões e aspectos da vida cotidiana, não tendo sido diferente nas lavras minerais exploradas entre os séculos XVI e XVIII.

A mineração, ao exigir conhecimentos e técnicas específicos para o seu desenvolvimento, configurou um espaço profícuo e dinâmico para a atuação de diferentes “mediadores culturais”. A influência hispano-americana, a presença de especialistas europeus (portugueses, espanhóis, alemães e flamengos), que contavam com uma longa tradição na atividade minerária, paulatinamente se amalgamaram com as ferramentas, as crenças e os saberes introduzidos pelos escravos africanos e com a experiência prática de indígenas. Neste universo técnico-cultural assim conformado, transitaram, coexistiram, se misturaram e se interligaram conhecimentos de mineração e metalurgia indispensáveis à consolidação da atividade. E, uma vez implantado no meneio das minas, este universo foi transmitido entre as sucessivas gerações de descobridores, mineradores e trabalhadores escravos.

As lavras minerais transformaram-se assim em um espaço privilegiado para os processos de mestiçagem cultural, no qual os diferentes elementos se encontravam de tal forma imbricados que se torna muito difícil, senão impossível, examinar a extensão das diversas influências encontradas e, ainda, determinar precisamente a origem de determinadas técnicas ou saberes aplicados à extração mineral. Prudente será admitir que tais fluxos se interagiram e se complementaram.

Para tanto, basta lembrar aqui o exemplo da bateia, instrumento cuja funcionalidade era conhecida, há muitos séculos, tanto por europeus e africanos, quanto por asiáticos, e ainda por indígenas da América espanhola. As polêmicas existentes em torno desse instrumento servem bem para ilustrar os trânsitos e as apropriações de técnicas e conhecimentos operados no espaço das lavras ao longo dos tempos por diversos agentes ligados aos processos de colonização das diferentes partes do mundo.

De acordo com a sua etimologia, o termo bateia seria originário do espanhol batea que, por sua vez, teria origem do árabe Batiya, que quer dizer “bacia”188. Na documentação colonial portuguesa, é comum encontrar as duas grafias: bateia e “batea”. No Vocabulário Português e

Latino de Bluteau, relativo às primeiras décadas do século XVIII, primeiramente é encontrado

apenas o verbete “bateada”, definida como “uma gamela, ou outra cousa semelhante, cheia de terra mineral”189. Em um momento posterior (no suplemento ao Vocabulário), o termo “batea” foi acrescentado, com a seguinte definição “termo de Mineiro. No Rio de Janeiro, é uma gamela de pau, de feitio piramidal redondo, na qual lavam a terra, que tem ouro, para que no fundo fique o metal limpo”190.

Na tradução americana de De re metallica, o termo batea foi adotado (como tradução do termo latino alveus) para designar o recipiente em que o ouro era transportado do interior das minas (small batea) ou utilizado para sondar as terras auríferas (large batea). De acordo com os tradutores da obra: “the Spanish term batea has been so generally adopted into the mining vocabulary for a wooden bowl for these purposes, that we introduce it here”191. Robert West, por

sua vez, oferece um novo dado a essa questão: “de acuerdo com la Real Academia Española, la palavra es caribe, lo que podría indicar que el instrumento es indígena”192.

É preciso acrescentar também que os africanos, empregados como escravos nas minas do Novo Mundo, dominavam a técnica de apurar os aluviões auríferos com o uso de recipientes de madeira. De acordo com o barão de Eschwege, alemão que esteve nas Minas entre 1810-1821, tido por grande conhecedor das antigas técnicas de mineração, a bateia de madeira, de formato afunilado e de pouco fundo, seria de origem africana. Para ele, as bateias, introduzidas juntamente com os negros, “de cuja experiência o natural espírito inventivo e esclarecido dos portugueses e

188

HOUAISS, Antônio. Dicionário HOUAISS da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

189

“BATEADA, bateâda (Termo das minas do Rio) É uma gamela, ou outra cousa semelhante, cheia de terra mineral”. In: BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Português e Latino. Rio de Janeiro: UERJ, 2000 (CD-Rom).

190

BLUTEAU. Vocabulário Português e Latino. (CD-Rom).

191

AGRICOLA. De re metallica, 1950. pp. 156-157.

192

WEST, Robert. La Mineria de Aluvion em Colômbia Durante el Periodo Colonial. Bogotá: Imprenta Nacional, 1972. p. 55.

brasileiros logo tirou proveito”, pela eficiência que apresentavam, tornaram-se mesmo “preferíveis às européias, em forma de pá”193.

