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KARŞILAŞTIRMA DA ÜÇ KRİZ YIL 

2.3. Rusya’nın Enerji Politikası 

No mundo das idéias, e fora dele, a palavra “valor” contém uma diversidade de significados que, embora justifique a sua freqüente evocação na linguagem corrente, dificulta a compreensão e o consenso em torno do que representa o conceito. Tal como refere Birou no

Dicionário das Ciências Sociais, “a palavra «valor» é uma das que possuem significação mais rica, mais complexa e mais difícil de definir” (1976: p. 419). O autor descreve valor

como a “capacidade que um objeto (coisa, ideia ou outra pessoa) tem de satisfazer um

desejo, uma necessidade ou uma aspiração humana”, distinguindo como principais categorias

de valores, os valores econômicos, jurídicos, éticos ou morais, culturais e religiosos (BIROU, 1976: p. 419). Birou esclarece ainda que a atribuição de valor a uma qualquer realidade implica o reconhecimento de que essa realidade propicia um bem, concluindo que “refletir

sobre os valores é refletir sobre o que é um bem, quer a nível do destino da sociedade, quer a nível do destino pessoal” (BIROU, 1976: p. 420). Esta concepção remete o conceito de valor

para o domínio da reflexão filosófica que questiona os fundamentos estruturantes da vida em sociedade e do sentido profundo das relações humanas. No campo das ciências sociais, o estudo dos valores é uma conquista recente, marcada pelos ensaios pioneiros de Kluckhohn (1951) e as pesquisas empíricas de Allport, Vernon e Lindzey (1960), tendo atraído a atenção de muitos acadêmicos que contribuíram com os seus trabalhos para a integração definitiva na linguagem sociológica e psicológica deste conceito de origem filosófica.

No entanto, apesar dos significativos avanços teóricos e empíricos dos últimos cinqüenta anos e da importância central que parece ser atribuída ao estudo dos valores humanos no contexto das ciências sociais e, especialmente, das ciências sociais aplicadas (como é o caso da administração de empresas), o conceito e sua significação ainda não alcançaram consensos. A este respeito, Rohan (2000) atribui à utilização excessiva e abusiva da palavra “valor” na linguagem corrente a causa do impasse que se verifica na teoria e na pesquisa sobre valores (ROHAN, 2000)30. Já em 1951, Kluckhohn afirmava igualmente em relação ao conceito de “valor” que, além das diversas conotações que lhe são atribuídas na linguagem cotidiana, a sua imprecisão é reforçada pelo fato da palavra “valor” constituir “um

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Como exemplo dessa aparente estagnação, a autora refere a inexistência de discussão sobre valores em uma amostra de livros publicados durante a última década sobre introdução à psicologia social e ao estudo da personalidade (ROHAN, 2000).

termo técnico nos campos da filosofia, economia, artes e, crescentemente, na sociologia,

psicologia e antropologia”31, sendo simultaneamente identificada nas diversas áreas do

conhecimento com diferentes conceitos, tais como atitudes, motivações, objetos, quantidades mensuráveis, áreas substantivas do comportamento ou tradições afetivas (KLUCKHOHN, 1951: p. 389). E, tal como ainda alerta o autor, dificilmente pode ser afirmado o alcance de consenso em qualquer uma dessas áreas do conhecimento. Kluckhohn (1951) refere que, aparentemente, o único consenso é o de que os valores dizem respeito a proposições normativas – o que é desejável – e não existenciais – o que de fato é. Mas, mesmo aqui, a polêmica da discussão filosófica não parece confirmar a anunciada unanimidade.

As últimas décadas foram especialmente férteis em tentativas de uniformização da linguagem e dos seus significados no âmbito da teoria dos valores humanos aplicada ao estudo do comportamento. Rokeach (1973) desenvolveu uma teoria influente até à atualidade sobre valores humanos instrumentais e valores humanos terminais, estabelecendo uma relação empiricamente validada entre o sistema de valores pessoais e o comportamento individual. Mais recentemente, Schwartz (1992, 1994) propôs uma nova teorização dos valores humanos básicos, identificando dez valores motivacionais em pesquisas realizadas com mais de 64.000 indivíduos em 67 países localizados em todos os continentes. Surgiram igualmente estudos sobre o impacto dos valores pessoais nas decisões e ações praticadas em ambiente organizacional, reforçando assim a importância atribuída ao tema no âmbito das práticas empresariais. No entanto, devido à ambigüidade que ainda caracteriza o conceito, para que ele possa ser adotado e utilizado como elemento analítico na teoria social, o seu significado deve ser compreendido, fundamentado e definido com precisão. No Dicionário Houaiss da Língua

