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Com o avanço das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), a sociedade atual vive um processo de mudança no seu comportamento (ALAVI e LEIDNER, 2001).

Segundo Aguiar (2007), um dos mais significativos avanços nesse processo foi o surgimento da Internet que resultou numa arquitetura de rede descentralizada e composta por computadores em rede autônomos com diversas formas de conexão. Sobre a Internet, Takahashi (2000) comenta:

Como típico produto da era da Guerra Fria, a tecnologia gerada incorporou algumas características interessantes do ponto de vista militar, tais como: ausência de nodo central; flexibilidade arquitetural; redundância de conexões e funções; capacidade de reconfiguração dinâmica; etc. (TAKAHASHI, 2000, p. 133).

Os avanços das telecomunicações, através da utilização de fibras óticas e equipamentos capazes de comprimir e transmitir dados a altas velocidades, possibilitaram o funcionamento dos computadores em rede e transformaram o processamento e armazenamento de dados centralizados em sistema compartilhados e interativos. Castells (2005) afirma que a estrutura dos meios de comunicação na arquitetura de rede, na cultura de seus usuários e nos modelos reais de comunicação, foi adaptada no processo de formação e difusão da Internet.

Castells (2005) define as características do paradigma destas tecnologias da informação:

• a informação é a matéria prima fundamental - são utilizadas tecnologias para atuar sobre a informação e não apenas informação para agir sobre a tecnologia, já que o usuário pode acessar e selecionar informações de acordo com seus interesses;

• a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias - o processamento de informação torna-se presente em todos os domínios do sistema social, transformando-o;

• a lógica de redes de informação - morfologia adaptada à crescente complexidade das interações e a modelos imprevisíveis de desenvolvimento, favorecendo as trocas de dados e conteúdos em tempo real;

• a flexibilidade - a capacidade de reconfiguração constante, permitindo a modificação do sistema através da reorganização dos componentes;

• a convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, com a aproximação de diversas áreas do saber como a microeletrônica, ciência da informação e telecomunicações.

Sendo assim, a revolução tecnológica caracteriza-se pela aplicação de informações para a geração de novos conhecimentos e de equipamentos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo virtuoso de realimentação entre a inovação e seu uso.

O impacto da revolução na TIC pode ser comparado àquele provocado pela Revolução Industrial, quando ocorreu a mudança do modo agrário para o modelo industrial de desenvolvimento, provocando uma ruptura nas bases da economia, sociedade e cultura. Esse avanço tecnológico provoca não apenas uma mudança no processo produtivo, mas também uma transformação nos direitos, comportamentos e participação popular, para estabelecer a chamada sociedade da informação (CASTELLS, 2005).

Três elementos puderam alinhavar a introdução da Sociedade da Informação, quais sejam, a reestruturação produtiva, a partir de um possível esgotamento do modelo capitalista no período pós segunda guerra mundial; a evolução tecnológica, criando meios para que determinados conhecimentos pudessem ser reproduzidos; e a reorganização política, definida pela guerra fria após a segunda guerra mundial, e o uso da informação e da tecnologia pelo governo norte-americano para garantir sua supremacia, sendo o Estado, e não o particular, o empreendedor de inovações, aquele que iniciou a revolução da tecnologia da informação (OLIVEIRA e BAZI, 2008). A função do Estado é um fator crucial no processo geral, à

medida que expressa e organiza as forças sociais dominantes, seja obstruindo, seja promovendo, seja conduzindo a inovação tecnológica (CASTELLS, 2005).

Assmann (2005) define a sociedade da informação como aquela que está se constituindo, na qual são amplamente utilizadas tecnologias de armazenamento e transmissão de dados e informações de baixo custo. Oliveira e Bazi (2008, p. 117) destacam que esta nova definição de sociedade “foi criada neste cenário essencialmente pós-moderno, informático, onde o indivíduo percebe uma certa angústia diante do impacto gerado pela velocidade com que a tecnologia tem evoluído e disponibilizado a informação”.

Com relação a estes volumes e velocidades das informações disponíveis, Velloso (2011) argumenta que os sujeitos sociais demandam uma mobilização de habilidades e competências para lidar com a informação, com o intuito de promover a construção do conhecimento. O autor complementa indicando que este ambiente social alterna categorias não excludentes, como sociedade da informação e sociedade do conhecimento, como dimensões de imprecisos contornos, que se fundem e confundem-se.

Segundo Oliveira e Bazi (2008), a sociedade pós-capitalista, a sociedade da informação e sociedade do conhecimento, termos surgidos na década de 1990, possuem histórias que se confundem e que convergem para elementos definidores de uma nova relação entre homem, máquina e conhecimento. Peter Drucker definiu a nova sociedade, através de uma ruptura com os formatos de até então, como pós-capitalista ou sociedade em rede, que não seria nem capitalista nem socialista, onde o conhecimento, comunicado através das TIC, seria a peça central da engrenagem e um fator gerador de riqueza (AMARAL, 2006). Drucker acreditava que o conhecimento, mais do que o capital ou o trabalho, é o único recurso econômico expressivo da sociedade pós-capitalista (CHOO, 2006).

