Elucidamos o oitavo traço característico dos indivíduos pesquisados: não estão preocupados com a discussão entre afirmar a existência de Deus – ‗fundamentalismo‘ – ou de negá-la – ‗ateísmo‘. Eles suprimiram de suas vidas as religiões; não estão inseridas em suas representações cotidianas. Simplesmente não dão primazia à questão. As religiões parecem ter saído de suas vidas enquanto valor existencial. Durante nossas entrevistas, nenhum deles chegou a chamar o nome de Deus ou dizer que lhe pede socorro em momentos difíceis, de sofrimento, nem mesmo expressaram o jargão ‗graças a Deus‘.
Por meio das narrativas, percebemos que as atitudes dos sem-religião em relação à religião diferem do dualismo entre fanatismo e ateísmo, porque há neles
duas diferentes formas de conceber a religião: (i) há um tom respeitoso ao considerar a religião importante para alguns indivíduos que sentem um bem-estar espiritual e buscam em seus líderes orientações e conselhos para suas vidas; (ii) reconhecem a importância e a necessidade da religião para a sociedade. Nesse sentido, as posturas desses indivíduos diante das religiões revelam características que lhes são peculiares. Um dos informantes falou:
―Eu não sou religioso. Mas a proposta das religiões, por mais diversas que sejam, tende um bem-comum ao ser humano. Em função disso, acredito que elas são uma espécie de auxílio à vida humana. A religião tem esse papel preponderante sim, porque as pessoas que são religiosas atribuem muito dessas coisas benéficas que elas fazem à religião. Mas eu acredito seriamente que é possível viver plenamente sem religião‖131.
A postura do entrevistado é de respeito às pessoas que necessitam da religião e praticam-na. Reconhece que é um auxílio que pode fazer um bem a essas pessoas. Mas afirma que é possível existir sem a prática de uma religião. Outro jovem manifestou seu posicionamento quanto à religião:
―Existem muitas religiões. Hoje ainda mais porque têm diversos tipos, ramificações, mas eu acho que pra muitas pessoas é muito útil, porque com a fé delas transcendem também; elas passam a acreditar mais; isso dá uma força pra própria pessoa; é um encorajamento que é legal; você vai a uma reunião, ao culto, como eles chamam, e o pastor te encoraja, fala pra você: ―isso é bom‖. É difícil uma palavra assim hoje; então, eu acho válido também. Mas eu acho que muitas coisas ficam tolhidas, proibidas, viram tabus; muita bobagem também no meio. Eu acho que essa regra forçada de conduta... se você não está matando, não está... não, sabe, é uma coisa bem boba assim‖132.
Na pesquisa, os indivíduos avaliam as religiões como algo importante para algumas pessoas. Não são contra e afirmam que elas não estão chegando ao fim. Observam que as religiões ainda têm ‗poder de influenciar a vida das pessoas‘, e ‗se a pessoa se sente bem seguindo os dogmas de uma religião, então, está bom pra ela‘. Ainda é relevante o sentimento de uma entrevistada quando assegura: ―Eu não
131 Danilo Rosa. Entrevista, SP, dia 30 de abril de 2011.
tenho nenhuma simpatia por nenhuma igreja, mas eu percebo que tem uma importância para a vida das pessoas e para sociedade como um todo‖133.
Por outro lado, esses indivíduos exigem que os adeptos das religiões respeitem também seus posicionamentos em relação às religiões. Ou seja, aquilo que Nietzsche certa vez chamou a atenção dos indivíduos religiosos:
Pessoas para quem a vida cotidiana é muito vazia e monótona se tornam facilmente religiosas: isto é compreensível e perdoável, mas elas não têm o direito de exigir religiosidade daqueles para quem a vida não transcorre cotidianamente vazia e monótona. (HDH, III, § 115)
Nietzsche reflete o fundo da questão: pessoas que pautam a vida cotidiana de maneira vazia e monótona tornam-se facilmente religiosas porque lhes falta ocupação com atividades que preencham o tempo das experiências. Mas não podem exigir religiosidade para quem a vida se pauta através de outros conteúdos. Aqui o filósofo sugere a possibilidade de existirem indivíduos sem o ‗dom‘, sem disposição da alma para religiosidade e a religião, mas cuja existência transcorre segundo outras esferas da vida.
