A temática da rede urbana aparece nos estudos geográficos desde o último quartel do século XIX, no bojo da produção acadêmica da Geografia Tradicional (CORRÊA, 1989a, p. 8). Pode-se dizer que o interesse pelo tema surgiu à época da sistematização da Geografia enquanto ciência, sendo que somente na primeira metade do século XX se vê aumentado o interesse em estudar a cidade, enquanto objeto de pesquisa.
São deste período as proposições do conhecido geógrafo alemão Walter Christaller, que apresentou a Teoria das Localidades Centrais, concebida a partir de estudo de caso no qual se analisou a distribuição geográfica de cidades no sul da Alemanha. Para ele, existia uma ordem no padrão de disposição das localidades, observando suas origens, suas funções e suas respectivas áreas de influência, e, sobretudo, a quantidade de instalações eletrônicas − densidade telefônica – ali existentes. Dois conceitos relevantes são apresentados pelo estudioso alemão: i) o
alcance ou raio de ação de um bem, entendido como a distância que um consumidor
está disposto a percorrer para adquiri-lo e ii) o limiar mínimo de um bem, definido como o volume de demanda por um produto, necessária para a manutenção do estabelecimento (Ibid., p. 20). Em síntese, pode-se afirmar que a teoria de Christaller valorizou o fluxo populacional (consumidores) entre lugares e que foi uma das primeiras reflexões sobre a existência de redes entre povoamentos. Além disso, valorizou o espaço, ao conferir à distância fator facilitador ou de empecilho ao estabelecimento de relações entre fornecedor e consumidor6.
De acordo com a Teoria das Localidades Centrais, a cidade é o centro de uma comunidade regional, cuja função básica é fornecer bens e serviços para sua área
6 Essa teoria continua sendo relevante para lançar luz sobre a rede de cidades no período atual, embora
32 dependente circunvizinha (BRADFORD & KENT, 1987; CORRÊA & LOJKASEK, 1972). Essas localidades apresentam-se hierarquizadas, sendo que os centros de níveis superiores desempenham todas ou quase todas as funções das localidades situadas em nível inferior. Os estudos realizados com o intuito de verificar ou analisar a hierarquia urbana em determinada região utilizaram indicadores e técnicas diversas, dentre essas, o método enumerativo, que se propunha a levantar todas as funções centrais de um conjunto de cidades, bem como as características populacionais dos centros, entre outras (CORRÊA & LOJKASEK, 1972, p. 155-156). A capacidade de atração de migrantes, por sua vez, era também importante indicador do grau de centralidade das cidades na rede e na sua posição na hierarquia urbana.
O geógrafo francês Michel Rochefort (1998, p. 13), ao discorrer sobre os fundamentos teóricos que balizaram o estudo da organização urbana da Alsácia, infere que “o desenvolvimento progressivo da concentração econômica” (p. 13) modelou a morfologia urbana regional. Para ele, a organização dos níveis hierárquicos existentes numa rede de cidades define certa estrutura populacional, certa organização geográfica específica do espaço interno e as condições históricas de seu desenvolvimento. Sua “noção de rede urbana se assenta na imbricação das zonas de influência das cidades” [...] “todo comércio, todo serviço responde tanto às necessidades dos habitantes da aglomeração onde ele se localiza quanto às das pessoas que habitam na zona de influência desta” (p. 15). Para ele, na caracterização de uma rede e para que seja elaborado um mapa que define a organização urbana da região, deve-se prestar atenção a dois elementos: primeiro, é necessário determinar os tipos de cidades que a região possui e, segundo, delimitar as zonas de influências das cidades grandes e médias7. Ao discorrer sobre noções de rede urbana e de arcabouço urbano, Rochefort ainda afirma que, a depender do grupo de países em estudo, há diversidade na distribuição dos centros na hierarquia da rede e que, de uma maneira geral, nas redes de cidades existem as seguintes categorias: i) o centro local, de uso diário ou semanal; ii) o centro médio de recorrência mensal; iii) o centro
7 Para o autor, no caso europeu, “até meados do século XIX, cada cidade representava um organismo
mais ou menos autônomo que expressava por sua presença e importância a natureza das necessidades de sua região” (ROCHEFORT, 1998, p. 17). Rochefort identificou na rede urbana francesa oito cidades que ele considerou como metrópoles regionais, dez cidades classificadas como centros regionais em pleno exercício e 24 cidades de função regional incompleta. As oito metrópoles tinham uma disposição periférica em relação à capital nacional, enquanto as pertencentes às outras duas categorias estavam mais diversamente localizadas. O autor conclui que não existia, no caso francês, verdadeira organização hierarquizada entre os três grupos de cidades por ele definidas.