Sociedade da Informação foi o termo adotado pelo governo norte-americano, assim como por várias agências das Nações Unidas e pelo Banco Mundial, tornando-se uma das nomenclaturas mais aceitas e propagadas na atualidade para definir a sociedade baseada na economia informacional (DZIEKANIAK e ROVER, 2011). Burch (2005) defende que tal conceito foi empregado como construção política e ideológica e se desenvolveu das mãos da globalização neoliberal, cuja principal meta foi acelerar a instauração de um mercado mundial aberto e “autorregulado”.

Dziekaniak e Rover (2011) estabelecem a dualidade da informação, onde por um lado possui o condão de aumentar as desigualdades sociais, por se tornar a mola propulsora do capitalismo; e por outro lado, escapa ao mando das potências econômicas, a partir das potencialidades ofertadas pelo desenvolvimento das TIC, através das quais a informação adquire força própria, se dissipando no ciberespaço, sem possibilidade de controle, proporcionando uma consciência maior e mais pluralista.

No fim da década de 90, surgiu a noção de Sociedade do Conhecimento, termo utilizado particularmente pelos meios acadêmicos, incorporando uma concepção mais integral, não apenas ligada à dimensão econômica (BURCH, 2005).

Burch (2005) apresenta uma diferenciação nas definições que visam a caracterizar uma realidade existente ou emergente (Sociedade da Informação) daquelas que expressam uma visão de uma sociedade potencial (Sociedade do Conhecimento). Neste sentido, cita Abdul Waheed Khan (subdiretor-geral da UNESCO para Comunicação e Informação), que considera que a Sociedade da Informação, cujo conceito está relacionado à ideia da inovação tecnológica, é a pedra angular das sociedades do conhecimento, que inclui uma dimensão de transformação social, cultural, econômica, política e institucional, assim como uma perspectiva mais pluralista e de desenvolvimento. Dziekaniak e Rover (2011) detalham as características que apontam as diferenças entre sociedade da informação e sociedade do conhecimento, conforme quadro a seguir:

Quadro 1 - Comparativo das características que definem a Sociedade da Informação e a Sociedade do Conhecimento

Sociedade da Informação Sociedade do conhecimento

Termo de cunho mercadológico e

econômico. Termo de cunho social e acadêmico.

Destaque no termo Informação e nas tecnologias que a efetivam e não no termo sociedade.

Destaque para o termo sociedade muito mais do que para o termo informação ou conhecimento.

Os portadores do conhecimento seriam os

membros das classes dominantes. Os portadores, detentores e gestores do conhecimento seriam a sociedade como um todo: saber compartilhado.

Tecnologia e informação como forma de garantir a hegemonia e manutenção dos lucros.

TI a serviço da sociedade, como forma de potencializar a melhora na qualidade de vida e na geração de autonomia.

Foco na tecnologia, na transmissão de dados e espaços de armazenagem.

Foco na ideologia de uma sociedade mais igualitária e justa. Centrada nas pessoas e no reuso do conhecimento.

A partir da análise do quadro supra, torna-se preferível o conceito de sociedade do conhecimento, já que expressa melhor a complexidade e o dinamismo das mudanças que estão ocorrendo, ao conceito de sociedade da informação, onde as revoluções tecnológicas serão as que determinam o rumo do desenvolvimento, não sendo o mais adequado para qualificar as novas tendências das sociedades e nem para descrever um projeto contra hegemônico de sociedade (BURCH, 2005).

Entretanto, Gadotti (2000, p. 6) alerta que “o que se constata é a predominância da difusão de dados e informações e não de conhecimentos”, indicando que a era do conhecimento ainda não foi iniciada. Neste contexto, Duarte (2008) questiona se a sociedade do conhecimento seria uma sociedade pós-capitalista ou apenas uma fase da sociedade capitalista. O autor reconhece que o capitalismo do final do século XX e início do século XXI passa por mudanças, podendo se considerar uma nova fase do capitalismo, não significando, no entanto, que a essência da sociedade capitalista tenha se alterado ou se tornado uma sociedade totalmente nova, que pudesse ser denominada de sociedade do conhecimento.

Duarte (2008) considera que, a assim chamada sociedade do conhecimento, seria uma ideologia produzida pelo capitalismo, com o objetivo de enfraquecer as críticas mais radicais ao regime, gerando a crença de que a luta por uma revolução, que leve à superação radical do sistema capitalista, teria sido ultrapassada pela preocupação com outras questões, tais como a questão da ética na política, a defesa dos direitos do cidadão ou a consciência ecológica. Destaca que seria uma ilusão considerar que “o conhecimento nunca esteve tão acessível como hoje, isto é, vivemos numa sociedade na qual o acesso ao conhecimento foi amplamente democratizado pelos meios de comunicação, pela informática, pela Internet, etc.” (DUARTE, 2008, p. 15).