Já o engenheiro Paulo Rolff, com base nos seus estudos sobre técnicas de mineração, aponta que, “para a obtenção do ouro, parece que a bateia se originou no Mediterrâneo, tendo sido espalhada no mundo antigo pelos fenícios. Talvez seja provável que a sua origem primitiva venha da Índia onde a exploração de ouro já se fazia”. Nesta afirmação, o autor considerou a bateia de forma genérica, mas, ao tomar em particular o recipiente com seu formato afunilado característico, afirma que “provavelmente a bateia cônica, de madeira, diâmetro acima de 50/60 centímetros, tipo ‘Chapéu Chinês’, [...] é de origem chinesa, por quem foi introduzida na Malaia e dali pelos portugueses no resto do mundo”.194 Por fim, acrescenta ainda que, no Brasil, esta bateia cônica ou chinesa, usada na Ásia desde 400 a.C, e conhecida pelo nome de dulang, provavelmente foi introduzida por mineiros africanos.195

Em um estudo datado de fins do século XIX, Warnford Lock dedicou-se aos processos de extração aurífera “artesanal” adotados por diferentes populações em diversas partes do mundo. Entre os tipos de “bateia” (gold-pan) observados, notou que, apesar das diferenças de formas, o princípio prático ao qual obedeciam era o mesmo: “all apparatus used in the operation is constructed and arranged on the principle that, while water has the power of removing the base material, the gold is almost entirely left behind”196. Assim, entre os africanos da Costa occidental e terras de Kaffir, encontrou um recipiente de formato abaulado; entre os indianos, de formato mais raso, com o fundo afunilado, apresentando traços semelhantes ao da bateia que, de acordo com Eschwege, teria sido aperfeiçoada nas Minas setecentistas.

193

ESCHWEGE, W. L. von. Pluto Brasiliensis. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985. v. 1. pp. 167-68; 181.

194

ROLFF, Paulo Aníbal Marques de Almeida. Subsídio para a História da Mineração Brasileira. In: Revista da

Escola de Minas. Ouro Preto, 1976. ano XL. v. XXXV, nº 3, p. 16.

195

ROLFF. Revista da Escola de Minas, ano XL, v. XXXV, nº 3; p. 23.

196

LOCK, C. G. Warnford. Practical Gold-mining: a comprehensive Treatise on the origin and occurrence of gold-

bearing gravels, rocks, and ores, and the methods by which the gold is extracted. London/New York: E & F. N. Spon,

Fig. 5 - Lavagem do ouro na África Ocidental feita por uma africana.

In: LOCK, C. G. Warnford. Practical Gold-mining: a comprehensive Treatise on the origin and occurrence of gold-bearing gravels, rocks, and ores, and the methods by which the gold is extracted. London/New York: E & F. N. Spon, 1889.

Fig. 4 – Fotos de uma bateia usada para apuração do ouro.

Devido a sua técnica simples e eficaz, teve larga difusão nas Minas setecentistas e pode ser encontrada até hoje entre garimpeiros.

Fig. 7 - Detalhe das ferramentas usadas pelos indianos da região de Singhbhum. Na

primeira, observa-se a grande semelhança com o nosso almocafre. Também o formato afunilado do recipiente usado na lavagem do ouro apresenta traços comuns ao da bateia que conhecemos e que foi largamente empregada na mineração colonial.

Fig. 6 - Mulheres indianas lavando as areias auríferas na região de Singhbhum.

“The class who more particularly follow the trade of gold-washing in India belong to a tribe of Gonds known as Jhoras, Dhoras, Dokras, Toras, or Jharas, according to locality. In the case of these people, both sexes engage in the pursuit; but the Ghasis, a local tribe of unknown origin, also occasionally wash for gold. Among them the men only, while among certain Kol or Munda tribes to the west of Singhnhum the women wash for gold, and their male relatives regard the work as an unworthy occupation for their sex”.

In: LOCK, C. G. Warnford. Practical Gold-mining: a comprehensive Treatise on the origin and occurrence of gold-bearing gravels, rocks, and ores, and the methods by which the gold is extracted. London/New York: E & F. N. Spon, 1889. p. 152.

Fig. 9 – Bateas usadas na mineração européia durante o século XVI.

In: AGRICOLA, Georgius. De re metallica. Trad. Hoover, Hebert Clark. New York: Dover Publications, 1950. p. 156.

Fig. 8 - Lavagem do ouro na ilha de Heera-Khoond [Híra-khudá], localizada em Mahanadi, entre

Sambalpur e Sonpur, províncias da região central da Índia.

“At Jhunan, on the Mahanadi, Central Provinces of Índia, there is a small colony of gold-washers, who travel to the different localities when the water falls after the rains”.

In: LOCK, C. G. Warnford. Practical Gold-mining: a comprehensive Treatise on the origin and occurrence of gold-bearing gravels, rocks, and ores, and the methods by which the gold is extracted. London/New York: E & F. N. Spon, 1889. p. 151.

Analisando as diversas informações, pode-se concluir que a origem desse instrumento, bem como de outros, é muito antiga e bastante difícil de determinar. Nestas condições, é possível considerar então que, nas minas da América portuguesa, a bateia poderia ter sido introduzida por diferentes vias e agentes; mais ainda, poderiam ter (co)existido diferentes “modelos” de bateia que, por sua vez, teriam sido readaptados às condições e conveniências da exploração.

Assim, talvez o mais interessante seja atentar para as múltiplas e inesgotáveis possibilidades que um contexto de mundialização, como o que se formou a partir do século XVI, disponibilizou àqueles que se dedicaram à mineração.

Contudo, para o presente trabalho, o mais importante consiste em identificar as formas pelas quais o universo técnico-cultural das lavras minerais foi apropriado pelos mineradores, tendo sido (re)inventado, aprimorado e constantemente adaptado, no sentido de criar soluções próprias, compatíveis com as especificidades das jazidas auríferas exploradas nas Minas Gerais durante o século XVIII e com a realidade de uma sociedade colonial. É o que se buscará nos próximos capítulos.

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Benzer Belgeler