33 regional, que controla serviços fornecidos pelos centros inferiores; e iv) a capital nacional, centro de comando.
Nos países em desenvolvimento, nota-se uma nítida deficiência nos escalões intermediários, enquanto nas nações desenvolvidas as chamadas “cidades médias” existem em maior número. “Essa riqueza das redes em diversos tipos de centros traduz antes de tudo a multiplicidade dos serviços utilizados pelas atividades econômicas e pelos particulares nos países desenvolvidos” (Ibid., p. 22). Num mesmo país, a rede urbana pode variar em função da prevalência da atividade industrial ou agrícola, da densidade populacional, da sua renda, e de fatores históricos, por exemplo.
De maneira geral, considera-se que as redes urbanas tomam forma com o advento do transporte moderno, no século XIX, com exceção das áreas onde a ocupação humana é mais recente. Essas redes tiveram que se adaptar às transformações das atividades produtivas e nasceram quase sempre a partir de um conjunto de cidades antigas, que se formaram antes da Revolução Industrial inglesa. Essas cidades, de acordo com o autor, adquiriram equipamentos e serviços que se multiplicaram desde então, “sem ocupar sempre no interior do espaço as posições mais apropriadas para exercer essas novas funções” (p. 23). Em síntese, a configuração de uma rede urbana traduz não apenas as necessidades presentes, mas também a inércia e objetos advindos de tempos pretéritos8.
Ao estudar a rede de cidades dos países em desenvolvimento à luz de teorias e modelos explicativos da realidade das nações desenvolvidas, há a necessidade de se fazerem adequações, sobretudo por conta das singularidades que os fenômenos de natureza local imprimem na organização dessas regiões. Ainda assim, existem aspectos desses modelos que influenciam a configuração de sua rede de localidades, como por exemplo: i) o alcance ou raio de ação e o limiar mínimo de um bem (daí o papel da distância nos deslocamentos realizados ou não realizados); ii) o papel das condições históricas na organização dos níveis hierárquicos na rede de cidades; iii) a existência de zonas de influências de cidades; e iv) a observância do comportamento das variáveis demográficas de cada unidade de observação, dentre outros aspectos9.
8 Nesse sentido, alguns recortes da rede urbana baiana surgiram antes do advento da indústria, mas
incorporaram novas localidades com a chegada das ferrovias a partir do final do século XIX.
9 Lançamos mão de alguns desses pressupostos no intuito de compreender o desenho da rede de
34 No Brasil, a discussão sobre o urbano amplia-se consideravelmente a partir dos anos 50 do século XX10, sendo que os estudos sobre rede urbana somente ganhariam espaço nos diferentes meios de publicação científica a partir dos anos de 1960. Um dos periódicos mais utilizados para esse fim foi a Revista Brasileira de Geografia (RBG), a qual foi utilizada por muitos pesquisadores para divulgar resultados de pesquisas envolvendo o tema, como CORRÊA, 1969, 1987, 1988; CORRÊA & LOJKASEK, 1972; DAVIDOVICH, 1970, 1978; DAVIDOVICH & FREDRICH, 1982; FAISSOL, 1970; MAGNANINI, 1971; dentre outros. Marco importante nos estudos da rede urbana nacional foi a publicação do livro Evolução da rede urbana brasileira - escrito por Pedro Pinchas Geiger - em 1963, bem como os estudos denominados
Regiões de Influência das Cidades, publicado pelo IBGE em 1966, intitulado Divisão do Brasil em regiões funcionais urbanas.
Na Bahia, os primeiros estudos de Geografia Urbana focaram, dentre outras dimensões, a hierarquia entre as cidades. Milton Santos foi um dos pioneiros nessas discussões ao produzir, a partir da década de 1950, muitos trabalhos sobre a “vida de relações” de algumas cidades, resultantes de pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais11. Suas análises observaram o comportamento de cidades situadas no Recôncavo Baiano (RB), no sul e no Sudoeste do Estado. Dentre outros trabalhos pioneiros de Santos, estão: Ubaitaba, Estudo de Geografia Urbana (1954); A Zona do Cacau, Introdução ao Estudo Geográfico (1955); A Cidade de Jequié e Sua Região (1957); A Rede Urbana do Recôncavo (1959).
