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Série 4ª

Sexo Masculino Desabafo

com licença meus amigos uma história vou contar de uma cidade tão linda que a todos vai encantar falarei de santo anastácio

que em velhos tempos de outrora, teve laticínios, algodoeiras, porém se foram embora. há muitos sítios e chácaras pertinho desse lugar, os pais cuidam da roça, põem os filhos para estudar, pois sabem que o futuro nas mãos da juventude está. mas também temos problemas muita gente a reclamar com a falta de emprego como poderão prosperar? tem gente pedindo ajuda ao presidente da nação, coitados, estão à espera de um pedaço de chão.

As drogas também existem Aqui em minha cidade, Sabemos que ela mata, Com tamanha crueldade. Muitas coisas eu ouvi, Outras, eu já vivi,

Mas de uma não posso esquecer, O campo de futebol,

Nosso lugar de lazer. Sei que ainda sou pequeno, Tenho muito a aprender, Às vezes, fico pensando No futuro, o que vou ser? Eu tenho esperanças que um dia, Quando me tornar um rapaz Terei tudo na vida

E viverei sempre em paz. Desculpem o desabafo De uma criança como eu,

Mas tem coisas que poucos sabem O que uma criança aprendeu, Olhando o sofrimento, Daquele que não venceu.

Um dos relatos dos professores refere-se ao desenvolvimento dos poemas na escola em que foi escrito ―Desabafo‖. Por essa razão, a análise se inicia com esses comentários, tentando, dessa maneira, trazer a sequência dos eventos.

A professora escreve o texto como uma narrativa cronologicamente organizada. Nos parágrafos iniciais, aponta as providências que tomou para que ocorresse a adesão à atividade: apresentou o Prêmio, sua estrutura e objetivo; então conversou com os alunos sobre as etapas, sobre o tema, daí vieram suas primeiras impressões42:

Notei um total desinteresse sobre o assunto, fiquei um pouco desanimada, sem saber por onde começar.

Fiquei uns três dias falando com eles sobre o tema, falando sobre a nossa cidade, fazendo comparações, contando coisas que eles não conheciam e fui percebendo o interesse de alguns.

Depois dessa etapa, ela consegue o interesse de mais alunos, estabelecendo os ―combinados‖ (uma orientação do kit) e, ainda sentindo que não estava atingindo a todos, ela toma uma decisão:

42Os relatos dos professores são cópias de material, em sua grande maioria, manuscritos, por essa razão segui a

sequência de apresentação dos fatos, porque não poderia recorrer à paginação. As cópias dos relatos encontram- se reproduzidas no anexo 2.

Para incentivá-los, convidei o professor Jairo, supervisor na Diretoria de Ensino, que é um poeta. Ele atendeu-me prontamente, veio até minha sala e passou horas, conversando com os alunos e declamando poesias de sua autoria.

Observei que as crianças gostaram muito.

Aproveitei a visita do professor Jairo para tirar dúvidas e aprimorar meus conhecimentos.

A intervenção, justificada pela necessidade dos alunos e da professora, é importante principalmente por causa de ambientes de pouco letramento (―poucos são os pais que cursaram até a 4ª série e isso dificultou uma adesão maior‖, a professora afirma em outro trecho do relato).

Além das condições dos ambientes externos que envolvem a sala de aula, como a pouca familiaridade dos pais com a cultura letrada, a professora indica, com a explicitação de suas ―dúvidas‖ e com a necessidade de ―aprimorar seus conhecimentos‖, que, mesmo na sala de aula, essa insuficiência pode aflorar. Não se trata de algo totalizante (não saber nada), porém a forma de abordar o poema e a sequência didática proposta se configuram em abordagens que exigem do professor outras respostas, além daquelas instituídas a partir do livro didático. Nesse caso, a professora apresenta um ethos preocupado, cioso e aberto a mudanças na busca de um saber que se projeta na ação e dela deriva como construção a partir das práticas desenvolvidas no espaço da sala de aula. A proposta do Prêmio alcança nesse tipo de procedimento alguns de seus objetivos, um dos mais difíceis: a capacitação do professor por meio de um fazer que precisa se constituir diante dos alunos, com os alunos, uma vez que ele está sempre em formação.