Portuguesa, são identificados 26 significados da palavra “valor” no singular e 32 significados

da palavra no plural, incluindo definições principais e secundárias (HOUAISS, 2002: p. 3659, 3660). Esta diversidade de acepções revela a amplitude de sentidos que a palavra atualmente encerra, justificando o esforço da sua delimitação conceptual em estudos aplicados da teoria dos valores. Por isso, embora as contribuições da psicologia constituam a fonte de maiores avanços na área do estudo aplicado dos valores, fornecendo o referencial teórico fundamental adotado nesta pesquisa, a compreensão do conceito só é plenamente alcançável através do estudo das suas raízes filosóficas, de onde todas as outras concepções de valor originalmente derivaram.

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A palavra “valor” tem origem etimológica no termo latino valore, proveniente do verbo valere que significa “ser forte” (CAMPOS et al., 1976: p. 1143), ter “audácia, vigor,

mérito, importância [ou] preço” (CUNHA, 1999: p. 810). No Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Ferreira (1986: p. 1750) confirma esta idéia definindo valor como “a qualidade de quem tem força, audácia, coragem, valentia, vigor”, conferindo-lhe significado distinto

quando considerada a palavra no plural, equivalendo neste caso a “normas, princípios ou

padrões sociais aceitos ou mantidos por indivíduo, classe, sociedade” (1986: p. 1751). Estas

referências à origem etimológica têm, contudo, uma utilidade limitada para a compreensão do conceito, dada a multiplicidade de definições que lhe são atribuídas. Garmendia, no

Dicionario de Ciencias Sociales, reconhece esta diversidade, distinguindo uma acepção da

linguagem corrente, uma acepção filosófica, uma acepção psicosociológica e uma acepção econômica do conceito de valor (CAMPOS et al., 1976). Nesta pesquisa, interessa fundamentalmente a concepção filosófica que inspira a evolução do conceito e as modernas propostas da psicologia para a sua definição e operacionalização, as quais, embora sejam freqüentemente apresentadas por oposição à abordagem da filosofia, são, na maioria dos casos, simplificações que respeitam os princípios filosóficos que têm animado a discussão sobre valores humanos ao longo dos séculos.

O estudo dos valores humanos e das suas implicações individuais e sociais remonta à antiguidade clássica, encontrando eco original no pensamento de Sócrates, de Platão e de Aristóteles. O primeiro defende a objetividade dos valores éticos, a sua natureza absoluta, dedicando-se a combater o relativismo promovido pelos Sofistas que destituía o ser humano de vínculos a valores absolutos que conduzem à felicidade. Para Sócrates (469-399 a.C.), a identidade entre os interesses individuais e comunitários – entre o bem individual e o bem comum – constitui o único caminho para a felicidade, o que implica a valorização da bondade, da moderação dos apetites e da busca do conhecimento. Porém, Sócrates evitou sempre dar uma resposta definitiva ao que seria o Bem e a bondade, valores absolutos que deveriam guiar a conduta humana. O seu método promovia o pensamento individual, solitário, com base na crença de que a compreensão dos valores absolutos implicaria necessariamente a transformação do próprio indivíduo, após a libertação dos véus das aparências e das vaidades que dificultam o acesso à verdade. O filósofo acreditava que o conhecimento da verdade sobre o que é o Bem e a bondade, por si só, tornaria o homem melhor e mais sábio e esse conhecimento só seria alcançável por meio da reflexão individual, sem a interferência castradora de valores exteriores pré-definidos (ABBAGNANO, 1976). Esta ética de Sócrates

constitui a primeira tentativa registrada de sistematizar um pensamento sobre valores humanos, sendo exigente no seu método e otimista nas suas pretensões.

