A seguir procuramos descrever muito brevemente a organização social apresentada pelos Jê meridionais, a fim de considerar suas principais formas de articulação de alianças e conflitos entre si e com outras sociedades. Neste primeiro capítulo buscamos informações sobre estes grupos em contato com as sociedades ibéricas, descritos por contemporâneos bem como por historiadores e memorialistas, durante primeiras investidas de conquista e ocupação. Uma análise mais profunda sobre a organização social e políticas praticadas pelos Jê e seus desdobramentos em suas relações com outras populações, serão objeto de análise no terceiro capítulo.
Através dos contatos originados pela ocupação ibérica em diversas formas, os nativos do planalto foram denominados com várias designações, como guaianá, no século XVI, por pinarés e caáguas, durante os séculos XVII e XVIII. Durante o século XIX, esses nativos passaram a serem correntemente denominados de coroados, bugres e
botocudos26. Estas designações, e outras, foram formuladas especialmente pelos seus vizinhos guarani, através dos quais os agentes da civilização ocidental as utilizavam para denominar os grupos Jê.
Entre as décadas de 1860 e 1870, estes nativos passaram a ser nomeados como “Caengang” e “Caingang” em referências documentadas em escritos de viajantes e funcionários, conforme o nome com o qual os próprios índios designavam-se. Assim, estas populações Jês meridionais foram modernamente agrupadas sob a designação kaingáng ou Cayngang, conforme grafia do século XIX. Entretanto, há discussões sobre o etnônimo kaingáng que indicam uma pluralidade social mais complexa. Através da análise da organização social kaingáng, Juracilda Veiga (1994) argumenta que Telêmaco Borba (Borba, [1882], 1908) 27 erroneamente utilizava o termo kaingáng para o povo todo. Para a autora, o termo poderia determinar um dos grupos que compõe o povo.
Um erro de Borba foi, talvez, propor o termo Kaingáng (Caygang) como denominação genérica ou autodenominação do povo todo. O termo, hoje
difundido entre eles próprios, é assumido com o significado de “índio” e
poderia ser atribuído, conforme o mito, a uma ou algumas das
“parcialidades” que, através de aliança, compõe o povo” (Veiga, 1994, p.68).
Os estudos etnográficos permitem correlacionar os habitantes Jê do Planalto Meridional ao mesmo grupo linguístico e cultural, com diferenças dialetais, trabalhando com a ideia de uma ampla nação Jê meridional, mas com grupos politicamente independentes entre si. Atualmente, segundo os estudos etnográficos, os kaingáng expressam-se através de cinco dialetos entre São Paulo e o Rio Grande do Sul.
Contudo, estas análises referem o grupo familiar doméstico como base das alianças dentro das aldeias e entre estas (Fernandes, 2003; Tommasino, 1995). Estas alianças eram formadas através de matrimônios ou alianças puramente políticas em tempos de guerra. Os estudos argumentam a existência de relações de reciprocidade entre aldeias kaingáng, mas também de rivalidades e conflitos entre as mesmas.
26 O gentílico guainá era utilizado de forma bastante generalizada para aqueles grupos habitantes das
serras, identificando-os aos tapuias. Durante o século XIX, no Rio Grande do Sul, o termo bugre era utilizado de forma a distinguir os indígenas entre selvagens e mansos; para von Ihering, “os Bugres não são, pois, uma nação, mas a designação coletiva para os Coroados, os Botocudos e outros índios isolados da mata” (Ihering, 1895, p. 111).
27 Telêmaco Morosines Borba atuou por dez anos como Diretor do Aldeamento Indígena de São Pedro de
Alcântara, no baixo Tibagi, no Paraná, a partir de 1863. Depois, dirigiu um aldeamento de guaranis no Paranapanema e fundou o Toldo de Queimadas. Publicou vários artigos, reunindo-os em sua obra Actualidade indígena, publicada em 1908.
Também as disputas por recursos do território com os “botocudos” e guaranis foram observadas através de análises etnológicas.
Alguns autores acreditam que grupos kaingáng voltaram a ocupar a região sudoeste do Paraná quando da transmigração dos sobreviventes dos ataques às reduções do Guairá para a outra margem do rio Paraná, nas primeiras décadas do século XVII. Para o período inicial da constituição de uma bibliografia sobre os kaingáng, a correlação entre as populações Proto-Jê e os guaianá ou kaingáng ainda estava sujeita a considerações. Observando apenas relatos e crônicas coloniais, autores como Antonio Serrano e João Jacques afirmam que estes grupos teriam migrado para a região do Rio Grande do Sul entre meados do século XVIII e início do XIX, fugindo à colonização lusa, já efetiva nos sertões de São Paulo (Jacques, [1912], 1957, p. 65). Assim, alguns autores acreditam em um crescimento da ocupação dos vales dos grandes rios e a encosta florestada do planalto por indígenas kaingáng a partir do século XVII.
