Embora o tema rock-and-roll da Casa da Matriz tenha ficado claramente caracterizado, o tema que parece melhor definir o seu posicionamento é o de festa caseira. Tal caracterização se torna evidente já nos relatos de funcionários e gestores da Casa da Matriz a respeito do início da sua operação. Em todos eles são feitas referências a respeito da ocupação de um imóvel abandonado pertencente ao avô do Leo Feijó que vinha servindo como abrigo para mendigos. Esses mesmos relatos falam sobre as pequenas reformas realizadas para dar início ao funcionamento da Casa da Matriz e, principalmente, sobre a utilização de móveis e objetos retirados das residências dos próprios sócios e de seus familiares para decorá-la.
... e aí ele foi junto com os amigos fazer umas festas, começou a fazer umas festas e a casa ficou conhecida como a Casa da Matriz, porque não tinha nome... (M., 25 anos, publicitária).
... por ser esse conceito de “a minha casa”, sempre foi feito assim... no inicio era muito maneiro... era um sofá da casa do Léo, poltrona da casa do Daniel, videogame de alguém, alguém trouxe alguém foi fazendo... (M., 25 anos, publicitária).
Torna-se claro, na fala de funcionários e gestores, que tal abordagem não foi intencional, e sim fruto da limitada quantidade de recursos financeiros de que dispunham os sócios da Casa da Matriz na época. Na verdade, é possível perceber que tal aspecto da história da Casa é relatado com grande dose de orgulho pelos depoentes, como se a mesma reforçasse o caráter aventureiro e empreendedor dos seus sócios. Nota-se uma grande satisfação dos sócios ao relatar as dificuldades inicialmente encontradas como, por exemplo, a limitação de recursos financeiros e o estado de decadência em que o imóvel se encontrava e o envolvimento de todos para garantir o sucesso do empreendimento.
Aí é que tá. Se a gente tivesse dinheiro talvez tivesse dado errado porque a gente acabou repetindo o modelo da primeira por necessidade, falta de recursos... (L., 33 anos, sócio).
... essa casa, de investimento, foi tipo dois mil reais que eles gastaram, no máximo, só prá... uma coisinha de obrinha de banheiro. E todo mundo limpava o chão, todo mundo ficava vendendo cerveja no bar, todo mundo fazia tudo. (M., 25 anos, publicitária).
Além disso, também é possível perceber o grande destaque dado por sócios e funcionários da Casa da Matriz à sua falta de orientação para o mercado. Todos os relatos reforçam a percepção de que as decisões tomadas pelo grupo são baseadas muito mais em suas preferências pessoais do que em oportunidades detectadas no mercado, o que pode contribuir decisivamente para reforçar a sua legitimidade perante
as tribos que freqüentam a Casa da Matriz e a festa A Maldita.
... o que define a Casa da Matriz e todas as casas do grupo na verdade, a oportunidade que eles enxergam é muito mais uma questão pessoal de... que festa que eu quero ir, que show que eu quero ver, que bar que eu quero freqüentar... não existe... então vamos fazer? É sempre esse sentido por isso que muita gente fala: “caramba, a Casa da Matriz é tão legal, parece uma festinha em casa”. (M., 25 anos, publicitária).
... vou fazer aquilo que eu estou a fim e não tô encontrando na cidade... acho que é só uma... é uma intuição... bastante intuitiva, fazer uma festa do jeito que eu quero, com a música que eu quero, com preço a cerveja que eu quero pagar... (L., 33 anos, sócio).
A Maldita começou meio por acaso assim, na verdade. A Maldita é feita por mim e por outro DJ, o Gordinho, é uma dupla que a gente toca junto desde que começou a tocar. E a primeira Maldita na verdade foi um aniversario do Gordinho que caiu numa segunda feira, aí a gente resolveu ir fazer lá no Concórdia... na época, a gente fez numa segunda feira e foi muita gente, porque era aniversário dele, os próprios amigos dele foram e tal, aí surgiu a idéia do Daniel, até porque a idéia foi dele, “porque que a gente não faz uma festa sempre as segundas feiras?” era improvável... Vamos tocar e ver o que que vai dar... (Z., 32 anos, DJ).
Após o início do funcionamento da Casa da Matriz, no entanto, ficou claro que a abordagem se mostrou bem sucedida. Seus freqüentadores se mostraram imediatamente receptivos ao seu aspecto semelhante ao de uma república estudantil, com seu ambiente mal conservado e sua decoração improvisada. Essa ambientação contribuiu, desde o início do seu funcionamento, para conferir às festas lá realizadas um tom mais aconchegante e intimista típico de uma festa realizada na casa de um amigo ou conhecido.
A melhor definição é que era a casa, vou numa festa na casa de um amigo que os pais saíram, viajaram num fim de semana. Era isso, esse conceito... Era minha... a casa é do meu amigo, vou lá, fico a vontade, posso até dormir lá, entendeu? É por aí... se eu tiver passando mal alguém vai me ajudar... (L., 33 anos, sócio).
... os comentários é sempre “caramba, é tão legal, parece que você está em casa, parece que você tá numa casa na festa na casa de alguém, festinha em casa”, o clima é meio esse, entendeu... porque não é aquela coisa da casa noturna tradicional, eu acho, que tem a pista de dança enorme, e os lugares em volta... se você... não... você fica circulando, você vai andando nos quartos, de repente você senta e conversa com alguém, você sai e vai prá outro lugar... (M., 25 anos, publicitária).
Eu acho que é um pouco de tudo quando eles passam que tem uma coisa meio... meio das pessoas se conhecerem, outras vem aqui prá bater papo, tem muita gente que, uma que eu acho que não acontece
muito em outras boates, a pessoa vir sozinho que sabe que vai encontrar pessoas conhecidas aqui, sabe... pessoas legais, marcar com amigos... (Z., 32 anos, DJ).
É possível concluir que o clima predominante na Casa da Matriz é o de uma festa caseira. Embora uma parcela substancial de seus freqüentadores tenha chegado desacompanhada ao estabelecimento nas observações de campo, quase todos eles aparentavam estarem familiarizados e entrosados com outros freqüentadores presentes no local.
... do clima "festa de amigos" que sempre encontro lá... (A., 21 anos, estudante).
... tirando a atmosfera do lugar, que puta, pra mim é o principal. (G., 20 anos estudante).
... a sensação de estar na casa de um amigo. (L., 24 anos, estudante).
O fato de eu estar na casa de um amigo. E das pessoas que vão pra se divertir e não pra aparecer. (P., 24 anos, estudante).
De fato, tal clima é reconhecido, inclusive, por pelos freqüentadores novatos que não se identificam com o mesmo. É possível afirmar que o clima caseiro contribuiu, nesse caso, para aumentar a sensação de desconforto ou de inadequação experimentado por eles.
A minha definição seria a de que eu tinha entrado numa daquelas festas que acontecem naquelas fraternidades de faculdade americana. Só que, ao invés de ser uma fraternidade com os atletas e as líderes de torcida, seria uma com todos os rejeitados que encontraram um lugar onde não se sentem rejeitados. (E., 26 anos, estudante).
A caracterização dos dois eixos temáticos da Casa da Matriz – rock-and-roll e festa caseira – só pode será realizada a contento na medida em que seus freqüentadores possam ser efetivamente classificados como membros de uma tribo urbana reunida em torno na paixão e emoção compartilhada por tais temas. Assim, a próxima categoria a ser analisada é a da tribo de freqüentadores da Casa da Matriz.