Como observamos no primeiro capítulo, alguns sociólogos preconizaram que, com o processo de secularização, chegar-se-ia ao fim da religião. Contudo isso não aconteceu. Porém relevante perceber que a saída da religião tradicional – como referencial social ordenador moral da vida dos indivíduos – já significa um perceptível enfraquecimento e deslocamento do seu poder unificador. Talvez, para muitos indivíduos, ela ainda seja necessária, entretanto, para outros, pode ter chegado ao fim. Ou seja, a religião deixou de ser referencial para a existência de alguns indivíduos; não sentem disposição para religião. Deixou de ser um dos elementos de saída para sua existência. Disse Davi:
―A religião, na verdade, está muito ligada à moral, à ética. Mas se você já tem uma consciência moral, uma consciência ética do que é [certo], do que não é, eu acho que a religião não precisa, não seria necessariamente obrigatório uma religião‖134.
133 Andreza, entrevista, dia 16 de novembro de 2009. USP. 134 Davi. Entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011.
Provavelmente, a questão em foco da modernidade não seja a supressão da religião da vida dos indivíduos, mas a afirmação de uma existência ausente de religiosidade e, portanto, a ausência de uma comunidade religiosa de referência. O desespero e o medo, fenômeno típico desse milênio, talvez não devam ser atribuídos somente à ausência de Deus, mas, sobretudo, à ruptura com laços comunitários que antes asseguravam certezas e seguranças aos indivíduos, e a comunidade religiosa representava apenas uma dentre as outras.
Não podemos negar a existência de um elemento de obrigação nesses indivíduos, isto é, um elemento de compromisso social e responsabilidade ética tanto com o ‗outro‘ quanto com o ambiente, como apresentamos os cinco traços dessa obrigação: solidariedade, respeito às diferenças, igualdade de oportunidade, respeito ao meio ambiente e justiça social. Manifestou um dos nossos entrevistados:
―Eu acredito que o respeito interpessoal, o respeito às diferenças é essencial, sobretudo no mundo de hoje. Eu acho que a chave de tudo é o respeito, porque quando respeita você não agride, você não invade espaço, não causa dano, e quando você não causa dano ao outro também não causa dano a você. Eu acho que há uma vivência comum, saudável, ideal‖135.
Esse traço torna-se relevante, pois o que está em jogo não é, talvez, tanto o ‗ser‘, mas, sobretudo, o ‗diferente‘. E na divisão social do trabalho, o diferente exige outras características na conduta de vida atual: criatividade, elegância, competência, probidade, poder, potencial para se desenvolver e criar. Hoje, são esses valores que avaliam o diferente e servem-lhe de elementos de concorrência no mercado de trabalho.
Ademais, o jovem do depoimento acima afirma as razões pelas quais é possível viver sem a religião:
―Eu acho que uma vez que você tem uma educação básica, você tem seus princípios morais, éticos, culturais, aflorados, tem consciência do que é certo e errado, pode ser um excelente cidadão, consciente, independente de ter religião ou não‖136.
135 Idem.
Uma universitária narra que foi educada em escolas católicas e evangélicas, mas perdeu o vínculo com tais igrejas. Não obstante a tal formação humana, não sente ‗nenhuma simpatia por nenhuma igreja, nenhuma religião‘, embora reconheça que sofreu alguma influência dos valores cristãos, mas depois os abandonou. Justifica-se:
―É muito difícil eu falar que eu estou alheia a esses valores. Meus pais têm uma religião; então, na minha formação, eu fui tendo contato com esses valores morais; e parte deles, eu absorvi; parte, depois, conforme fui crescendo, amadurecendo, eu julguei que não me serviam assim; e eu não concordo e não pratico‖137.
Essa postura significa uma inversão do posicionamento em relação à religião. O que resta do monumental em sua vida é que se apropriou de parte dos valores e outros foram desconsiderados para a vida. Uma perspectiva nietzschiana porque, no presente, ela foi ao passado, percebeu o que existia de grandioso e trouxe para o presente, como fato de criação histórica que iluminará seu futuro existencial.
Nesse caso, o indivíduo afirma-se responsável por si mesmo e não como instrumento ou vaso de Deus. A existência não concedida por meio da vontade divina senão pela vontade de poder, por forças que agem no interior dos corpos. E isso se justifica não em termos religiosos, mas fisiológicos e éticos. Os conteúdos interpretativos e avaliativos da vida não são encontrados numa vontade suprassensível (mundo do além) senão na história da existência.