À medida que a colonização portuguesa pressionava grupos nativos através do crescente povoamento do interior do Planalto Meridional a partir de São Paulo e das áreas mais próximas já ocupadas nas regiões litorâneas, situações de migração ocorriam, gerando conflitos entre diferentes populações (Noelli, 2000).
A ampla comunicabilidade entre os diversos grupos kaingáng habitantes do Planalto Meridional permite pensar que os grupos que estavam entrando em contato com os exploradores e povoadores vindos de Guarapuava e Palmas, tinham conhecimento das articulações ali desenvolvidas, e podiam, a partir disso, repensar estratégias com relação ao aldeamento, talvez, preferindo manter relações informais com fazendeiros e exploradores locais às relações formais com o estado.
Entretanto, o argumento da migração dos kaingáng devido à ocupação lusa foi usado por escritores gaúchos como a justificativa mesma de sua ocupação em território da província sulina. Estas migrações que ocorreram, porém não foram a causa do povoamento kaingáng no estado, visto que outros grupos kaingáng, ou Jê meridionais, já habitavam este território antes daquele período de ocupação.
Em seus estudos sobre os kaingáng, Ítala Becker reconheceu a existência de pelo menos três grandes chefes kaingáng no Rio Grande do Sul: Fongue, Nonoai e Braga. Estes grupos estariam no Estado desde pelo menos as décadas finais do século XVIII. Estes chefes comporiam, grosso modo, os aldeamentos da Guarita, de Nonoai e do Campo-do-Meio, respectivamente (Becker, 1976, p.45). A autora entende que os grupos
kaingáng do século XIX estavam “grandemente aculturados, mas não assimilados”, devido ao seu entrosamento em atividades de exploração econômica de modo coercitivo ou, por outro lado, fugaz.
O tema da confederação kaingáng aparece em diversos momentos durante o século XIX, como entre os anos de 1810 a 1812 e entre as décadas de 1840 a 1850, exatamente relacionadas a momentos de grande violência da conquista. A união de diversos toldos ou aldeias nativas parece ser uma constante. A conquista e a ocupação pela sociedade escravocrata provavelmente contribuíram para a aliança política entre os grupos e para o acirramento, ou abuso do rapto e cativeiro, inscritos nesta organização social kaingáng, uma vez que a esta característica social agregou-se a prática da venda de escravos, claramente em reflexo à escravidão, tanto àquela por eles próprios vivenciada, como pela organização geral da sociedade regional.
Por sua vez, Herbert Baldus estando na aldeia das Lontras no Paraná, argumenta que “Os Kaingángs de Palmas asseguram que seu território atual entre os rios Iguassú e Uruguai, em cujo centro está a cidadezinha de Palmas, foi sempre a sua pátria” (Baldus, 1979, p. 30). Para aqueles índios habitantes nas proximidades de Palmas, seu território era aquele. Recorrendo a informações históricas, Bartomeu Melià amplia a argumentação afirmando que os grupos Jê existentes nos planaltos dos três estados meridionais os habitaram continuamente desde ao menos desde o século XVIII: “O interior dos atuais estados do Paraná, Santa Catarina e o planalto rio-grandense continuaram sendo durante o século XVIII e inícios do século XIX, terra de índios” (Melià, 1985, p.176).
Assim, os movimentos migratórios decorrentes das expedições de apresamento dos povoadores ocorreriam para diversas direções, e não apenas a partir da região de São Paulo nas direções sul e oeste. Documentos jesuíticos do século XVII informam a existência de diversos e muitos grupos falantes de idiomas diversos do guarani, tratando-se de grupos Jê meridionais. Durante o século XIX, os documentos da administração oficial da Província de São Pedro do Sul, bem como outros registros, informam a grande mobilidade dos nativos kaingáng entre os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, reforçando o argumento de comunicabilidade entre os grupos Jê habitantes do Planalto Meridional.
O Planalto Meridional, composto por campos entremeados de bosques, estava habitado por populações kaingáng e xokleng, sendo, igualmente, considerado excelente local para invernadas de gado e o estabelecimento de fazendas pelos colonizadores.
Deve-se também considerar que, além desses pontos de invernada de tropas, a região do planalto apresentava-se povoada por populações mestiças originárias das migrações portuguesas do século XVII. Assim, a área, apesar de dilatada, encontrava-se já sob tensão, com diferentes grupos, os quais tinham suas próprias motivações para a exploração do meio ambiente.
