A “biopolítica da vida molecular” é termo fundamental do pensamento de Nikolas Rose sobre as políticas da própria vida. Com a obra “The Politics os life itself”, publicada em 2007, Rose apresenta sua percepção sobre as novas políticas da vida. Esta, considerada como a sua principal obra sobre biopolítica, é a que norteará o pensamento de todo este capítulo em análise com a publicidade dos alimentos funcionais apresentada nos dois primeiros capítulos desta pesquisa.
Rose (2007) tem como base o pensamento de Michel Foucault sobre biopolítica. Inicialmente, Rose utiliza a obra de Foucault “História da Sexualidade I –
15A publicação de “É preciso defender a sociedade” de 1997 é do original em francês, traduzida e publicada em Lisboa somente em 2006, data que será utilizada como referência neste texto.
A vontade de saber”, curso ministrado em 1970-1971, publicado somente em 197616,
especificamente o capítulo “Direito de morte e poder sobre a vida”, em que Foucault (1988) afirma que durante milênios, o homem permaneceu o que era para Aristóteles, um animal vivo com a capacidade adicional de uma existência política, enquanto, agora, o homem é um animal cuja política coloca a sua existência como ser vivo em questão.
Para Rose (2007), Foucault (1988) identificou perfeitamente a mudança das estratégias de poder sobre a vida dos indivíduos, deixando de lado o direito de morte e passando a usufruir o poder sobre a vida dos mesmos. Esta mudança se dá a partir do século VIII e mobiliza toda uma organização de sociedade. Neste período, a preocupação com a vida dos indivíduos fez com que o Estado passasse a criar programas de saneamento básico, cuidados contra doenças, políticas de proteção na velhice e etc. Para Foucault (1988), a política tomou para si os processos vitais da existência humana, questões como o tamanho e a qualidade da população, a reprodução e sexualidade humana, as relações conjugais e familiares, saúde e doença, nascimento e morte, passaram a se tornarem primordiais para o governo.
Foucault (1988), em sua análise, propôs um diagrama bipolar do que se chamava “poder sobre a vida” ou biopoder. Um dos pólos deste biopoder foi denominado de anatamo-política do corpo humano individual, pois buscava maximizar suas forças e integrá-las em sistemas eficientes. E o segundo pólo foi denominado “biopolítica das populações”, pois era o controle regulatório da população, concentrando-se sobre o corpo das espécies, o corpo imbuído com os mecanismos da vida: nascimento, morbidade, mortalidade, longevidade. Ele alegava que esta tecnologia bipolar, emergentes no século XVII e XVIII, procurava investir na vida através da vida (ROSE, 2007).
A diante, no curso “É preciso defender a sociedade”, ministrado em 1975- 1976 e publicado em 199717, Foucault (2006) notou que no século XIX estes dois pólos foram unidos dentro de uma série de “grandes tecnologias do poder” em que a sexualidade era apenas mais uma dentre várias destas tecnologias. Surgiam novos tipos de lutas políticas, em que a vida como um objeto político voltava contra os
16 A publicação de “A história da sexualidade I – A vontade de saber” de 1976 é a original em francês, traduzida e publicada no Brasil somente em 1988, data que será utilizada como referência para esta obra neste texto.
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A publicação de “É preciso defender a sociedade” de 1997 é a original em francês, traduzida para o português e publicada em Portugal somente em 2006, data que será utilizada como referência para esta obra neste texto.
controles exercidos sobre ela, em nome de reivindicações a um direito à própria vida, ao corpo, à saúde e à satisfação das próprias necessidades (ROSE, 2007).
Neste momento, Rose (2007) afirma que Foucault (2006) notou que o campo da biopolítica tomou novas formas, desde a gestão das cidades, espaço e sociabilidade em nome da minimização da doença, às tentativas de maximizar a qualidade da raça através da administração de nascimento e morte. Foi a ascensão das ciências da vida, da medicina clínica. Ela deu luz às técnicas, tecnologias, especialistas e aparelhos para o cuidado e administração da vida de cada um e de todos, desde o planejamento da cidade aos serviços de saúde.
A partir daí, Rose (2007) começa, pode-se dizer, a aplicar o pensamento de Foucault na sociedade atual para construir suas próprias problemáticas. Mas levanta-se aqui uma grande interrogação. Uma vez que a principal obra de Rose sobre biopolítica foi publicada em 2007, por que Rose (2007) não cita em nenhum momento de sua obra as duas principais publicações de Foucault sobre biopolítica, os cursos “Segurança, território e população” de 1977-1978 e “Nascimento da biopolítica” de 1978-1979, ambos publicados em 2004?18
Esta pergunta se torna fundamental, porque a proximidade de Rose (2007) e Foucault (2008) é tão grande, mesmo sem que Rose tenha citado uma palavra se quer de Foucault (2008). Nela, Foucault apresenta a biopolítica numa visão de futuro, no sentido de que já compreendia o que poderia vir com o desenrolar do neoliberalismo e da biotecnologia, na qual trabalha Rose (2007).
