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A educação chinesa atravessa mais de dois milênios de existência, sendo considerada um dos sistemas educacionais mais antigos do mundo. Segundo Gu (1964), as instituições de ensino superior na China podem ser mapeadas já no século IV antes de Cristo (a.C), quando Confúcio estabeleceu uma academia privada. Posteriormente, na Dinastia Tang, (ano 618 a 907 depois de Cristo (d.C)), foram criadas várias outras instituições de ensino superior, com destaque para Guo Zi Jian, que era uma escola com a intenção de instruir os filhos dos

imperadores, e a Tai Xue, que tinha em seu currículo os textos clássicos de Confúcio. Além disso, foram criadas no período escolas profissionais de Direito, Medicina, Matemática, Literatura, Caligrafia, dentre outros. A dinastia Song (970 a 1279 d.C) prosseguiu com os ensinamentos dos clássicos de Confúcio que foram re-ordenados para formar um sistema de conhecimento que deveria ser dominado por todos os estudantes que aspiravam se tornar funcionários no serviço imperial civil.

Trindade (1987) reforça estas premissas ao citar que o advento da universidade da maneira que é conhecida hoje não foi relevante para o desenvolvimento de uma civilização singular na Ásia oriental, em que, a partir do século VII, já havia inventado a prensa para impressão de livros e a pólvora, prosseguindo com a criação da porcelana, bússola, papel moeda e os carecteres móveis de chumbo para imprensa no século X. Outro ponto que vale a pena ser destacado é a presença da meritrocracia na civilização chinesa do século X, por meio de concursos para a escolha dos funcionários, atribuindo aos letrados a ordem de maior prestígio na hierarquia social.

A primeira crise que motiva a criação das universidades da forma em que são conhecidas hoje data da dinastia Qing (1860 a 1911). Chen (2004) explica que a derrota sofrida militarmente pela China para o Japão em 1895 causou um grande impacto psicológico no país, que concluiu que precisava se fortaceler. Dessa forma, o modelo japonês foi identificado como o melhor para se buscar uma adaptação, pois além de ser um país que havia demonstrado estar a frente tecnológicamente da China, compartilhava das mesmas tradições confucionistas.

Com base nesse modelo, surge a primeira universidade tradicional na China, no final do século XIX, em Xangai (1896), na área de ciências e tecnologia, transferindo-se para cidade de Xian com o nome de Universidade das Comunicações. A tradicional Universidade de Pequim é fundada logo depois, em 1898 com o nome de Escola Superior da Capital, recebendo seu nome atual apenas em 1912. Iniciando uma expansão universitária, surge em 1905 as universidades de Fudan e de Xangai, com foco no ensino das letras e das ciencias. Posteriormente, em 1911, cria-se a Universidade Normal de Pequim, destinada à formação de professores e a Universidade de Quinghua (com foco no campo científico e tecnológico). Entretanto, foi entre as décadas de 10 e 30, no período republicano, que a maioria das universidades tradicionais são fundadas (TRINDADE, 1987).

Com a Revolução de 1911, o primeiro Ministro da Educação, Cai Yuanpei, instituiu a primeira legislação para educação superior, com base no modelo Europeu, tendo como exemplo a experiência alemã, por meio das universidades de Berlin e Leipzig. Pode-se

identificar influências do modelo alemão na Universidade de Pequim, o formato alemão do

Technische Hochschule foi aplicado na Universidade Tongji, e o modelo francês na

Universidade de Aurore. A legislação de 1922 e 1924 já apresentava uma influência dos Estados Unidos, com algumas universidades contando com conselho curador, que era responsável pelas finanças, planejamento e decisões políticas importantes. A abordagem americana foi desenvolvida na Universidade de Tsinghua (HAYHOE, 1989).

A partir desse momento, a sociedade chinesa começa a se transformar em função das mudanças econômicas, alterando sua hierarquia tradicional. A nova burguesia passa a exigir uma posição de destaque e surge um proletariado da indústria moderna nacional, concebendo uma nova dinâmica social no país (TRINDADE, 1987). Devido aos anseios da sociedade e as novas legislações de 1922 e 1924, o número de universidades expande de 8, em 1917 para 39 em 1930. Com a chegada do Partido Nacionalista ao poder em 1927 (a 1949), o novo governo define a importância da educação superior para o conhecimento prático.

