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O dever ético de ensinar, ao que nos parece, se sobrepõe a uma pretensa retorno de direito à discussão de quem possui essa competência. Para isso, “ recomenda-se que [...] educadores possam acompanhar [...] propor diálogos francos com a criança, subsidiar-lhe com materiais didáticos que retratem o corpo e a sexualidade de maneira adequada, com coerência e serenidade (NUNES; SILVA, 2006, p.99).

Isso não exclui o impacto desse compromisso, no que prosseguem os autores: “é necessário que o adulto perceba que a criança sempre, ou quase sempre, repercute as conversas que ouve ou que lhe são estimuladas pela vivência do grupo onde atua e se desenvolve” (Ibid., 2006, p. 99).

As dúvidas das crianças e adolescentes, quando dirimidas pelos professores, parecem exigir uma qualificação destes. A proximidade favorece o diálogo, o entendimento da situação pela qual passa o estudante. O vínculo afetivo permite a troca, estabelece a confiança e o suporte necessário que os professores, como profissionais, podem realizar na sua docência, na construção da sexualidade das crianças e adolescentes. É o que nos informa a gestora Ane:

- Normalmente, a professora mais querida. Tanto que tem professor, professora que sabe a vida de todos os alunos. Porque o aluno chega e conta tudo. [...]. A direção é a última a saber, nesse caso. Mas o professor é aquele que eles têm contato, que eles contam o que acontece, que o pai e a mãe brigaram em casa. Eles contam detalhes da vida deles quando há algo mais sério. Mas é a outra pessoa em primeiro lugar.

Algumas ações promovidas pela escola pesquisada têm à frente alguns professores que parecem apresentar um perfil adequado dado pela competência adquirida e pelo bom relacionamento que possuem com os alunos. As orientações fornecidas pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo ou pela Diretoria de Ensino contribuem subsidiando as práticas desses professores. Segundo a professora Ida, esse tipo de orientação é dividida em duas partes: “uma parte fala sobre orientação sexual e a outra parte sobre prevenção às drogas”.

O vínculo com o aluno e a qualificação do professor abrem oportunidades de educação significativa, que não se confunde com o papel da família. Segundo o relato da sua atuação com o professor, assim é o modo de agir do professor Gaúcho:

- Na verdade sou um professor que trabalha na área de cultura e isso me ajuda muito. [...]. Primeiro, eu não me espanto com nada, não me espanto com um beijo, com gestos entre eles ou não vou ali. Converso. Não tento ser - como se diz - um paizão, [...] eu tenho que ser um educador, então vou ali converso na boa, na linguagem deles, por exemplo: “E aí fulana... está namorando a cicrana? Então, o legal é que a opção é sua. Sua mãe está sabendo, a sua família? Ah, não

está escondendo [...]” Então, eu converso.

O entendimento do que é educação e o envolvimento efetivo e afetivo com os alunos, se amplia com o conceito de cultura, que o referido professor traz na sua fala:

- Eu sei que faço parte dessa escola meio quadrada, dessa instituição escola em que acredito, e que ainda está muito defasada culturalmente. A palavra educação está no cantinho, a palavra cultura está lá afastada. Cultura parece que é coisa para artista, para

não ser o nome que dá [...] a educação é coisa para quem anda direitinho. Então [...] então, conversando com essas pessoas, no dia a dia, mas não só na aula de Educação Física [...] eu estou sempre no pátio, caminhando, estou sempre cumprimentando as pessoas, eles lhe procurando fora do horário de aula [...] Então, é uma conversa, como se poderia dizer [...] uma conversa do dia a dia mesmo da observação como eu falei agora há pouco [...] representando um pouco a instituição. Porque a instituição não consegue mesmo.

Sabemos que os alunos se identificam com seus pares, quando afinidades é mais estreito. Isso não afasta o professor atento, aberto, respeitoso, que é reconhecido pelos alunos quanto à sua formação, conhecimento. Prossegue o professor Gaúcho:

- O estudante, ele olha o professor como uma pessoa formada, com os seus conceitos, com os seus preconceitos. Sei lá o quê. E o professor tem certa idade. O professor não faz parte da idade deles. Então são [...] nessa faixa etária, são muito de conversar entre jovens, conversa com jovens. Uma pessoa um pouquinho com uma idade avançada já se torna um pouco velho. “Meu pai é velho.´Meu professor é velho`. Isso inibe um pouco o diálogo.