Para alguns grupos, a salvação depende da religião, enquanto para outros, depende apenas de Deus e, enfim, para outros, os quais pesquisamos, a questão da teodiceia não se coloca na pauta de suas vidas. Existem sem que necessariamente tenham que buscar esse ‗bem religioso‘. Daí haver religiosidades subjetivas diferentes de indivíduos para indivíduos e entre os fundadores de religiões e os leigos. É o que Simmel (2011, p. 70) distingue entre o estado religioso interior das formações sociológicas (igrejas). E outros não revelam aptidões para religião.
O problema que se instala entre fundamentalismo e o ateísmo é o estado de guerra para saber em que lado está o conhecimento da ‗verdade‘ a respeito da existência ou não de Deus. Possivelmente a questão, no século XXI, já não caminhe
nessa direção. Há séculos, esses dois polos confrontaram-se apelando ora para a religião, ora para a ciência, supondo darem respostas plausíveis aos fenômenos.
Todos os argumentos, sejam teológicos, sejam filosóficos e científicos são, de acordo com Nietzsche, meras conjecturas, metáforas, conceitos abstratos, metafísicas, elucubrações mentais para simplesmente afirmar em que lado encontra- se o conhecimento da ‗verdade‘. E, por conseguinte, esquecem-se do homem na terra. É tão-somente por causa deste problema aporético que se assiste a essa guerra secular entre ateus e crentes.
Na Idade Média, com a Escolástica, por exemplo, não poucos filósofos e teólogos ocuparam-se muito das provas sobre a existência de Deus. Depois da questão dos universais (ser, alma, imortalidade, natureza), essas provas tornaram- se temas relevantes nos círculos de debates científicos. O objetivo era formar a síntese de uma possível filosofia cristã. E Santo Anselmo (1033-1109) é um dos fundadores da Escolástica.
Segundo Santo Anselmo, a ‗fé‘ encontra-se no coração humano, e as provas sobre a existência de Deus somente deveriam ser compreendidas na comunidade de fé, e não aos ausentes dela. Parece-nos que Santo Anselmo dá resposta a esse problema, pois quando escreveu as provas138 sugere que não tinha como fim
combater os indivíduos ateus e/ou o ateísmo, como fato histórico, mas, antes, era o seu propósito esclarecer a compreensão intelectual da fé em Deus que os crentes já a possuem.
Então, a ‗fé‘ implica simplesmente a fidelidade do adepto à comunidade dos ‗iguais‘, dos que acreditam numa mesma realidade. Nesse caso, os crentes professam a ‗fé‘ num Deus legitimado por um grupo, por uma comunidade. Conta-se nos Atos dos Apóstolos que a multidão dos primeiros cristãos era ―um só coração e uma só alma‖ (At 4,32). Para os descrentes, isso seria impossível, porque não pertenciam aos mesmos sentimentos da comunidade dos crentes.
De igual forma, quando Platão, Aristóteles e Plotino falam da existência de um deus, cujo sentido em nada coincide com o sentido cristão, não pretendem combater
138Santo Anselmo simplesmente quer refletir a máxima do tolo que afirma que ―Deus não existe‖ (Sl
14). Ou seja, ele quer mostrar que essa negação da existência de Deus é contraditória, uma vez que o tolo a concebe em seu entendimento pela negação. Mas ele não concebe o contraditório porque não acredita também na teoria da verdade, como defendia Santo Agostinho ser Deus a verdade suprema.
aqueles que não acreditam na existência dos deuses ou de um deus, mas para assegurar a unidade entre os indivíduos da comunidade social, protegê-la do caos. E o sentido de ‗fé‘ na Grécia Antiga não ganha a mesma conotação atual, porque não significava disposição interior do homem para os deuses, senão o consentimento para viver em sociedade. A religião tinha por função manter a sociedade coesa.
A Ressurreição de Jesus Cristo, por conseguinte, somente ganha sentido para a comunidade de ‗fé‘ dos seus adeptos. O ‗mundo‘ do qual Jesus fala não implica o ‗mundo‘ do além senão o dos seus seguidores. A dimensão da ‗fé‘ na ressurreição fica restrita tão-somente a esses portadores de religião. Sua eminente volta deve ser compreendida no interior da comunidade e não em relação ao cosmos. Ele voltará sempre aos seus e não, aos outros. Diante desse fato, criou-se uma nova religião.
