3.2.1 Os ricos
A classe rica de Jerusalém ostentava muito luxo nas casas, nos trajes, na posse de criados. Faziam questão também de mostrar suas riquezas nos sacrifícios oferecidos no templo, nos presentes ao templo, nos monumentos funerários, etc. Conta-se que algumas pessoas muito ricas de Jerusalém amarravam com cordões de ouro seus ramos, para a cerimônia da festa das tendas. Os moradores naturais de Jerusalém e ricos tinham suas casas de campo. Os banquetes dos ricos eram também uma grande amostra da suntuosidade dessas pessoas, pela qualidade dos alimentos, pelo número de convidados e pelo tratamento dispensado aos convivas. Era costume contratar um cozinheiro por um salário elevado; se não se saísse bem devia receber uma penitência proporcional ao prestígio do dono da casa e de seus convidados, para reparar o vexame causado. O vinho era bebido em copos de cristal. Havia muita dança nas festas. A pessoa convidada esperava que lhe fosse revelado o nome dos demais convivas e que, independentemente do primeiro convite, algum emissário a chamasse no próprio dia do banquete. O convidado dobrava as largas mangas de suas vestes para não ser incomodado ao comer. Um véu suspenso do lado de fora da casa indicava às pessoas que ainda seriam acolhidas. Esse véu era retirado após ser servida a terceira entrada. Havia um costume entre os ricos de Jerusalém de convidar, para a ceia pascal, os pobres de rua. Em certas ocasiões da vida política a população era convidada para a refeição.
Nesses meios, os jovens recebiam grandes quantias por dote. No contrato de casamento de Miriam, por exemplo, filha de Nicodemos (Naqdemon ben Gorion) constava um milhão de denários de ouro, aos quais o sogro acrescentou algo mais. Assim sendo, as pretensões dessas jovens senhoras eram consideráveis. Tinham o direito a gastar um décimo de seu dote unicamente para seus caprichos e luxo: perfumes, vestuários, enfeites, dentes postiços reforçados por fios de ouro e prata, etc... Considerava-se o mundo das grandes damas de Jerusalém como um mundo cercado de mimos e cuidados. (idem, p. 137 -138).
Jerusalém atraia o capital nacional do país: altos negociantes, grandes proprietários de imóveis, arrendatários de impostos e pessoas que viviam de rendas. São encontrados alguns representantes dessa classe no sinédrio. O conselheiro Nicodemos, por exemplo, relatado no Evangelho de João, era rico; conta a tradição
que ele levou ao túmulo de Jesus, para ungi-lo, 100 libras romanas de mirra e aloés. A literatura rabínica menciona Jerosolimitanos (moradores de Jerusalém) como altos comerciantes de trigo, vinho, óleo e lenha, fazendo parte do Sinédrio.
A nobreza sacerdotal como Anás e Caifás, que fizeram parte do processo que condenou Jesus, pertencia à classe dos ricos. Segundo a tradição, reinava grande luxo nas residências das famílias sacerdotais.
Eis o que se conta de Marta, pertencente à família dos Boetos. No dia das expiações, todos deviam ir ao templo a pé. Ora, quando Marta desejava ver o marido Yoshua ben Gamaliel oficiar nessa festa, fazia estender um tapete entre sua casa e a porta do santuário... Falava-se também das despesas feitas pelas mães dos sumos sacerdotes para o dia das expiações... Observemos de início, que os bens da nobreza sacerdotal são fabulosos... Convém também lembrar que essa nobreza parece interessar- se sobremaneira pelo tesouro do templo, colocando seus descendentes nos postos de tesoureiros do santuário... Encontramos ainda forte nepotismo nas nomeações para os postos mais lucrativos e mais influentes dos funcionários do templo, como os de tesoureiros e de comandantes do templo. (idem, p. 140, 141,142).
Conclui-se com facilidade que essa nobreza sacerdotal tirava do tesouro do templo quantias regulares, além das rendas particulares que possuíam, pois a tradição conta que parte significativa dessas famílias era proprietária de muitos imóveis.
3.2.2 A Classe Média
Logo abaixo da classe rica, estava o pequeno comerciante que explora com sua loja num dos mercados. Além desse, temos os artesãos donos das oficinas, alfaiates, funcionários e operários do templo, fabricantes de perfumes, hoteleiros, pequenos proprietários rurais, funcionários do Estado, membros do baixo clero, cobradores de impostos, os mestres escribas e fariseus, entre outros.
A vinda dos peregrinos constituía importante fonte de renda para o comércio de gêneros alimentícios e para as profissões responsáveis pelo reabastecimento.