O período socialista (1949 a 1978), marca uma grande mudança no sistema de educação superior, devido a forte influência soviética. Hu e Seifman (1976) citam que o slogan da China durante os anos 50 era “aprender com a união soviética”. O governo chinês acreditava que a União Soviética possuia uma experiência rica na construção do socialismo, e que muitas áreas fundamentais da ciência alcançaram ou até mesmo ultrapassaram os países de regime capitalista. A educação deveria ser vista agora como um recursos para o sistema de produção.

Todavia, é durante a Revolução Cultural que a universidade chinesa enfrenta seu pior momento, com a mobilização dos guardas vermelhos em 1966. Cerca de 11 milhões de estudantes organizados (que influênciam outros 50 milhões), abalam as instituições políticas e administrativas, dentre as quais as universidades faziam parte. Passa-se então a questionar o conteúdo do ensino, sua importância para a revolução chinesa, e principamente, a busca pelos que se desviassem ideológicamente dos ideais do Estado. A nova educação socialista passa a ser baseada no Livro Vermelho, de Mao Tse-Tung, e sob a acusação de desvios ideológicos de todos os tipos, seus reitores, professores, diretores e até mesmo estudantes foram enviados para zona rural, para um processo de reeducação, eliminando qualquer espécie de autonomia das instituições de ensino superior (TRINDADE, 1987). Embora a Revolução Cultural tenha se encerrado em 1969, foi com a morte de Mao Tse-Tung em 1976 e a ascensão ao poder de Deng Xiaoping (Secretário Geral do Partido), que começou o início as mudanças nos rumos políticos e econômicos no país.

Em 1980, com o objetivo de retomar o crescimento educacional, o Ministério da Educação chinês promove um debate nacional sobre o papel de educação, neste encontro, foram debatidas e planejadas as tarefas educacionais do país para os próximos 10 anos. A partir de então, algumas bases foram definidas para a futura reforma, com destaque para uma ampliação do ensino primário, a reforma da educação secundária e os investimentos na educação técnica profissional. Para a educação superior, o debate gira em torno de reorganizar e elevar o nível desta educação, melhorando a qualidade do ensino e da pesquisa. Mas, para alcançar os anseios do Estado, algumas questões deveriam ser revistas, como por exemplo a autonomia universitária, que havia sido perdida durante a Revolução Cultural. Com isso, o Comitê Central do Partido Comunista Chinês, CCCCP (1985) decide que se deve ampliar a autonomia dos centros de ensino superior, dentro do que for orientado pelo Estado. Adicionalmente, deve-se buscar adaptar-se às necessidades do desenvolvimento social e econômico da nação por meio de uma aproximação com as entidades de produção, as instituições de investigação científica e outros setores sociais, visando preparar pessoal especializado para fomentar o desenvolvimento de ciência, tecnologia e cultura.

Tendo como referências estas premissas, coube a universidade buscar, de uma maneira inovadora, responder aos desafios colocados por uma nova China, que buscava agora uma universidade moderna, articulada com o desenvolvimento da nação e amparada por organismos com maior poder, mais recursos e flexibilidade operacional, por meio da Comissão Estatal de Educação e a Comissão Estatal de Ciência e Tecnologia. Com todo esse apoio, buscou-se a formação de pesquisadores para atuar na área de ciência e tecnologia, a organização de uma carreira baseada na competência e na titulação acadêmica e a seleção dos alunos ingressantes por meio de um processo seletivo (exame nacional), que em sua primeira realização (1986) teve 3 milhões de candidatos para 600 mil vagas, fazendo com que as universidades de maior prestígio recebessem os melhores alunos, melhorando qualitativamente o alunado (TRINDADE, 1987).

Finalmente, de acordo com a OCDE (2010), o sistema educacional chinês enfrentou vários estágios e influências até alcançar o seu desenvolvimento e, com exceção do período da Revolução Cultural, a educação tem apresentado uma tendência promissora, tanto em quantidade como em qualidade. Os detalhes dessa recente ascendência são apresentados nas próximas seções.

2.6.2 As transformações no financiamento da educação superior: a primeira grande

Benzer Belgeler