Um dos interesses atuais da aplicação da genética às populações humanas é o de permitir reconhecer os indivíduos de risco e o tipo de risco que os indivíduos correm ao longo de sua existência. Vocês me dirão: quanto a isso não podemos fazer nada, nossos pais nos fizeram assim. Por certo, mas quando se pode estabelecer quais são os indivíduos de risco, e quais são os riscos de que uma união de risco produza um indivíduo que terá tal ou qual característica quanto ao risco de que é portador, pode-se perfeitamente imaginar o seguinte: é que os bons equipamentos genéticos – isto é, [aqueles] que poderão produzir indivíduos de baixo risco ou cuja taxa de risco não será nociva para eles, para seus próximos ou para a sociedade – esses bons equipamentos genéticos vão certamente se tornar algo raro, e na medida em que serão algo raro podem perfeitamente [entrar], e é normal que entrem, no interior dos circuitos ou dos
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A publicação de “Segurança, território e população” e de “Nascimento da biopolítica” de 2004 é a original em francês, traduzida e publicada no Brasil somente em 2008, data que será utilizada como referência destas obras neste texto, especificamente, na seqüência, como Foucault 2008 B e Foucault 2008.
cálculos econômicos, isto é, nas escolhas alternativas. Em termos claros, isso vai significar que, dado meu equipamento genético, se quero ter um descendente cujo equipamento genético seja pelo menos tão bom quanto o meu, ou, na medida do possível, melhor, vou ter que encontrar alguém com quem me casar cujo equipamento genético também seja bom. E vocês vêem claramente como o mecanismo de produção dos indivíduos, a produção de filhos, pode reencontrar toda uma problemática econômica e social a partir do problema da raridade de bons equipamentos genéticos. E se vocês quiserem ter um filho cujo capital humano, entendido simplesmente em termos de elementos inatos e de elementos hereditários, seja elevado, verão que, da parte de vocês, será preciso todo um investimento, isto é, ter trabalhado o suficiente, ter renda suficiente, ter um estatuto social que lhes permitirá assumir como cônjuge ou como co-produtor desse futuro capital humano alguém cujo capital também será importante. Eu lhes digo isso de forma alguma beirando a brincadeira; é simplesmente uma forma de pensar ou uma forma de problemática que se encontra atualmente em estado de emulsão (FOUCAULT, 2008, p. 313-314).
Pode parecer uma citação de Rose (2007), mas Foucault (2008), em 1978- 1979 já adiantava, ainda que um pouco distante, o que Rose (2007) desenvolve e pesquisa em pleno século XXI. Foucault (2008) previa a era da organização econômica do capital humano nas tecnologias denominadas na época de genéticas. Neste parâmetro, Foucault (2008) identificou a biopolítica nas estratégias de governo da vida humana dentro do mundo complexo da vida biológica e econômica. Nada diferente do que Rose (2007) vem desenvolvendo, trinta e três anos após.
Rose (2007), já está inserido na era da biotecnologia que Foucault (2008) visionava, e é a partir desta realidade que ele apresenta seu pensamento biopolítico, o qual mais adiante conectará com a questão dos alimentos funcionais e revelará o grande quadro biopolítico desta pesquisa.
É pela análise crítica da explosão biotecnológica do século XX que Rose (2007) inicia sua problemática biopolítica. Muitos previam que aquele seria o século da biotecnologia, uma era de maravilhas com novas possibilidades de vida. Outros acreditavam que o desenvolvimento do genoma humano inauguraria uma era de genética da manipulação com inéditas pesquisas de criações de vidas, mas ainda possíveis de consequências terríveis. Havia os que acreditavam que a geração de psicofármacos em breve permitiriam projetar humores, emoções, desejos e a administração da vontade. Alguns sonhavam ainda com a busca de um mundo no qual os indivíduos estenderiam suas vidas úteis por tempo indeterminado.
Muitas técnicas biomédicas passaram a se efetuar no mercado da medicina: a seleção genética, tecnologias reprodutivas, os transplantes de órgãos, a modificação genética de organismos, e da nova geração de drogas psiquiátricas. Outros procedimentos estavam a ser desenvolvidos: a medicina personalizada, de acordo com o genótipo de cada indivíduo, codificado em minúsculo chip e a fabricação ou a regeneração de órgãos in vitro ou a utilização de células-tronco que podem ser diferenciadas em qualquer tipo de tecido (ROSE, 2007).
