Não obstante as divergências doutrinárias a respeito do tema quanto à sua denominação, não há porque não seguir usando a expressão substituto processual como sinônima de legitimação extraordinária, até porque aquela é a expressão mais consagrada pelo uso.
A título de esclarecimento, sem maiores reflexos na aplicação do instituto em questão, a denominação substituição processual recebeu críticas por parte da doutrina, em especial de Pontes de Miranda, mostrando que o fenômeno não é de modo algum, o de substituição, “substituição é o que não ocorre, sendo certo que a doutrina, ao falar em substituído, persiste, inconscientemente, na atmosfera da concepção privatística do processo. E foi isso que aconteceu com Chiovenda”.202
No mesmo sentido é a critica feita por Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, que, seguindo Pontes de Miranda, acaba por sugerir a denominação
equiparação ou equivalência processual.203
202OLIVEIRA JÚNIOR, Waldemar Mariz de. Substituição processual. São Paulo: Revista dos Tribunais,
1971. p. 89.
203OLIVEIRA JÚNIOR, Waldemar Mariz de. Curso de direito processual civil: teoria geral do processo
Nos termos do art. 6º, do código de processo civil, não se pode fugir da idéia de que substituto processual é a pessoa que recebe da lei a legitimidade para, em nome próprio, postular direito alheio. Trata-se de pessoa que não figura na relação jurídico-material controvertida, não atua como representante nem sucessor, mas atua em nome próprio, mesmo porque, o representante não é parte no processo como é o substituto, e o sucessor defende em nome próprio o próprio direito.
A denominação técnica que se dá para aquele que não é titular do direito material e postula em nome próprio tal direito, é substituto, portanto, parte no processo, e substituído, o titular do direito material posto, mas ausente da relação jurídica processual, não é parte formal.
Como ensina Dinamarco, diz-se extraordinária essa legitimidade, em oposição à legitimidade ordinária, pelo simples fato de ser ela “[...] outorgada em caráter excepcional e não comporta[r] ampliações”.204
Moacyr Amaral Santos conceitua a substituição processual como sendo a situação em que “[...] alguém está legitimado para litigar em juízo, em nome próprio, como autor ou réu, na defesa de direito alheio”205
204DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. São Paulo: Malheiros, 2001.
Para José Frederico Marques, ocorre substituição processual “[...] quando alguém está legitimado a agir em juízo, em nome próprio, como autor ou réu, para a defesa do direito de outrem”206; em outras palavras, haverá substituição processual nas situações formais ou legais, em que alguém, em nome próprio, pleitear direito alheio.
Ephraim de Campos Júnior afirma ocorrer substituição processual “[...] quando alguém, devidamente autorizado por lei, pleiteia, como autor ou réu, em nome próprio, direito (pretensão) alheio, estando o titular deste direito ausente da ação, como parte”.207
Antonio Carlos de Araújo Cintra apresenta conceito com um elemento diferente, ao afirmar que ocorre a substituição processual quando “[...] alguém é legitimado a pleitear em juízo, em nome próprio, na defesa de interesse alheio, de que o seu seja dependente”.208
205SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil: processo de conhecimento.
25.ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 359.
206MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Campinas: Millennium, 2000. p.
206.
207CAMPOS JÚNIOR, Ephraim de. Substituição processual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1985. p. 24.
208CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. Estudo sobre a substituição processual no direito brasileiro. Revista dos Tribunais, São Paulo, 809, n. 92, p. 743-756, mar. 2003. p. 744. (Artigo também publicado na RT
Decorre deste último conceito a justificativa do instituto da substituição processual, qual seja o interesse do substituto. A autorização legal dada ao substituto para comparecer em juízo pelo direito alheio, decorre de uma relação em que se encontra com o substituído, ou, como ensina Araújo Cintra, “[...] na substituição processual, é indispensável a existência de um interesse material do substituto, cuja satisfação depende da satisfação do interesse controvertido do substituído”209, ou interesse traçado pela própria lei, como afirma Cassio S. Bueno, segundo o qual trata-se de uma questão
[...] que se põe ao legislador quando decide criar situações que passam a admitir a substituição processual. Basta a identificação, no sistema, da hipótese em que a substituição processual – ou mais amplamente, a legitimidade extraordinária – seja admitida.210
Portanto somente pode ser substituto processual aquele a quem a lei autoriza expressamente agir em nome próprio para a defesa do direito de outrem, em decorrência de alguma vinculação entre substituto e substituído211; em outras palavras, desde que exista um interesse conexo da parte processual – substituto - com a parte material – substituído -,
[...] pois a regra de legitimidade de parte como condição da ação impede que, em geral qualquer pessoa demande
209 Ibid., p. 752.
210BUENO, Cassio Scarpinella. Partes e terceiros no processo civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003. p.
49.
em seu nome a tutela de um interesse alheio [...] de qualquer maneira, não se concebe que a um terceiro seja reconhecido o direito de demandar acerca do direito alheio, senão quando entre ele e o titular do direito exista algum vínculo jurídico especial.212
Tendo em vista os termos em que se admite a substituição processual, sendo uma situação de exceção, ser, portanto, extraordinária a legitimação que a autoriza, decorrem duas conseqüências fundamentais: a) os casos de substituição devem vir expressos em lei; b) o instituto é de direito restrito.
Como conseqüência da primeira característica, pode-se afirmar que a substituição processual não se presume, trata-se de numerus clausus no sentido de que só ocorre se a lei, codificada ou extravagante a contemplar e por se tratar de direito restrito não se admite aplicação analógica.