Embora baseados nos mesmos ensinamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles interpretaram a sua doutrina ética de formas opostas. Platão (428-348 a.C.) concebeu uma ética que visa definir os critérios objetivos que permitem alcançar uma sociedade idealmente organizada. Para este fim, ele procura, ao contrário de Sócrates, definir concretamente os valores fundamentais da sua ética, estabelecendo princípios de regulação social rígidos, que desvalorizam os interesses materiais, limitam os direitos de propriedade e promovem a educação como valor social supremo. A sua ética é construída em torno de uma Idéia Geral de Bem, imposta ao mundo real por referência a um mundo idealizado, acessível apenas aos sábios dotados de um pensamento filosófico superior (DURANT, 1966). Aristóteles (384-322 a.C.), por seu lado, faz o percurso inverso, partindo da aceitação do mundo real dos homens com as suas imperfeições e procurando a partir dele estabelecer princípios que promovam o desenvolvimento moral do ser humano sem negar a sua vulnerabilidade às emoções, aos sentimentos imprevistos e às paixões. Para Aristóteles, a convergência entre o bem individual e o bem comum – essência da ética para os três filósofos gregos – forçada pela ética platónica, torna-se contingencial e dependente da atuação das instituições sociais que devem tentar harmonizar os dois tipos de Bem cuja sobreposição não pode ser apenas assegurada pela força da natureza humana (ABBAGNANO, 1976). Resumindo, para os três filósofos, os valores humanos essenciais devem permitir alcançar uma vida virtuosa que promova o encontro do bem individual com o bem coletivo e cuja recompensa é a felicidade, entendida em sentido amplo, tal como sugerido pelo termo grego eudaimonia32. Neste sentido, Aristóteles parece ter proposto uma ética mais realizável, ao evitar a obscuridade das respostas de Sócrates e estimulando a elevação moral do homem por meio do desenvolvimento de um caratér virtuoso alcançado pela prática continuada das virtudes que pregam a moderação dos impulsos e contrariam o excesso dos vícios que inibem o alcance da felicidade.

O debate sobre valores humanos não conheceu avanços significativos até ao século XVIII, altura em que a visão aristotélica é desafiada pelo pensamento de Immanuel Kant (1724-1804). Na filosofia moderna, Kant representa um momento de mudança fundamental de paradigma filosófico, especialmente no que respeita às idéias sobre valor humano e às

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A este respeito, Durozoi e Roussel (2000) esclarecem no seu Dicionário de Filosofia que o termo eudemonismo “designa o

conjunto das doutrinas que, recusando-se a separar felicidade e virtude, fazem da felicidade o Supremo Bem e da sua procura, o fim da ação moral” (2000: p. 147).

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concepções de mundo. Kant denuncia as contradições e impasses das pretensões aristotélicas de conhecer as estruturas fundamentais do universo por meio de uma cosmologia racional. Ao contrário de Aristóteles, que busca entender o absoluto ultrapassando os fenômenos e situando a idéia moral no plano do Cosmos exterior, Kant reconhece a impossibilidade de conhecer a essência da estrutura universal e desloca a idéia moral para o domínio da consciência individual. O pensamento kantiano opera esta deslocação da ética para o plano do indivíduo, dependente da sua consciência e da sua racionalidade. Embora mantenha a convicção na objetividade dos valores morais, Kant promove a ascensão do ser humano à categoria de legislador moral, enaltecendo e responsabilizando o indivíduo e a sua interioridade face ao universo exterior e à ordem cosmológica.

Contudo, Kant provoca mudanças estruturais no pensamento filosófico, mas não dedica esforço específico ou alongado à discussão dos valores. Esse esforço é empreendido posteriormente pelo filósofo alemão Rudolf Lotze (1817-1881), considerado o fundador da moderna filosofia dos valores. Numa tentativa de reconciliar a ciência empírica com a estética, Lotze defende pela primeira vez a existência de um dualismo claro entre o mundo do

ser e o mundo dos valores. Eles estão relacionados, mas não se confundem. Por um lado,

existe o mundo das coisas e dos fatos observáveis, regulado pela lei natural, que é apreendido pela inteligência. Por outro lado, existe o mundo das coisas que não são, mas que valem, ou seja, os valores, os quais são apreendidos por meio de uma forma particular de sentir espiritual. Portanto, a partir de Lotze, os valores alcançam uma nova categoria essencial, dos objetos que não têm ser, mas valer. Tal como refere Morente (1980), quando se atribui a qualificação de valor a algo, nada se diz do que esse algo é, mas apenas se diz que ele não é indiferente, pelo que “a não-indiferença constitui esta variedade ontológica que contrapõe o

valor ao ser” (1980: p. 300). Por isto, se conclui que o valer, enquanto categoria fundamental

dos valores, significa, antes de mais, não ser indiferente33. Ainda na origem fundadora da moderna filosofia dos valores, também Franz Brentano (1838-1917) desempenhou um papel de grande influência em todo pensamento posterior. Brentano empreendeu uma abordagem fenomenológica para explicar o conhecimento, a partir da observação da dimensão psicológica do homem, dedicando-se à análise dos fenômenos da consciência humana. Segundo ele, a consciência é definida pela intencionalidade, ou seja, pela tendência revelada pelo sujeito perante um objeto, sem a obrigatoriedade da existência real ou efetiva desse