A busca pela capacitação pode ter indicado aos alunos, sem que a professora percebesse a extensão desse processo, que o Prêmio também era uma oportunidade para que ela aprendesse, dividindo a posição de poder em sala com outros sujeitos. Esse deslocamento de lugares e papéis (não a inversão) muitas vezes é o gatilho para o estabelecimento de uma nova representação do professor possibilitando ao aluno a busca de lugares para si, pois perceber que o conhecimento se faz em um percurso ―sem fim‖ gera uma empatia necessária para a assunção de posições assemelhadas entre professor e aluno, equilibrando as forças desiguais que se distribuem no espaço da sala de aula.

Em virtude da explicitação de posicionamentos diversos em sala de aula, com a presença física de outros sujeitos envolvidos com o gênero poético, em comparação com os percursos de elaboração dos outros poemas, é possível observar que a representação dos elementos composicionais como base para a elaboração do poema (recorrentes entre os

poemas do Pólo São Paulo) são resultado da proposta da sequência didática do Prêmio, adquirindo valor estrutural e discursivo para esses alunos.

Assim o traço comum a todos os poemas até aqui analisados, a manutenção da rima como elemento coesivo também está presente no poema ―Desabafo‖. Ela ocorre muitas vezes em versos que estão com o ritmo da prosa, sendo a única ligação com o gênero poético. Os outros elementos também presentes, como a aliteração e a assonância43 (as letras maiúsculas nas duas primeiras estrofes – transcritas na tabela abaixo - indicam os constantes sons nasais presentes), apresentam a mesma oscilação, não apontando para a presença que indicie o tema ou um ritmo próprio espelhado no objeto. São ainda tentativas que aos poucos parecem traçar uma linha quase imperceptível da postura do enunciador – assemelhando-se à voz física projetada na sonoridade que indica movimentos de euforia e disforia no poema.

1

Com licENça meus aMigos UMa história vou cONtar

De uMa cidade tÃO lINda Que a todos vai ENcANtar

2

Falarei de SANto Anastácio Que EM velhos tEMpos de outrora, Teve laticínios, algodoeiras, PorÉM se forAM EMbora.

No caso das primeiras estrofes (e mais discretamente nas demais), a assonância das nasais indicia o caráter do desabafo, uma voz melancólica, como afirma Martins: ―a ressonância nasal torna as vogais aptas a exprimir sons velados, prolongados (zumzum, zumbido, ron-ron, gongo, trim-trim, tanger, planger) e a sugerir distância, lentidão, moleza, melancolia (longe, longínquo, distante bambo, brando, manso, langue, pranto, lamento)‖ (1989, p. 32-33) (grifo nosso). O que ocorre, depois, é a atenuação da presença das nasais pelo surgimento e manutenção das rimas em ―ar‖ (muitas vezes assumindo o som /a/, com o apagamento da desinência da forma nominal do verbo, como ocorre na fala), que deslocam as sugestões aos sentidos para ―idéias de claridade, brancura, amplidão, alegria etc.‖ (MARTINS, 1998, p. 30).

As rimas em ―a‖ são consoantes nas estrofes 1, 3, 4, 9 em função dos verbos da primeira conjugação no infinitivo. Na estrofe 6, a rima se mantém em outra forma, a toante (cidAde, mAta e claridAde). No entanto, retomando o tom inicial do poema, a presença do ―a‖ se reduz a partir da estrofe 7. Na 8, retorna a rima em ―e‖ (esquecer e lazer) dividindo o espaço dos versos com a rima em i (ouvi, vivi). Há um deslocamento de impressões que antes

se ligavam à claridade, à abertura, para impressões relacionadas a um estreitamento, cujo ápice ocorre na estrofe 10 com as rimas em ―eu‖.

Dentro do movimento temático do poema, essa mudança que retoma a proposição inicial do desabafo é o elemento composicional que estabelece os laços coesivos remetendo à unidade temática. Também indica que o aluno-poeta ainda não consegue trabalhar com vários elementos composicionais ao mesmo tempo, mas se posiciona ao lado dessa rede, criando pseudo-regularidades, ao compor versos que, embora não sejam regulares, se situam em áreas próximas; são aproximações que, por vezes, podem confundir os ouvidos do leitor que os regulariza baseado no trabalho sonoro desenvolvido no poema.

A estrutura composicional parece sustentar a relação entre as vozes, como pano de fundo. Em ―Desabafo‖, o enunciador do texto se dirige ao leitor de forma explícita, indicando de onde fala e por que fala.