Neste sentido, Souza (2011, p. 225) complementa, ao afirmar que “a sociedade da informação e do conhecimento, sob o capitalismo, não será igual para todos, sendo reservada para as classes trabalhadoras sua dimensão pragmática e utilitarista, expressa nas habilidades e competências para a empregabilidade”.

Ademais, existe grande parcela da população que não estão conectadas aos sistemas da TIC, o que representa uma nova forma de desigualdade social. Quevedo (2006 apud MACIEL, 2007) destaca que as novas tecnologias transformam o modo de como as coisas são feitas, mas não modificam as relações de origem de uma sociedade desigual e competitiva. Ou seja, “a

difusão diferenciada das novas tecnologias, quando não reforça, repete os padrões de exclusão social presentes em sociedades com profundas diferenciações distributivas” (BESSA, NERY e TERCI, 2003, p. 4). Albagli (2007) destaca que deve ser feita a distinção entre acesso à informação, acesso à tecnologia e acesso ao conhecimento, enquanto questiona se o acesso a equipamentos de informática garante maior acesso a informações e conhecimentos.

Desta forma, Takahashi (2000) defende que a universalização dos serviços da TIC é condição fundamental, mas não exclusiva, para a inserção dos indivíduos como cidadãos desta nova sociedade. E complementa: “o conceito de universalização deve abranger também o de democratização, pois não se trata tão somente de tornar disponíveis os meios de acesso e de capacitar os indivíduos para tornarem-se usuários dos serviços de Internet” (TAKAHASHI, 2000, p. 31). Ou seja, ter acesso e saber usar computadores e Internet, não significa que o indivíduo tenha domínio destas ferramentas e que saiba explorar suas potencialidades, produzindo novos conhecimentos (SOUZA, 2011). Sassen (2006 apud MACIEL, 2007) considera uma espécie de “brutalismo tecnológico” o fato de estabelecer que a tecnologia ajude o desenvolvimento porque se proporciona o acesso a ela (conectividade) e se ensina sua utilização.

Sendo assim, deve-se permitir que as pessoas atuem como provedores ativos dos conteúdos que circulam na rede, proporcionando os meios para que os cidadãos sejam mais que usuários de recursos tecnológicos portadores de informações (VELLOSO, 2011), como também que os capacite para a utilização dessas mídias em favor dos interesses e necessidades individuais, com responsabilidade e senso de cidadania. Desta forma, promover a universalização de serviços significa “conceber soluções e promover ações que envolvam desde a ampliação e melhoria da infraestrutura de acesso até a formação do cidadão, para que este, informado e consciente, possa utilizar os serviços disponíveis na rede” (TAKAHASHI, 2000, p. 31).

Desta forma, Takahashi (2000) considera a educação como fator essencial na constituição de uma sociedade baseada na informação, no conhecimento e no aprendizado. O autor trata da educação no contexto da nova ordem social ao esclarecer que:

educar em uma sociedade da informação significa muito mais que treinar as pessoas para o uso das tecnologias de informação e comunicação: trata-se de investir na criação de competências suficientemente amplas que lhes permitam ter uma atuação efetiva na produção de bens e serviços, tomar decisões fundamentadas no conhecimento, operar com fluência os novos meios e ferramentas em seu trabalho, bem como aplicar criativamente as

novas mídias, seja em usos simples e rotineiros, seja em aplicações mais sofisticadas. Trata-se também de formar os indivíduos para “aprender a aprender”, de modo a serem capazes de lidar positivamente com a contínua e acelerada transformação da base tecnológica. (TAKAHASHI, 2000, p. 45).

Pensar em educação exige considerar o papel que as TIC desempenham na construção de uma sociedade que priorize inclusão e justiça social, o que pressupõe cidadania. Isto posto, observa-se que as TIC devem ser utilizadas para democratizar os processos sociais, para fomentar a transparência de políticas públicas e para incentivar a mobilização dos cidadãos a participar do processo.

Por fim, Takahashi (2000) credita ao governo a principal influência na geração de ações estratégicas rumo à sociedade do conhecimento. Justifica ao argumentar que, em primeiro lugar, o governo é o responsável na definição da regulamentação a ser utilizada nos projetos e iniciativas concretas. Em segundo lugar, o governo é o maior consumidor de bens e serviços relativos à implantação de TIC, o que provoca sua atuação no mercado e no apoio a uma política industrial associada a essas tecnologias. Por último, o governo, ao utilizar as TIC em suas atividades, pode acelerar o uso dessas tecnologias em toda a economia, em função da maior eficiência e transparência de suas próprias ações.

Benzer Belgeler