1.7. Motivasyon Teorileri
1.7.2. Süreç Teorileri
A posse de Flores da Cunha como interventor no Rio Grande do Sul frustrou as expectativas dos libertadores que esperavam uma maior participação política, o que não aconteceu. Pelo contrário, intendentes do interior foram destituídos de seus cargos, a exceção dos republicanos ligados ao interventor. Junte-se a isso, o posicionamento ambíguo de Flores da Cunha (não podia concordar com a centralização do Governo Provisório, tão pouco decepcionar Vargas) diante do confronto armado entre o poder central e as oligarquias paulistas no episódio da "Revolução Constitucionalista" de 1932, que significava o retorno do poder latifundiário-oligárquico, no Brasil e no Rio Grande do Sul. A FUG e os paulistas contavam com a participação da Brigada Militar para o enfrentamento das forças do Exército. O que não aconteceu. Essa ambiguidade assumida como estratégia política pelo interventor rio-grandense fez com que ele fosse visto pelos líderes dos revoltosos como traidor. (RANGEL, 2007, p.24-25).
Digno de nota é a observação do historiador Carlos Roberto da R. Rangel de que os sediciosos da Revolução Constitucionalista de 1932 tiveram uma tímida adesão popular em São Paulo e frustrante no Rio Grande do Sul. O que reforça a tese de que o período iniciado com a Revolução de 1930, até a instalação do Estado Novo, teria representado uma disputa política entre oligarquias pelo controle do Estado. Ao mesmo tempo em que denota uma
crescente debilidade do regionalismo e do liberalismo políticos substituídos por uma ideologia centralizadora que, como foi destacado acima, não iniciou com Vargas. Tratava-se de um movimento histórico "que procurava superar o conceito de sociedade como uma coleção de indivíduos, colocando, em seu lugar, o conceito de nação como indivíduo coletivo." Aliás, no que se refere ao aspecto da centralização política, representou, como é sabido, uma tendência que não era estranha ao contexto político internacional do período, a exemplo da Itália e da Alemanha. (RANGEL 2007, p.26-27; MENDONÇA, 1990, p.324).
A partir do exame da correspondência de Flores da Cunha, Rangel afirma que Vargas propôs ao interventor do Rio Grande a criação de um partido de feição nacional, em substituição aos da Frente Única, que fugisse da fanfarronice do Clube 3 de Outubro e das frentes únicas. Sua ideia era a de "buscar apoio na massa amorfa, ignorante, mas facilmente plasmável nos moldes de uma nova organização política, que poderá ser um grande partido nacional." (RANGEL, 2007, p.27).
Para além das intenções de centralização política manifestadas por Vargas, entendemos que o documento sugere também uma percepção aguçada da política nacional e da necessidade de mudanças, para as quais a maioria das oligarquias e dos políticos tradicionais não considerava relevante ou se negava aceitar. Pois, segundo Ângela de Castro Gomes, no final dos anos 1920 já havia no país uma ética de valorização do trabalho e do trabalhador, "embora não existisse um cidadão-trabalhador." (GOMES, 2005, p.30).
Mas, Flores da Cunha não aceitou a proposta. Prevaleceram as suas ambições políticas, ou sua força de mediador dos interesses regionais junto ao poder central. Condição assegurada, num primeiro momento, pelo apoio das lideranças partidárias do Rio Grande, que ambicionavam ter ingerência nas decisões do Governo Provisório.
Consciente da sua posição privilegiada de mediador entre os interesses estaduais e federais, Flores da Cunha administrou o estado, nos primeiros anos após a Revolução de 1930, valendo-se das concessões financeiras e dos favores administrativos do governo central. Vargas, por seu turno, exigia de Flores o controle e a vigilância dos partidos estaduais. (ELÍBIO JÚNIOR, 2006, p.83).
O historiador Carlos E. Cortés afirma que a administração de Flores da Cunha foi progressista e criativa. Expandiu o programa de obras públicas; construiu as primeiras estradas pavimentadas intermunicipais; criou sindicatos oficiais (institutos), responsáveis pela comercialização de produtos básicos; iniciou as negociações para a criação de uma frota de
navios comerciais estatais "para aliviar a dependência econômica do estado da inadequada frota marítima mercante nacional." (CORTÉS, 2007, p.104-117).
Tratava-se, segundo Mário Maestri, que aponta no mesmo sentido, de um plano ambicioso de "relançamento estrutural da economia rio-grandense, apoiando a ampliação e circulação das relações mercantil-capitalista e a modernização pastoril-charqueadora." Foram construídas fábricas; escolas; ferrovias; e os "balanços de exportações e importações do estado quase quadruplicaram." Cortés propõe ainda que o processo de desenvolvimento do estado estaria relacionado à proposta de acordo entre Flores, Borges e Pilla, denominado de
modus vivendi, firmado em janeiro de 1936, e que estabelecera a paz no estado. Um acordo,
segundo Mário Maestri, de curta duração, que fez o Rio Grande do Sul experimentar um crescimento industrial de 20%. (CORTÉS, 2007, p.104-117; MAESTRI, 2010, p.322-323).
