1.9. Süreç Temelli Yazma Yöntemleri
1.9.2. Süreç Temelli Planl Yazma Modeli
A ideia de impermanência dos fenômenos, importante dentro da filosofia budista, também fruto do saber venatório do jagunço, está tão presente no romance que permeia as “figuras do falar de Riobaldo” (GALVÃO, 1972, p. 130). A observação de Riobaldo sobre a impermanência dos fenômenos não se restringe ao diabo, mas também a outros dados da vida no sertão, como as pessoas:
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão (p. 23).
Ou como as emoções:
Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava o pensar. Naqueles dias, então, eu não gostava dele? Em pardo. Gostava e não gostava. Sei, sei que, no meu, eu gostava, permanecente. Mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor (p. 180).
O amor de Riobaldo por Diadorim, assim como todas as emoções, se transformou. O sentimento em relação ao amigo era, no primeiro encontro, de mera admiração pela coragem da criança corajosa que conheceu nas margens do de- Janeiro, quando também ele era criança. Depois, o sentimento em relação ao amigo é outro, no inusitado reencontro com o belo jovem bem arrumado na casa de Malinácio: “Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê.” (p. 138). Ao final, o que sente em relação a Diadorim tem outras proporções. Com a revelação da verdadeira identidade do amigo, Riobaldo é devastado pela dor da perda, neste ponto da obra, da mulher que amou. Assim, o ex-jagunço, durante a narrativa, vivenciou diferentes sentimentos em relação ao amigo. Além disso, Riobaldo vai atribuindo — e, em outros momentos, descobrindo — diferentes nomes a ele: Menino, Menino-Moço, Reinaldo, Diadorim, Maria Deodorina. Assim, os sentimentos, o próprio amigo e os
nomes que ele leva também mudaram — também eram segundas e sábados, também eram dia e noite —, ganharam, como essas oposições de Riobaldo demonstram, significados, valores e expressões diferentes ao longo da vida do ex- jagunço.
Riobaldo, mais adiante, comenta novamente o fato de as emoções se transformarem:
Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade...; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias... (p. 232)
A vida, como um todo, é mutável: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem” (p. 318). O “vida embrulha” pode significar o fato de que a vida oculta essa característica de ser impermanente, que é da própria natureza dela. Além disso, pode dar a entender que a vida passa a ideia falsa — cria a ilusão — de que realmente existe algo como “vida”. Na filosofia budista, esse tipo de compreensão é ponto pacífico:
Sidarta compreendeu que isso [a impermanência] se aplica não só à experiência humana, mas a toda a matéria, ao mundo inteiro, ao universo, pois todas as coisas são interdependentes, todas estão sujeitas a mudanças. Em toda a criação, não há um único componente que exista em um estado puro, permanente, autônomo (KYENTSE, 2008, p. 28).
Nesse caso, as pessoas, e até o amor por Diadorim, não são imutáveis, não possuindo, dessa forma, uma verdade intrínseca que permanece: elas estão sujeitas a diversos fatores, visto que são interdependentes. Riobaldo observou também a impermanência da relação com os jagunços que estão sob o comando de Hermógenes: “Surdo pensei: aqueles Hermógenes eram gente em tal como nós, até pouquinho tempo reunidos companheiros, se diz – irmãos; e agora se atravavam, naquela vontade de desigualar. Mas, por quê? Então o mundo era muita doideira e pouca razão?” (p. 345). O ex-jagunço questiona como os inimigos agora combatidos eram, antes, amigos. Esse tipo de transformação é parte dos ensinamentos
budistas, visto que essas relações estão sob o efeito da impermanência:
Por outro lado, com frequência, pessoas intimamente ligadas por sangue ou através de casamento, discutem e prejudicam ao máximo umas às outras por algum bem insignificante ou por uma reles herança. Casais ou amigos íntimos podem brigar pelas razões mais triviais e, às vezes, a disputa termina até mesmo em assassinato (RINPOCHE, 2008, p. 118).
Ainda para ilustrar essa oscilação nas relações, textos tradicionais budistas mencionam frequentemente a história de um monge de Buda, Kātyāyana, que, por ter a qualidade da clarividência, ao ver um homem comendo peixe enquanto segurava o filho e enxotava sua cadela, exclamou:
Ele come a carne do pai, bate na mãe, e embala no colo o inimigo que matou;
a esposa está mordiscando os ossos do marido.
Dou gargalhadas ao ver o que acontece no show do samsara! (RINPOCHE, 2008, p. 118)
Nessa história, o monge vê que o homem comia o renascimento do pai, batia na mãe (que renasceu como a cadela) e segurava no colo o inimigo (que renasceu como o seu próprio filho). Riobaldo, curiosamente, quando conversava com seu hóspede sobre reencarnação, afirmou: “Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo” (p. 13). A ideia de reencarnação é do amigo Quelemém, mas quem desconfia, quem cisma, é o ex-jagunço. Riobaldo foi um sertanejo de insights.
A compreensão do ex-jagunço não se limitava à ideia de impermanência. De certa maneira, parece se estender à compreensão da natureza ilusória da vida, da existência em si:
Se acordou, bem o digo. Cada dia é um dia. E o tempo estava alisado. Triste é a vida do jagunço – dirá o senhor. Ah, fico me rindo. O senhor nem não diga nada. “Vida” é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia. Ora, mais, ordens já para antes do vir da aurora se cumprir, dali Zé Bebelo já tinha dado (p. 398).
Por um dia ser diferente do outro, como Riobaldo atesta no trecho citado, vida não é algo completo e uno, e sim um composto de dias. Isso significa que algo
inteiro como vida é falso, não possui uma existência inerente. Além do mais, como já mencionado, para o personagem, a vida é algo impermanente: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta” (p. 318). Se a vida é composta e impermanente, como afirma Riobaldo, ela mesma não tem uma natureza verdadeira, uma verdade intrínseca. As análises do ex-jagunço parecem próximas dos questionamentos budistas:
Sidarta concluiu que o único meio de confirmar a existência verdadeira de uma coisa é provar que ela existe de modo independente, livre de interpretação, fabricação ou mudança. Para Sidarta, todos os mecanismos aparentemente funcionais da nossa sobrevivência cotidiana — física, emocional e conceitual — não se enquadram nessa definição. Eles se formam a partir de uma reunião de componentes instáveis e impermanentes e, portanto, estão em constante mudança (KHYENTSE, 2008, p. 88).
Riobaldo percebeu a impermanência e a natureza ilusória dos fenômenos de forma clara em alguns mecanismos da vida dele, como no amor por Diadorim, na vida de jagunço, nas emoções, na vida em si e, principalmente, no diabo.