Como vimos discutindo, a Análise Conversacional stricto sensu assume que as práticas dos locutores organizam-se de modo localmente situado, são necessariamente indexadas ao contexto e se ajustam às contingências que afetam os eventos, contribuindo reflexivamente para (re)definir o contexto (Gülich & Mondada, 2001: 199). Ao assumir tam- bém os princípios da temporalidade e da seqüencialidade das atividades lingüístico- interacionais, essa corrente analítica aborda dados que permitam documentar a emergên- cia e o desdobramento das práticas dos interactantes, observando as suas atividades em acontecimentos da vida social ordinária. Para lidar com essas características dinâmicas da fala-em-interação – indexicalidade, contingencialidade, reflexividade, temporalidade, seqüencialidade, emergencialidade – o analista conversacional stricto sensu precisa tra- balhar com dados naturais, uma vez que ele não sabe de antemão os modos como esses ou outros efeitos irão aparecer. Os naturally occurring data são “interações que ocorreri- am mesmo na ausência do pesquisador e que não foram elicitadas ou orquestradas por ele, para os fins do registro” (Mondada, 2005e: 77).
Os registros em vídeo ou mesmo em áudio de naturally occurring data são ferramentas importantes porque registros gravados, particularmente em vídeo, preser- vam com vantagem vários aspectos que vão configurar o que ocorre no evento, os modos como os participantes realizam a sua condução, o seu contexto de ocorrência. Diante do objetivo de analisar os procedimentos dos locutores na realiza- ção ordenada e reconhecível de uma atividade social, o analista conversacional stricto sensu precisa implementar um detalhado e repetido escrutínio de segmentos da fala- em-interação. Os registros em vídeo ou áudio favorecem a acuidade exigida por esse trabalho, uma vez que permitem a visualização e/ou a escuta do evento, por parte do analista, tantas vezes ele necessite, além de possibilitar que outros pesquisadores desenvolvam suas próprias análises, visualizando e/ou escutando o evento repetidas vezes (Gülich & Mondada, 2001: 202; Mondada, No prelo).
4.2.1 Os dados primários de primeira ordem: vantagens e limitações do regis- tro em vídeo
Nos registros em vídeo, particularmente, perdas relativas àquilo que ocorre ao longo da interação tendem a ser menores e menos comprometedoras do que aque- las observadas em outros tipos de coleções de dados. Ainda assim, o recurso do vídeo encerra limitações e/ou interferências relacionadas às injunções tecnológicas, às pos- sibilidades e às escolhas feitas pelo pesquisador e/ou pelo operador da câmera, como também à sensibilidade dos participantes do evento ao aparato tecnológico utilizado para o registro.
Quanto a essa sensibilidade, na minha experiência de campo pude observar que os participantes de atividades que são corriqueiras para eles ou que não foram especialmente formatadas em função dos objetivos específicos de uma pesquisa ha- bituam-se à câmera à medida em que vão se engajando na atividade. Isto tende a ocorrer ainda mais rápido se não há um operador atrás da câmera, como também atestam Jordan & Henderson (1995: 55). Com efeito, diante de uma filmadora os par- ticipantes tendem a dar continuidade aos afazeres nos quais estão engajados, sem fazer, por exemplo, as tradicionais poses demandadas pelo registro instantâneo de uma máquina fotográfica.
Ao escolher o registro em vídeo, o pesquisador deve considerar as marcas que os usos e/ou as disponibilidades e indisponibilidades dos recursos tecnológicos podem impor ao processo de obtenção de dados naturais. O pesquisador deve consi- derar, ainda, a sua própria inserção ou a sua ausência no evento registrado. Dessa maneira, há que se reconhecer a consistência daquilo que Jordan & Henderson (1995:51) denominam o viés do pesquisador e o viés da máquina, no processo de obtenção dos dados. Além disso, deve ser considerado também o viés dos sujeitos observados, decorrente das interações efetivas dos participantes entre si e, em alguns casos, com o pesquisador.
Esses vieses podem dizer respeito à definição da quantidade de câmeras para registrar o evento, à colocação dela(s) em um ou mais pontos fixos, à movimen- tação da câmera, ao longo da atividade registrada, dentre outras possibilidades. A escolha do(s) objeto(s) a ser(em) focado(s), o ajuste do foco em termos de ângulos mais ou menos abertos ou fechados, a definição do nível de captação da banda sono- ra, a utilização ou não de luz natural ou artificial também são dignos de reflexão quanto ao seu papel na interação registrada.