Sobre as características dos trabalhos acerca da urbanização brasileira feitos até a década de 1970, Davidovich (1978, p. 51) afirma, de uma maneira geral, que se baseavam em tratamentos teóricos parciais e privilegiavam, por exemplo, a relação entre urbanização e crescimento demográfico nas cidades ou a caracterização da urbanização através da especialização funcional não agrícola da população. Os
10 O Congresso Internacional de Geografia da União Geográfica Internacional – UGI, realizado no Rio
de janeiro em 1956, possibilitou a introdução do tema da rede urbana no país através dos professores franceses Jean Tricart e Michel Rochefort; esse último foi consultor do IBGE nos primeiros anos da década de 1960 (CORRÊA, 1989b, p. 115, 117).
11 A convite de Edgar Santos, então reitor da Universidade Federal da Bahia, o geógrafo Milton Santos
passa a coordenar o referido laboratório, criado em 1º de janeiro 1959. Um ano após sua criação, a partir das necessidades de socializar os resultados das pesquisas outrora iniciadas, cria-se o BBG (Boletim Baiano de Geografia), em 1960, que até o ano de 1968 divulgou a produção geográfica do estado ao país e a nações, representadas por diferentes pesquisadores que frequentavam o laboratório.
35 trabalhos sobre sistema urbano12, por sua vez, eram descritivos, acompanhando aqueles feitos na ciência geográfica como um todo. Davidovich ainda afirmava que era frequente neles o uso de postulados da teoria da centralidade, de modelos explicativos europeus e do modelo centro-periferia de Friedman. Sua proposta metodológica para os estudos urbanos será objeto de consideração na sequência deste capítulo.
Dentre os geógrafos brasileiros, Roberto Lobato Corrêa é, sem dúvida, um dos que mais contribuiu para a discussão sobre rede urbana, ora salientando a reflexão teórica e metodológica, ora apresentando estudos de casos com ênfase em redes de cidades localizadas no Norte, no Nordeste e no Sudeste do Brasil. É dele, por exemplo, as afirmações de que a rede estabelecida entre cidades é simultaneamente um reflexo da e uma condição para a divisão territorial do trabalho, e apresenta configurações e especificidades vinculadas ao estágio de exploração da sociedade ou grupo de países em questão, sobretudo no que se refere às relações campo – cidade. Destarte, a rede urbana é “uma expressão fenomênica particular de processos sociais” (CORRÊA, 2005, p. 37), que possui forma, função e insere-se em determinado processo e estrutura específicos, resultando da combinação singular de variáveis que datam de idades diferentes. Para além desse quadro, julga relevante, no estudo das redes, descrever a gênese dos núcleos de povoamento, as funções que desempenham, seu padrão espacial, bem como analisar o papel dos diferentes agentes sociais envolvidos no processo de produção da mesma (p. 43).
Corrêa (1989a, p. 6-7) também admite existir uma rede urbana quando em economias de mercado as trocas alcançaram amplitudes que extrapolam as áreas vizinhas a determinado polo: quando há pontos “fixos” no território que amparam essas trocas e promovem articulação entre diferentes núcleos de povoamento. Para ele, a rede urbana é um conjunto de centros funcionalmente articulados, expressa “as características sociais e econômicas do território, sendo uma dimensão sócio-espacial da sociedade” (Ibid., p. 8), e pode ser estudada sob diferentes perspectivas: a partir das funções das cidades na rede, das dimensões básicas de variação dos sistemas urbanos, a partir das relações entre tamanho demográfico e desenvolvimento, a partir
12 Para Leão (1989, p. 58-59), os componentes básicos de um sistema urbano são: os elementos ou
partes (as unidades urbanas), os atributos ou propriedades (atividades econômicas, estrutura ocupacional, população, etc.) e as relações entre os elementos ou atributos (interdependência entre as unidades urbanas hierarquizadas pelas funções e pelos fluxos de bens, serviços, pessoas, etc.).
36 das relações com a região onde estão inseridas e a partir da hierarquia das localidades situadas na área em foco (Id.,2005, p. 17).