As despesas extras feitas pelos peregrinos com alimentação eram ainda maiores do que essas despesas exigidas pelos deveres religiosos. Com palavras entusiásticas, Filon enaltece os dias de festa na cidade santa: no meio de uma existência agitada, são momentos de trégua que permitem às pessoas libertarem-se de qualquer preocupação e distenderem-se um pouco. Mas, para que o prazer fosse completo, eram precisas fartas refeições... abundantemente regadas de bom vinho . “Banqueteavam-se durante sete dias e não recuavam diante das maiores despesas”;... Convém acrescentar que essa espécie de luxo era não só justificada, mas obrigatória. Trata-se daquele dever... de gastar em Jerusalém todo o
dinheiro do segundo dízimo; de acordo com a lei (Dt. 14,26) devia-se comprar, com tal importância, gado, bebida fermentada e tudo quanto desejasse. (Idem, p. 147)
Dava-se grande importância à carne nas festas. Dizia-se que não havia alegria sem carne.
As demais profissões da cidade eram favorecidas por toda a espécie de comércio. Por exemplo, costumava-se, nessas épocas de festa, dar grande prazer às mulheres, oferecendo vestidos multicoloridos ou de linho branco, entre outros tantos presentes.
Além de todos os gastos da festa, os peregrinos levavam para casa muitas recordações. Portanto, essa classe tinha suas maiores oportunidades na medida em que estava ligada ao templo e aos peregrinos.
Jerusalém era uma cidade movimentada não só nas festas. Por ali, passavam pessoas provenientes de todos os lugares, durante o ano inteiro, o que fazia o pequeno e médio comércio e com ele a indústria e outros serviços funcionar de forma permanente e garantir a presença de uma significativa classe média.
Entre os membros da classe média, podemos mencionar os sacerdotes comuns. Eram pessoas abastadas e cultas. Muitos deles exerciam também a função de escribas. O próprio Estado cobrava taxas significativas do povo para o sustento dos sacerdotes.
3.2.3 Os Pobres e Marginalizados
Havia intenso comércio de escravos, no tempo de Jesus. Eles não representavam mão de obra significativa na área rural; eram utilizados mais nas cidades, como domésticos. Os diaristas eram mais numerosos que os escravos. É diarista aquele homem alugado por um rico para desenvolver determinados serviços. Os diaristas ganhavam, em média, um denário, com refeição. O pobre vivia a caçar pombos, o que poderia lhe render diariamente, em média, 1/4 de denário, o que era um ganho muito pequeno. Era mais catastrófica a situação do diarista, quando não encontrava trabalho.
A alta percentagem da população que vivia principal ou totalmente de auxílios constitui uma característica de Jerusalém... Na verdade, Jerusalém já no tempo de Jesus, apresentava-se como um centro de mendicância. A distribuição de esmolas era considerada particularmente meritória se feita na cidade santa, que mantinha essa mendicância. Não é de admirar que já então houvesse pessoas que simulavam cegueira, fingiam-se de surdas,
estropiadas, hidrópicas, coxas etc... A entrada da cidade santa era-lhes proibida; para protegerem-se das intempéries, sentavam-se sob as portas, consideradas como ainda não fazendo parte da cidade propriamente dita. (idem, p. 159 e 166).
A mendicância concentrava-se principalmente em torno dos lugares santos, ou seja, em torno do templo. Eles não tinham acesso a todos os lugares do templo. Os estropiados podiam penetrar no adro interior, mas somente sob certas condições Os aleijados, em condições de mover-se por si mesmos com uma muleta, tinham abertamente o direito de entrar na parte do santuário proibido aos pagãos; em contrapartida, não podiam fazer o mesmo aqueles que não podiam mover-se sozinhos. O coxo que não conseguia andar por si mesmo, mencionado nos Atos dos Apóstolos (3,2), pode ser um exemplo disso. Ele fica na ‘Porta Formosa’, a porta que liga o átrio dos israelitas ao átrio das mulheres. É no pátio dos pagãos que encontramos os cegos e aleijados, como aqueles que se encontram com Jesus e lhe pedem a cura.
Havia, porém, muitos mendigos fora desse local; eles estão, por exemplo, nas portas externas da esplanada do templo; ali vivem muitos deles, desde a infância. Há vários outros também na condição de enfermos, cegos, coxos e paralíticos, presentes na piscina de Bezata.
Havia também os revolucionários; eram alguns ardorosos patriotas e outros cheios de ardor religioso, mas muitos eram escravos, pessoas sem destino, os mais pobres do povo, ou seja, aqueles que nada tinham a perder. Os Zelotas empreenderam esse movimento com o intuito de libertar o povo judeu da dominação romana. No ano 66 d.C., eles incendiaram os arquivos de Jerusalém para destruir as provas de dívidas que ali estavam guardadas. Enfim, Jerusalém, a chamada cidade santa, abrigava as pessoas que viviam no mais alto luxo e aquelas mergulhadas na pobreza, marginalidade e discriminação, por parte dos grupos dominantes.