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Lotze defende ainda, com base em pesquisas realizadas sobre a psicologia humana, que os valores estão sempre vinculados, em cada pessoa, a um sentimento de prazer. O filósofo defende também a objetividade dos valores, afirmando que eles têm um domínio próprio com conteúdos observáveis (PIERSON, 1988).

objeto. O critério de intencionalidade fundamenta uma classificação dos fenômenos psíquicos, sem apelar a critérios extrínsecos, existindo tantos fenômenos mentais quantos os modos de a consciência se referir aos objetos imanentes. Estes modos intencionais de apreensão dos objetos podem assumir três formas essenciais: representações, juízos e sentimentos. Hessen (2001) esclarece que para Brentano, é apenas através dos sentimentos de amor ou ódio, de

gostar ou não gostar, que os valores podem ser apreendidos e se tornam perceptíveis. Esta

constitui uma das originalidades do seu pensamento, ao destacar o papel das emoções e dos sentimentos como fonte da avaliação psicológica que origina, em cada pessoa, os seus valores pessoais. Brentano, juntamente com alguns pensadores influentes que aderiram posteriormente às suas concepções, tais como Max Scheler ou Nicolai Hartmann, contribuiu para a aceitação de uma abordagem dos valores humanos em sintonia com uma visão científica do mundo, contrariando a dicotomia estabelecida por Lotze (RESCHER, 1969). A partir destes desenvolvimentos, o estudo dos valores humanos ultrapassou definitivamente as fronteiras do pensamento estritamente filosófico e estes passaram a constituir-se também como objeto da psicologia e das ciências sociais em geral.

Mas para entender a essência ontológica dos valores34, é necessário situá-los primeiro no plano filosófico dos objetos que caracterizam a vivência humana, entendidos como “aquilo

que se opõe ao sujeito, como sendo susceptível de experiência e diferente do ato pelo qual o sujeito o apreende”, ou, de uma forma mais simples, “qualquer realidade concreta identificável, mas também a meta ou o fim que se visa ao agir ou refletir” (DUROZOI &

ROUSSEL, 2000: p. 281). Assim, existem três classes especiais de objetos: os objetos sensíveis (ou empíricos); os objetos ideais; e os valores35. Os objetos sensíveis, designados

34 A Ontologia é habitualmente referida como a “teoria do ser”, no entanto, Morente (1980) esclarece que, em rigor, essa

designação é insuficiente, uma vez que a palavra “ontologia” não está formada pelo verbo “ser” grego, no infinito, mas pelo particípio presente desse verbo, tornando mais correta a designação “teoria do ente”. Morente clarifica que “o ser em geral

será aquilo que todos os entes têm de comum, enquanto o ente é aquele que é, aquele que tem o ser”, concretizando que a

ontologia consistirá em “teoria do ente, tentativa de classificar os entes, tentativa de definir a estrutura de cada ente, de cada

tipo de ente; e será também teoria do ser em geral, daquilo que todos os entes têm de comum, daquilo que os classifica como entes” (MORENTE, 1980: p. 279). Pode ainda distinguir-se uma concepção clássica, com raiz no pensamento de Aristóteles,

de uma concepção contemporânea, especialmente influenciada por Heidegger e pela sua crítica à tendência onto-teológica da metafísica ocidental que ele considera ter-se esgotado ao esquecer a distinção radical entre o ser e o ente. A este respeito, o

Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa define Ontologia no sentido aristotélico como “a parte da filosofia que tem por objeto o estudo das propriedades mais gerais do ser, apartada da infinidade de determinações que, ao qualificá-lo particularmente, ocultam a sua natureza plena e integral”, e no sentido heideggeriano como “reflexão a respeito do sentido abrangente do ser, como aquilo que torna possível as múltiplas existências” (HOUAISS, 2002: p. 2679, 2680). Neste

sentido, a ontologia dos valores, entendida em termos amplos, corresponderá à busca da compreensão da essência dos valores e do seu significado no contexto da vivência – e da convivência – humana.

