5. SONUÇ VE ÖNERİLER
5.1. Sonuçlar
5.1.2. Sınıf Öğretmeni Değişiminin Öğrenci Üzerindeki Etkisini Belirlemeye
Mostraremos como o saber sobre o corpo contribuiu, entre a Idade Média e a Modernidade, para a construção das noções de pessoa, homem e para a invenção do individualismo característico da modernidade.
Cabe identificar que cada sociedade, em cada tempo, forja sua concepção de corpo. Esse mistério se confunde com a própria existência e podemos apontar que, ao longo dos tempos, as evidências fazem com que as representações se modifiquem. Desse modo, a história é imprescindível para compreender a questão do corpo e buscar conceituá-lo. Obrigatoriamente, faz-nos percorrer as trilhas da biologia/anatomia nos campos em que sua epistemologia permite o foco no corpo.
O corpo nos remete à busca da compreensão do que nós somos, estando presente em nosso imaginário. Para Le Breton (2011), haveria quatro condições sociais e
culturais que nos conduzem às concepções atuais de corpo: o individualismo enquanto estrutura social, o pensamento racional positivo e laico sobre a natureza, o recuo das tradições populares locais e a história da anatomia e ou medicina que vem construindo, de certa forma, um saber oficial sobre o corpo. O autor destaca também o corpo como fenômeno social e cultural, simbólico, objeto de representações e imaginários. Do corpo nascem e se propagam significações que fundamentam a existência individual e coletiva, sendo ele o eixo da relação com o mundo. Dessa maneira, a separação cartesiana entre mente e corpo, na qual se consolidou sua objetificação, amplia-se para buscarmos integrá-lo ao homem.
Contudo, isso não ocorre em todas as sociedades. Le Breton (2011) argumenta que, nas sociedades canaques, por exemplo,o corpo não é uma forma de matéria isolada do mundo. Estando integrado à natureza pela sua semelhança e metáforas com os vegetais, possui uma dimensão comunitária, não tendo sentido o entendimento ocidental da noção de pessoa. Também em sociedades holistas tradicionais, o homem está misturado ao cosmos, à natureza, à comunidade, tendo uma submissão fiel a esses elementos, não existindo o corpo como forma de individuação, uma vez que o indivíduo não se distingue do grupo.
Faremos, nesta sequência, um recorte específico das relações que imbricam o corpo na constituição do individualismo, iniciando-se a partir do saber médico, ainda na Idade Média, quando o corpo passa a ser alvo do conhecimento e inventa a pessoa, entre o Renascimento e a Modernidade.
Na Idade Média, sob o domínio cristão, fazer correr sangue é transgredir um tabu. Le Goff (2010) aponta que o barbeiro (que conhecia os pontos de sangramento), o açougueiro, o cirurgião e o carrasco não gozavam de grande estima, por lidarem diretamente com o sangue. Como os médicos da época preocupavam-se mais em dominar o latim, por lhes dar mais status, do que curar, não tocavam no corpo do doente. Assim, para Le Breton (2011), são os leigos e alguns médicos transgressores do tabu do corpo, imposto pelo cristianismo, que vêm explorar seu interior.
As construções sociais se diferenciavam da atualidade, de modo que o distanciamento do corpo colocava o médico em uma posição de não contaminação pelos doentes, construindo uma hierarquia social, na qual quanto mais distante do corpo doente, maior o grau hierárquico atingido.Na crítica à medicina, Le Breton (2011), em
seus estudos na antropologia do corpo, aponta que ela optou por cuidar da doença, da máquina humana em detrimento do doente, separando o homem de seu corpo para tratá- lo. O fato é que, a partir do saber médico, o homem se distanciou de seu corpo, o que vale especialmente para as sociedades ocidentais.
O conhecimento do corpo humano se deve ao anatomista, que cria a episteme ocidental entre o homem e seu corpo, e o artista que, pela observação objetiva, torna possível dar visibilidade ao interior. Também o artista, ao passar a pintar os retratos, contribui para a aparição do indivíduo, que ganha um rosto e captura a pessoa em toda a sua individuação e singularidade, transformando toda a axiologia do corpo.
Com a arte, no caso, a pintura, a visão ganha um sentido maior e vai se destacar na modernidade, por meio da comunicação. Com a aparição do indivíduo, seu corpo deixa de ser inseparável da comunidade, passando a ser individual. Com a arte voltada para os traços individuais, o homem encerra em seu corpo. Com isso, o corpo passa a
“ser fronteira entre o homem e o outro, e, na modernidade, ele é a marca que o separa
do cosmo, dos outros, de si mesmo” (LE BRETON, 2011, p. 71).
Essas distinções estabelecidas pelo saber médico anotômico, pela arte dos retratos que capturam a pessoa expressando seu rosto, contribuem para o nascimento do indivíduo. Em suas pesquisas sobre o aparecimento do indivíduo, Le Breton (2011) aponta que o comerciante é o protótipo do indivíduo moderno, por fazer valer seu interesse pessoal em detrimento ao do coletivo. Destaca-se também que, com o saber médico, o corpo se dissocia do homem, ao possibilitar seu estudo separadamente do
homem, o que faz constituir um ter (um corpo) e não um “ser”, ganhando um estatuto
de poder, por ser cientificamente estudado.
Voltando-se aos tempos contemporâneos, Talamoni (2011) cita a obra artística de Gunter von Hagens que mostra, em suas exposições sobre o corpo realizadas em diversos países, que a anatomia renasce, apresentando o corpo entre o científico e o artístico, entre o educativo e o entretenimento, fazendo renascer no público a reflexão sobre o corpo.
Essa separação na atualidade, que se configura pelos sentidos acumulados historicamente, entre homem e corpo, constitui-se por marcas sociais que se consolidaram com o individualismo e a cultura erudita, em que o corpo passa a ser propriedade do homem e não sua essência, ficando independente do homem.
Habermas aponta que a responsabilidade do indivíduo cresce na modernidade, quando seu sustento passa a depender de seu próprio trabalho. O indivíduo moderno é burguês, ou seja, juridicamente livre e economicamente independente, com profundas aspirações de autonomia e liberdade.
Nessa associação do saber anatômico e médico e as mudanças sociais que transferem ao indivíduo a responsabilidade por ele mesmo, evidencia-se o individualismo.
Na contemporaneidade Maffesoli (1999) sustenta que existe um hedonismo do cotidiano que emerge em certas épocas e o jogo das aparências passa a apontar novos
modos de ser. Para Maffesoli, em “O mistério da conjunção”, há, na atualidade, um
deslize da lógica da identidade, que tem como característica individualizar, para a lógica da identificação, na qual a pessoa emerge no coletivo. Nesse contexto, instaura-se um narcisismo coletivo que enfatiza a estética, os valores tribais, o banal, em que o insignificante e o prazer ganham importância, constituindo uma sociedade que ama o corpo, o que representa uma mudança dos valores do individualismo, da modernidade, para o aparente, para o retorno da aparência, para a embriaguez coletiva da pós- modernidade.