Com licença meus amigos

Uma história vou contar De uma cidade tão linda Que a todos vai encantar

De maneira bastante sensata, ele mostra mais de um aspecto da cidade - suas belezas e seus problemas. Todas as informações levantadas nas oficinas que se referem ao conteúdo estão presentes; há um grande apelo para uma aderência à realidade, com pouco espaço para o que Bakhtin identifica como autor criador, uma posição refratada e refratante, que, segundo Faraco (2005), poderia ser descrita como ―refratada porque se trata de uma posição axiológica conforme recortada pelo viés valorativo do autor-pessoa, e refratante porque é a partir dela que se recorta e se reordena (sic) esteticamente os eventos da vida‖ (p. 39).

Ao fim do poema, o enunciador revela vozes que se aliam à dele, formando um ethos coletivo que assume a posição de um indivíduo, correspondendo ao desabafo de tantos que o precederam e com os quais convive. Essa conjunção de posições é bastante comum na questão do ethos, como observa Amossy, embora não se refira especificamente ao discurso literário:

parece, portanto, que a eficácia da palavra não é nem puramente exterior (institucional) nem puramente interna (linguageira). (....) A passagem do sujeito falante como ser empírico ou ―ser no mundo‖ para o locutor como pura instância de discurso se efetua por uma série de mediações. (2005, p. 136)

Como se trata de aluno da 4ª série (5º ano), a menção a essa imagem de enunciador que, ao se declarar inepto, apto se mostra a uma reflexão, pode ter como efeito a captação do

leitor pela humildade (tópos recorrente na poesia de cordel). O poema não apresenta muitos recursos linguísticos da poesia, além dos formais, mas a identificação com a poesia popular faz com que outros cordéis soem ao lado dele, ampliando, sem que ele tenha consciência, o poder de seu texto. Trata-se da intertextualidade, em que vozes se alinham, e outros ethé podem ser entrevistos aqui e ali.44

(....)

Sei que ainda sou pequeno,

Tenho muito a aprender, Às vezes, fico pensando No futuro, o que vou ser?

Eu tenho esperanças que um dia, Quando me tornar um rapaz

Terei tudo na vida E viverei sempre em paz.

Desculpem o desabafo De uma criança como eu,

Mas tem coisas que poucos sabem O que uma criança aprendeu, Olhando o sofrimento, Daquele que não venceu.

No poema ―Desabafo‖, a posição autoral se desenvolve no ethos do porta-voz das informações, ou seja, a forma como o enunciador encadeia os fatos relativos à cidade. Essa função está intrinsecamente ligada à origem do cordel em comunidades com pouco letramento em que a voz do poeta trazia notícias de longe e permitia a circulação e legitimação de fatos e atores sociais. Dos vários gêneros, o cordel parece ter estimulado de forma mais efetiva os poemas, como ―Desabafo‖, e permitido igual posicionamento (para grupos em que houve tal identificação), uma vez que, numa estrutura composicional mais conhecida e com variações formais menores, tem-se a impressão de domínio. Essa legitimação, muitas vezes, leva o aluno a colocar sua voz ao lado das outras e não se submeter a elas.

O tema da crítica cidadã ao local onde se vive aparece no poema como retomada de temática bastante frequente no cordel. Esse olhar crítico, que se posiciona como parte e não como observador, surge como ethos responsável e inconformado, crítico e de denúncia. A multifacetada visão do local é também a busca plural de lugares não para viver, lugares de onde enunciar. O enunciador do poema põe em questão a visão daquele que lê: ―Mas tem coisas que poucos sabem‖. O que sugere um alerta para o leitor: de que lado você está?

Por fim, o enunciador se posiciona de duas formas, num movimento assemelhado a de outros poemas já analisados: ao tratar dos aspectos contextuais imediatos e históricos, surge um nós (―temos problemas‖; ―sabemos que ela mata‖) que desaparece à medida que ele encontra um lugar de onde enunciar. Trata-se de um posicionamento questionador de uma estratégia aprovada socialmente: aprender com a experiência dos mais velhos, que indica a

44 Trata-se de ethos prévio que aparece no texto evocado pela estrutura formal, tal como aparece em

imagem da ―criança‖ (―sou pequeno‖) como suficiente para entender, para enunciar, para indicar valores, porque a situação assim o exige. É tempo de crescer em Santo Anastácio!

Benzer Belgeler