A assunção desses vieses, dessas contingências inevitáveis no trabalho do cientista é o que leva Mondada (1988b) a discutir a idéia de uma fabricação dos dados, em oposição a uma coleta de dados. O reconhecimento desses vieses corresponde exatamente à opção pela objetividade entre parênteses, postulada pela Biologia do Conhecer. Poderíamos discutir aqui, como o fez Rorty (1994), a pertinência de se insistir nessa denominação, uma vez assumida a impossibilidade de, constitutivamente, distinguirmos entre aquilo que é “fabricado” e o que seria “ achado”. No entanto, para efeitos deste trabalho, estou assumindo o vocabulário técnico e analítico da Análise Conversacional stricto sensu, que me oferece um aparato suficientemente significativo para minha compreensão de interações conversacionais da comunidade dos Tipis.
As escolhas relacionadas ao processo de constituição dos objetos de análi- se irão determinar quem e o que é ou não visível e/ou audível, delimitando o leque de possibilidades analíticas presentes nesses dados, uma vez que aquilo que não foi
capturado no registro torna-se indisponível para o analista. O registro em vídeo é visto, então, como “um método que transforma o mundo vivido e real das atividades das pessoas e as experiências conjuntas em dados de um certo tipo” (Jordan & Henderson, 1995:53).
Além de influenciar as escolhas do analista, aspectos relativos àquilo que é ou não significativo para a pesquisa como um todo ou para uma peculiaridade dela influenciam, conseqüentemente, o tipo de registro produzido. Uma configuração de tais aspectos pode resultar, por exemplo, de um trabalho etnográfico que forneça infor- mações tecnicamente úteis sobre o evento que se deseja registrar – sua duração aproximada, o ambiente onde ocorre, possíveis movimentações dos participantes. Ela pode decorrer também do desenvolvimento mesmo da pesquisa, podendo, ainda, es- tar perpassada por vieses pessoais e culturais dos atores envolvidos na interação.
Possíveis deficiências resultantes das interferências do pesquisador, dos sujeitos observados e da tecnologia podem ser remediadas com a experiência na pesquisa específica, incluindo um detalhamento etnográfico do evento que se está regis- trando12. Contudo é importante ter sempre em vista que cada evento é único, contingente
com o seu próprio curso. Assim, aquilo que é recursivo entre um e outro evento não implica em uma repetição estrita dos modos específicos de distribuir os turnos; compre- ender as mensagens; atrair, manter e exibir a atenção dos outros participantes; alocar oportunidades para participar da interação; tornar partes distintas da fala coerentes com outras partes em seqüência; lidar com problemas na fala ou ignorá-los; identificar ou ser identificado no curso da ação; construir unidades e categorias do discurso e outros obje- tos de saber.
4.2.2 Contexto do registro e contexto da análise: distinções úteis
A escolha do registro em vídeo sugere, ainda, uma consideração teórico- metodológica relativa a diferenças entre o contexto do registro e o contexto da análise ou entre o registro e o evento enquanto uma experiência dos participantes.
Aquilo que o analista pode ver e/ou ouvir, através do registro, pode coincidir ou não com aquilo que os participantes viram e/ou ouviram durante o evento. Dentre as possíveis diferenças entre os modos como participantes experimentam o evento e aquilo que está disponível no registro, há elementos do ambiente físico, por exemplo, que podem, contingencial e eventualmente, ser constituídos enquanto contexto e que esca- pam às possibilidades de serem registrados por um gravador ou por uma câmera, como é o caso de odores ambientais.
12 Jordan & Henderson (1995: 51) oferecem um exemplo de adequação metodológica, em função de interesses analíticos.
Como Jordan & Henderson (1995: 49) informam, pesquisadores da Análise da Interação (Interaction Analysis) realizam sessões nas quais os participantes de um evento registrado vêem o vídeo e elicitam informações detalhadas sobre ações e as- pectos obscuros para os analistas. Essa prática é justificada como uma tentativa de integrar, na análise dos registros, a perspectiva dos participantes, sua visão do mundo, que pode contrastar substancialmente com a visão do analista.
A justificativa da Análise da Interação para as video review sessions suscita uma divergência com a Análise Conversacional stricto sensu, uma vez que, a partir de um olhar não informado por questões prévias, essa corrente busca descrever a ordem social construída na atividade local dos locutores, voltando-se para o que é “observável, mas não imaginável”, “os detalhes da conversa, pelos quais os membros se orientam, sem se darem conta deles”(Gülich & Mondada: 2001:201).
A definição do objeto de estudo em termos dos procedimentos dos locuto- res na realização ordenada e reconhecível das atividades sociais nas quais estão engajados e a atenção à dimensão êmica tanto da fala-em-interação quanto da análi- se fazem com que a Análise Conversacional stricto sensu considere que descrições de um evento feitas pelo pesquisador ou mesmo um relato dessa atividade, feito pelos participantes que a protagonizaram, constituem outras práticas, já diferenciadas das práticas descritas ou relatadas. Essa corrente analítica considera que transpor uma prática social para um outro contexto significa alterá-la radicalmente, uma vez que ela se ajusta a outras contingências, por exemplo, aquelas relacionadas às atividades de anotar ou relatar um evento já ocorrido.