Depois, a realidade das demais religiões é diversa; elas dispõem também de seus argumentos de provas para manter a comunidade unida em torno do dogma, do rito, das mesmas configurações representativas. Os ateus possuem suas próprias convicções, sejam materiais ou ideais, através das quais mantêm a unidade da comunidade dos descrentes. Os sem-religião, de igual forma, têm suas configurações representativas, pelas quais se mantêm unidos aos outros, porém sem uma conotação ético-religiosa.
A questão histórica foi que os portadores do cristianismo racionalizaram os ensinamentos do seu fundador, cuja consequência correspondeu à formatação de uma religião ‗Católica‘, ‗universal‘, que se autoafirmava ser a única comunidade do mundo. Esse é o problema fundamental. E as provas da existência de Deus, que deveriam ser estendidas apenas à ‗comunidade dos crentes‘, ‗dos escolhidos‘, dos portadores da religião, passaram a expandir-se tomando a dimensão de mundialização com o processo de ocidentalização, através da dilatação da cristandade, dominando outros povos e culturas milenares que também tinham suas religiões, cosmovisões e idiossincrasias morais. E, nesse contexto, o Cristianismo, por meio do seu braço Católico, universalizou-se, tornando-se a religião hegemônica do Ocidente.
A discussão está retornando após quarenta anos do Concílio Vaticano II. Um grupo de estudiosos católicos – liderados pelos franciscanos de Florença-Itália –
reuniu-se em Congresso139 para debater se o Concílio pautou ou não por meio de
uma ‗hermenêutica de ruptura‘ ou de ‗continuidade‘ em relação aos vinte outros concílios anteriores. Diante da questão ―O Vaticano II: é um problema?‖ – Os debatedores colocaram em xeque a autoridade do Concílio por ter sido de caráter pastoral e ecumênico, e não dogmático e disciplinar, pois, historicamente, as decisões dos Concílios foram solenemente definidas e abordavam temas de fé e moral.
Considerando a problemática, os congressistas solicitaram do Papa Bento XVI uma revisão do Concílio, não por ele mesmo, senão pelo auxílio da Tradição do Magistério. E chama-nos a atenção os pressupostos de um dos críticos do Concílio, Pe. Dr. Brunero Gherardini, segundo o qual os temas conciliares ―não envolvem nem infalibilidade, nem definibilidade, no entanto exigem certo respeito, mas não ‗a obediência da fé‘‖ (GHERARDINI, 2010). O teólogo reivindica a reforma do Concílio para resgatar aquilo que refletimos acima: a exclusividade da comunidade dos crentes.
Segundo Gherardini, através de uma visão antropocêntrica, a Igreja abrira a possibilidade de comunhão com os ‗não-crentes‘ (Gaudium et spes n. 91). Isso, para o teólogo, seria impossível porque a Igreja precisa preservar ―seu caráter de sociedade visível e perfeita, da qual fazem parte somente aqueles que a Ela estão vinculados por uma idêntica profissão de fé, pela recepção dos Sacramentos e a submissão aos legítimos pastores‖140 (GHERARDINI, 2010, grifo nosso). E explica:
Enquanto o Magistério anterior dizia que tais fiéis pertencem à Igreja realmente, efetivamente (reapse, em latim), a declaração conciliar Unitatis Redintegratio mudou radicalmente a linguagem, substituindo reapse por uma comunhão plena/não plena, perfeita/imperfeita, incluindo, portanto, na Igreja os ―irmãos separados‖. “A unidade da Igreja (uma de suas características essenciais, segundo a fórmula do Credo) não seria mais ligada substancialmente à mesma fé, aos mesmos Sacramentos e ao Sumo Pontífice, mas tratar-se-ia de uma unidade „ampliada‟, que incluiria na „única Igreja de Cristo‟, a qual
139O Congresso foi realizado nos dias 16 a 18 de dezembro de 2010, em Roma, cujo objetivo foi: ―O
Vaticano II: Um Concílio pastoral. Análise histórica, filosófica, teológica. Congresso de estudos sobre o Concílio Vaticano II, para sua justa hermenêutica à luz da Tradição da Igreja‖. O Congresso teve iniciativa dos Frades Franciscanos da Província da Imaculada de Florença-Itália. (Fonte: http://catholicafides.blogspot.com/2010/12/il-vaticano-ii-e-un-problema.html#comment- form). Acesso em: 02 ago. 2011.