Cabe destacar ainda que a gestão Flores da Cunha se notabilizou pela utilização de uma elite burocrática "despolitizada" formada por técnicos cujos objetivos eram o de ampliar e renovar a administração pública estadual. (ELÍBIO JÚNIOR, 2006, p.209-210).
Quanto às questões sociais, Antônio Elíbio Júnior afirma que o governo de Flores da Cunha se valeu de uma política intervencionista a partir da "imposição de procedimentos coercitivos à formação de doutrinas consideradas perigosas e à defesa da nacionalidade." As medidas intervencionistas do referido governo na política sindical, antes da Constituição de 1934, eram feitas através da invasão policial, "destruição das sedes dos sindicatos com abundantes espancamentos e prisões." A estratégia corporativista do poder central, teria sido utilizada também por Flores da Cunha. É o que se depreende, à medida que este entendia que as necessidades sociais "deveriam estar desvinculadas de grupos ou organizações políticas sem o controle do governo". O que representava, em última análise, um processo de incorporação dos trabalhadores ao governo sob o comando do executivo estadual, com o consentimento do Governo Federal. A mediação de Flores da Cunha entre as classes trabalhadoras e o Governo Federal estava consignada à cooperação daquelas com o executivo estadual. Política que na opinião do autor "visava minar a influência dos partidos políticos e dos 'cabecilhas comunistas', possivelmente infiltrados junto às associações de trabalhadores." (ELÍBIO JÚNIOR, 2006, p.206-208).
Propõem-se como paradoxo do governo Flores da Cunha e das lideranças da FUG o discurso em defesa dos valores democráticos e constitucionais12, mobilizados contra o
Governo Provisório, acusado de ditatorial pelos seus críticos que, igualmente mantinham nos seus estados componentes antidemocráticos. Pois, na oportunidade de defesa desses preceitos legitimadores da democracia, a maioria dos deputados classistas rio-grandenses votou contra o direito de greve, na Assembleia Constituinte de 1934: 7 a favor e 11 contra. E, em 1935, a Federação Operária do Rio Grande do Sul [FORGS], entidade fundada em 1906 e que reunia as principais lideranças do movimento sindical do estado, foi proibida de funcionar. Apesar de intervenção de Dyonélio Machado na tentativa de reorganizá-la, com o apoio da Aliança Nacional Libertadora (ANL), da qual era o presidente, "a Lei de Segurança Nacional, em 1935, foi decisiva para a sua extinção." (PETERSEN; PEDROSO, 2007, p.200).
Para Sandra Pesavento, a classe dominante rio-grandense responsabilizou Flores da Cunha de 'não querer ou não poder' resolver os problemas econômicos do Rio Grande, além de não ter seguido os princípios estabelecidos pelo PRL. Para ela, faltava à classe dominante sulina a consciência da dimensão das mudanças que estavam em curso: da subordinação econômica da periferia para com o centro; do aumento dos desníveis regionais; das questões estruturais de uma economia descapitalizada. Mudanças que, em última análise, foram atribuídos a "má direção de Flores no governo do estado." (PESAVENTO, 1980, p.170).
Mário Maestri tem visão diversa. Vê como causa da derrota de Flores da Cunha, diante da ofensiva getulista, que abriu caminho ao Estado Novo, a divisão nas classes dominantes sul-rio-grandenses, já que os setores agropastoris da campanha, da Região da Serra e do Planalto, que exportavam alimentos e matérias-primas para o restante do Brasil, se viam beneficiados na proposta do estado sulino como "Celeiro do Brasil". Um posicionamento que teria demarcado a falta de visão, ou até mesmo de pusilanimidade, dos segmentos dominantes rio-grandenses, que os caracterizariam, para este autor, até os dias atuais. (MAESTRI, 2010).
Ângela de Castro Gomes sustenta que nenhum dos governos pré-30 reconheceu a prioridade da questão social no Brasil e que a mesma teria surgido em decorrência "dos acontecimentos políticos do pós-30." Tratar-se-ia, portanto, da superação das "preocupações
12 Importante destacar que o reclamado retorno às normas institucionais, também responsável pela Revolução
Constitucionalista de 1932, representava modelos jurídicos de partidos políticos estaduais que na opinião de Joseph Love até 1930 podiam ser vistos como caucuses: reunião secreta de líderes políticos do mesmo partido, comitê ou grupamento de cúpula. Não havendo "nenhum processo formal de alistamento e nem critérios precisos para a associação de membros." E, mais significativo: a última eleição da República Velha, que elegeu Júlio Prestes, em 1 de março de 1930 teve um percentual de população votante de 5,7%! (LOVE, 1975, p. 122-124).
formais com procedimentos e modelos jurídicos, para mergulhar nas profundezas de nossas questões econômicas e sociais." A historiadora afirma ainda que a finalidade principal da obra revolucionária dos anos 1930 foi a de enfrentar esse estado de constante necessidade em que vivia o povo brasileiro, estado desumanizador que identificava o trabalho como um apanágio da pobreza. "Reconhecimento que, de acordo com o exposto, também faltou às classes dominantes rio-grandenses desse período.” (GOMES, 2005, p.197).