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Os autores nem sempre concordam na classificação atribuída aos valores enquanto objeto. Por exemplo, Hessen (2001) qualifica os valores como objetos ideais, distinguindo-os dos objetos supra-sensíveis, os quais Morente (1980) parece incluir na classe de objetos ideais, distinguindo estes dos valores. No entanto, as reflexões sobre a natureza dos valores tendem a

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por Morente (1980) como “coisas reais”, consistem nas coisas materiais que podem ser apreendidas e percebidas pelos sentidos, tais como árvores, pedras, plantas ou animais. Os

objetos ideais são representações mentais que não têm existência física, tais como os

números, as formas geométricas ou as ideias que permitem descrever e interpretar o mundo e que não têm materialidade, tais como a ideia de diferença, de semelhança ou de igualdade. Por fim, existem os valores como classe de objetos que não são reais nem ideais, como é o caso da beleza ou da bondade. Morente (1980) explica esta classe de objetos, exemplificando que, se uma árvore for classificada como bela, a sua beleza não acrescenta nem um átomo ao seu “ser” árvore. Segundo o filósofo, “a árvore bela não ‘é’ mais que a árvore não bela,

porém ‘vale’ mais; o quadro belo, bem pintado, não é ontologicamente mais que o quadro mal pintado ou feio, porém tem mais valor” (MORENTE, 1980: p. 282). Ainda a respeito da

diferença entre valores e objetos ideais, Morente refere que os valores não podem ser mentalmente visualizados, ou seja, não é possível ter a beleza diante da “vista do pensamento,

diante da visão intelectual” (MORENTE, 1980: p. 282), ao contrário do círculo que, enquanto

objeto ideal, tem uma existência concreta e é mentalmente representável.

Os valores constituem então uma classe de objetos que se referem a uma preferência subjetiva, uma escolha, um posicionamento pessoal em relação a outros objetos. Hessen (2001) subdivide as preocupações da Filosofia em três áreas: a Teoria da Ciência, a Teoria dos Valores e a Teoria da Realidade. Tal como sugerido na Figura 6, constituindo um dos eixos da Filosofia, a Teoria dos Valores compreende a reflexão axiológica36 sobre a dimensão ética das relações humanas, as concepções de beleza e a relação do homem com o divino, o sagrado e a transcendentalidade. Nestes termos, a Teoria dos Valores, em sentido filosófico, trata essencialmente de três dimensões fundamentais da vida humana: a Ética, a Estética e a Religião.

convergir nos elementos fundamentais. Por isso, sem prejuízo da validade de outras propostas, será adotada a classificação ontológica de Morente, dado parecer a mais consistente.

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A parte da filosofia que se dedica ao estudo dos valores é designada de Axiologia, palavra cuja origem etimológica remete para o termo grego “áksios”, que significa valioso, digno de merecimento (HOUAISS, 2002: p. 465). A axiologia ocupa-se do estudo dos valores, do seu significado e da sua hierarquia. Rescher (1969) refere que a axiologia, embora não tenha alcançado sucesso como filosofia unificada dos valores, permitiu, durante o século XX, a extensão do debate sobre valores às ciências sociais, estimulando pesquisas e discussões no âmbito da economia, da psicologia, da sociologia e da antropologia, com resultados empíricos muito significativos. Em termos filosóficos, a axiologia representa um complemento indispensável da ontologia que procura a essência dos fenômenos sem lhes atribuir um valor que os distinga subjetivamente entre si. Como refere Hessen (2001: p. 32), “qualquer visão das coisas no ponto de vista ontológico terá sempre (…) de ser completada e

aprofundada com uma outra visão delas do ponto de vista axiológico”, ou seja, o conhecimento e a compreensão do mundo e

da vida são enriquecidos com a sólida edificação de escolhas e de preferências perante os múltiplos fenômenos da existência. A axiologia trata desta escala de preferências, desta valoração da realidade.

O esforço de sistematização e de síntese das disciplinas filosóficas proposto por Hessen (2001) permite compreender mais claramente qual o objeto de estudo da Teoria dos Valores e o seu enquadramento na reflexão filosófica, por oposição às restantes disciplinas de pensamento. Na Teoria da Ciência incluem-se questionamentos sobre o que é o