Arroyo (2004, p. 37) nos fornece elementos para entendermos que as representações acerca do ser aluno e do ser professor também se constituíram e se quebraram no tempo, e fazem o movimento complexo de um vir a ser contemporâneo.

A própria escola, suas disciplinas e os mestres surgiram historicamente como dispositivos sociais para dar conta de uma representação da infância [...] Nosso poder e nosso saber, nossa imagem social e profissional foram construídos e legitimados na imagem da infância e adolescência que está se quebrando. [...] as condutas dos alunos põem em entredito nossos poderes e saberes, nossas auto-imagens doentes.

Há aspectos que são próprios da criança e do adolescente, ainda que as tecnologias e as fronteiras das pesquisas tenham se estreitado, e que dizem respeito à sua própria constituição como crianças e adolescentes sexuados. A professora Nica nos favorece com algumas questões que surgem na convivência com seus alunos. Vejamos o que falam e o que pensam:

- Quando eu crescer vou ter seio grande ou seio pequeno?” “Quando que eu vou menstruar, eu menstruo uma vez só, depois eu estou

grávida?” São dúvidas com o seu próprio corpo. Isso ficou muito

claro. [...] Sexo e droga para eles é uma coisa da adolescência, que eu achei muito maluco. Porque eles são muito novos para isso. Para pensar dessa forma: “Vou beber, vou transar, vou tomar, eu vou

fazer tudo o que eu quiser”. Eles são agitadíssimos. Então, esse

recolher as perguntas. Ler a pergunta diretamente, pelo professor, talvez iniba um pouco, nessa coisa de um tirar o sarro do outro. Deixo com que eles fiquem menos agitados. Eles ficam esperando essa resposta. Ver você falar sobre sexo. A palavra sexo para eles, quando a professora fala, é como se estivesse falando um palavrão. O [a palavra] que passa na cabeça deles só de você falar.

O processo de ensino-aprendizagem, a convivência realizam um desenvolvimento que se assemelha a um vir-a-ser maduro, que dá lugar às questões mais complexas, menos pueris – no sentido da infância -, para um adolescer. Prossegue a mesma professora:

- No ensino médio, são três 1ªs séries, senti que eles são muito

diferentes, puxam muito para a parte das drogas [...]. Eles ficaram tímidos, mas no fundo não é aquilo. Eles estão mesmo com dúvidas, com relação ao emocional da sua sexualidade. Não é se o corpo está em transformação ou não, isso eles já sabem que transformou. Eles não querem saber disso. Eles querem saber sobre se a namorada [...] que quer transar com ela. Se pode fazer isso ou não. Está na hora ou não? Como é que vai ser? O que eu faço? Como se você tivesse que dar aula na prática, uma aula de sexualidade. Então, eu sinto que eles estão mais aguçados nesse sentido. Eles sabem que o corpo transformou. Eles já sabem que eles estão sentindo tesão pela namorada. Eles já sabem que só ficar alisando não resolve. Eles

querem ir para os finalmente, e não quer que ela sofra. “Eu não

quero que ela fique chorando, professora”.

O corpo do outro é percebido, desejado, em meio a muitas dúvidas. O desejar e o não querer magoar parecem desenhar uma estética dos corpos, uma disciplina do desejo, que nem sempre é compreendida. Nisso se constituem os corpos dos adolescentes, em corpos (in) disciplinados. O uniforme ajuda a disciplinar esse movimento do apresentar-se, mostrar-se, que hoje toca também o menino. É muito comum encontrá-los em frente dos espelhos do banheiro alinhando os cabelos ou ajeitando o boné, num modo de cuidar da aparência, para ser visto, cobiçado.

2.5. Como professores (as) vêem os temas transversais na escola em relação à

Benzer Belgeler