Estas perspectivas geraram esperanças e medos, celebração e condenação. Enquanto alguns investiram grande esperança na perspectivas de curas inovadoras e eficazes para todos os tipos de doenças e aflições, outros alertaram para os perigos de tratar a vida humana como infinitamente maleável, principalmente onde a criação e o uso de embriões humanos em pesquisas estão em causa. Muitos políticos, universidades e investidores privados esperavam que estes avanços da biomedicina pudessem gerar propriedade intelectual valiosa para dirigirem um novo e forte mercado da atual bioeconomia (ROSE, 2007).
Por outro lado, muitos alegam que a ciência básica já está subornada à serviço do lucro e que os fatores que afetam a saúde e a doença da maioria dos indivíduos são negligenciados na busca de terapias para os poucos que vão avançar carreiras e gerar economia. Neste mesmo contexto, as empresas farmacêuticas têm sido apontadas pela a crítica, como exploradora por vender muitos medicamentos a preços inflacionados e com falsas promessas, ignorando os efeitos colaterais potencialmente perigosos e ao mesmo tempo, produzir novas doenças como a calvície ou a falta de libido para criar novos mercados (ROSE, 2007).
Em muitos países, procedimentos da biomedicina que envolvem a genética têm sido particularmente controversos, levantando a questão da discriminação genética e eugenia, onde a seleção de embriões é contemplada para evitar condições hereditárias, como também identificar as bases genéticas de doenças e até mesmo as que buscam as variações genéticas que dão origem às diferenças individuais nas respostas farmacêuticas (ROSE, 2007).
Diante este cenário, políticos, médicos, filósofos, sociólogos e até mesmo teólogos se debateram na elaboram de leis e conceitos sobre a produção e as relações da atual e futura vida humana. Questões sobre, que tipos de sociedades se querem construir? Quais as conseqüências destas pesquisas? Quem terá o poder de tomar decisões em cada uma das situações, como a seleção de um embrião, a
realização de um experimento, o licenciamento de uma droga, a interrupção de uma vida? Uma profissão inteira de bioética e de um campo de desenvolvimento de neuroética saltou para a existência de arbitrar essas questões (ROSE, 2007).
Estas interrogações, as leis, conceitos, verdades e certezas acerca da vida humana por mais que estiveram entre as grandes preocupações do século XIX e XX, só servem para localizar o seu campo problemático que se encontra em outro lugar. Para Rose (2007), o que se torna primordial são as políticas destas vidas produzidas e reproduzidas na história. Para o autor, as políticas vitais do século XIX eram as políticas de saúde, das taxas de nascimento e morte, de doenças e epidemias, do policiamento de água, esgoto, produtos alimentícios, cemitérios e da vitalidade dos aglomerados em vilas e cidades, as quais produziam um certo tipo de governança sobre os indivíduos.
No entanto, a primeira metade do século XX, já criou uma política bem diferente, explica Rose (2007), que esta preocupação com a saúde da população e sua qualidade se tornou infundida com uma compreensão parcial da herança de uma constituição biológica, o que parecia obrigar os políticos em muitos países a mentir a qualidade da sua população, isso muitas vezes acontecia coercitivamente, e às vezes até mesmo eram forçados a matar indivíduos em nome do futuro da sua raça.
Mas agora, para Rose (2007), a política do século XXI parece bastante diferente, pois não é delimitada pelos pólos de saúde e doença, nem focada na eliminação de patologias para proteger o destino da nação, ao contrário, ela está preocupada com as capacidades crescentes de cada indivíduo para controlar, gerenciar, administrar e remodelar as diversas potencialidades vivas.
Neste contexto, a biopolítica se reconfigura num novo olhar sobre a vida, que para Rose (2007) passa a ser “a política da própria vida”. As novas racionalidades e tecnologias de governo, neste caso as estratégias e arquiteturas da publicidade dos alimentos funcionais, envolveram uma crescente ênfase na responsabilidade dos indivíduos para gerir seus próprios assuntos, para garantir a sua própria segurança com um olhar prudente sobre o futuro. O lugar mais revelador dessa nova política, segundo Rose (2007), é o campo da saúde, onde os pacientes são cada vez mais conduzidos a se tornarem consumidores ativos e responsáveis de serviços médicos e de produtos que vão desde os alimentos funcionais às tecnologias reprodutivas e testes genéticos.
A biopolítica para Rose (2007) decorre da percepção do aumento qualitativo das capacidades dos indivíduos para projetar a vitalidade, o desenvolvimento, o metabolismo, os órgãos e até mesmo o cérebro de cada potência de indivíduos vivos. Os conhecimentos biomédicos passaram para o nível molecular da vida humana, portanto, estão abertos a intervenções calculadas a serviço dos desejos sobre os tipos de indivíduos que queremos de nós mesmos, de nossos filhos e daqueles sobre quem obtivermos poder.
