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1.2. MOTİVASYON

1.2.2. Motivasyon Teorileri

1.2.2.2. Süreç Teorileri

Abordamos nesse trabalho os caminhos do processo de escolarização no termo de Mariana a partir de mudanças instituídas com as Reformas Pombalinas na área da educação. Tais reformas criaram regras que deveriam ser observadas pelos mestres e professores que, desde então, estariam subordinados ao rei e não mais à Igreja. Dentre as reformas, umas das mais importantes foi a que instituiu o Subsídio Literário, imposto implantado por Pombal em 1772 a fim de custear as aulas régias e pagar o salário dos mestres e professores.

Se entendermos que a construção de leis deve ser vista não apenas pelas instituições ou normas, mas dentro de um conflituoso campo social, poderemos perceber que a constituição do imposto voltado para a educação não se deu de modo tranqüilo em Minas Gerais. Implantado numa época de queda da mineração, a Coroa teve que mobilizar seus agentes na capitania para que o imposto se efetivasse. Em Minas Gerais, observamos que os valores coletados no Termo foram, em sua maioria, relacionados à produção de aguardente, já que a pecuária estava apenas começando a se destacar como mais uma atividade desenvolvida pelos moradores, inseridos no processo de “acomodação da economia”.

Com relação à distribuição das Aulas Régias no termo de Mariana, conseguimos informações sobre a primeira aula de ler, escrever e contar, cuja ocorrência se deu em 1770, na freguesia de São Sebastião. Nas demais freguesias essas aulas foram implantadas durante o governo de Dona Maria I.

Em nosso estudo pudemos constatar a estreita relação entre valores contribuídos e o número de aulas implantadas nas freguesias. Desta forma, ao classificarmos as freguesias de acordo com os valores manifestados, percebemos que as freguesias de “alta contribuição” e “média contribuição” contaram com as aulas régias na maior parte do período observado. Essa mesma constatação se fez presente no período posterior a análise do imposto. Essas freguesias desenvolviam atividades em torno da agricultura, comércio e pecuária, sendo focos de migração quando se deu a queda da mineração. Em contraposição, nas freguesias de “baixa contribuição” o número de Aulas Régias identificadas foi restrito.

A Coroa não conseguia manter a estrutura de funcionamento das aulas régias, apesar de tomar para si essa responsabilidade. Esse fato foi percebido pelos atrasos constantes nas folhas de pagamento dos mestres que atuaram no termo de Mariana. Neste sentido, poderíamos mesmo

afirmar que nenhum mestre ou professor que atuou no período de 1795 a 1801 em Minas Gerais recebeu seu pagamento no período correto. Assim, tendemos a concordar com Carrato ao afirmar que os valores coletados no Brasil não eram aplicados para o aumento de suas aulas ou para pagar seus mestres e professores e sim enviados para Portugal.

Em Minas Gerias, foi no final do século XVIII e início do XIX, que podemos observar a efetivação do pagamento dos mestres e professores de Primeiras Letras. No entanto, vimos que alguns mestres e professores morriam sem receber o que a Fazenda lhes devia, inclusive mestres que acumulavam mais de vinte anos de magistério.

Buscamos saber os motivos que levavam um funcionário a ficar mais de quatro anos sem receber seus ordenados, mesmo sendo esse um dos menores valores pagos pela Coroa aos cargos existentes na Capitania. As pistas que encontramos nos levam a algumas suspeitas: em primeiro lugar, ser mestre poderia representar ao pretendente alcançar a condição de “nobre”, pois a partir de 1772 a Coroa portuguesa passou a conceder aos mestres privilégios que apenas alguns nobres possuíam; em segundo lugar, o fato dos mestres/professores ocuparem dois cargos poderia representar uma estratégia utilizada por eles a fim de continuar no magistério, mas sem necessitar desses pagamentos para suprir suas necessidades. Todavia, também não podemos nos esquecer que a ocupação de dois cargos também poderia ser uma marca dessa sociedade onde a escrita era pouco disseminada.

A situação de atraso nos pagamentos era a mesma para todos os mestres que viviam nas diferentes freguesias do termo de Mariana. Desta forma, não importava o tipo de contribuição que as mesmas ofereciam, pois todos os mestres estavam, no final do século XVIII, com altas quantias a receber da Fazenda Mineira.

Mesmo com problemas de pagamento e de pessoas habilitadas para serem mestres, a implantação das Aulas Régias propiciou em Minas Gerais uma organização no campo das aulas de Primeiras Letras. Neste sentido, em 1799, o governador da capitania de Minas Gerais reclamava da atuação de mestres régios que travavam a organização das Aulas Régias, ao trabalharem de acordo com os interesses pessoais.