140 GHERARDINI, Pe. Dr. Brunero, Professor da Pontifícia Universidade de Latrão. Conferência no
„subsiste na Igreja Católica‟ (cf. Lumen gentium) também as comunidades eclesiais dotadas de „muitos elementos de santificação e de verdade‘‖ que se encontram fora de sua comunidade141
(GHERARDI, 2010, grifo do original).
Diante dessa observação, podemos afirmar que a ‗fé‘ está no coração dos adeptos de uma religião e que estes estão ligados a uma comunidade dos que professam a mesma fé. Então, exigir converter os que estão fora dela seria desrespeitar a sua liberdade civil; logo, caberia aos sem-religião exigir dos portadores de religiões respeito e tolerância e o reconhecimento de outras disposições existenciais pelas quais esses indivíduos dão sentido subjetivo às suas vidas.
Com efeito, o acontecimento da morte de Deus mudou o comportamento dos indivíduos quanto às religiões, sobretudo, à religião tradicional cristã. Não se está jogando com a existência ou não de Deus. E Nietzsche não estava preocupado em afirmar ou negar a existência de Deus senão mostrar que um tipo de pensamento moral-religioso, assentado no desejo de ‗verdade‘, havia entrado em colapso. Pois o conhecimento tanto por parte da teologia cristã quanto da ciência moderna estava objetivado para a conquista do conhecimento da verdade. Essa disputa pela verdade parece ainda continuar hoje entre o fundamentalismo e ateísmo.
Friedrich Nietzsche, porém, vai além. Segundo ele, o ponto de partida tanto da ciência quanto da teologia tinha sido o mesmo: metáforas, verdades eternas, conceitos abstratos, coisa do além e, por conta disso, a realidade, o homem, a vida, tornaram-se dependentes de tais demonstrações e interpretações metafísicas. Consequentemente, ambos são ‗decadentes‘.
O filósofo, então, propõe um conhecimento cuja perspectiva é a vida para, daí, chegar ao conhecimento da realidade humana. Essa realidade anuncia um indivíduo coberto de impulsos, sentimentos, forças em si mesmo, que precisam ser exploradas na elaboração de uma filosofia e de uma ciência que se deseje ‗modernas‘. Esse pressuposto livraria tanto uma quanto outra das sombras da morte de Deus, que ainda jaz no pretenso objetivo de conhecimento da verdade. E ―A filosofia mesma é crítica e ciência crítica – e nada mais!‖ (BM, “Nós eruditos”, § 210).
Enfim, partindo do que apresentamos acima – uma hierarquia de traços característicos dos indivíduos sem religião e algumas análises teóricas – podemos talvez ensaiar uma compreensão sobre o significado de um indivíduo sem religião.
O que é um indivíduo sem religião?
É um indivíduo com pensamentos e conceitos diferentes do homem com disposição para religião. Ele utiliza-se de valores e interesses do mundo como trajetórias de saídas que se encontram nele mesmo. Não coloca o problema de saber ou não sobre a existência de Deus, pois não se liga a uma religião. Em defesa dos objetivos individuais, é desapegado à família; alguns são solteiros. Esse indivíduo não tem vínculo com algumas tribos e/ou grupos urbanos; mas preocupa- se com o meio ambiente e o destino da sociedade. Ele prima pela qualificação profissional porque pensa em crescer, em ser bem sucedido na vida.
Ademais, o valor maior para sua vida é a educação por meio da qual pode fazer a diferença. Não desiste por causa dos limites. Tem consciência de que o sofrimento é fundamental à existência, dele não pode fugir, mas, na confiança em si, superá-lo. Não está preocupado com questões teleológicas, não existe ‗parada‘ para pensar em algo ‗supra-humano‘. Nos instantes de ‗saída‘ da normalidade, suas atividades prediletas são namorar, ouvir música, ir ao cinema, ao teatro e ao museu, ver artes, viajar. O êxtase é dado pelos instantes: percepção do mundo, da arte, da