Rose (2007) notou que neste contexto biomédico, o laboratório tornou-se uma espécie de fábrica para a criação de novas formas de vida molecular e ao fazê-las, produz também uma nova maneira de compreender a própria vida. O que ressalta Rose (2007) é que a biopolítica molecular passa a abranger todos os modos pelos quais os elementos da vida podem ser mobilizados, controlado e concedido propriedades e combinados em processos que anteriormente não existia. Para o autor, neste nível molecular, a própria vida tornou-se aberta à política.
Neste contexto, Rose (2007) apresenta o surgimento das “tecnologias de otimização”, termo criado por ele mesmo para demonstrar que as tecnologias contemporâneas passam a atuar nas intervenções que visam garantir o melhor futuro possível para aqueles que, pode-se dizer, são seus súditos. A tecnologia é um conjunto de relações sociais e humanas em que equipamentos e técnicas são apenas um elemento. É uma organização governada por uma racionalidade prática regida por um objetivo mais ou menos consciente. É um conjunto híbrido de saberes, instrumentos, pessoas, sistemas de julgamento, edifícios e espaços, que marcam no nível programático, determinados pressupostos sobre os seres humanos.
Diante desse cenário, Rose (2007) identificou que a biopolítica se estrutura num campo complexo, desde o trabalho meticuloso nos laboratórios, na produção de novos fenômenos, como também o imenso poder da computação nos aparelhos que visam as ligações históricas e genealógicas familiar com sequências genômicas, também os poderes de marketing das empresas farmacêuticas e alimentícias, como apresentado nos capítulos anteriores, a entidade reguladora da normas, as estratégias de ética em pesquisa, drogas, corpos comitês e comissões de licenciamento e, claro, a busca do lucro e valor para os acionistas que fazem das promessas uma verdade. É aqui, nas práticas de poder contemporâneo, que novas formas de autoridade podem ser encontradas.
É nesta configuração do pensamento biopolítico de Nikolas Rose, que se encontra perfeitamente o primeiro capítulo desta pesquisa, com a problemática dos rótulos, a indústria alimentícia e a arquitetura da publicidade dos alimentos funcionais. É um preciso mapeamento biopolítico de acordo com o pensamento de Rose (2007). São os poderes, presentes na esfera dos alimentos funcionais, que produzem e governam a conduta alimentar e de vida dos indivíduos visando a economia e o lucro de seus produtores utilizando um discurso estratégico de saúde, vida e liberdade.
Observa-se no segundo capítulo, que a mídia, ao apresentar os alimentos funcionais, utiliza de estratégias de marketing a fim de atrair seu público e conciliar laço com a grande arquitetura das indústrias alimentícias e farmacêuticas. A mídia integra este quadro complexo dos poderes biopolíticos, que neste caso envolve as indústrias, os laboratórios privados, os órgãos avaliadores, as estatísticas do Estado sobre doenças e por fim, envolve principalmente o consumidor ativo e passivo que absorve o discurso da mídia e o toma como conduta de vida, compondo assim o campo biopolítico ilustrado por Rose (2007).
De acordo com Rose (2007), este quadro só se articula devido o desenvolvimento do pensamento da vida molecular. Neste sentido, esta afirmação é visualizada em algumas publicações da mídia apresentadas no segundo capítulo desta pesquisa, pois nem todas as publicações da mídia sobre alimentos funcionais trazem o pensamento de vida molecular, isto se dá devido aos vários interesses da mídia nas suas publicações. Mas nos tópicos 2.1, 2.2, 2.3 e 2.7 a mídia utiliza o discurso dos alimentos funcionais para combater ou prevenir doenças e para investir no desenvolvimento do presente-futuro das crianças, o que necessariamente utiliza do pensamento de vida molecular como apresenta Rose (2007).
A identificação da vida molecular, tanto nas questões de doenças quanto nos investimentos no presente-futuro das crianças, é o que permite toda a arquitetura do pensamento biopolítico, pois é a partir dela que se estrutura as forças de poderes sobre os indivíduos em busca recursos econômicos.
A complexidade da biopolítica da vida molecular, com o foco na publicidade dos alimentos funcionais, leva a questionar: será mesmo que é possível produzir o futuro da vida humana atuando diretamente na vida molecular dos indivíduos hoje? De que maneira esse futuro é tido como presente, diante de suas diversas
composições, atualizações e mudanças? E quais são os possíveis efeitos desse pensamento para a vida pessoal e social dos indivíduos?