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Havia uma adequação entre o bloco estrutural e os procedimentos de ajuda mútua no canteiro de obras que não parecia poder ser transferida para outro sistema construtivo.

Já para o principal arquiteto do “Mutirão Cachoeirinha Leste”, Alexander Yamaguti, a alvenaria estrutural implantada nos anos 1980 pode ser avaliada como contrária à própria idéia de “moradia evolutiva” que sempre acompanhou os canteiros autogeridos de Vila Nova Cachoeirinha:

Com o tempo, em função da dinâmica familiar e do questionamento de técnicos da áreas de habitação, surgiu a necessidade de expansão e mudança de layout dos projetos originais. Neste momento as limitações impostas pelo sistema estrutural frustraram a vontade dos usuários em expandir suas moradias e modificar o uso dos espaços internos [...] Em função dessa necessidade de flexibilizar o uso do imóvel devido às mais diversas razões, a população passou a questionar o modelo em uso até então (Yamaguti, 2003: 38-40).

Assim, ao invés da alvenaria estrutural, que nos anos 1980 era considerado um processo construtivo ”mais tradicional”, Yamaguti propõe um sistema estrutural de viga e pilar, pois “a solução mais adequada passou a ser um modelo em estrutura convencional que é adotado pela maior parte da população de autoconstrutores no Brasil” (Yamaguti, 2003: 40).

Mas o que é uma concepção estrutural convencional “para a maior parte da população de autoconstrutores”, em Vila Nova Cachoeirinha vai se revelar como uma inovação de execução, pois as vigas e pilares seriam compostos de elementos pré-fabricados em argamassa armada. São pré-formas em perfil “U” que servem tanto à fundição das vigas e pilares in situ quanto auxiliam na transmissão de carga. A adequação deste método construtivo para a autogestão da produção pelos movimentos de moradia estava no potencial que tinha para o alívio do esforço físico e a formação para a produção. Mais do que dar liberdade para as futuras ampliações da “morada evolutiva”, a pré-fabricação de vigas e pilares a tornava menos trabalhosa. Ao invés de lidar com pesadas paredes estruturais, a construção e ampliação das residências se dava através de peças estruturais delgadas, que possibilitam realizar as vedações com blocos leves e mais fáceis para erguer ou demolir. Esta redução do esforço físico é importante num regime de trabalho por mutirão, em que não é possível separar quem administra de quem executa as edificações [105]. Outra das vantagens perseguidas com a adoção de pilares ao invés

de paredes estruturais era a possibilidade de uso de sapatas isoladas para as fundações:

Mantido o processo construtivo em alvenaria armada, as duas alternativas de fundação - “radier” ou sapata corrida - tinham custos incompatíveis com os recursos disponíveis, além de implicarem em um volume considerável de escavações, a serem executadas manualmente pela população, em uma operação extremamente penosa” (Yamaguti, 2003: 40).

105 É preciso lembrar também que, das 206 famílias do Mutirão Cachoeirinha Leste, 60% delas eram chefiadas por mulheres, num perfil característico de população de baixa renda.

Imagem 72: Esquema construtivo do mutirão Vila

Nova Cachoeirinha

As lajes assentadas sobre a retícula estrutural construída com pré-formas de argamassa armada deixavam um buraco para escada (Yamaguti, 2003).

Imagem 73: Construção dos vedos no mutirão

Vila Nova Cachoeirinha

O sistema construtivo com vigas e pilares exigiu apenas blocos leves para vedação (foto de Leandro Coelho).

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No entanto, se o único objetivo da pré-fabricação fosse eliminar toda operação considerada “penosa”, a inovação tecnológica empreendida pelo canteiro de obras autogerido seria apenas reativa. É importante então perceber que ela visa também a formação produtiva de quem a opera, aproximando-se da proposição básica do cooperativismo de produção, que é transformar o trabalhador pelo trabalho. Assim, em canteiros autogeridos, a inovação técnica é imediatamente transferência de conhecimento:

A efetiva transmissão de conhecimento técnico e know-how específico para a produção de pré-fabricados, inserido em processo autogestionário foi um grande salto qualitativo na produção de moradias e formação de mão-de-obra especializada além de técnicos qualificados no manejo deste conhecimento. Dentro deste contexto, a questão da introdução de um sistema pré-industrializado potencializa desdobramentos a partir da produção das moradias, entre outros, no interesse da comunidade em formar cooperativas para a produção de componentes e elementos construtivos visando o mercado formal [...] Para tanto, procura-se formar os profissionais necessários durante o decorrer do processo, por meio de monitorias e grupos ou equipes de trabalho. Aliás, o mutirão se torna, em certos momentos, uma grande escola [...] A produção da unidade habitacional é o objetivo primeiro da associação de moradia, mas se espera também que, após a obtenção da casa própria, continuem mobilizados na execução de projetos comunitários, quer sejam nas cooperativas de trabalho, quer sejam nas melhorias do complexo habitacional” (Yamaguti, 2003: 46-8).

Na “mini-usina” de mutirão montada pelo Cedec/Emurb algumas inovações técnicas partiam justamente de seus limites produtivos. Foi assim com a mesa vibratória, montada a partir de materiais descartados e um motor elétrico usado, e com as formas de madeira, para as quais “foram incorporadas melhorias ao projeto original das mesmas fôrmas a partir de observações feitas pela própria população na operação da mini-usina. Isto resultou em uma maior durabilidade das fôrmas e em conseqüente aumento da capacidade produtiva da unidade” (Yamaguti, 2003: 44).

Assim, o canteiro de obras autogerido não é apenas o destinatário da inovação tecnológica promovida pelas assessorias técnicas de mutirão, mas também etapa necessária de transformação, uma vez que as tecnologias trazidas de fora deste canteiro (a das pré-formas de argamassa armada do Cedec, por exemplo, vieram de pesquisas européias) são avaliadas através da sua operação por mão-de-obra mutirante e demandam alterações de acordo com a sua gestão financeira e operacional:

A relação estreita e a avaliação permanente do canteiro de obras e das condições de trabalho do operário também resultaram em algumas alternativas tecnológicas (e não ‘tecnologias alternativas’, em sentido pejorativo), que pretenderam minimizar e qualificar os processos produtivos. Passam a ser adotados sistemas construtivos pré-moldados ou processo com algum grau de industrialização (que vão da utilização de concreto bombeado à produção de peças no próprio canteiro ou até à utilização de estruturas metálicas (Carvalho, 2004: 163).

Seria possível para as tecnologias aperfeiçoadas para o canteiro de obras autogerido que elas saíssem do mutirão e ganhassem o mercado da construção civil? Pedro Arantes menciona o caso, em São Paulo, do bloco de alvenaria estrutural “J” (Arantes, 2002: 214), criado nos mutirões para evitar a especializada construção de formas nas laterais das lajes e que hoje consta de qualquer catálogo de fabricantes de alvenaria estrutural. No entanto, os exemplos de investimentos muito maiores e que

Imagem 74: Fundações e pilares no mutirão de

Vila Nova Cachoeirinha

As escavações do mutirão eram menores que as valas exigidas pelas paredes estruturais dos projetos anteriores (Souza e Silva, 1998 [1991]).

Imagem 75: Montagem de escola com

componentes pré-fabricados do Cedec Foto de Reginaldo Ronconi

Benzer Belgeler