A instauração das Aulas Régias possibilitou a criação de uma rede de fiscalização do trabalho dos mestres e professores os quais tinham a função de ensinar os conteúdos determinados pelas leis e cumprir os horários. A fiscalização funcionaria como uma forma de

garantir que os serviços desse funcionário fossem realizados de forma a colocar em prática aquilo que a lei havia definindo.

No processo de escolarização percebemos os complexos movimentos que se voltavam para a cultura em torno da escola. Assim, nas freguesias de “alta” e “média” contribuição, local onde o número de mestres de Primeiras Letras aparece com maior incidência em nosso levantamento, a população e representantes, talvez já inseridos na cultura escrita, passaram a exigir desses mestres o cumprimento de suas atividades. As denúncias com relação à atuação dos mestres, feitas pelos moradores e nos jornais, a existência de cadeiras secundárias, os pedidos de materiais feitos pelos mestres para atender seus alunos necessitados, o estabelecimento de escolas para meninas, a inserção do método Mútuo, entre outros fatores, se apresentam como parte de um movimento de afirmação da escola e de uma incipiente escolarização do social.

Esse movimento teria se manifestado de diferentes maneiras no termo de Mariana. Assim, nas freguesias de “baixa contribuição”, vimos que o número de aulas foi restrito, geralmente localizada nas áreas rurais do termo, pouco contribuíam com o imposto no período pesquisado e tinham nas escolas mais distantes de seus povoados a referência de uma possível instrução. As aulas que foram localizadas nesse trabalho eram implantadas de acordo com a disponibilidade dos candidatos em atuar nesses lugares mais distantes. No século XIX foi para essas localidades do termo que percebemos o número maior de pedidos de aulas para a instrução da mocidade.

Nas freguesias de “alta” e “média” contribuição os movimentos percebidos se voltaram para uma confirmação da escolarização. Poderíamos mesmo dizer que a população já interiorizara os valores da escola e tentava se posicionar sobre o funcionamento da mesma a partir da discussão acerca da atuação dos mestres. Além disso, observa-se que o uso da Câmara Municipal de Mariana por parte dos mestres para pedir materiais conforme determinava a lei, os pedidos de Atestados e de substitutos, a fim de terem condições de cumprir com os deveres que a lei determinava, as denúncias feitas pelos funcionários ligados a esta administração, bem como a circulação de jornais e outras estratégias que divulgaram os valores da instrução teriam também auxiliado a população a se inteirar sobre os valores da instrução para o Estado.

Aulas Régias passam a ser reguladas em seus conteúdos, métodos e materiais. A preocupação com os conteúdos elementares se deu já no governo de Pombal com a necessidade de disseminar a língua portuguesa para todos os povos. Para tanto a preocupação se voltava para as formas dos caracteres e da escrita correta. Os estrangeirados defendiam o uso e a importância

do ensino da língua vernácula nas aulas, sendo esta, para eles, uma possibilidade de diminuir o tempo de aprendizagem e garantir os valores estabelecidos pelo Estado.

O uso do catecismo de Montpellier, elaborado por um dos membros da Congregação dos Oratorianos, como um dos conteúdos essenciais nas aulas de Primeiras Letras, tinha como meta afastar de vez as interferências dos Jesuítas, mas não os valores da Igreja sobre o ensino. Assim os textos do catecismo funcionavam como instrumentos necessários para alcançar a instrução pretendida, visando, em última instância, ao respeito a um Deus, a uma Lei e a um Rei. Esses saberes fizeram parte dos conteúdos que se queria ensinar no século XIX e foram divulgados para a sociedade como essenciais à formação do cidadão e do Império. Ao mesmo tempo, a defesa do método mútuo como um modelo de racionalização de gastos e tempo, trazia para a sociedade a esperança de uma instrução eficaz. Essas mesmas perspectivas foram percebidas no termo de Mariana, por meio de discursos dos vereadores e presidente da Província, ou dos fiscais que tentavam trazer a escola para perto de suas freguesias, e entre os próprios mestres que passavam a pedir autorização para instalar o método mútuo em suas aulas e a solicitar materiais para que tal ensino se efetuasse.

A implantação das Aulas Régias no termo de Mariana se deu a partir das últimas décadas do século XVIII e se transformou em mais uma forma de instrução de parte da população interessada nas letras. Nessa unidade administrativa de Minas Gerais, no período do século XVIII ao XIX, percebemos o processo de implantação de políticas voltadas para a instrução de Primeiras Letras e a forma de sua efetivação em um dos espaços urbanos de Minas Gerais marcado pela valorização da escrita, demonstrando, mais uma vez mais, o entrelaçamento entre o processo de escolarização e a constituição de uma cultura urbana e moderna nessa sociedade.

Benzer Belgeler