Conforme o historiador Luis Henrique Torres, o nativo kaingáng será visto pela sociedade em geral e por escritores como um empecilho ao progresso e perigoso aos colonos. Comentando sobre a construção historiográfica do passado sulino elaborada pela “corrente lusitana”, afirma que esta linha historiográfica entendia o índio em oposição à construção do mundo luso, uma vez que esta se preocupava em anular a influência missioneira em nossa formação histórica, marcando, assim, forte depreciação das populações nativas:
A linha condutora dos trabalhos está orientada pelo pressuposto de um Rio Grande do Sul que se constitui na lusitanidade. O indígena, [...] será quase sempre visto como um intruso que atrapalha a ocupação das terras e a colonização. [...] Em abordagens diferenciadas, os autores não acreditam em uma participação ativa do índio em nossa formação (Torres, 1990, p. 103).
A construção da ideia de um espaço vazio pela historiografia regional, especialmente pela historiografia tradicional, que consagrou os entendimentos sobre as diversas populações nativas com base na perspectiva evolutiva eurocêntrica, para os chamados “Campos de Cima da Serra”, área geográfica que compreende parte do Rio Grande do Sul, mas também dos atuais estados de Santa Catarina e do Paraná, como as “Lages” e “Curitibanos”. Artur Barcelos e Adriana Fraga analisaram a construção da noção de “terra de ninguém” para territórios caracterizados como espaços sem qualquer organização política e econômica e sem ocupação branca, “ou mesmo sem ocupação humana” (Barcelos e Fraga, 2011, p. 64). Esta noção esteve baseada nas apreciações dos missionários jesuítas e nas suas diferenciações entre os guarani e os selvagens ou bugres, e acabou sendo cristalizada pela historiografia tradicional regional. Esta noção, entretanto, contrasta com a postura da historiografia local que procura buscar as origens mais remotas do povoamento de suas regiões ou municípios, inclusive relatando ocupações indígenas, não sem o uso de uma perspectiva etnocêntrica, mas refletem estes “estágios” da ocupação humana, e deixam relatadas histórias bem particulares dos contatos entre novos moradores e nativos, muitas vezes através da memória local. Para o caso do extenso município de Passo Fundo, exemplos são Antonino Xavier de
Oliveira, que publicou obras sobre a história do município a partir de 1909, até o historiador Ney d’Àvila, que publicou no final da década de 1980.
Em 1844 o Pe. Sató estava percorrendo povoações da Serra, próximo a Vacaria, como o objetivo de dar missão nos povoados, e através deste serviço ouviu histórias sobre os nativos “selvagens” do lugar:
Estos campos [...]. Por todas partes están rodeados de densos bosques, en todos los cuales, como le decía arriba, hay indios que los habitan. Entre otros hay dos naciones de un carácter muy bravo y salvaje: a unos dan el nombre de botocudos, [...] a los otros llaman coronados, [...]. Estas dos naciones son enemigas declaradas y están en permanente guerra [...] porque aquellos campos están casi despoblados, y sus pocos moradores distantes algunas leguas unos de otros (Carta de 17/07/1844 do P. Sató ao P. Antonio Morey. In: Pérez, 1905, p. 366).
O padre fazia referência a duas nações distintas de “selvagens” – coroados e botocudos – que habitavam a região da Serra, os “Campos de Cima da Serra”, indicando rivalidades entre os mesmos, uma vez que partilhavam territórios próximos. Na opinião geral dos moradores, a existência destas populações seria a causa para o fugaz povoamento ocidental. Os chamados botocudos ou xokleng, assim como os kaingáng, também praticaram assaltos a fazendas no nordeste do estado, em fins do século XVIII, antes de diversos grupos serem expulsos para Santa Catarina e lá terem sofrido com a guerra ordenada pelo rei D. João VI no início do século XIX, além de constantes ataques de corpos civis com o prosseguimento do processo de ocupação28. Conforme Manuela Carneiro da Cunha, a adoção dessa política acabou liberando os territórios limítrofes entre as províncias de Santa Catarina e de São Pedro do Sul à colonização europeia (Cunha, 1995, p.137).
Na década de 1840, na Província do Paraná, os campos de Guarapuava e Palmas estavam conquistados, significando o domínio de grande parte dos campos da zona central da mesma província. As áreas ”livres” para os kaingáng eram as regiões noroeste, até os rios Paranapanema, Ivaí e Tibagi, e, ao sul de Palmas, as matas do Vale do rio Uruguai. Alguns grupos indígenas continuaram em Guarapuava e Palmas após sua conquista; isto ocorreu porque, apesar de serem expedições de guerra, houve a possibilidade de estabelecerem-se contatos “pacíficos” com os índios, o que se revelava muito vantajoso aos conquistadores (Mota, 1994, pp. 83-84). A imperiosidade da
28
Para estudos sobre os xokleng, ver as obras de Silvio dos Santos (1978) e Luisa Wittmann (2007) e Lauro da Cunha (2012).
exploração econômica resultou nefasta para os índios. A conquista desta área, que corresponde à região centro-oeste dos planaltos sulinos, atingia o centro dos territórios kaingáng.
1.3 A experiência das populações Jê durante o século XVIII - Conquista ibérica e